Transcript
Speaker: Quando juntamos um sufixo aumentativo ao acorde, temos um acordeão.
Speaker: Embalados neste instrumento, capaz de fazer acordes completos com os seus botões à esquerda, passeamos em efabulações.
Speaker: É isto que destaco no disco escolhido pela nossa convidada de hoje.
Speaker: Há um acorde que pode ser acordeão.
Speaker: Uma melodia que pode ser uma história.
Speaker: A história de uma vida.
Speaker: A progressão instrumental a acompanhar a progressão humana.
Speaker: Quando a há.
Speaker: Numa conversa que tive com o nosso querido professor Coimbra de Matos, discutíamos sobre o que é uma relação.
Speaker: Ele dizia-me que o relacionamento entre duas pessoas é sempre uma relação que pode, ou não, ter qualidade.
Speaker: Eu não concordo com ele.
Speaker: E ele irritava-se comigo.
Speaker: Para mim, uma relação implica a possibilidade de nos distinguirmos do outro e, assim, aprender com o eu no sentido de uma evolução.
Speaker: Sem esta premissa, ficamos no mesmo lugar, em repetição até ao fim.
Speaker: É esta a insuportabilidade de muitos que nem consigo se conseguem relacionar.
Speaker: Eu chamo-lhe uma não-relação, o lugar que impossibilita o sufixo.
Speaker: O acordeão deste disco convoca-nos a viagem que sabemos existir na história de vida que nos conta.
Speaker: O crescimento de uma relação que nunca é só uma, é sempre muitas.
Speaker: E a qualidade de cada uma delas reside no saber dar e no saber receber.
Speaker: Neste lugar, o sufixo aumentativo chama-se metáfora.
Speaker: Sem ela, a relação não acontece.
Speaker: Resta-nos a violência, a retaliação, a aridez de só assim se conseguir ir vivendo.
Speaker: Ou sobrevivendo.
Speaker: O disco de hoje é a banda sonora de uma história bonita.
Speaker: Foi criada pelo compositor chileno, naturalizado italiano, Luís Enriquez Bakalov, para o filme Il Postino, em português, O Carteiro de Pablo Neruda.
Speaker: Foi escolhido pela Susana Blaser, a convidada de hoje de três divãs que está aqui comigo e com a Patrícia Câmara para conversarmos como tanto gostamos de fazer.
Speaker: Suzana Blasar, boa noite.
Speaker: Sejas bem-vinda ao 3 Divãs.
Speaker: Podes apresentar-te.
Speaker: Boa noite.
Speaker: Eu sou a Suzana Blasar.
Speaker: Nasci em 1985 numa pequena aldeia ribatexana, Val da Pedra.
Speaker: Cresci
Speaker: Com os meus pais, o meu irmão e com os meus avós.
Speaker: Passava muito tempo com os meus avós.
Speaker: E passava muito tempo a observar.
Speaker: E a brincar.
Speaker: E já a fazer de outros.
Speaker: Muito com a minha avó, que também tinha essa capacidade.
Speaker: E observava muito.
Speaker: Era capaz de ficar horas a observar as conversas da minha avó com...
Speaker: com as suas vizinhas, os amigos, depois íamos à mercearia, e sentia já essa pulsão e essa necessidade de imitar o outro.
Speaker: E sentia que precisava disso para quase como que uma catarse, se calhar porque não aguentava...
Speaker: ser sempre eu ou porque não sabia ser sempre eu porque às vezes o mundo era pouco ou às vezes era demais e eu precisava de transformar o que me rodeava para conseguir de alguma forma entender isso como se isso me ajudasse a entender o mundo a reorganizar as ideias
Speaker: É isso Mas depois Tinha essa necessidade Fazia-o no dia a dia Para os que me eram próximos Com os que me eram próximos Com as minhas amigas De infância Amigas que são até hoje Minhas amigas, muitas delas E é isso
Speaker: E é isso Pois, eu estava aqui a pensar Porquê que tu achas que eu observava-as tanto?
Speaker: Não consigo muito bem perceber Talvez também para tentar perceber Quem é que eu sou nos outros
Speaker: Talvez Para essa resposta Muito ótimo Porque tu se calhar fazias esta coisa O que é que eu encontro de mim nos outros?
Speaker: Sim O que é que eu sou O que é que os bocadinhos dos outros Podem servir para me construir a mim?
Speaker: Sim
Speaker: Como que um puzzle, não é?
Speaker: É, mas é o princípio da identificação, não é?
Speaker: Com esta idade é isso mesmo.
Speaker: Sim, sim, sim.
Speaker: Então, e quando tu dizes que a tua avó também era boa a fazer isto, não é?
Speaker: A tua avó também fazia isto, a identificar os outros.
Speaker: Vocês deviam divertir-se muito, muito, muito.
Speaker: A minha avó era como eu, muito dramática, muito trágica, mas depois precisava do cómico para conseguir suportar as agruras da vida.
Speaker: Era como o cómic relief.
Speaker: A minha avó chorava com uma desgraça, que não era desgraça nenhuma muitas das vezes, porque os coelhinhos que ela tinha morreram, e os meus coelhinhos, e passado um tempo estava a chorar e passado um bocado estava a rir.
Speaker: Ia inventar histórias E era isso Brincavamos muito Então tu achas que isto é a gênese Da tua formação como atriz, não?
Speaker: Talvez Então Tu és atriz Sim E aquilo era inato Ou seja, eu não pensava, agora vou fazer Quando dava por mim Já estava a ser outro
Speaker: Como tu o fazes agora.
Speaker: Como eu faço agora.
Speaker: Como eu faço agora.
Speaker: Tu fazes isso, não é?
Speaker: Sim.
Speaker: Mas desde um iúda, isso é mesmo engraçado.
Speaker: Desde um iúda.
Speaker: Porque o trabalho dela é ser atriz, não é?
Speaker: Mas ela, quando está assim connosco, está sempre a fazer isto.
Speaker: Estou.
Speaker: Estou.
Speaker: Acho que... Pois, às vezes, talvez... Mas eu não sinto como uma fuga.
Speaker: Porque eu acho que sou muitas coisas.
Speaker: Muitas coisas.
Speaker: E às vezes tenho essa angústia até de tentar perceber.
Speaker: Mas eu sou quem?
Speaker: Sou o quê?
Speaker: E durante muito tempo achava que tinha que escolher uma.
Speaker: E só agora é que estou a perceber que não, que eu posso ser tudo e posso ser cheia de inconsistências e uma coisa ser contraditória e não encaixar na outra, mas eu posso ser isso tudo.
Speaker: E eu achava que para ser levada a sério...
Speaker: A consistência tinha que ser.
Speaker: Tinha que haver ali uma consistência.
Speaker: E agora acho maravilhoso essa consistência de não ter de existir.
Speaker: Mas às vezes tenho dificuldade e penso, mas isto sou eu?
Speaker: Isto que está a acontecer comigo?
Speaker: Isto sou eu ou não?
Speaker: Tenho às vezes dificuldade em perceber quem é que sou.
Speaker: Sim, e essa questão de achar que tem que ter uma consistência, que tem que ser uma coisa unilateral, não é?
Speaker: Tu achas que adquiriste a partir de quando?
Speaker: Tu disseste agora, mas agora o agora é aqui.
Speaker: Há pouco tempo, há algum tempo?
Speaker: Não, eu achava que tinha que ter essa consistência durante
Speaker: muito tempo, se calhar por vir de um mundo muito fechado, muito cheio de regras, um meio pequeno em que não fazes isso, parece-se mal, não fazes isso não sei o quê, ou uma menina, mesmo na escola, não digo que seja a minha família, mas havia muito essa questão de o parecer, o parecer.
Speaker: E...
Speaker: E eu sentia que tinha um rasgo qualquer.
Speaker: E depois também a igreja.
Speaker: Eu andei muito tempo na catequese e tudo isso.
Speaker: Eu acho que aquilo... Não.
Speaker: E eu era muito livre.
Speaker: Era muito livre e gostava de ser livre.
Speaker: Não gostava das regras e do que me era imposto.
Speaker: E questionava e aquilo não encaixava.
Speaker: E depois o teatro deu-me um espaço para isso.
Speaker: Depois vim estudar aos 18, vim para a faculdade, não sabia muito bem o que escolher, ainda pensei em ir para a dança, porque a única coisa que havia lá era ballet clássico.
Speaker: Eu tinha aulas de ballet.
Speaker: Em Santa Ana, cartaz.
Speaker: E depois vim para a faculdade e pensei, é para a dança, mas depois pensei, dança não dá nada, não é?
Speaker: Pensei, a ciência da comunicação, mas também eu sabia que eu queria ser atriz, só que não sabia o que é que se fazia para poder ser atriz, para chegar lá.
Speaker: E depois pensei, vou aqui se calhar para artes de espetáculo na clássica, mas só tinha, aquela era a parte teórica, mas interessava-me imenso.
Speaker: E fui, mas a primeira coisa que fui fazer foi inscrever-me no teatro universitário, porque eu tinha mesmo esta posição, eu pensava, eu tenho de experimentar isto para ver se é por aqui.
Speaker: Pronto, depois inscrevi-me e tínhamos ensaios todos os dias e isso era a melhor parte do dia para mim.
Speaker: Adorava.
Speaker: E ia a faculdade.
Speaker: Pronto, ok, está bem.
Speaker: Mas gostavas mesmo muito dessa parte, não é?
Speaker: Do teatro, é?
Speaker: E pensei, não, não, depois comecei a perceber como é que funcionava, que havia o conservatório E pensei, mas agora estou aqui Como é que eu faço?
Speaker: Como é que eu faço isto?
Speaker: Os meus pais estão a pagar os estudos, não é?
Speaker: Agora não vou deixar isto da mãe, como era muito certinha, porque tinha essa ideia de que tinha que ter tudo estruturado
Speaker: ainda fiz os quatro anos de curso, e depois disse aos meus pais que ia tentar o conservatório.
Speaker: Os ensinadores iam-me dizendo que o Teatro Universitário era, tu devias ir, tu devias ir, tu devias ir, tu tens de ir, tu tens de ir.
Speaker: E eu, agora como é que eu descalço isto?
Speaker: Mas pronto, quando estava a acabar a licenciatura, ia entregar a tese e fui fazer as provas para o conservatório.
Speaker: Pronto, entrei e depois os meus pais não foram capazes de me dizer que não.
Speaker: E foi uma época muito bonita.
Speaker: E bonita e muito divertida Muito divertida A minha turma era Tu ainda hoje és amiga dos teus amigos todos Sem turma, não é?
Speaker: Ainda hoje Falamos todos os dias Temos um grupo do WhatsApp e falamos todos os dias Hoje estamos a gravar no Dia Mundial do Teatro A propósito agora da tua turma Dos teus amigos do Conservatório Voltar-me a lembrar que é o Dia Mundial do Teatro E pensando até na Alessandra Lencastro Que está a fazer a gaivota Tu fizeste a Nina Fiz a Nina
Speaker: Sim, sim.
Speaker: Eu guardo memórias muito bonitas.
Speaker: Eu tenho memórias muito precisas dos espetáculos e de estar em cena, porque são os momentos em que verdadeiramente estou no presente.
Speaker: Sem...
Speaker: Não estou a adicipar nada, não estou a pensar no que foi.
Speaker: E esses momentos para mim são momentos de grande alívio, muitas vezes.
Speaker: Porque para já não sou eu, não é?
Speaker: Logo aí.
Speaker: E depois tenho de estar no presente para conseguir fazer bem.
Speaker: Para conseguir cumprir.
Speaker: Porque vê-se perfeitamente quando um ator está fora daquilo que está a fazer.
Speaker: E é aí que eu descontraio.
Speaker: É no palco.
Speaker: Eu tenho a imagem muito bonita tua na gaivota que era só tu com uma luz azulada tudo escuro e tu estavas com uma trança muito grande.
Speaker: O teu cabelo era enorme?
Speaker: Era, era.
Speaker: E tu fazias uma coisa que parecia também quase coisa tipo... Ela é clássica.
Speaker: E tu te costas para o público e era super bonito o início daquilo.
Speaker: E tu fazias uma coisa... Era o menólogo, devia ser o menólogo também.
Speaker: Era.
Speaker: E eu lembro-me que me emocionava imenso Já foram quantos anos?
Speaker: Porque há uma frase que diz O que importa é conseguir aguentar E eu lembro-me que era difícil a profissão Aquilo é complexo Porque tens de ter muita força E realmente tens mesmo de conseguir aguentar Não é?
Speaker: E aquilo para mim era... Já para não falar que tu estavas em pontas, ou quase pontas.
Speaker: Portanto, acho que essa coisa de conseguir aguentar não era só metafórica, era mesmo literal, porque tu estavas quase em pontas.
Speaker: De pés, de pés, em pontas.
Speaker: Essa parte não me lembro muito, muito, muito bem.
Speaker: fazias uma coisa mesmo engraçada quase como no lago do Xisne o passo de balé clássico do lado de tu estavas a fazer uma coisa eu tenho essa imagem perfeitamente na minha memória mas é que às vezes eu tenho memórias muito precisas do que estava a sentir
Speaker: em cada momento dos espetáculos que eu fiz mas não exatamente o que estava a fazer quase como se o corpo fosse o corpo vai sozinho e só estou mesmo focada na emoção claro que temos que ter consciência do que está a passar para fora como é óbvio mas depois disso já estar muito trabalhado ou muito marcado é só a emoção o corpo vai sozinho como diz a Maria João agora é curtir agora é curtir sim sim sim
Speaker: A Maria Joia deve dizer muito mais gente Sim, muitas vezes antes de começarmos o espetáculo dizem boa viagem Sim, sim Então E depois Como é que tu chegaste a Portanto, chegaste a atriz E como é que tem sido agora a viagem De ser atriz, desde o momento em que decidiste Agora vou ser atriz, inscrevi-me no conservatório Até agora
Speaker: Com momentos melhores, os outros não tanto Mas se há uma coisa que eu não questiono
Speaker: É a minha vocação.
Speaker: Eu sou muito insegura em muitas coisas, em muitos aspectos da vida, nas coisas mais simples, mas acho que é mesmo das poucas coisas que eu nunca duvidei.
Speaker: E então isso faz-me ter resiliência.
Speaker: E porquê?
Speaker: Porque eu sei que seria profundamente infeliz se estivesse a fazer outra coisa.
Speaker: Outra coisa.
Speaker: Seria mesmo duro.
Speaker: Olha, o que é que tu te vias a fazer?
Speaker: Está bem, está aí com aquela pergunta.
Speaker: Se eu não fosse atriz, o que é que tu serias?
Speaker: Eu acho que se não fosse atriz... Arqueóloga, talvez.
Speaker: Mas... Sim, e não seria profundamente infeliz, talvez.
Speaker: Não seria muito feliz, mas não seria infeliz, infeliz.
Speaker: Mas espera, a atriz com qualquer lugar é psicanalista.
Speaker: Vamos já arranjar aqui uma alternativa.
Speaker: Como é que querias?
Speaker: Sim, se calhar se eu fosse psicanalista, eu acho que sim.
Speaker: Também tem jeito.
Speaker: Também tem jeito para ser psicanalista.
Speaker: Talvez.
Speaker: Sim.
Speaker: Acho que sim.
Speaker: Também vem de um lugar da empatia e de escutar o outro e de pensar o outro e de não julgar o outro.
Speaker: E ter vontade de estar com o outro.
Speaker: Exatamente.
Speaker: A Patrícia, tu uma vez, lá há um podcast em que tu dizes o que é que tu gostavas de ser e agora tu vais ficar...
Speaker: profundamente magoada comigo por eu não me lembrar mas eu acho que eu sei que tu gostavas de ser realizadora eu sei que tu gostavas de ser realizadora mas isso vai acontecer mas o que é que nós falamos de um podcast que tu disseste se não fosse psicanalista era quando era pequenina queria ser atriz mas isso eram as crianças todas mas ao contrário mas há uma profissão específica mas eu não me lembro que tu dizer se não fosse psicanalista queria ser
Speaker: Era realizadora.
Speaker: Era realizadora, acho que.
Speaker: Ela diz que eu não posso ser a melhor fotógrafa de Portugal.
Speaker: Eu não disse que tu não podias.
Speaker: Chama-se projeção.
Speaker: O que a Patrícia acabou de fazer, que é pôr no outro aquilo que ela está a sentir.
Speaker: Eu disse, foi, a Patrícia quer ser a melhor fotógrafa.
Speaker: A Patrícia já é a melhor psicanalista.
Speaker: E quer ser a melhor fotógrafa.
Speaker: Olha, mas há uma frase que tu estás a dizer várias vezes e só me faz namorar, a minha avó tinha uma amiga que era assim uma senhora especial, complicada, e a minha avó, para dizer como é que ela era, dizia assim, que esta amiga lhe dizia, a minha avó tinha assim um desejo, alguma coisa ou qualquer, e esta amiga dizia-lhe, só podias fazer isso se fosses outra.
Speaker: Estás a ver como é que era o lugar completamente ao contrário Sim, mas isso Mas ao mesmo tempo também este desdobrar de possibilidades que tu puseste tão bem, não é?
Speaker: Os constrangimentos e a maneira como nós podemos ir criando esta hipótese de existir nestes outros, não é?
Speaker: Acho brilhante E pensar que me faz isso desde pequenina Acho brilhante Mas é por posito disto que a Patrícia está a dizer Deixa-me perguntar por isto Se não feito assim dá uma mal-lhesuza Claro
Speaker: Mas isto que a Patrícia está agora por curiosidade, porque tu candidataste, conseguiste e depois é que comunicaste.
Speaker: Isto que a Patrícia está a dizer.
Speaker: Eu disse que ia fazer, mas disse, olha, é mais pela graça.
Speaker: Pois.
Speaker: Mas tu, nesse período de tempo em que dizias que gostavas de ser atriz, isto aconteceu-te?
Speaker: O que a Patrícia está a dizer?
Speaker: Tentaram-te dissuadir de alguma forma, a dizer que não era uma coisa para ti?
Speaker: Não, mas mas queriam muito que eu tivesse estabilidade financeira.
Speaker: E na altura, quando eu terminei a primeira licenciatura, havia a possibilidade de ter logo trabalho, porque havia, é a minha primeira licenciatura, podíamos ser programadores culturais e não sei o que, e na altura não havia muita gente com formação nessa área e facilmente eu teria trabalho.
Speaker: Mas também quando eles souberam os resultados, foi muito fácil.
Speaker: Sim.
Speaker: Sim.
Speaker: Sim.
Speaker: Embora Pronto, as pessoas de vez Coitadinha, pronto Coitadinha Ele lá foi no fogo Para o passar mal Eu lembro-me que eu tenho um primo O Luís Carlos Já esteve aqui E o Luís Carlos adorava a música no coração Tanto que foi a banda sonora Foi a primeira banda sonora que tivemos neste podcast E única Até agora a tua é a segunda
Speaker: E ele escolheu e ele adorava ele Então era muito engraçado que ele ia assim lá para um quintal Tínhamos uma vizinha e tinha um jardim de nome Ele ia para lá, corria, corria a fazer as cenas da Frói Lá em Maria E depois, eu era muito Tenho mais de nove anos do que ele Mas na altura, eu falei, aquela altura em que quase não se notava Nove anos é muito, mas eu acho que aquele pouco se notava Em que eu dizia, olha, nós um dia vamos para o Hollywood os dois
Speaker: e vamos ter o nosso nome no passeio da fama.
Speaker: E a minha mãe dizia, oh meninos, isso não é para vocês.
Speaker: Estás a ver?
Speaker: Não, é porque a minha mãe muitas vezes fazia a brincadeira de... Não, aliás, as histórias que ela criou...
Speaker: Com nós os dois a chegarmos a Hollywood E muitas vezes Isto até era conversa às vezes nas refeições Quando eles chegaram os dois a Hollywood Mas de facto E era muito engraçado e reconheço ainda hoje Me farto de rir com isso quando tenho estas memórias Mas Havia uma mensagem Subjacente Que era quase isso não é para vocês Sim E se calhar não é
Speaker: Também quer dizer, quer ter o nome da chão para ser pisado Mas, ou seja, neste a situação que eu disse, doutora, era muito melhor O que?
Speaker: O que a minha mãe... O que é para Hollywood, que é longíssimo, mas chatece o outro E agora estávamos a querer fugir de lá
Speaker: Já estávamos aqui a tentar fazer isso em mim independente em Portugal.
Speaker: Mas, de facto, há mensagens implícitas em algumas coisas que são quase inócuas, mas que de inócuo não têm nada.
Speaker: E estava a perguntar se isto tudo acontecia, porque acho que depois a luta tem que ser maior quando isto acontece.
Speaker: Sim.
Speaker: Porque é uma luta de não só aquilo que eu quero, como lutar contra...
Speaker: Qualquer coisa muito intrínseca Que é se calhar eu não sou isto Mas eu queria muito, portanto tenho que ir à luta E estás sempre numa luta permanente Mas pronto, fizeste-te uma bela atriz Muito obrigada E pronto Agora, diz-me É difícil ser atriz em Portugal Não é, Su?
Speaker: É muito bom É difícil Mas acho que em qualquer profissão Porque
Speaker: Porque as coisas não são... Porque nós crescemos a acreditar que as coisas são justas e que na meritocracia e que se tu fizeres bem e fores trabalhadora e fores empenhada e fores talentosa, as coisas vão ter que acontecer de determinada forma.
Speaker: E isso não é assim.
Speaker: E está aqui imensos fatores em causa.
Speaker: E...
Speaker: E as coisas não funcionam assim.
Speaker: E quando tu constatas isso, tens que ter força para perceber.
Speaker: Eu aguento isto ou não?
Speaker: E realmente o que me levou sempre a não desistir foi o facto de eu acreditar que eu sei fazer isto.
Speaker: E gosto.
Speaker: E não sei viver sem isto.
Speaker: Exato.
Speaker: É o que está acontecendo.
Speaker: É não poder não fazer.
Speaker: É não poder...
Speaker: Eu estava a perguntar-te isto Porque o costume Ou seja, a indústria Sim Desde a indústria Dos atores em Portugal É pequenina E os critérios são Os critérios pesados E é assim, é tudo bem E mesmo
Speaker: Sempre que temos um orçamento de Estado e que há esperança, que haja alguém que vá perceber que é com a cultura e a grande parte da cultura passa pelo tudo que é teatro, cinema, de que...
Speaker: Temos a esperança que haja alguém com a maior visão de poder apostar mais nisso, porque isso de facto é que nos faz e que uma identidade e inclusivamente a capacidade de sobreviver a esta insuportabilidade nos dias de hoje estar vivo.
Speaker: Não acontece De repente há um 0,5 Há um 0,5 Já que o Ministério da Cultura Eu apanhei logo essa fase Por exemplo, já viste Na altura é surreal Sim, de repente é surreal Eu fui trabalhar para uma companhia Para o Bando, a seguir acontece Isso, as companhias Sim, foi onde eu gostei Sim
Speaker: E depois as companhias, aconteceu isso e as companhias começaram a trabalhar só com a prata da casa, pessoas que são atores, mas que fazem trabalho de produção, trabalho de escritório, então tiveram que mesmo repensar toda a estrutura.
Speaker: E eu, trabalho de escritório é que não está, é a petição.
Speaker: Não fui mesmo Talhada para a etária Susana Porque uma coisa é Tu de repente vais fazer uma festa em casa de um amigo Vestes a camisola e sou preciso Fazes desde o bolo Ao teatro, pões música Fazes os confetes Outra coisa é Aquilo que é a tua vida, aquilo que é o teu sustento Entre aquilo que tu gostas de fazer Mas aquilo que é o teu sustento É outra coisa, não é?
Speaker: E quando tens que trabalhar para teres trabalho, não é?
Speaker: Sim.
Speaker: Porque é o que acontece com isso, não é?
Speaker: Quando a prata da casa tem que fazer tudo, eu tenho que trabalhar para ter trabalho.
Speaker: Sim.
Speaker: Isto é, não é, Patrícia?
Speaker: Sim, sim.
Speaker: Isto é... E é perverso.
Speaker: É perverso, sim, sou.
Speaker: É perverso.
Speaker: Mas ia-vos dizer, desculpa, não me lembro.
Speaker: Ai, desculpa, não faz mal.
Speaker: Mas sim, mas depois realmente eu tendo sempre uma alegria qualquer que me faz não... Imagina, eu posso estar triste um dia ou... Mas depois, pronto.
Speaker: Sou muito resiliente.
Speaker: Sou muito resiliente.
Speaker: É muito dramática, mas muito resiliente.
Speaker: Ah...
Speaker: E depois há qualquer coisa que não sei, que é uma entidade divina.
Speaker: Que é isso, que é outro problema que eu tenho, que eu não consigo ser regrada, não consigo iniciar um projeto, ser eu a concretizar um projeto e ser... Não consigo.
Speaker: Isto enerva-me profundamente e tenho muita inveja das pessoas assim.
Speaker: eu não, eu tenho que me vir uma coisa não sei de onde um Dionísio um chamamento que me impela fazer uma coisa mas que não é quando eu quero é quando ele quer e isto irrita-me muito mas depois vem e então quando vem eu tenho que fazer e tenho que ser naquele momento e não pode esperar e tem de ser pronto, depois tem assim uns rasgos é assim
Speaker: Olha, e tu com a Marina Mota, como é?
Speaker: Depois muita gente esqueceu a morcida com a Marina Mota, não é?
Speaker: Sim, muita gente Também crescia vê-la E adorava Adorava E há pouco tempo ouvi a entrevista dela Para o Bernardo Ajudem-me o Bernardo Bernardo, Bernardo, Bernardo, Bernardo Obrigada, ouvi a entrevista dela Para o Bernardo Mendonça A conversa que ela teve com ele Sim senhor Ouves aquilo e pensas Olha, não estamos sozinhos É mesmo muito fixe
Speaker: Muito bem.
Speaker: Il Postino.
Speaker: O disco escolhido pela nossa querida Susana Blaser.
Speaker: Il Postino, que é a banda sonora oficial do carteiro de Pablo Neruda.
Speaker: Então, Susana Blaser.
Speaker: Eu fiquei mesmo muito surpreendida.
Speaker: Por que?
Speaker: Depois comuniquei à Patrícia.
Speaker: Olha lá o que a Susana escolheu.
Speaker: Pronto, e ficámos.
Speaker: Eu não estava nada a esperar.
Speaker: Mas vamos, se vocês quiserem que eu explique.
Speaker: Eu vivia lá no Carteixo, em Valdepeu.
Speaker: E os momentos culturais que eu tinha eram vir ao domingo com os meus pais ao cinema, na Lisboa.
Speaker: E depois, claro, eu era miúda e tinha que ir ver os filmes dos crescidos.
Speaker: E apanhava grandes estupadas, não é?
Speaker: Mas pronto.
Speaker: E uns não percebia nada.
Speaker: Ia ver filmes com metáforas e não sei o quê.
Speaker: Eu lembro de estar a ver um filme iraniano com a minha mãe.
Speaker: Mas porquê é que estamos a ver um filme com um pau aqui na água, no Ribeiro, que vai por ali?
Speaker: Pronto, estava-me transtornada porque queria ver outras coisas e pronto.
Speaker: Mas tinha que ficar na sala com eles.
Speaker: Então fui ver o carteiro de palmeiro de Odónimas.
Speaker: Tinha eu 10 anos.
Speaker: É sério?
Speaker: Pois.
Speaker: Lá está.
Speaker: E fiquei maravilhada e percebi perfeitamente.
Speaker: Então ali tive a confirmação de que não é isto que eu quero fazer.
Speaker: Não há mais nada que eu queira fazer.
Speaker: Vai ser isto.
Speaker: Porque aquilo emocionou-me.
Speaker: Levou-me a um sítio...
Speaker: Não tenho palavras.
Speaker: Aquilo conseguiu transcrever muito bem, traduzir as minhas dores muito bem.
Speaker: E mexeu muito comigo.
Speaker: E foi aí que eu tive a certeza que o meu caminho era por aqui.
Speaker: Queria.
Speaker: Ok.
Speaker: Não acho incrível?
Speaker: Eu não tinha pensado no quê, Patrícia?
Speaker: Dessa raiz de impacto.
Speaker: Por identificação.
Speaker: E eu pensei que alguém que me percebe...
Speaker: Não, tu pensei, este realizador ou esta pessoa que consegue me perceber e consegue traduzir aquilo que eu sinto.
Speaker: É uma interlocutora, estou a sério, não é?
Speaker: E foi um alívio, uma dor ao mesmo tempo, grande, porque eu tenho pavor da morte e sempre tive.
Speaker: Mas ao mesmo tempo pensei Ai, alguém Não sou só eu Ou esta dor que está aqui passada Esta dor que estão aqui a passar Não é só minha Isto é universal Ou pelo menos chega a mais alguém E foi um alívio, pronto Não é espetacular Porque tem o lugar da voz, não é?
Speaker: Sim Era bonito isso, Ana
Speaker: Assim fica assim, estou atrapalhando Foi... Oh, Senna Blasar, tu bates-me, se eu preciso Que eu até gostava que tu me batesses, não é?
Speaker: Propostas aqui Mas olha lá Mas tu lembras-te qual era a tua dor com esta idade?
Speaker: Dez anos?
Speaker: Eu já tinha muitas inquietações Muitas angústias de tentar perceber o mundo Tentar...
Speaker: Tentar traduzir as coisas, ressignificar.
Speaker: Ou seja, pondo em palavras.
Speaker: E o filme transmite muito isso, não é?
Speaker: Como é que se faz?
Speaker: Como é que se faz?
Speaker: E depois a questão da morte... Esta música que eu disse, eu gosto muito do álbum todo, mas esta música é quando o carteiro está a gravar os sons da ilha e ao mesmo tempo estão imagens a passar do Pablo Neruda a morrer.
Speaker: E aquilo...
Speaker: sublinhou a ideia que eu já tinha da nossa insignificância e de que nós não conseguimos ter controle sobre nada, não sabemos nada, somos formigas.
Speaker: Somos formigas, não temos domínio sobre nada, andamos aqui, mas pronto.
Speaker: E aquilo foi muito bonito para mim.
Speaker: Ainda que sem formigas...
Speaker: Exatamente Patrícia e tu, tu gostas Desculpa disso Porque começámos a falar do disco E o que é que tu também sentiste com este disco?
Speaker: Eu estava até a dizer à Ana Teresa Sabes que eu tenho este nome gravado E a maneira como era dito Que era o Beatriz Serroso Ela é tão bonita Ela é tão bonita Ficou-me sempre na carinha É deste filme, não é?
Speaker: E ela até ficou com o filme
Speaker: Porque eu tinha, sabes, a minha filha chama-se Beatriz E eu acho que isso ficou inscrito Tem esta coisa do Beatriz Eu até achava que era do A Vida e a Bela Porque ela também é Beatriz Mas a Rússia é Eu lembro-me ter visto o filme Também, é um bocadinho mais velho
Speaker: Mas quase nada.
Speaker: Não, agora sim.
Speaker: Fora de brinco.
Speaker: Mas lembro-te de ter visto e de meter... Há uma fragilidade no filme.
Speaker: Eu acho que é isso que estás a dizer.
Speaker: Aquilo me marcou imenso.
Speaker: É isso.
Speaker: Tinha simultaneamente esse lugar da relação entre eles os dois que era maravilhosa.
Speaker: Desse homem que também lhe mostrava qualquer coisa.
Speaker: E aquela partilha mútua que ele também lhe mostrou tanto outra vez.
Speaker: Que é esse o pedaico.
Speaker: Que ele também o regê no mesmo.
Speaker: É uma palavra no R. Sim.
Speaker: A região nasceu?
Speaker: Sim, regenera ali partes que parecem que estavam mortas também pela questão política.
Speaker: Mas lembro-me dessa sensação de ver isto e da contemplação.
Speaker: Aquela ideia da ilha que para mim também tem sempre um lugar.
Speaker: Até essa coisa de imensidão, do horizonte, que eu acho que está muito presente.
Speaker: Mas a fragilidade e essa coisa da finitude que tu dizes.
Speaker: Eu não me lembrava...
Speaker: É que ele morria no filme Porque só me lembrava de ter ficado tristíssima Quando a minha mãe me disse Depois temos visto o filme E adorámos e falámos do filme E depois a minha mãe me disse que ele tinha morrido O ator, não é?
Speaker: E aquilo foi passado pouco tempo E cheguei imenso comigo Uma semana depois Acho que ele já estava doente E nota-se Pois, e aquela fragilidade É que eu adoro É isso que eu adoro É fragilidade
Speaker: Quando vemos as... É isso, a arte é mostrar a fragilidade e que somos todos... É tão bonito.
Speaker: E tu ficas ao mesmo tempo aliviado, não é?
Speaker: A partir daí tu ficas... É de uma beleza.
Speaker: E ao mesmo tempo leva-te lá a mesma linha do horizonte.
Speaker: Sim.
Speaker: Aquele sítio.
Speaker: Sim.
Speaker: Mas é isso, aquela fragilidade que fica é engraçada Pois quando tu vês que ele morreu mesmo E se tu talvez já estava doente Eu acho que ainda há mais qualquer coisa Que tu já tinhas sentido dessa fragilidade Que ainda fica mais Que ainda fica mais nascido E depois há uma música que eu adoro Do Moustakie Quer dizer, não sei se é só de Moustakie Ele é cantar, deve ser mesmo dele É o Le Jean Factor É morte Eu não sei falar francês Nem gostava muito, nem sei treinar primeiro Tu já falaste nisso?
Speaker: Não, é o Factor
Speaker: Não sei se diz assim, pá, Júlio.
Speaker: Não sei.
Speaker: Mas é o carteiro.
Speaker: A letra é o jovem carteiro morreu, ele não tinha sequer 17 anos e agora o amor já não pode viajar, porque já não há quem o possa levar.
Speaker: E esta música.
Speaker: Havia uma qualquer coisa de sobreposição interna entre estas duas, como se também simultaneamente esta coisa...
Speaker: Como é que tu, que eu acho que no filme fica, não é?
Speaker: E essa coisa que tu está a dizer lindíssima, dele gravar os sons, não é?
Speaker: Para ser aquela, porque há qualquer coisa que passa para depois, não é?
Speaker: Que ele guarda, que é esse lugar.
Speaker: Mas esta sensação, não é?
Speaker: Que acontece se o cartão morre.
Speaker: Que acontece ao amor quando o cartão morre.
Speaker: Sim, sim.
Speaker: E agora eu estou aqui, não tinha realmente pensado sobre isto, mas acho que senti isto.
Speaker: Agora voltando atrás.
Speaker: Hum...
Speaker: Na minha cabeça eu era o carteiro.
Speaker: Sim.
Speaker: Que venho de um meio pequeno, que se calhar não posso ascender, não posso ter acesso a um determinado meio.
Speaker: E aquilo era de uma beleza imensa para mim Sim Porque de repente podes Porque se há coisa incrível no filme é esse É um lugar que ele, até mesmo do ponto de vista É tudo ao mesmo tempo, da singularidade E político, que ele passa a ter um lugar Sim Mas isto que era aqui que eu ia tocar Agora Isto que a Suzana acabou de dizer Até porque também venho de uma cidade pequena Que é O que eu gosto Mesmo neste filme É
Speaker: É Isto que a Suzana tem estado a dizer Desta vulnerabilidade dele Desta fragilidade dele Em que depois se dá o encontro Porque ele está Numa vila Uma aldeia pescatória
Speaker: muito pequena em que de facto ele sente ele está muito perdido ele não pertence a Lima mas também não sabe como sair daí o que tu dizias ainda há bocado eu queria ser atriz, eu não sabia era como chegar à atriz e ele sabia que não queria ser aquilo só mas também não sabia como fazer e também ninguém lhe dizia como por exemplo há uma cena que o pai lhe diz já tens idade, fazes-te a vida qualquer coisa deste género
Speaker: Pois está bem, mas como é que nós nos fazemos à vida quando não sabemos bem como nos fazer à vida e quando a única coisa que nos acompanha é a solidão?
Speaker: E eu acho que, independentemente de tudo o que acontece neste filme, eu quando ouço este disco sinto mesmo uma solidão acompanhada, que é a solidão a fazer companhia.
Speaker: Exatamente.
Speaker: É isso?
Speaker: Está cheia, é uma solidão cheia E depois é espetacular Porque dá-se de facto o encontro E começa ali uma relação de amizade espetacular Que depois leva para tudo Esta relação de amizade espetacular Leva para tudo E é por isso que eu também gosto deste disco E é a sensação que eu tenho Quando ouço este disco Que é...
Speaker: Estás dentro da solidão, mas ela está-te a fazer companhia.
Speaker: Exatamente.
Speaker: Pronto, e tu escolheste uma canção que é... Ai, pai, agora o italiano... Também não sou muito forte.
Speaker: Ah, eu não sei.
Speaker: A suoni dell'isola.
Speaker: Ah, estás a ver?
Speaker: Estás bem-lhe diz outra vez.
Speaker: Não, não, não.
Speaker: Não, não, não.
Speaker: Não pode ser.
Speaker: Não me envergonhe para me dizer Não, estamos te envenenhando Pois sou eu, ela diz isso Não vou dizer, pelo amor de Deus Ana Blaser, então Como se diz malenteste Não, não, eu vou dizer E tu vais-me corrigir Sim, não, também não sei corrigir Isso é uma delícia, olá É isso Não, diz lá outra vez Foram 13
Speaker: E suoni dell'Isola.
Speaker: É isso.
Speaker: Muito bom.
Speaker: O que é que tu gostas desta música?
Speaker: Exatamente, porque é a música que...
Speaker: daquela cena que eu estava a dizer.
Speaker: Ele está a captar e diz os sons da ilha e vai buscando cada coisa, o som do mar e depois como tem as imagens
Speaker: também da morte do carteiro e a inocência dele a achar que aquilo um dia vai chegar ao carteiro mas tu a saberes de antemão que aquilo nunca vai chegar e o facto lá está, não controlares nada e sabes que coitadinha daquela pessoa a fazer aquilo com tanto carinho para o outro e aquilo nunca lhe vai chegar dá-me uma profunda tristeza pronto, e identifico-me muito e penso coitadinha de mim também não
Speaker: que não sei tanta coisa, que não sei o que me vai acontecer, quem vou perder.
Speaker: Você pode até lembrar do fim do filme.
Speaker: Estou lembrado.
Speaker: O fim já não... Eu lembro-me que ele morre e depois os sons.
Speaker: Há uma cassete que chega à mulher do carteiro, não sei se é cassete, com os sons daí, mas depois tem a informação de que ele já morreu.
Speaker: Ele nunca chega a receber aquilo.
Speaker: eu já não vejo o filme há muitos anos mas houve uma altura que passava a vida a ver o filme
Speaker: Olha, isto está-me... É porque é este sítio de solidão, desculpa.
Speaker: Isto dói muito.
Speaker: É, solidão.
Speaker: É o sítio onde nunca chegaste... Teve que ser o que já lá estava.
Speaker: Sim, exatamente.
Speaker: Então, e vai este sítio, sim, que eu acho que é mesmo doloroso, doloroso, doloroso, que até é o sítio que eu falava aqui na introdução, no saber dar e no saber receber.
Speaker: Essencialmente no saber receber Aquela coisa que tem que ser uma relação Porque no filme ele morre Então é quando tu estás a fazer isto em vida E o outro não recebe Não é?
Speaker: Ou seja, tu estás a dar coisas E o outro não consegue sequer decifrá-las Não recebe, por isso simplesmente não recebe
Speaker: É o oposto do carteiro Sim, mas percebes?
Speaker: Ou seja, é como quase se o filme funcionasse como uma metáfora Porque o filme usa a morte Isto que a Suta há a dizer O filme usou a morte
Speaker: para que uma coisa muito bonita e que o Lázaro, quando está a ver o filme, e agora se o vir duas vezes, já sabe que ele vai morrer, portanto, consegue antever que a mensagem não chega.
Speaker: E quando tu estás aqui à minha frente e a mensagem não chega... Não, mas quando tu vês a cena, já sabes que não vai chegar porque estás a ver a morte em simultâneo.
Speaker: Exatamente, exatamente.
Speaker: Mas pronto.
Speaker: Mas mesmo que é que fica muito mais de luz Sim, sim, sim, sim Exato, e mais presente até Mas agora quando tu estás a fazer isto No presente Com pessoas vivas E a mensagem não chega Não é?
Speaker: Não, porque esta solidão Já não me incomoda muito É porque não estás a ver a morte em simultâneo
Speaker: Está bem, mas tu estava a dizer que há uma solidão profunda E fica-se muito só Tanto que se fica na não-relação Que eu acho Fica-se na não-relação Que é um sítio de morte Onde não estás a ver a morte Esta finura realmente é maior ainda do que eu conheço Isto que a sua vontade é uma mistura incrível Porque o que fica eterno É esse lugar onde tu vês a morte ao mesmo tempo Caso contato não se inscreva Exato Se tu não ouvires não...
Speaker: Não interessa para nada Não interessa, fica Pois é, a dor existencial está lá no filme Está mesmo Está na banda Aipá, mas mesmo no filme Sim O filme começa, eu não me lembrava Ainda há bocado estive a ver só um bocadinho Pois confesso-vos que caí numa cesta de uma hora
Speaker: Mas eu ainda há bocado passei pelo filme E quando ele diz não há água Começa logo com não há água Não há água, pai Eu assim, ai, coisa E pensa logo, não é?
Speaker: A dor existencial vem logo assim Olha, então Vamos ouvir um bocadinho da Vamos ouvir um bocadinho da Vamos lá Vamos lá
Speaker: Vamos ouvir um bocadinho desta música, que a Susana Blaser vai dizer o nome.
Speaker: Não, outra vez, a roxa.
Speaker: Perfeita.
Speaker: Aqui.
Speaker: E Suoni da Lísola.
Speaker: Já cá voltamos.
Speaker: Olha, estou a dizer tudo.
Speaker: Não sei, mas fica tão...
Speaker: Estava aqui a pensar que isto de facto está tudo ligado, porque eu realmente, estava a falar desta cena, e eu realmente em vida estou sempre a ver a morte, de facto.
Speaker: Sempre.
Speaker: Não há nenhum momento, sobretudo um momento muito alegre ou muito bonito, em que eu não vejo o fim.
Speaker: Não estou já a imaginar que isto é muito catastrófico, eu sei.
Speaker: Não, não.
Speaker: Mas estou sempre a ver que isto não se vai repetir, que não se vai repetir, que nós vamos não estar cá.
Speaker: Ou seja, é um pouco estranho, porque o saber que existe a morte é o que confere alegria àquele momento, mas ao mesmo tempo essa alegria e a constatação da morte...
Speaker: dá-me tristeza e agora pensando bem se calhar por isso é que eu gosto muito de mexer no campo do absurdo e do tragicómico
Speaker: Agora que eu apanhei isto.
Speaker: Que é brincar-se exatamente com isso.
Speaker: Exatamente.
Speaker: Ou seja, é o sítio onde não se aguenta a finitude.
Speaker: Não aguentas e tens de transformá-la.
Speaker: E tu sabes, estás a senti-la permanentemente.
Speaker: Permanentemente.
Speaker: É o sítio que não se aguenta, então a gente tem que ir a este sítio.
Speaker: Então tens que recuar e ir para a comédia para conseguir suportá-la.
Speaker: Sim, sim, sim.
Speaker: É isto.
Speaker: Tenho dito.
Speaker: Muito bem.
Speaker: Muito bem.
Speaker: Porque é isto.
Speaker: Quando se perde a maior vista, deixas de ver a vida.
Speaker: É isto.
Speaker: É isto o lugar.
Speaker: Fala que disse.
Speaker: Eu só disse que eu falei.
Speaker: Sim, mas se eu fosse um misto, não mostrarás muito pouco.
Speaker: Eu não me lembrava.
Speaker: Isto agora é terapêutico para mim também.
Speaker: O bom da vida, não é?
Speaker: O bom dos encontros, que é a vida Tu gostavas isto, é trapérico Isso é o bom da vida, dos encontros Dos encontros da vida, é isso mesmo Porque me lembrei, outra coisa que associava imenso ao filme Que era o meu avô De quem eu não falo muito por acaso e de quem eu gostava muito Mas o pai da minha mãe, eu falo mais do outro avô
Speaker: mas este meu avô era este lugar, também era um homem, não é, estavas a dizer isso da aldeia, não sei o quê, também era um homem, de uma finura relacional incrível, da aldeia, não é?
Speaker: Foi imigrante Passou Espanha e não sei o que Assalto na altura Mas ao mesmo tempo transmitia-me Este lugar poético Ele escrevia poemas e cantava Tinha uma voz lindíssima Mas havia sempre uma disponibilidade Porque há um lugar aqui do carteiro De uma bondade implícita
Speaker: E havia o meu avô, ter uma disponibilidade que me desconcertava Não me culpabilizava, mas desconcertava-me pela fragilidade Eu lembro dele ter passado uma tarde inteira comigo e com a minha irmã Em Castelo Branco A aldeia era lá perto, que estava enorme, havia piscina Tínhamos um tanque daqueles que ele lavava, coitada, horas infinitamente Mas depois disse-lhe, vamos à piscina Então foi connosco Estive a tarde toda a apanhar sol, ele, sabe-se, mas se há a volta da piscina nunca mais me esqueci daquilo
Speaker: À volta da piscina, enquanto nós lá estávamos, não é?
Speaker: Mas com essa sensação que eu tinha que eu estava a usufruir, mas havia uma parte de mim que não conseguia largar a ideia de que ele estava ali.
Speaker: A tomar conta.
Speaker: Mas com aquele lugar de fragilidade imprícia.
Speaker: E lembro-me de ver este filho.
Speaker: E de sentir este lugar do meu avô, que de alguma maneira me custava também.
Speaker: É. De o sentir à mercê também desta vida, não é?
Speaker: Da vida que ele também tinha... Sim.
Speaker: Sim.
Speaker: Quer dizer, para ele era uma vida concretizada.
Speaker: Eu é que senti este sentido de fragilidade implícita.
Speaker: Que eu sinto isso praticamente com todos os... Com muita gente.
Speaker: Eu olho para muita gente e vejo ali lugares de fragilidade e de bondade.
Speaker: E aquilo realmente é... Fica suburbada com aquilo.
Speaker: Porque é mesmo bondade pura quando tu dizes a querida ser miúda, não é?
Speaker: É. É aquele lugar que está a mesmo entender, é mesmo aquele lugar da vida.
Speaker: É. Quando se está lá, não é?
Speaker: Sim.
Speaker: Sim.
Speaker: Que é o lugar que permite ouvir.
Speaker: Nem no senso é por ele, tem esta coisa E nós hoje em dia, cada vez mais Ficamos quase desconcertados Quando encontramos isto Exatamente, ficas a suburbar Ficas desconcertado Nem sabes o que fazeste Anda todas as duas uma Ou anda toda a gente a correr com mil horários Ou anda toda a gente numa omnipotência autocentrada De narcísica, não é?
Speaker: E de repente conhece alguém que se senta e diz assim Então mas diz-me lá e fica a ouvir Eu tenho disponibilidade para te ouvir para depois pensarmos e resolvermos isto de outra maneira E isto é espetacular Mas causa estranheza Mas é o lugar de muita leturidade Exatamente
Speaker: Portanto, que é o lugar onde, isto é que é espetacular, porque é assim, é o lugar onde a maturidade, onde há maturidade, porquê?
Speaker: Porque a maturidade aceita a fragilidade e aceita a vulnerabilidade.
Speaker: E a falha.
Speaker: E portanto, num mundo subvertido como temos hoje, isto é visto como o lugar mais incómodo.
Speaker: Mas no mundo onde existe esta evolução é o sítio exatamente onde se eu tiver a maturidade ou a vivência interna suficiente para suportar isto, então eu posso pôr na transparência e ao expor dos outros a minha vulnerabilidade e a minha maior fragilidade.
Speaker: E isto é a maturidade.
Speaker: Sim, sim.
Speaker: É, mas ainda mais eu acho que ainda existe aquele sítio que nós temos falado, que é que é pior.
Speaker: Cognitivamente é dito isso, não é?
Speaker: Como se te dissessem, estou a pensar eu, até mesmo o lugar da bondade, é houve que há perversão da maneira como se olha, mas aparecem as coisas vazias de corpo, estava a pensar naquilo que tu disseste no princípio, não é?
Speaker: Estás ali e desaparece o corpo, porque o corpo é implícito, não é?
Speaker: O sentir que faz o ser acontecer.
Speaker: mas aqui, nisto que nós temos assistido atualmente é como se fosse uma coisa de um hiperfoco cognitivo que te torna o corpo a única coisa que lá está é a missa do corpo é isso é isso bom, temos que tornar a obrigatória a brincar quer dizer, como se você vai a gente a ver o filme
Speaker: Mas não é só ver Lá está, era preciso a experiência Não, eu acho que temos que pôr toda a gente a andar Bicicleta Isso é a próxima Que é a nossa música Eu e a Patrícia Câmara Temos a mesma música favorita deste álbum Ah é?
Speaker: Que é In bicicleta Bicicleta Só bicicleta Podia ser bicicleta E sempre bicicleta
Speaker: Olha, nós estávamos a conversar e a Patrícia disse Olha, a minha favorita é a bicicleta e olha, também a minha E agora estamos queibus Já aconteceu, já aconteceu noutros Porque nós somos invejosas Porque não somos Estou a brincar contigo Se fôssemos invejosas eu diria Que horror, gostaste da bicicleta
Speaker: Ouviste a Blázara dizer tão mal, bicicleta, isto é que é inveja, não é?
Speaker: Ouviste a Blázara dizer tão mal, tu gostas de quando ela diz em bicicleta?
Speaker: Vê-se mesmo que é do cartaz.
Speaker: Há um sotaque específico do cartaz Que é muito engraçado Como ao Alentejano Mas são parecidos Sim, mas há umas coisas que às vezes faço Porque o sotaque da Ponte Sobre Roça É uma Alentejana Mas às vezes tem uma coisa Que é muito engraçada Não estou a lembrar de nenhuma expressão
Speaker: Mas há assim umas expressões que tu às vezes usas Que é mesmo do cartaz É o melhor É como expressa se calhar melhor, não Pois Não, é verdade É como saem as coisas Mais calma Há expressões dali Que não consigo Uma ideia que eu quero passar Que só consigo passar com as expressões dali Houve uma coisa que me está a acontecer
Speaker: Eu toda a vida vivi no Alentejo e vim para Lisboa, cheguei a Lisboa e apanho facilmente os taxas.
Speaker: Eu não faço isto com esforço.
Speaker: Chego a Lisboa e pego-se.
Speaker: Até porque é assim, nós falamos uma lentejante corrida, uma lentejante corrida, estamos às vezes a dizer mesmo mal as coisas.
Speaker: Dizemos mal as coisas.
Speaker: Pronto, agora, de repente, eu tenho, cresci e vivi, olha, acho que já vivi mais tempo em Lisboa do Alentejo.
Speaker: Já, de certeza que já viveste.
Speaker: E cada vez estou mais alentejana, porque toda a gente me tem dito.
Speaker: Olha lá, mas tu estás com um sotaque, é verdade.
Speaker: E é verdade.
Speaker: É verdade.
Speaker: Eu estou cada vez mais alentejana e vivo há mais tempo em Lisboa do que no Alentejo.
Speaker: E é incrível, pá, há mesmo coisas da identidade que não dá hipótese.
Speaker: Nenhuma, não há.
Speaker: E às vezes sinto, quando estou a dizer as coisas, mesmo cá dentro, saem tudo com sotaque ribatejano.
Speaker: Tu também sentes isso?
Speaker: Sim, é isso que estou a dizer.
Speaker: Eu expresso-me muito melhor com sotaque ribatejano.
Speaker: Aquelas coisas mesmo viscerais têm que ser... Faz lá só um bocadinho.
Speaker: Como é que é isso?
Speaker: Também não falo o meu pai e a minha mãe, não é?
Speaker: Mas...
Speaker: É isso!
Speaker: É tudo assim, estás a ver?
Speaker: E essa volta que eu dei?
Speaker: Então, amiga, estás boa!
Speaker: Isso é mesmo cartaz, sim.
Speaker: É. Mas é como também, por exemplo, eu nunca conseguiria representar, mas isto já não tem a ver com os taques, mas agora estamos a falar de áreas geográficas, eu nunca conseguiria.
Speaker: Eu às vezes pergunto, ah, eu não gostava de ter uma carreira internacional.
Speaker: Para quê?
Speaker: Eu não sei como é que aquelas cabeças pensam, não sei como é que aquela...
Speaker: Como é que determinada cultura pensa?
Speaker: Eu não cresci ali, eu não nasci ali, aquilo não está em mim.
Speaker: Eu não queria fazer aquilo com verdade.
Speaker: Olha, eu gostei tanto de ouvir isso.
Speaker: Do para quê?
Speaker: Não achas lindo?
Speaker: Não, mas é que é mesmo verdade.
Speaker: Esta ideia implícita também que nós descobrimos agora na teatizia, esta ideia do escalar, não é?
Speaker: Não é?
Speaker: Era o que eu te digo, me perguntavam, fazes...
Speaker: Agora o que é que vais fazer mais para escalar?
Speaker: Já és presente não sei o que, já és não sei o que mais e agora como é que escalas?
Speaker: Não, é que eu nunca escalar, eu até tenho de qualquer escala.
Speaker: Para quê?
Speaker: Sim, para quê?
Speaker: Eu não vou acrescentar nada ali, por fazer o quê?
Speaker: Sempre de imigrante?
Speaker: Para onde?
Speaker: Não, é o quê?
Speaker: Fazer sempre de imigrante?
Speaker: Nunca vou ser bilíngue, nunca vou ser... Mas há uma coisa, há uma escalada interna que eu aprecio.
Speaker: É outra coisa, é na traição É por isso que eu estou a pegar na outra coisa Há uma salada interna que é fixe Que é tu perceberes que já estiveste num lugar E depois vais a outro E depois vais a outro E mesmo nessa escalada interna Sabes que há a linha do horizonte Sim, sim E por isso eu acho espetacular
Speaker: Podemos sempre dizer, neste momento estou a escalar do ventrículo para a aurícula.
Speaker: Não, como é que é?
Speaker: A pessoa também quer dizer, matavas-te se não tivesses essa necessidade.
Speaker: Não te matavas a este lugar, pai, a este lugar em que não se só sobrevive.
Speaker: Tu não consegues evoluir como ser humano, só consegues estar numa repetição de padrão.
Speaker: É muito triste, estás à espera da morte E estás entediada Entediada e depois precisas de mil coisas Para te desentediar Não sabes o que é o amor Não sabes o que é a paz Não sabes nada Só estás a repetir Com a cognição, estou a adorar Sim A cognição Mas depois não bate certo Não é?
Speaker: Mas depois não bate certo Não é?
Speaker: Mas depois não bate certo Não, agora
Speaker: Vamos ouvir.
Speaker: Queres já ouvir um bocadinho de bicicleta ou queres conversar já sobre ela?
Speaker: Ouvimos.
Speaker: Então lá, vamos lá.
Speaker: Bicicleta.
Speaker: In bicicleta.
Speaker: Patrícia Câmara.
Speaker: Onde é que tu vais de bicicleta?
Speaker: Diz-me lá.
Speaker: Onde é que eu vou de bicicleta?
Speaker: Lá está.
Speaker: Estás a ver?
Speaker: Eu nem estava a associar.
Speaker: Porquê que me escolhi desta música?
Speaker: Mas realmente tem a ligação com o meu avô que andava de bicicleta lá no Monte Fidel, que era na Saldeiro.
Speaker: Por todo lado.
Speaker: E, portanto, acho que deve ser esta associação interna.
Speaker: Mas também... Eu queria me lembrar.
Speaker: Andei à procura, mas não encontrei o trecho.
Speaker: Há um livro da... Ele diz Jorge, muito pequenino.
Speaker: Que é supostamente para crianças.
Speaker: que se chama a instrumentalina isto é muito engraçado hoje é o meu exercício terapêutico mas é uma bicicleta a instrumentalina é uma bicicleta e é a história da viagem que aquela bicicleta proporcionou à protagonista que é uma coisa pequenina mas que é realmente a relação com o avô agora é que estou pensando nisso
Speaker: Mas ela descreve qualquer coisa como diz... A frase principal que me fica é a qual que eu acho que é isto, que é esta pureza que nós temos estado a falar da capacidade de entregar.
Speaker: Porque a ideia é nunca sabes o que é que uma viagem vai trazer ao íntimo do coração.
Speaker: Quando vais na viagem é só por ir.
Speaker: Portanto, a bicicleta também é muito este sítio do facto do cartão.
Speaker: Como é que tu...
Speaker: Como é que tu consegues fazer esta entrega?
Speaker: Fazer a ajuda-me, não é a entrega?
Speaker: Quer dizer, o transporte.
Speaker: Lá para uma palavra certa.
Speaker: O espaço transitivo, na nossa logagem mais psicanalítica, não é?
Speaker: Mas como é que tu podes ser, de alguma maneira, o cartão dessa tal...
Speaker: Dessa tal viagem.
Speaker: Pronto.
Speaker: Foi por isso que a bicicleta para mim é esse lugar dessa viagem.
Speaker: É engraçado que tu me fizeste a pergunta, a Susana, no princípio, não é?
Speaker: Ou foste tu que me disseste da viagem, da entrada no teatro?
Speaker: Como é que tens feito a viagem?
Speaker: Não foste tu.
Speaker: Já me calé.
Speaker: Não, não.
Speaker: E foi por isso que tu escolheste?
Speaker: Não sabia que tinha sido.
Speaker: Quando escolhi foi mesmo porque gostei muito.
Speaker: Fez-me um eco interno imediato, ouvi, não é?
Speaker: E aquela que me fez imediatamente um eco maior e que de alguma maneira era a que eu guardava dentro era esta.
Speaker: Mas agora, em retrospectiva, depois do que temos estado a falar, lembrei-me imediatamente desta coisa que estava a dizer, quer seja da Lídia Jorge, quer seja da música do Moustaki.
Speaker: Há uma coisa muito engraçada que é, sem graça nenhuma, isto é força de expressão, que é o encontro de instrumentos nesta... De instrumentos ali, na gigante, não é?
Speaker: Pronto.
Speaker: E então, este encontro de instrumentos é espetacular, porque aquilo que eu estava a dizer na introdução do acordeon, que faz imensa companhia e que nos põe a fabular sobre os passeios, não é?
Speaker: Isto é um clarinete espetacular e tão oboé.
Speaker: Uhum.
Speaker: que é mesmo espetacular e parece que estão todos a conversar uns com os outros e é espetacular e essa conversa de instrumentos uns com os outros dá-nos a sensação de movimento parece que é a natureza a conversar é a viagem é o objeto a fazer a função e a função a fazer o objeto está a perceber?
Speaker: estou brindando no mar
Speaker: Pronto, é exatamente isto que eu acabei de dizer que faz o que há de tão bonito no filme e que acho que o álbum transparece, que é a relação de amizade
Speaker: É a disponibilidade do Pablo Neiruda em eu se calhar vou ajudar este tipo e é aquele tipo também o que é que ele tem para me dar.
Speaker: Portanto, há um dar e receber que leva a uma amizade que depois dessa amizade se transforma numa... Mas eu acho que não espera nada.
Speaker: Não espera nada.
Speaker: É muito bonita.
Speaker: Isso é que é muito emocionante.
Speaker: Mas que depois leva a um sítio brutal que é...
Speaker: O rapaz que é ele depois a ver uma relação de amor a partir daí.
Speaker: Sim, sim, sim.
Speaker: Ou seja, há uma relação de amor e de amizade que se cria de um sítio muito... Ele faz uma viagem sem sair da ilha, não é?
Speaker: Sim.
Speaker: Pois é, carteiro de um homem que é o Paulo, Pablo Neruda, que está a receber sempre correspondência a toda a hora.
Speaker: E de repente...
Speaker: um e outro permitem-se a partilhar qualquer coisa e a aprender, porque o Pablo Neruda tem muito que lhe ensinar e o outro também tem muito que lhe ensinar, e de repente há uma relação de amor que nasce com a Beatrice Rosso, que é linda de morrer.
Speaker: E depois vocês vejam como isto é exponencial.
Speaker: Se o carteiro fosse Narcísio, é omnipotente.
Speaker: Não aprendia nada com o Pablo Neruda.
Speaker: Não era carteira.
Speaker: Nem era carteira.
Speaker: Tinha olhado para aquele... Era o que havia de faltar.
Speaker: Dizia-lhe, era o que havia de faltar.
Speaker: Agora andar aí e entregar coisas aos outros.
Speaker: Não, eu fui feito, foi para dominar esta cidade, esta aldeia.
Speaker: Eu vou ser o rei da pesca.
Speaker: Um tipo que não se podava buscar.
Speaker: Percebem?
Speaker: E assim se fica...
Speaker: E assim se fica na porcaria Pronto, e eu acho que é preciso saber E é preciso ter em conta Porque é neste sítio que estamos Não é?
Speaker: É neste sítio que estamos Cada vez que ligamos a televisão Cada vez que fomos ao Instagram Só não estamos neste sítio quando estamos assim Sem Instagram, sem nada Em que tirámos um tempo para conversar Tu gostas desta canção Canção não, não é canção Porque é mesmo só melodia desta música Su
Speaker: Eu gosto de todas, é muito difícil escolher.
Speaker: Escolhi aquela porque me lembro daquele momento em concreto do filme foi...
Speaker: Mas gosto de todas E sim, é como se eu Nesta música, quando ouço esta música É como se Como se Essa música fosse A cabeça dele a pensar É assim que se sentes E é muito vivo Ou isso, ou a natureza Não sei, não sei É Ele nos seus devaneios, nas viagens
Speaker: pensar na vida, pensar nas coisas.
Speaker: E depois acho incrível o quão ele começa a pensar mais cada vez que está em relação.
Speaker: Porque ele é em relação com... A pensar mais ou pelo menos a estruturar o pensamento.
Speaker: Que é a cena que é o verdadeiro pensar.
Speaker: Que é que foi quando eu fui ver o filme e consegui...
Speaker: Agora posso pensar, é isso?
Speaker: Bateu certo?
Speaker: Sim, e acho que é muito espetacular quando o Pablo Neruda lhe está a ensinar as metáforas para ele poder construir, para ele poder fazer poemas, não é?
Speaker: Porque a vida é tão pobre sem metáforas e quem não as consegue elaborar e aceder a esta linguagem simbólica?
Speaker: Quantas vezes nós usamos metáforas e vemos na cara das pessoas que elas não estão a perceber nada do que estamos a dizer.
Speaker: E nós temos que ir ao básico do básico do básico e explicar.
Speaker: Não, e o que eu quis dizer foi isto, isto e isto e levar e quase teres que descrever exaustivamente aquilo que acabaste de dizer.
Speaker: E é um sítio pobre, porque esta metáfora complexa é que te confere ao mesmo tempo o lugar de várias relações que é...
Speaker: Então, Patrícia.
Speaker: Já posso agradecer da Susana, que me fez aqui.
Speaker: Eu é que agradeço.
Speaker: Vocês sabem que isto vai sair dia 1 de Abril, não é?
Speaker: Mas isto não é mentira, isto é mesmo para... Agradeço-te mesmo.
Speaker: É 1 de Abril.
Speaker: E eu agradeço também, com medo.
Speaker: Susana Blazer, gostaste de estar aqui?
Speaker: Muito.
Speaker: Pronto, foi.
Speaker: Não tinha usado remédio, senão desiste.
Speaker: Queria agradecer-te.
Speaker: Nós combinamos que a Suzana podia sempre dizer Já chega, não quer mais Já chega o quê?
Speaker: Não quer mais Mas tu não disseste Não disse Se eu dou o corpo às balas Mais ou menos Pronto, olha Foi um gosto
Speaker: Como é que se diz?
Speaker: Foi um gosto, um prazer é outra coisa Pois, exatamente Muito obrigada por teres aceito o nosso convite Por estares aqui connosco Agora vamos continuar Vamos Vamos prosseguir E
Speaker: Vamos cá voltar para o mês que vem Não sabemos bem onde Mas agradecer à Patrícia Câmara À Susana, que acabámos de agradecer A Patrícia, à Caruana, que está aqui E À Climepsi Que nos emprestou todo este material E À Joana Bernardo Que dá a voz ao jingle Com os Dirty Mac e a Yoko Ono E acho que não temos que agradecer a mais ninguém Temos
Speaker: Um abraço.