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Episódio 40

Três Divãs
Três Divãs

100 plays · May 4, 2026

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Speaker: 3 Divãs, a psicanálise, o mundo e o rock'n'roll.

Speaker: Nunca pensei, nunca, por uma fração de segundo que fosse assistir à morte do rock no caixo de Sodré.

Speaker: Já a ascensão do fascismo, essa nunca me saiu da consciência.

Speaker: Lá em casa sempre me disseram, a democracia não está garantida, tudo pode mudar novamente.

Speaker: Quando no lugar da liberdade secamos à alternativa, quando à aflição do outro não estendemos a mão, quando não vemos para lá do que se vê e a palavra opinião é um projétil ao ego, epá!

Speaker: O que vem é pior, é mau, mesmo mau.

Speaker: E como retoriza, palavra agora inventada por mim, o Bruno Brites, fugimos para onde?

Speaker: Não há ponto de fuga.

Speaker: Ou há?

Speaker: Há.

Speaker: Chama-se resistência.

Speaker: Eles eram dois, que passaram a quatro, que passaram a quatrocentos mil, que passaram por todos nós, milhões.

Speaker: E em seiscentos hectares couberam vários países.

Speaker: Um planeta arriscaria dizer que vários até.

Speaker: Em condições muito precárias, durante três dias cheios de música, e não só, celebrou-se a paz e o amor.

Speaker: Este respirar como um ato de resistência.

Speaker: O único lugar onde a vida, assombrada pela morte, pode acontecer.

Speaker: Estávamos em 1969 e a guerra no Vietnã já durava há 14 anos.

Speaker: Entre os dias 15 e 18 de agosto, numa quinta em Bethel, a 70 quilómetros de Woodstock, no estado de Nova Iorque, em muitas condições improvisadas, estiveram alguns dos mais incríveis músicos do mundo.

Speaker: Daqueles que, ali na rua, só já consigo ouvir aqui, no Roterdão, ou lá ao fundo, no cais do Pirata.

Speaker: Antes de se chamar Rua Cor-de-Rosa, quando era só o cais de Sotré, outrora de putas e marinheiros, e sim, sempre foi perigoso e decadente, tínhamos um verdadeiro Woodstock internacional.

Speaker: Começávamos no americano e acabávamos no Tóquio.

Speaker: E ficou muito melhor e mais diversificado com os salpicos do punk e da eletrónica.

Speaker: Creio que a sua década adorada foi aquela em que os Betos o descobriram.

Speaker: Era espetacular a diversidade geográfica, musical e a roupagem da rua.

Speaker: Sempre feia lá fora, mas de muito encontro cá dentro.

Speaker: Em meia dúzia de quarteirões só, podíamos assistir à democratização urbana.

Speaker: A alternativa é sempre bem-vinda.

Speaker: Só ela permite que a liberdade aconteça.

Speaker: Mas quando a alternativa deixa de flutuar e se instala como permanência, a escolha torna-se impossível e passamos a ser uma só manada que atravessa a rua.

Speaker: Fizeram-se mais dois Woodstock, em 94 e 99.

Speaker: Mas sabemos todos que nenhum foi como o primeiro.

Speaker: Em primeiro lugar, porque foi o primeiro.

Speaker: E em segundo lugar, porque quem subiu ao palco tinha uma qualidade em vias de extinção.

Speaker: Não, não estou a ser nostálgica.

Speaker: Refirma a qualidade de quem resiste, mesmo em precariedade.

Speaker: É por isso que eu escolhi o Roterdão, para fazer o Três Divãs.

Speaker: A Ana Paula, a proprietária, está a resistir para que o Roque não morra aqui.

Speaker: Pode entregar tudo à alternativa lá fora e deixar que ela deixe de o ser.

Speaker: Mas, em Lisboa, só irão sobrar mais dois ou três lugares e a alternativa será tão mínima que será impossível respirar lá dentro.

Speaker: Agora, um sentir meu.

Speaker: O meu.

Speaker: O rock é o sítio onde ainda respiro.

Speaker: E a resistência é o lugar mais difícil de todos.

Speaker: Não nos permite morrer, mas também não nos permite escolher.

Speaker: É a única possibilidade antes da morte.

Speaker: Ainda assim, é o lugar onde a liberdade respira na sua mais genuína forma de vida.

Speaker: Cá dentro.

Speaker: A escolha deixa ao externo o concreto e passa a ser interna.

Speaker: A alternativa instala-se, permanentemente, mas numa única forma de vida.

Speaker: no nosso sangue.

Speaker: Chico Dias é o convidado de hoje de Três Divãs e escolheu Woodstock para conversar comigo e com a Patrícia Câmara aqui no resistente Ruterdão.

Speaker: Boa noite, Chico.

Speaker: Sejas bem-vindo ao Cais de Cedré.

Speaker: Boa noite, boa noite.

Speaker: Uma alegria, uma alegria e um privilégio estar com vocês aqui neste lugar e tendo Woodstock como referência e como cenário.

Speaker: Eu acho um privilégio.

Speaker: Então, podes te apresentar, já sabes como é que funciona.

Speaker: Bom, vamos lá.

Speaker: Eu estou muito maravilhado e alegre com a possibilidade de aqui me apresentar.

Speaker: Chico Dias, esse ser perplexo e espantado com o que se chama de consciência e existência.

Speaker: Francisco Dias Rocha, nascido no México, filho de Paraguaio.

Speaker: e brasileira, morei no México, na Costa Rica, no Paraguai, nos Estados Unidos, no Peru, e com 10 anos cruzei a formidável Cordilheira dos Andes para chegar espantado e perplexo no Rio de Janeiro.

Speaker: Ali, de uma América hispânica católica,

Speaker: indígena e uma formação primeira da minha infância, escola de padres, coisa e tal.

Speaker: No Rompante, estou num Rio de Janeiro exuberante, tropical, completamente lusófono e completamente diferente nas suas bases morais, sociais, artísticas e...

Speaker: em critérios de liberdade.

Speaker: Então, eu, aos 10, eu tive uma explosão de luz, uma explosão de sol, uma explosão de informações.

Speaker: E, claro, não abandonei essa tenra formação inicial que foi na América do lado de lá dos Andes, a mexicana, a andina, a peruana.

Speaker: Então, eu sou um pouco isso, fruto disso tudo, né?

Speaker: Mexicano, brasileiro, nordestino em filmes, guarani em sangue.

Speaker: E eu fico achando que, para um ator, você ter várias paisagens geográficas internalizadas, não só no sangue, mas na experiência auditiva dos sabores, das paisagens, né?

Speaker: Para um ator...

Speaker: essa multiplicidade de paisagens já oferecidas na infância é uma chave para abrir várias janelas várias portas e não sei bem porquê é

Speaker: Eu me aproximei da arquitetura, porque a arquitetura dizem aquele meio de campo onde a pessoa não sabe bem o que quer ser.

Speaker: Ali as variáveis técnicas, tecnológicas, se juntam com as artísticas, sensibilidade, decoração, estética, os enquadramentos, os critérios artísticos se juntam com as tecnológicas.

Speaker: O pensamento técnico, construtivo se junta.

Speaker: Temos aqui um arquiteto que pode confirmar o que eu digo, junto com as questões artísticas.

Speaker: Então, quem está na dúvida, naquela idade dos 18 anos, opta por arquitetura e dali derivam para ser o que pode ser.

Speaker: Ali, no meio da arquitetura, o cinema me pega num primeiro filme sobre a juventude de Brasília, que era muito sintomático, muito simbólico, muito forte, porque a juventude de Brasília, a primeira juventude de Brasília, juntava um Brasil árido, ermo, feudal,

Speaker: poderoso com os trabalhadores, os operários que vieram construir aquela capital.

Speaker: Então, esse primeiro filme falava um pouco sobre esse contraste entre as classes que se encontraram para construir Brasília.

Speaker: O sonho não acabou, se chamava o filme.

Speaker: E ali apareceu a luz do cinema, a luz cinematográfica.

Speaker: A luz de várias atividades convergindo para uma ordem de ação, câmera, luz, ação.

Speaker: Aquilo me fascinou completamente.

Speaker: Então eu fui abduzido, raptado e sequestrado pela arte dramática, pelo cinema.

Speaker: Já fazia teatro, tinha um grupo de teatro.

Speaker: Na época, os meios de produções do teatro no Rio de Janeiro eram através de grupos.

Speaker: O Asdrubal trouxe o trombone com a Regina Cazé, Hamilton Vaz Pereira, Evandro Mesquita, foram um exemplo.

Speaker: Depois proliferaram a forma de produção de teatro com pequenos grupos.

Speaker: Nós fizemos o nosso grupo chamado Manhas e Manias, com Andréa Beltrão, Débora Bloch, Pedro Cardoso, eu e...

Speaker: Então fizemos a nossa escola teatral, artística, acrobática, cigana, através do Manhãs e Manias, no Rio de Janeiro.

Speaker: E ali houve esse embate entre teatro, arquitetura e sobrevivência, espanto, perplexidade.

Speaker: E, claro, estávamos saindo da ditadura.

Speaker: Estávamos ali, o meu irmão estava escondido, a minha irmã também, havia resquícios de perseguições, de clandestinidade.

Speaker: E eu, no meu sentimento, eu vi umas reuniões na universidade, DCE, Diretório Central de Estudantes,

Speaker: que eram discussões longuíssimas, trotskistas, marxistas, questões de ordem, uma organização que, a meu ver, pareciam antigas.

Speaker: eu não tinha uma certa têmpera, uma certa natureza para entrar naquelas discussões de modo antigo ou uma organização partidária, clandestina, de residência.

Speaker: Então eu, simbolicamente, ouvi um grupo de pessoas alegres dançando, cantando, jogando o pé aqui em cima e, entre aspas, nos chamavam de alienados.

Speaker: Alienados, pois não participávamos das discussões políticas, éramos artistas.

Speaker: Aquilo me pareceu um pouco mais interessante, talvez por covardia, talvez por necessidade de fuga e talvez também por um vetor de busca.

Speaker: Eu acho que eu sempre fui norteado por esses dois vetores, busca e fuga, busca e fuga, busca e fuga.

Speaker: Eu não sei do que eu estou fugindo, também não sei do que eu estou procurando.

Speaker: Mas de onde você é, eu diria que eu sou de busca e fuga, uma cidade perdida em algum além ali.

Speaker: Então, assim eu me formei basicamente até ser absorvido pela indústria cinematográfica brasileira.

Speaker: Havia essa perplexidade, esse espanto, essa admiração e esse desejo de ser útil

Speaker: numa consciência plausível e possível.

Speaker: Sou filho de Juan Díaz Bordenave.

Speaker: Aqui temos a Edith, que é conhecedora da obra do Bordenave, que é um grande educador, um grande comunicador, uma referência na comunicação latino-americana, um grande professor.

Speaker: e muito idealista, conhecido como plantador de utopias na América Latina.

Speaker: Foi um grande pensador da comunicação para o desenvolvimento, para os pobres, para a conscientização popular.

Speaker: Então, eu, como artista, tinha essas chaves da sombra paterna, sem dúvida.

Speaker: E aí comecei achando que a arte...

Speaker: Era um bom universo, um bom ambiente para eu aplicar aquilo que inconscientemente eu tinha adquirido dessa sombra generosa, ampla, paterna e materna também, porque minha mãe era uma intelectual do universo das letras.

Speaker: Havia ali também uma caverna católica, mística,

Speaker: junto com a questão indígena inca eu fui no Peru eu tive muitos valores da questão inca então havia uma luta ali entre uma procura de uma identidade mística

Speaker: silenciosa de como entender o que é ser, o que é ter consciência, o que é pensar o mundo.

Speaker: Isso dos 14, dos 18, eu cheguei do Peru aos 10, no Rio de Janeiro.

Speaker: Então, o Chico...

Speaker: formado nesse caldeirão latino-americano completamente espantado com o Rio de Janeiro.

Speaker: Quando eu chego no Rio de Janeiro, num colégio de classe alta, porque a gente ganhou umas bolsas, não sei se chama bolsas aqui, ganhamos umas bolsas num colégio de muito padrão,

Speaker: E o Rio de Janeiro é medieval até hoje, no sentido das famílias, né?

Speaker: Então a gente foi inserido ali, você imagina, um paraguaíno, um mexicaninho, uma costa-riquinha, uns latino-americaninhos, assim, e estão no meio de uns brasões cariocas coloniais do Rio de Janeiro.

Speaker: Também foi uma grande escola.

Speaker: Então havia uma inteligência, havia uma sensibilidade,

Speaker: E sempre que você não é... Daí o valor que eu dou aos imigrantes.

Speaker: Sempre quando você não é desse lugar, você tem que desenvolver aptidões de sensibilidade, de reconhecimento, capacidades e talentos para sobreviver a uma geografia que não é sua, que não lhe pertence.

Speaker: Então, isso ascendeu a todos os nossos irmãos.

Speaker: Nós somos seis.

Speaker: Seis filhos.

Speaker: Então...

Speaker: Chegou uma altura que eu pensei, o diagnóstico do espírito humano aos moldes do meu pai é uma coisa que me interessa muito, muito, muito, muito.

Speaker: E como aplicar uma sensibilidade ou uma poética, ou como adquirir uma visão de mundo, não original criada por mim, mas original porque já era original, porque eu estava sendo plantado num terreno completamente novo, né?

Speaker: Então, me pareceu que ser ator era uma boa procura, um bom caminho.

Speaker: Claro que naquela época a profissão não era regularizada ainda, era como talvez aqui também, havia um preconceito enorme sobre a questão de ser ator, né?

Speaker: Gays, homossexuais, prostitutas, gente da vida, gente que gosta de aparecer, gente que não tem horário, aquela coisa toda.

Speaker: E, claro, mantive um leme firme achando que poderia haver um caminho interessante para diagnosticar um homem brasileiro.

Speaker: Então, me propus a tentar para isso e para tentar resolver através de personagens...

Speaker: a questão do homem brasileiro nas suas diferentes geografias nos seus diferentes momentos históricos e que isso seria uma missão nobre então me dediquei a isso me dediquei a isso e no primeiro filme eu já fui indicado para um prêmio em Gramado

Speaker: o que me espantou muito, porque eu tinha muito pouca experiência, No Sonho Não Acabou, eu estava com Lucélia Santos, Lauro Corona, Miguel Falabella, era o primeiro filme de todo mundo, e eu vi que ali tinha uma possibilidade, e depois daquele filme, O Sonho Não Acabou,

Speaker: vieram convites para quase 10, 12 filmes seguidos, num panorama, eu com essa cara, que para mim era um mistério, como é que essa cara, essa natureza, esse corpo, resulta na tela ou no palco?

Speaker: Aquilo era um mistério.

Speaker: Mas os convites vieram vindo, vieram vindo, vieram vindo,

Speaker: Eu, por um tempo, acreditei um pouco na minha opção, entre aspas, política, critérios sociais, critérios que vinham do meu pai e da minha mãe, no discernimento do que é bom para o coletivo e achava que o bem-suceder da minha carreira se devia a essa, de novo, entre aspas, inteligência ou, entre aspas, sensibilidade.

Speaker: Depois, com o tempo, eu vi que não era nada disso, que era uma fotografia boa para o cinema, que aquela fotografia funcionava, porque era uma fotografia rude, doce, rude, que cobria o território nacional.

Speaker: Era índio, era guarani, era negro, era uma cara que não era normal, estava na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Speaker: Se eu fosse começar minha carreira hoje em dia, eu não teria 1% das possibilidades que eu tinha, porque na época ninguém arriscava chamar um ator de Pernambuco, um ator de Manaus, um ator de Mato Grosso.

Speaker: Eles chamavam os atores do Rio e de São Paulo.

Speaker: E eu com essa carinha, essa chave de mistérios, que é esta afeição, ou este corpo, ou esta natureza, se encaixava a afeição aos produtores, aos roteiros, aos guiões, como vocês chamam,

Speaker: naquela época no Brasil, o que alavancou e que me propulsionou, me alavancou e catapultou de uma forma muito, para mim, séria, no cinema brasileiro, no cinema latino-americano e no teatro carioca.

Speaker: Então...

Speaker: Quando eu vi, eu estava, sim, sendo chamado, ganhando dinheiro, sendo assediado.

Speaker: Uma coisa muito incômoda, mas naquela idade era muito surpreendente, como se fosse um vento favorável, um vento delicioso.

Speaker: Aproveitemos a correnteza e o vento, vamos, vamos, vamos.

Speaker: E, claro, liberdade e...

Speaker: E loucura também, porque a questão do sucesso e da fama te bota num lugar que se você não tem uma estrutura é muito complicado.

Speaker: Eu, nesses meus...

Speaker: como é que eu posso falar, tentativas de ter uma intelectualidade, de ter uma exigência intelectual.

Speaker: Eu neguei a televisão.

Speaker: Televisão não, televisão não.

Speaker: É, televisão não.

Speaker: Eu, televisão, teatro, ator.

Speaker: E perdi muito tempo nessa questão porque havia uma, entre aspas, exigência que, claro...

Speaker: De volta, não era uma busca, era uma fuga, era uma proteção de algo que seria muito ultrajante e seria muito violentador para o tenro artista que eu era no momento e que eu me exigia.

Speaker: Então, continuei fazendo arquitetura, me formei, não sei como me fornei.

Speaker: Eu pedia para assinar, eu estava na Amazônia filmando, assina para mim esse trabalho, assina para mim esse trabalho, estrutura dos corpos rígidos, quantos ferros passam numa laje de 10 centímetros no décimo andar de altura.

Speaker: Eu não tenho como entender isso, gente, não teria como.

Speaker: Então assina para mim esse trabalho.

Speaker: Aí me formei, consegui me formar, precisava me formar porque a vida de artista até hoje é instável.

Speaker: É uma vida de sustos, é uma vida de decepções, é uma vida de luzes, elogios e prêmios.

Speaker: Então, eu mantive a minha questão com a arquitetura firme ali.

Speaker: E eu desenho e pinto até hoje em função da questão do traço, da questão estética, da composição, da proporção.

Speaker: Então, isso me deu uma base boa.

Speaker: E também na faculdade, eu...

Speaker: Eu convivia com um corte social muito interessante.

Speaker: Eu saía da zona sul do Rio de Janeiro e era a Universidade Nacional, no fundão ali na Ilha do Governador.

Speaker: Então eu tinha um convívio durante aqueles cinco anos, enquanto eu não estava filmando, eu tinha um convívio muito interessante com diferentes pessoas, diferentes classes, diferentes ambições, diferentes...

Speaker: vocabulários, inclusive, e que me enriqueceu tanto quanto as fumagens nos lugares mais recônditos do Brasil.

Speaker: Então... E pronto, é um pouco assim.

Speaker: Virei isso, o que sou.

Speaker: Não sei bem o que sou, mas em função... E conheci o Brasil porque nós achamos que nós estamos indo para os lugares ermos

Speaker: os sertões brasileiros, os nordestes brasileiros, as Amazônias brasileiras, levando algo, mas é o contrário, é o contrário.

Speaker: Nós estamos aprendendo e então eu sou muito grato, são quase 100 filmes já feitos,

Speaker: com o povo brasileiro que me ensinou de um tudo.

Speaker: De latino-americano, de Guarani, eu me tornei brasileiro, brasileiro, nordestino pelo cinema.

Speaker: É um pouco isso.

Speaker: Eu vou aproveitar que estamos num podcast de psicanálise para te dizer, já é assim.

Speaker: Não sabes que cada vez que nós ouvimos falar em arquitetura ficamos lá, hum, ele deve andar à procura de casa.

Speaker: Não.

Speaker: Estou aqui.

Speaker: E então, eu ia-te perguntar isto.

Speaker: E casa, Chico, você... Tu, desculpe.

Speaker: Eu peço desculpa porque eu vou estar aqui numa coisa entre o português do Brasil e o português de Portugal, que vai ser loucura.

Speaker: Na tua vida, até agora, já encontraste casa?

Speaker: O símbolo maior, a casa, seria parar, estar.

Speaker: Eu acho que como eu nasci em movimento, eu continuo em movimento.

Speaker: Então, me colocaram no mundo, eu continuo busca e fuga, fuga e busca.

Speaker: Então, a casa em si, não.

Speaker: A casa...

Speaker: A casa simbólica, sim, é esse meu mundo instável em movimento, em formação e deformação constante.

Speaker: Eu venho muito para Lisboa, cada vez que eu venho para Lisboa eu fico em uma casa diferente, as minhas filmagens são em locações, são casas diferentes.

Speaker: Eu acho que a minha estabilidade é essa instabilidade.

Speaker: Eu estou me adequando a ela,

Speaker: Eu não sei até quando, porque eu já estou com uma certa idade, dá vontade de parar.

Speaker: Mas há um movimento não só criativo, mas de curiosidade em busca de um entendimento que eu não sei se vai haver uma casa.

Speaker: O pouso, sim.

Speaker: Eu tenho sentido vontade de ter um pouso.

Speaker: O pousar.

Speaker: Mas tu sentes-te mais brasileira do que mexicano?

Speaker: Do que o quê?

Speaker: Mexicano.

Speaker: Mexicano eu nunca fui.

Speaker: Eu só nasci lá.

Speaker: Minha irmã que vem logo abaixo de mim, nasceu 11 meses depois, que eu acho uma injustiça.

Speaker: Ela nasceu na Costa Rica.

Speaker: Eu não sou mexicano, eu sou natural do México.

Speaker: Não tão...

Speaker: Às vezes, coloco um ator mexicano, mexicano-brasileiro, e faço questão de dizer que no México... Voltei na Copa do Mundo de 1986, dirigindo um documentário, mas não sou mexicano.

Speaker: Sou mais latino-americano, porque as músicas...

Speaker: Violeta Parra, You Punk, Victor Jara, meu pai ouvia aquilo tudo e é um som que eu escuto.

Speaker: Papalaoncaína, comida do Peru.

Speaker: Há uma influência latino-americana que, claro, que se dissolveu, se diluiu nessa minha estada longa no Brasil.

Speaker: E, respondendo a outra pergunta, eu acho que casa...

Speaker: Não, não chegarei.

Speaker: Ou talvez não tivesse chegado ainda.

Speaker: Ou esteja sempre lá, não é?

Speaker: De alguma maneira está sempre lá, não é?

Speaker: Estou a dizer que está sempre lá.

Speaker: Sempre, sempre, sempre.

Speaker: O Rio de Janeiro tem um apartamento, tem dois apartamentos lá no Rio.

Speaker: Mas é um lugar de... Nós somos vários, não é?

Speaker: Como diz lá o Fernando Pessoa, somos inúmeros, não é?

Speaker: O ator...

Speaker: O ator é vários, né?

Speaker: O ator é um, mas são vários.

Speaker: Eu sou fascinado pelo seu ofício.

Speaker: Eu sou fascinado pelo que esse ofício me deu.

Speaker: Eu sou muito alegre em poder representar os meus semelhantes, ser um deles.

Speaker: Eu acho que tenho uma responsabilidade grande em representar semelhantes.

Speaker: Há uma contradição séria, mudando um pouco de assunto, porque o artista sempre, em tese, procura uma singularidade num ser único.

Speaker: E eu fico achando que o grande barato é...

Speaker: ser todos.

Speaker: Exato.

Speaker: Na hora que você pega um personagem, você o prepara em camadas, você o alimenta.

Speaker: Mas quando você faz o corte para mostrar para uma identificação posterior do coletivo, das pessoas, você tem que fazer um corte muito amplo.

Speaker: Não um corte do Chico.

Speaker: Não pode ser um corte do Chico.

Speaker: Tem que ser um corte coletivo e que esteja

Speaker: seja contemporâneo da obra e do mundo pra ter uma resposta então é contraditório a singularidade c om o ator se pretende e também essa coisa de não ser uno e ser todos eu tenho um, por exemplo, desculpa rapidinho, eu tenho um irmão grande talento, Henrique Dias também bem mais novo que eu, é o Cassula que ele é muito parecido comigo ele é muito igual a mim

Speaker: Então essa questão da singularidade já foi por água abaixo na família, entendeu?

Speaker: Então é desesperador, mas é uma escola, é uma escola.

Speaker: Eu estava aqui a pensar, a minha primeira memória tua, foste tu que me adeste.

Speaker: Claro, é tua, foste tu que me adeste, mas é engraçado porque eu não me lembro de ti em filmes recentes, mas quando estávamos a conversar da última vez que estiveste cá, em que eu estava a pensar qual é que seria a primeira memória que eu tinha de ti na televisão e tu disseste, e falámos na Gabriela Cravo e Canel, em que tu estavas no bar.

Speaker: Nada.

Speaker: Tu no bar, tu não estávamos... Nós temos duas Gabrielas.

Speaker: Nós temos o filme com o Mastroianni.

Speaker: Sim.

Speaker: Que eu estava no bar.

Speaker: Eu fazia Chico Mollet e trabalhava com o Marcelo.

Speaker: Exatamente, e foi a história que tivemos a conversar.

Speaker: Exatamente.

Speaker: E eu agora estava a ouvir-te e estava a pensar na nossa conversa, estava a pensar na questão de tu estares no bar da Gabriela Cravo e Canela e estava a pensar no que estavas a dizer sobre o facto de achares que a tua cara

Speaker: Era muito genérica na tela e que todas as pessoas podiam identificar contigo.

Speaker: Todos os habitantes do Brasil se podiam identificar um bocadinho contigo.

Speaker: E eu estava a pensar nisso e estava a pensar na sensação de casa, que é olhar para ti.

Speaker: Que é quando nós olhamos para ti, eu, aqui em Portugal, com a minha idade, de imaginar a primeira memória tua e imaginar-te como no teu trabalho.

Speaker: E com isso, é uma sensação de caso para mim.

Speaker: Olha.

Speaker: E então...

Speaker: Só porque, de facto, acho que há várias casas, não é?

Speaker: E há várias sensações de casa e podem ser só momentâneas na vida e podemos encontrar pessoas que são sensação de casa e outras não.

Speaker: E pronto, pegando nisto que estavas a dizer, eu estava a pensar, de facto, é incrível.

Speaker: E eu imagino que eu e muitas outras pessoas que cresceram também ver muito o trabalho dos atores brasileiros.

Speaker: Entretanto, falaste aí numa outra coisa que foi nesse teu início de carreira em que de repente foste convidado, ganhaste esse primeiro prémio, foste convidado para imensas coisas e apanhaste-se a correr-me de dar.

Speaker: Mas ultimamente isso está a acontecer outra vez de uma forma escandalosa quase, no Brasil.

Speaker: Ou seja, tu és uma pessoa reconhecida no Brasil, mas com este teu último trabalho na série,

Speaker: Tu estás outra vez numa avalanche de ir na rua e seres abordada toda hora, não é?

Speaker: Sim, sim, sim, sim.

Speaker: É muito impressionante, porque depois de quase 100 filmes, todos os prêmios do Brasil... Claro que me retirei um pouco da televisão, a questão do etarismo, como fala a questão do... A questão da televisão brasileira está até em questão.

Speaker: Isso é uma outra conversa.

Speaker: Mas os donos do jogo me surpreendeu porque...

Speaker: É mundial.

Speaker: O mundo ficou pequeno, né?

Speaker: O mundo ficou pequeno.

Speaker: Essa questão da internet tornou o mundo muito pequeno, que não é bom.

Speaker: Não é bom.

Speaker: Eu sempre admirei muito Portugal porque vocês conseguem potencializar as riquezas de vocês em pequenas medidas.

Speaker: Ou seja, a manteiga daqui é bem diferente da manteiga daqui.

Speaker: São 10 quilômetros e cada um tem sua singularidade, sua propriedade, seu orgulho, sua soberania.

Speaker: Isso é lindo.

Speaker: Lá no Brasil, nós passamos 500 quilômetros, o queixo é o mesmo, a manteiga é a mesma.

Speaker: Entendeu?

Speaker: Então... A internet reduziu.

Speaker: Então, os donos do jogo me colocaram num lugar...

Speaker: E também eu não sei o que eu fiz.

Speaker: Um personagem estranhíssimo, ignóbil, abjeto, violento, representante de uma coisa sórdida, mas as pessoas adorarão.

Speaker: Não só no Brasil, aqui em Portugal, em Itália.

Speaker: Então, o Chico, de certa forma... Mas também é um personagem adquirido com camadas de vários outros personagens.

Speaker: Porque eu não fiz nada demais.

Speaker: Nada demais.

Speaker: A gente não sabe o que está fazendo, mas eu não fiz nada demais, a não ser me comportar, estudar e procurar uma voz boa.

Speaker: Mas a explosão que foi é muito surpreendente, porque a Netflix é realmente algo a ser estudado, porque leva a lugares inimagináveis.

Speaker: Fazes do mal, não é?

Speaker: Fazes do mal.

Speaker: Mas ficou bom.

Speaker: As pessoas adoram.

Speaker: Ficou fofo.

Speaker: Aquela pessoa odiável ficou fofa.

Speaker: As pessoas adoram.

Speaker: Ai, que maravilha.

Speaker: Bom, é... Há uma patologia social a ser questionada, a ser discutida.

Speaker: Como é que isso... Como é que isso se dá, né?

Speaker: As pessoas gostarem muito do malvado, do vilão.

Speaker: E... Quer dizer, o vilão com a consistência.

Speaker: Eu acho.

Speaker: Mas o que é a consistência do vilão?

Speaker: Onde está a consistência?

Speaker: Não, é, talvez tenha um sorriso, talvez tenha um charme, talvez tenha um borogodó, como nós chamamos.

Speaker: O brasileiro tem um borogodó.

Speaker: Borogodó é uma palavra que vocês talvez não compreendam.

Speaker: Não, mas é boa, a gente sente.

Speaker: Vocês conseguem entender, né?

Speaker: Borogodó é um tempero, um molho.

Speaker: Talvez o tal do personagem tenha um tempero.

Speaker: Sim, às vezes temos a perversão a favor do bem, não é?

Speaker: Já o

Speaker: Você como psicanalista sabe bem isso, não é?

Speaker: Não, e tens aquele tipo, o Tommy Shelby, não é?

Speaker: Tens o do Cillian Murphy nos Peaky Blinders.

Speaker: Foi mais ou menos a mesma coisa, não é?

Speaker: De repente toda a gente está seduzida por um psicopata.

Speaker: Isso é fácil, ficar seduzido por um psicopata, mas difícil é não ficar, exato.

Speaker: Mas o fenómeno é muito parecido com o teu.

Speaker: Eu não consigo entender.

Speaker: Algum dia você me explica essa fascinação pelos psicopatas.

Speaker: Estamos chegando a um ponto de loucura.

Speaker: Que fé.

Speaker: E diz-me... Vamos ter que passar aqui ao nosso disco, não é?

Speaker: Está na hora.

Speaker: Tu escolheste Woodstock para hoje, aqui para vir às três divãs.

Speaker: Eu escolhi Woodstock porque...

Speaker: É um disco que me fez.

Speaker: É um disco que eu estava ali em 69, eu estava com 10, mas depois eu escutei com 14.

Speaker: Havia um panorama musical muito, muito interessante.

Speaker: O casting daquele festival é fenomenal.

Speaker: Vai de John Baez, Jimi Hendrix, The Whole, Ten Years After, Joe Cocker, você tem o Freedom lá do Richie Evans, você tem Crosby, Stills, Nash & Young, você tem um espectro musical americano.

Speaker: e muito forte e não só a questão sonora, mas você tinha as imagens do festival e você tinha um ambiente de revolução e de um novo mundo possível.

Speaker: Aquilo era muito inspirador, aquilo era muito libertário, aquilo era muito para um jovem, aquilo era assim, é possível ser feliz, é possível.

Speaker: Claro que não tínhamos as sequelas na idade das duas grandes guerras, que não havíamos passado por aquilo, por aquele trauma.

Speaker: Havia só a questão da expansão espiritual, corporal, física, social, a liberdade nas ações.

Speaker: E a qualidade musical.

Speaker: A qualidade musical de Santana.

Speaker: Santana no início.

Speaker: E pronto, eu escolhi o Woodstock porque eu acho que a gente está precisando de um ambiente revolucionário, utópico, libertador e libertário.

Speaker: Talvez não sei se dará mais pela música, porque a música agora já está no padrão de...

Speaker: só se ouve o que está dentro dos padrões dos estúdios das grandes gravadoras mas existem possibilidades de movimentos acho que está havendo movimentos não sei se tem espaço porque a internet também parece que é libertadora mas ela é completamente redutora

Speaker: A internet é redutora, esse telefone na mão da gente é redutor.

Speaker: Apesar de pensar numa expansão, então eu acho difícil que esses movimentos que pretendam uma revolução necessária, uma revolução social, moral, humana... Então eu escolhi um pouco por isso, Ana.

Speaker: Porque eu acho que o ciclo está voltando às necessidades do grito.

Speaker: O grito foi dado ao homem para se libertar do seu destino, né?

Speaker: O grito é fundamental.

Speaker: Então, poder gritar e, bom, passando para a música... Não, aquela música, With a Little Half For My Friends, cantada majestalmente pelo Joe Cocker,

Speaker: A música que eu escolhi é demais.

Speaker: Eu acho a música demais, oportuna, eternamente oportuna.

Speaker: E por quê?

Speaker: É porque eu acho que é um pedido de ajuda, é uma súplica.

Speaker: Há uma súplica.

Speaker: Há um pedido de reconhecimento, de companhia, de amor.

Speaker: E isso se aplica hoje em dia completamente.

Speaker: Eu acho que tem primeiro uma guitarra que grita, depois tem um coro que, ao mesmo tempo que te conforta, aquele coro também te empurra num abismo ali que você vê que se...

Speaker: Vai cair, porque ele te empurra, o coro te empurra.

Speaker: E, claro, tem a interpretação do Joe Cocker, que ela é meio deformada, ela é meio torta, para quem viu o filme.

Speaker: Então, eu acho, dói no meu coração.

Speaker: Eu fico muito, muito, muito emocionado, sempre que eu escutei essa música, porque...

Speaker: É a questão de se você precisa de alguém, você precisa de um amor, você precisa de estar acompanhado.

Speaker: Se eu estiver fora do tom, se eu estiver em outros, seja um migrante, se eu for diferente, como eu posso estar acompanhado, eu sobreviverei.

Speaker: É um pedido de ajuda, é um pedido de inclusão, é um pedido de reconhecimento, é um pedido, não diria desesperado, mas a forma e o conteúdo da música, eles casam.

Speaker: casam, a letra e o arranjo casam de uma forma muito diferenciada.

Speaker: E acho que isso tudo também casa com os tempos atuais.

Speaker: Então, eu me reconheço, eu me emociono, eu acho que...

Speaker: É uma música que deveria voltar aos top ten, às paradas de musicais, porque é altamente poético, altamente humano.

Speaker: E a questão de você procurar nos amigos as ajudas, de você procurar nos afetos, você... Você aceitar que você está sozinho, né?

Speaker: Você saber que você está sozinho, que às vezes é duro estar sozinho, que muita gente está sozinha e...

Speaker: é isso, é melhor isso quando trouxeste este disco até nós, outra vez, tudo isto a mim emocionou-me mesmo mas emocionou-me de uma maneira quase descontrolada acho que tem a ver com a crueldade do que estamos a viver portanto este resgate e acho que esta música personifica mesmo este resgate que nós precisamos e que precisamos de voltar a acreditar nele acho que temos estado numa fuga, na tal fuga mas lá numa fuga positiva, não se abrem paisagens têm-se fechado as janelas todas

Speaker: não há uma entrega.

Speaker: E esta música fala de entrega, não é?

Speaker: Ou seja, eu posso te oferecer a minha vulnerabilidade sem medo, porque não se transforma numa fragilidade que tu vais jogar contra mim, pelo contrário, tu vais agarrá-la e vais fazer dela um lugar de construção conjunta.

Speaker: E este lugar de construção conjunta tem estado a falhar muito, não é?

Speaker: Ou seja, ou pelo menos estamos a tentar fazer acreditar que ele falha.

Speaker: E por isso a voz com que nós temos que nos enlamear, não é?

Speaker: Aquela parte da lama do Woodstock, não é?

Speaker: Mas com que nós temos que nos enlamear para voltar ao sítio onde realmente nós precisamos e podemos reconhecer que precisamos das mãos dos nossos amigos.

Speaker: Nós na psicanálise, não é?

Speaker: Mesmo essa ideia de casa, eu acho que vocês puseram isso maravilhosamente e eu queria também trazer.

Speaker: Porque essa ideia de casa é esse lugar mesmo, não é?

Speaker: É o lugar onde tu podes reconhecer que a mão do teu amigo te devolve.

Speaker: e é tão fácil como é que nós complicamos este sítio como é que nós tornamos um sítio que devia ser um gesto espontâneo numa raridade ou pelo menos numa aparente raridade e portanto esta música para mim tem isto ou seja, nos maiores momentos de fragilidade aquilo que me suporta, que me sustenta é realmente um amigo que eu me reconheço e me devolvo

Speaker: E que me diz, estou aqui contigo neste sítio que não faz sentido nenhum, sei lá, no absurdo até no sentido mais do Camus, não é?

Speaker: Nós estamos neste absurdo e portanto o que nos salva do absurdo é realmente a relação autêntica.

Speaker: Como é que nós estamos a patologizar esse lugar?

Speaker: Como é que temos vindo a tornar até mesmo, não sei como é que está no Brasil, mas aqui em Portugal há um excesso da ideia de saúde mental?

Speaker: completamente esvaziada daquilo que a torna mesmo saudável, que é esse sítio que não é puro, mas que traz a sombra.

Speaker: Estava a pensar que, de alguma maneira, até este sucesso deste personagem, este personagem tem vida.

Speaker: Não é um personagem aplanado, não é um lugar mau porque é um lugar mau, é um lugar que ele mesmo, sendo mau,

Speaker: estás cheio de vida, que é o sítio que Dalmamanã nos está a faltar, não é?

Speaker: E há aqui isto nesta amizade, que está nesta música, não é?

Speaker: Seja quais forem as tuas sombras, não é?

Speaker: Eu estou aqui contigo para caminhar.

Speaker: Sim, sim, sim, muito bem colocado.

Speaker: Obrigado, obrigadíssimo.

Speaker: humildade do pedido não é?

Speaker: porque essa vulnerabilidade que está vazia a falar é o que eu gosto nesta canção é é eu pedir ajuda, estou sozinha e quando estás sozinha experimenta pedir ajuda

Speaker: experimenta pedir a mão compartilha como é que você estaria se isso acontecesse com você também não sou só eu como é que estaremos é muito redentora é muito salvadora e vê bem, há esta harmonia que é muito encrescendo até pelo tênis back vocals sente isso

Speaker: é mesmo uma coisa de enchimento bom que agora é o contrário tu pedes ajuda e fica tudo seco que horror está a pedir ajuda mas não é a fragilidade é encarada exatamente ao contrário és frágil porque estás a pedir ajuda mas frágil neste sentido de falha narcísica e não no sentido da possibilidade até de lhe ceder com a maior genuinidade

Speaker: mas pronto cá estamos nós a tentar resistir a isto nós estamos constantemente a pedir ajuda aliás se não fosse os nossos pacientes é que nos ajudam constantemente esse lugar como lugar da saúde o lugar onde podes pedir ajuda é um lugar mais saudável que pode existir como é que de alguma maneira isto é posto ao contrário é que é assustador é preciso esta voz e ele dá um grito no meio da canção ele dá um grito uma coisa que

Speaker: visceral e as guitarras iniciais também elas colocam a canção num estado dramático muito interessante porque é o direito ao grito o direito ao grito e poder estar desafinado poder estar desafinado é, o primeiro verso fala exatamente isso é

Speaker: Se eu estiver fora do tom, quem vai me ouvir?

Speaker: Quem vai me compreender?

Speaker: Há uma inadequação assumida.

Speaker: E a inadequação, ela é praticamente pertence a todo mundo hoje em dia.

Speaker: Estamos muito inadequados individualmente.

Speaker: E coletivamente a gente quase que não se reconhece, né?

Speaker: Eu sei lá.

Speaker: Vai haver alguma coisa, né?

Speaker: Alguma coisa está para acontecer.

Speaker: Acho que já está a acontecer.

Speaker: Está sempre a acontecer.

Speaker: Isso é que não podemos perder a consciência e que está sempre a acontecer.

Speaker: Portanto... A chuva não aconteceu, por acaso?

Speaker: Qual chuva?

Speaker: Ah, lá do outro estouro.

Speaker: No rain, no rain, no rain.

Speaker: Sim, sim, sim.

Speaker: Oh, Patrícia, se calhar avançamos já para a tua.

Speaker: A Patrícia gosta muito do Joe Hill, da John Biles.

Speaker: Quer dizer, eu gosto muito, muitas.

Speaker: É isso que...

Speaker: Aquele disco tem só as músicas maravilhosas.

Speaker: É difícil escolher.

Speaker: Ten Years After, aquela do I'm Going Home, aquilo.

Speaker: Exatamente.

Speaker: Basta a ideia de casa.

Speaker: Patrícia, I Never Die.

Speaker: I Never Die, Say He.

Speaker: Exatamente, é esse o ponto.

Speaker: Era esse o ponto, já desmascaraste.

Speaker: Estava a ver que chegaram aqui mais amigos nossos, que dava para a música anterior do Little Help, My Friends, era sopa.

Speaker: Claro que é essa a ideia, não é?

Speaker: Do Joe Hill, que de alguma maneira não morre apesar de ter morrido, não é?

Speaker: Portanto, a ideia da resistência perante todas as adversidades, por mais que nos tentem silenciar naquilo que é resistência humana à violência, à crueldade, a sensação de que há coisas que sobrevivem para além da morte, não é?

Speaker: Às vezes até se intensificam com a própria morte.

Speaker: Acho que esta música mostra isso e com a voz de ternura que tem a John Bias, não é?

Speaker: Ou seja, como é que se consegue, para mim, porque me fascina sempre na voz dela é isto, não é?

Speaker: Ela consegue dizer as coisas mais cruéis, mais cruas,

Speaker: desmascarar e denunciar estes sítios da crueldade humana mas sempre com esta voz de fundo que embala e portanto que não nos atira completamente ao abandono isto para mim tem um duplo sentido muito interno a minha mãe canta bem, canta bem John Bias e portanto também tem esse fundo de embalo do fundo da existência mas de alguma maneira eu penso que é isto que a voz dela traz é possível pensar e sentir tudo isto se houver uma melodia de fundo que no fundo também tem o Little Help for My Friends portanto estará implícita

Speaker: mas também esta ideia da não aniquilação mais uma vez, eu acho que nós temos de viver momentos muito difíceis, claro que sim onde nos é dito de alguma maneira que a vida se pode secar e portanto que nos temos todos que acostumar à ideia de que vamos deixar de ser pessoas na relação com os outros

Speaker: e esta música é exatamente o antídoto disto ela está grávida no Woodstock com o marido preso a dizer qualquer coisa como há qualquer coisa que sobrevive para além da morte que vocês querem infligir eu acho que é isto que nós temos que manter muito vivo atualmente a não deixar de maneira nenhuma que a morte se instale como uma coisa que fica absolutamente fatal e pelo contrário que se introduza o lugar da vida para além da morte contida nesta ideia de resistência e com isto que digo

Speaker: que se torna possível de ser pensado pela voz de John Bias, para mim.

Speaker: A morte é uma coisa séria.

Speaker: Exatamente.

Speaker: A morte é uma coisa séria.

Speaker: E a morte tem vida, então.

Speaker: Pois é. A morte tem vida é que nos traz esta crueza.

Speaker: Você sabe que eu morri muito?

Speaker: Eu tenho morrido muito.

Speaker: Eu sou bom de morte.

Speaker: Eles me chamam pra morrer no primeiro capítulo, pra ter audiência.

Speaker: Tô falando sério, juntando uma piada, uma coisa séria, mas na novela América, na Ilda Furacão, e agora na Renascer, não, numa última agora, venha morrer, Chico.

Speaker: Você morre super bem, cara.

Speaker: A audiência adora.

Speaker: E aí eu tenho uma sequência de personagens que morrem no primeiro capítulo, no primeiro capítulo da novela, que é pra chamar audiência.

Speaker: Eu falei, cara, isso é uma coisa muito profunda, porque eu...

Speaker: Porque eu, na América, eu morria no primeiro capítulo e acabava.

Speaker: Mas eu ia, meu filho, vou buscar um diamante.

Speaker: Aí ia pra mina, a mina, o diamante, a novela.

Speaker: E aí foi um sucesso estrondoso no primeiro capítulo.

Speaker: Eu continuei a novela inteira, mas de fantasminha.

Speaker: aparecer atrás do Murilo Benício dando conselho mas só pra voltar a questão da morte a gente dá risada dela podemos dar risada dela também mas é é algo que não se fala bem né estando consciente dele a gente ganha força e musculatura e poesia é fundamentalmente poesia

Speaker: Que é o que está na melodia da John Byers.

Speaker: É uma melodia poética que dá colo.

Speaker: É isso que a Patrícia está sempre a falar, que é o espaço entre.

Speaker: Há um fadado.

Speaker: Há um fadado.

Speaker: É bonito isso.

Speaker: Uma fresta.

Speaker: Existe fresta?

Speaker: Existe.

Speaker: A fresta ali é onde a gente se salva, né?

Speaker: É ali que... É a tua paisagem.

Speaker: É a poética.

Speaker: É a alternativa que nos permite escolher.

Speaker: Mas não é calcada em nada real, né?

Speaker: Há uma fuga.

Speaker: Há uma fuga.

Speaker: A poesia, a mim pelo menos, oferece um pouco isso.

Speaker: Não que eu seja poeta, mas eu acho que eu sou poeta.

Speaker: De certa forma, aplico isso no desenho, nos personagens.

Speaker: Mas é uma... Aptal da busca fuga.

Speaker: Mas é um ponto de fuga.

Speaker: Ou seja, não é uma fuga.

Speaker: Exato.

Speaker: emocionalmente é quase uma estratégia sobreviver mas para te manteres ali mas não num entendimento cartesiano real consciente que a gente é impulsionado para um lugar um encantamento uma instância mágica que que abre faz aquela abertura é é é um caminho

Speaker: É um caminho, não é?

Speaker: E que de outra forma estamos a percorrê-lo também, não é?

Speaker: Esse caminho.

Speaker: E o problema é que quando nós não encontramos esse ponto de fuga, é quando ele não existe mesmo, não é?

Speaker: Que era o que eu falava aqui na introdução, como por exemplo, tu entras no caixote de ré e não teres uma alternativa ao quizomba, por exemplo.

Speaker: O que é o Kizombé?

Speaker: O Kizombé, por exemplo, é um estilo de música que tens em todos os bares.

Speaker: E quando tu entras aqui na Rua Cor-de-Rosa, agora as únicas alternativas que tens ao Kizombé é este bar e ao cais do Pirata.

Speaker: Se estes bares fecharem, tu ficas sem alternativa.

Speaker: Ao ponto de fuga tem que ser outro.

Speaker: Tens que ir daqui para fora, não é?

Speaker: E de acabar ficando isto do Drei, como nós o conhecemos.

Speaker: É outro.

Speaker: mas isto simbolicamente diz muito também porque os 10 years after já não é outra coisa, é mesmo 10 years after olha, é irmos 10 years 10 years à frente, a pessoa que é que estava lá atrás para ressignificar isto tudo se torna um bocadinho dramática às vezes sim

Speaker: Olha, eu falto a minha canção favorita, mas eu queria perguntar, antes de avançarmos para a minha canção favorita, se de alguma forma o Chico ainda há bocado disse que achava que na música, que talvez...

Speaker: Que a música agora estava muito controlada, não é?

Speaker: Pelas discográficas e que estava controlada.

Speaker: Que se calhar já não era a música o sítio onde se podia fazer a resistência.

Speaker: Tu disseste isto.

Speaker: Não só a música, eu acho que tudo, não é?

Speaker: Tudo, o pensamento.

Speaker: Tudo, tudo está metrificado, ou pensado, ou planejado, ou antecipado.

Speaker: Eu acho que esse nosso poder do imaginário, essa questão de reinar sobre fantasmagorias ou reinos do inefável, assim, está se perdendo, porque está tudo pensado e planejado na planilha.

Speaker: Não só a música, tudo, tudo, tudo.

Speaker: o teu futuro está planejado, então, isso é uma prisão, então, a ideia da libertação, da real libertação do espírito humano tem que ser repensada, vocês, psicanalistas, são fundamentais nesse sentido, de dar base para as pessoas para poderem saltar, temos que saltar, há um abismo a ser...

Speaker: asas a serem criadas no salto, né?

Speaker: Há que saltar.

Speaker: Poucas pessoas estão saltando, né?

Speaker: As pessoas estão muito medrosas, muito enraizadas num...

Speaker: Eu não sei, também fica difícil para mim teorizar, eu sou apenas um intérprete, não sou de elaborar muitas ideias, mas eu acho que o mundo está... Se a gente não apelar para o encantatório, para o mágico, para o mistério, a gente não se salva.

Speaker: É uma ideia, mas é uma ideia brasileira, é uma ideia tropicalista.

Speaker: Nós devoramos vocês, portugueses.

Speaker: Nós comemos vocês, né?

Speaker: Sério.

Speaker: Então, a gente tem outra selvageria na hora da resolução do dia a dia.

Speaker: Eu confesso que essa minha esgrima com Portugal é muito interessante porque ela vem de portas abertas, com o filme do João Botelho, O Ano da Morte de Ricardo Reis, com o heterônimo de Fernando Pessoa, uma coisa assim na corte, desculpa usar a palavra, mas é a corte.

Speaker: E aos poucos eu começo a me libertar da corte, começo a encontrar o Portugal real.

Speaker: E aí eu começo a ter uma musculatura mais próxima, mais intensa, mais miscigenada.

Speaker: Então tem sido uma conquista muito, muito, muito interessante.

Speaker: Não é fácil, mas tem sido muito e tu insistes, eu insisto, eu insisto.

Speaker: Sim, sim, que bom.

Speaker: Olha, a minha canção favorita deste álbum, eu gosto de imensas, gosto de muitas, não é?

Speaker: Mas só podia ser esta, não é?

Speaker: Que é o Richie Evans, o Freedom.

Speaker: Freedom, ah.

Speaker: Que é extraordinária.

Speaker: Ele não era para entrar logo no início do Woodstock, mas entra porque vai substituir alguém que não quer cantar à chuva.

Speaker: E ele vai.

Speaker: E é espetacular.

Speaker: Porque não é só neste concerto, é noutros concertos.

Speaker: Ele põe caricas para tocar o Freedom.

Speaker: Põe caricas nos dedos e toca.

Speaker: E a dada altura...

Speaker: Ele lixa as mãos todas porque é sangue por todo lado e ele não para.

Speaker: Neste concerto no Woodstock nós conseguimos perceber isso, mas há outros concertos em que chega a saltar, há sangue por todo lado e ele não para, ele não para, ele não para.

Speaker: Freedom, do Richie Evans.

Speaker: Não, não, eu já l'ou vou outra vez, agora quero-vos ouvir a vocês.

Speaker: Não, é maravilhoso a interpretação dele, a presença dele, a letra, tudo, a presença.

Speaker: Sou fã, sou fã, completamente.

Speaker: Não teria muito mais a que dizer não, sou um ouvinte atento a ele.

Speaker: Adoro.

Speaker: Patrícia, porquê que tu gostas disto?

Speaker: Tu não gostas muito, tu gostas da letra mas não sei se eu gostei Goste, mas acho que não podias ter escolhido outra Isto é Ana Teresa, isto é a personificação de Ana Teresa nesta música Esta ideia da liberdade e da libertação que rasga, que não é isto que eu acho que te fascina na música Eu li, não sei se é verdade ou se é mentira

Speaker: Mas que ele também estava a dar tempo, ou seja, que fez três horas no princípio, porque estava a dar tempo que havia um trânsito infinito para se chegar, e que ele estava a fazer isso pelos outros também, não é?

Speaker: Ou seja, que estava, como tu dizias, não é?

Speaker: Sim, sim, chamaram-no.

Speaker: Exatamente.

Speaker: Aliás, o Jimi Hendrix ficou preso no trânsito e teve que ficar para o fim, sim, sim, sim.

Speaker: E esse lugar, lá está que nós estamos a pôr desde o princípio, que é isto, não é?

Speaker: Qual é o sítio onde nós somos amparados uns pelos outros, este tal sítio onde, mais importante do que ser protagonista da história, é criar a história com o seu próprio protagonismo.

Speaker: A mim, claro que me dá um conforto interno enorme, não é?

Speaker: Mais uma vez digo que me emocionou olhar para isto outra vez, porque me voltou a dar alguma esperança deste lugar onde alguém faz isto, não é?

Speaker: Onde alguém se dedica a entreter para garantir que o espaço pronto vai amparar o outro.

Speaker: Exatamente.

Speaker: Portanto, para mim, na relação contigo, claro, querida amiga, ocupa um lugar muito importante, mas em todo o caso, esta ideia também, que a liberdade é esse lugar.

Speaker: É muito mais este lugar onde tu consegues fazer qualquer coisa, onde o teu protagonismo passa exatamente pela possibilidade da coexistência e, portanto, criar espaço para que exista espaço para toda a gente.

Speaker: e não o lugar onde muitas vezes me parece que se está a tentar inscrever a liberdade, que é esse lugar autocentrado, autorreferenciado, cheio de autos, não é?

Speaker: Não sei como é que está mais uma vez cá em Portugal, o auto criou-se com muita força, não é?

Speaker: E portanto, o sítio onde nós estamos mesmo na relação com os outros ficou um lugar um bocadinho secundário.

Speaker: E portanto, para mim, esta música inscreve, este sítio que rasga e que devolve a liberdade à própria liberdade, que é a capacidade de estar na relação com os outros, eticamente inscrita e não na ausência total de relação que nos tem sido de alguma maneira...

Speaker: Bendita.

Speaker: Diz disso.

Speaker: Eu pergunto muito se esse conceito de liberdade, né?

Speaker: O que é liberdade?

Speaker: O que é estar preso?

Speaker: O que é estar livre, né?

Speaker: O que é um cartão de crédito te liberta ou te prende?

Speaker: Se os seus valores morais te prendem ou te liberta?

Speaker: O que está dentro ou estar fora?

Speaker: É muito dúbio essa questão da liberdade.

Speaker: E é como a democracia são termos que são usados em nome de exatamente o contrário do que significam, né?

Speaker: Em nome da liberdade a gente fica preso.

Speaker: Esse meu espetáculo, A Lua Vem da Ásia, fala muito sobre a questão do que é estar livre.

Speaker: Onde se dá a narrativa da liberdade?

Speaker: Como se constrói uma narrativa de efetiva liberdade, a não ser perto da loucura ou a partir da escrita, de uma forma de escrita que te... E contava, né?

Speaker: Como é que se chamava o primeiro... Era o sonho, não é?

Speaker: Como é que era o primeiro?

Speaker: Era o sonho.

Speaker: O filme, se eu não acabou.

Speaker: O sonho acabou nesse lugar.

Speaker: É nesse lugar, mas, mas, há uma coisa que eu tenho que dizer.

Speaker: Não, não, porque eu tenho que sublinhar isto, que isto às vezes é preciso.

Speaker: A liberdade pode ser tudo.

Speaker: Mas não é. Não.

Speaker: Mas há uma coisa que tem que ser a referência para a liberdade, que é o tu poder escolher.

Speaker: Tu poderes?

Speaker: Escolher.

Speaker: Poderes escolher e teres a consciência da escolha é o que te confere a liberdade.

Speaker: Hum.

Speaker: Porque se não for uma escolha, se não for uma escolha, se for uma monitorização ou se for uma ausência de pensamento crítico, que implica escolha porque implica... Com perda.

Speaker: Com perda.

Speaker: Tu não estás em liberdade.

Speaker: Tu tens que poder escolher.

Speaker: Se não puderes escolher, não há liberdade.

Speaker: Há uma falsa liberdade.

Speaker: E mais, isto que a Patrícia está a dizer sobre este encontro genuino na relação com o outro, é mesmo verdade, não é?

Speaker: E isso traz-nos um lugar muito bom onde, de facto, há um amparo e não há uma queda no vazio, mas eu gosto muito disto que o Rich Evans diz aqui, que é

Speaker: Às vezes, eu vou dizer em português, não é?

Speaker: Mas é aquela parte que ele começa logo, freedom, freedom.

Speaker: Sometimes I feel like I'm a... Não interessa.

Speaker: Eu não consigo ler isto porque isto imprime-me tudo mal.

Speaker: Peço desculpa, mas... Às vezes eu sinto que sou uma criança sem mãe.

Speaker: Exatamente.

Speaker: E quando ele diz... Mas ele diz isto.

Speaker: Às vezes eu sinto que sou uma criança sem mãe, ao longo do caminho, meu próprio amor, liberdade, liberdade.

Speaker: Ou seja, há um sítio que eu acho que é o sítio do qual todos os narcísicos fogem, que é o sítio da verdadeira solidão, que é este sítio de tu conseguires aguentar o sítio onde sentes uma criança sem meio.

Speaker: Sentes-te uma criança sem mãe e aguentas esse lugar contigo próprio na tua companhia, mas tu só consegues esse lugar na tua companhia porque o outro está dentro de ti hoje.

Speaker: E, portanto, a partir da relação.

Speaker: Então, eu acho que a verdadeira liberdade é a que vai à maior solidão, que é esta onde tu chamas pela mãe, mas ela não existe, mas te reconfortas no teu próprio caminho e no teu próprio amor.

Speaker: Ou pedes uma ajuda para os seus amigos.

Speaker: Que encontraste, lá está, mas que encontraste a partir da relação com o outro e desse amparo que o outro te deu para tu conseguir chegar aqui.

Speaker: E isto, para mim, é a liberdade.

Speaker: E é isto que Richie Evans grita a sangrar nos mãos.

Speaker: Três horas.

Speaker: Pronto, é isto.

Speaker: Maravilhoso, maravilhoso.

Speaker: Nós estamos a chegar ao fim.

Speaker: Nós estamos a chegar ao fim.

Speaker: Chico, foi tão bom estares aqui.

Speaker: Uma alegria, um privilégio.

Speaker: Ficaria aqui mais umas duas semanas.

Speaker: E ficas.

Speaker: E vais ficar.

Speaker: Não, não.

Speaker: Há muitas ideias.

Speaker: Nossa senhora.

Speaker: uma alegria e que bom gostaste de estar cá connosco e agradeço comigo com a Patrícia e com estas pessoas mas estares em Lisboa é muito bom e é muito bom que tu gostes de estar connosco porque nós gostamos muito de ter cá connosco também Patrícia muito obrigada também Obrigado a todos vocês por estarem tão atentos e participantes Eu quero agradecer mais uma vez ao Pterdã

Speaker: Ao público que temos aqui, quero agradecer à Climepsie que nos dá este material todo, à Joana Bernardo que dá a voz ao jingle.

Speaker: A Yoko Ono e os Dirty Mac no Rock and Rolling Circles dos Rolling Stones, que são o jingle, o som do jingle do nosso jingle.

Speaker: A Carolina Pichel, que está aqui a fazer o som.

Speaker: E, acima de tudo, quero agradecer ao 25 de Abril.

Speaker: Nós estamos a gravar a 23 de Abril.

Speaker: Isto só vai sair a 1 de Abril, mas eu agradeço profundamente.

Speaker: Só vai sair a 1 de Maio.

Speaker: Obrigada pela emenda.

Speaker: Mas quero agradecer ao 25 de Abril.

Speaker: Vamos todos descer à avenida.

Speaker: Este podcast vai para o ar depois disso.

Speaker: Mas 25 de Abril sempre.

Speaker: E que o amor esteja convosco.

Speaker: Até uma próxima.

Speaker: 25 de Abril.

Speaker: 3 Divãs, a Psicanálise, o Mundo e o Rock'n'Roll.

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