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Episódio 38  image

Episódio 38

Três Divãs
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89 Plays23 days ago

Alex Cortez, músico e produtor cultural.

Album: Velvet Underground & Nico

https://open.spotify.com/intl-pt/album/657kVMdjQYpbNwLF92JgYj

Transcript

Desafiando a Perfeição: Reflexões sobre Dagerman

00:00:12
Speaker
As masterpieces paralisam-me sempre.
00:00:26
Speaker
Um pouco.
00:00:27
Speaker
E é-me difícil dissecá-las.
00:00:29
Speaker
Ocorrem, também aqui, as palavras de Dagerman.
00:00:33
Speaker
A perfeição labora em repouso.
00:00:36
Speaker
Esta frase daria uma mão cheia de conversas.
00:00:39
Speaker
vamos, acho.
00:00:41
Speaker
um tempo que não volta e que volta sempre ao mesmo tempo.
00:00:46
Speaker
Então, é qualquer coisa da ordem da fusão que experimenta as entranhas e que catapulta.
00:00:53
Speaker
Esse fósforo ilumina o sal no mar, o feixe das botas, a gota de orvalho, a curva da anca, a baunilha da vagem, o malte no whisky...
00:01:04
Speaker
A gota do suor, o bafo da temperatura, o por na pele e o espor do estame.
00:01:10
Speaker
A cutícula da córnea, a derme na unha, o sopro do espirro, a saliva no gelado, a pupila no sexo.
00:01:19
Speaker
E queres engolir tudo.
00:01:22
Speaker
Queres sentir tudo.
00:01:24
Speaker
Não caís do não te importares.
00:01:27
Speaker
Queres saber tudo porque sabes que o não querer saber é tão poerilmente narcísico, assim como o querer tudo para ti.
00:01:36
Speaker
Resta saber, também, que tudo aumenta se for partilhado.
00:01:41
Speaker
Fica à escolha de cada um.

A Força da Música e o Amor

00:01:43
Speaker
Eu tinha um vestido preto, que ainda tenho, de mini saia vazia, decotado, com mangas à boca de cima.
00:01:50
Speaker
Vestia uns colãs de rede e calçava as botas pretas de tacão alto, com feixe até ao joelho.
00:01:56
Speaker
Soltava os caracóis e abria a porta do bar.
00:02:00
Speaker
Rodeado de sombra negra, o meu olhar percorri ao som dos Velvet Underground.
00:02:06
Speaker
Todos sabiam a minha favorita.
00:02:09
Speaker
E os vampiros à espreita.
00:02:11
Speaker
sempre vampiros à espreita.
00:02:13
Speaker
Aqui temos a certeza de que eles têm uma ação.
00:02:17
Speaker
No ar um apelo que te vai matar.
00:02:20
Speaker
É a adrenalina desse abismo que te empurra.
00:02:23
Speaker
O amor... O amor está nos riffs, pá.
00:02:27
Speaker
Há, e a cenubeira também, claro.
00:02:30
Speaker
Para mim, este disco vem de um não lugar que encontro o teu.

A História de Alex Cortes e Suas Influências

00:02:35
Speaker
É o disco escolhido pelo nosso convidado de hoje.
00:02:38
Speaker
Está provavelmente entre os dez favoritos de muitos.
00:02:41
Speaker
É um dos meus, mas é aquele que me fura a carne enquanto me conduz à pequena morte.
00:02:49
Speaker
Velvet Underground e Nico, finalmente.
00:02:53
Speaker
Escolhido pelo Alex Cortes, que está aqui para conversar comigo e com a Patrícia Câmara, no bairro Alto, no bar Janela da Ataleia, para a gravação de três divãs.
00:03:03
Speaker
Olá, Alex.
00:03:04
Speaker
Sejas bem-vindo.
00:03:06
Speaker
Olá, muito boa noite.
00:03:10
Speaker
Belíssimo texto, obrigado.
00:03:14
Speaker
Bela introdução.
00:03:14
Speaker
Chamo-me Alex Cortes, nasci em 1961, portanto no tempo do fascismo.
00:03:27
Speaker
Tive uma vida muito tranquila, uma infância ótima.
00:03:35
Speaker
Assisti ao 25 de Abril com 13 anos, o que foi uma experiência que ainda hoje me marca.
00:03:45
Speaker
Vivi no Subúrbio.
00:03:47
Speaker
Nasci no interior do país, nasci em Coimbra.
00:03:51
Speaker
Vivi a minha infância, parte dela em Leidia e depois vim para Lisboa.
00:03:56
Speaker
E quando estava em Lisboa, passaram uns tempos, fui viver para Algarão e Martins.
00:04:02
Speaker
Portanto, um jovem suburbano.
00:04:05
Speaker
Ou fui.
00:04:07
Speaker
Tive a sorte de ter encontrado um grupo de amigos.
00:04:13
Speaker
Conhecemos com 13, 14 anos e estou a falar naquilo que depois que veio a ser no Fortuílio.
00:04:20
Speaker
Foi um grupo chamado Bádio Macau que surge precisamente dessa ligação de amigos de infância praticamente.
00:04:27
Speaker
12 anos, 12, 14.
00:04:30
Speaker
E isto também foi um bocado graças ao facto de eu viver no seburgo.
00:04:37
Speaker
Ou seja, o comboio, e isso é tudo de lado da linha de cinta, o comboio é uma fronteira muito marcante.
00:04:47
Speaker
Sim.
00:04:47
Speaker
Portanto, as coisas são muito classificadas, ou seja, havia... Por cafés.
00:04:55
Speaker
Mas o café dos Betinhos, o café dos Motados, o café dos Drogados, o café... Nós parávamos no café dos Drogados, mas não éramos drogados.
00:05:05
Speaker
Claro, mas é sempre um bom lugar para parar.
00:05:08
Speaker
Sim.
00:05:09
Speaker
E foi que começou esta aventura de Oceira.
00:05:15
Speaker
Eu não gosto de dizer que sou músico, eu acho que sou muito mais um partidor cultural e criativo, no fundo sou um criativo na área da cultura.
00:05:24
Speaker
E foi que nasceu essa vontade de fazer uma banda e de criar.
00:05:35
Speaker
Eu gosto de falar nisto porque estamos a falar de uma altura em que não se cantava em português ou cantava-se muito pouco.
00:05:47
Speaker
Era um bocado fuleiro cantar em português porque...
00:05:52
Speaker
o pop era muito... era quase todo o amigo que é. E...
00:06:00
Speaker
E uma coisa curiosa é que quando nós começámos a tentar fazer músicas e tentávamos copiar alguns brasileiros que não eram propriamente da moda na altura, tipo Adriano Correio de Oliveira ou José Caponso, que era mais para a razão das políticas, era onde estava na moda, mas pronto.

Os Desafios e Triunfos de Rádio Macau

00:06:22
Speaker
Aqui estou a falar do pós-25 de Abril, em que houve depois aquela abertura e nós decidimos construir dentro de um universo pop
00:06:32
Speaker
Uma forma, ou tentámos, uma forma de fazer canções.
00:06:37
Speaker
Tivemos a sorte de deixar de ser um excelente, desde logo, ainda não sabia que era, era uma excelente cantora.
00:06:46
Speaker
Sou um arquiteto frustrado porque eu nem acabei o curso.
00:06:50
Speaker
Andei 8 anos na universidade, mas não acabei o curso.
00:06:54
Speaker
Andaste na qual universidade andaste aqui?
00:06:57
Speaker
nas belas artes.
00:06:59
Speaker
Mas foi ótimo, porque foi quando eu comecei a ir para o bairro Alto,
00:07:04
Speaker
Eu acho que foi o curso.
00:07:07
Speaker
Não, mas foi uma fase extraordinária.
00:07:10
Speaker
Mas o problema do curso foi que os rádio de Macau começaram a arter uma projeção enorme e eu não tinha tempo para acabar o curso.
00:07:20
Speaker
Chegava aquele mês de julho, o mês de entrega de junho, o mês de entrega dos trabalhos finais de candidato.
00:07:27
Speaker
E eu no mês de junho tinha 14 concertos, para terem possível uma coisa.
00:07:32
Speaker
Pronto, mas entretanto fiz assim uma vida de músico profissional durante 20 e tal anos.
00:07:43
Speaker
E eu estou mais ou menos a parar naquela fase, final dos anos 80, em que houve alguns...
00:07:55
Speaker
alguns, ou seja, foi um período muito complicado porque os meus amigos, quase todos, uma grande parte, digo eu,
00:08:05
Speaker
meteram-se na heroína e então isto era um dos problemas do seguro-me, era o facto.
00:08:10
Speaker
Essa mesma fronteira fazia com que a heroína se concentrasse ali e não era difícil as pessoas envolverem-se em situações complicadas.
00:08:22
Speaker
Portanto, uma grande parte desses meus amigos acabaram de morrer com sida e com hepatite e coisas assim de género.
00:08:35
Speaker
Isto para dizer que o que salvou o Jardimacau, ou o que me salvou, foi eu pertencer ao Jardimacau e nós sermos obcecados com os ensaios.
00:08:48
Speaker
E queríamos isto mesmo antes de sermos conhecidos.
00:08:52
Speaker
Portanto, ensaiávamos diariamente, assim, obcecadamente, para chegar a algum mar.
00:08:57
Speaker
Não precisamos saber bem o que era.
00:08:59
Speaker
O que era esse lá, de onde é que era esse lá.
00:09:02
Speaker
Mas foi realmente, eu lembro-me, eu estou aqui a puxar para a memória daquilo que realmente que agora, pensando, sem ter pensado antes disto, desta entrevista, de pensar o que é que marcou mesmo as diferentes fases da minha vida e isso.
00:09:16
Speaker
Anos 80 foi mesmo um período muito complicado.
00:09:21
Speaker
Por outro lado, o grupo com quem nós nos dávamos, onde havia alguém, alguns mais velhos que foram eles que nos torceram,
00:09:35
Speaker
uma certa cultura ou contracultura que nós não estávamos habituados e que depois foram os letaristas dos rádio Macau, a Vitinha, Pedro e Maliquias, que eram 4 ou 5 anos, 3, 4, 5 anos mais vendes,
00:09:54
Speaker
e que nos marcaram eles também muito porque foram eles que nos deram a conhecer o rambô o vodoulé rouver lana eu estou falando autores franceses porque eles eram muito francófios e e não o caos que tanto ouve assim de repente no nosso universo minutos que andavam de cicleta e que se tem que começaram
00:10:18
Speaker
a dar-se como a alza mais velha e de repente eles é que nos trouxeram uma data de informação.
00:10:26
Speaker
Por exemplo, nós temos um disco que se chama Spleen, foi precisamente, exprimimos o título, é o segundo disco de Sarah Mercall, por causa do Spleen de Paris, não é?
00:10:40
Speaker
E esse disco tem essa melancolia e essa nostalgia que se associa ao Spline.
00:10:49
Speaker
Aliás, tem uma música que é dedicada a um gato, portanto, se chama o Gato Nicolau, e que era o nome do gato que nós tínhamos.
00:10:57
Speaker
Portanto, houve ali uma série de situações que fizeram com que, de repente, nós nos apaixonássemos muito por aquilo que estávamos a fazer e começássemos a olhar para as coisas com outro olhar.
00:11:15
Speaker
Sem grandes pretensões, porque nós, por outro lado, também fazíamos uma coisa que hoje não é muito vulgar.
00:11:23
Speaker
Fazíamos sessões de poesia, hoje não é muito vulgar, na verdade nós que vinha.
00:11:29
Speaker
Nós fazíamos sessões em que esses nossos amigos... Hoje havia um... Olha, não sei quantos, vejamos de Terdão, hoje vai ler um livro a casa de não sei quantos.
00:11:37
Speaker
Fazíamos para a casa dessa pessoa...
00:11:40
Speaker
E eu começava a ler um bocado de um livro e eles acharam-nos aquilo, nós mais novos, ficávamos completamente, uau, agradecendo, é isto que nós queremos.
00:11:50
Speaker
E pronto, foi um bocado por aí.
00:11:53
Speaker
Estou a falar entre os 18, 19, 20 anos.
00:12:00
Speaker
tínhamos várias bandas, tínhamos tido várias bandas, não dávamos muito nome, mas pronto.
00:12:11
Speaker
Eu estou a pensar agora muito tempo, vamos...
00:12:13
Speaker
E fazes muito bem que eu percebi nitidamente que pensaste nisto agora, quando chegaste aqui e começaste a conversar.
00:12:19
Speaker
Olha, então, mas daquilo que eu pude perceber, houve dois momentos que marcaram muito.
00:12:26
Speaker
Foi o 25 de abril e depois o início dos rádio Magdalas.
00:12:33
Speaker
Posso-te perguntar uma coisa?
00:12:34
Speaker
Como é que tu vais parar ao baixo?
00:12:36
Speaker
tocávamos?
00:12:37
Speaker
Foi experimentar?
00:12:38
Speaker
Como é que foi?
00:12:39
Speaker
Não.
00:12:40
Speaker
Não, eu nem era propriamente aquilo que eu queria ser Não era músico Eu fui um bocado por necessidade Era preciso alguém para tocar baixo Para onde estava Embora lá, sou eu Não, mas eu estou a dizer isto Mas eu, por exemplo, com 14 anos Peguei a minha avó para me oferecer um baixo Portanto, ela ofereceu-me um baixo Para dizer Ai, o que eu fui fazer?
00:13:04
Speaker
Tu agora não vais acabar o curso Porque eu te ofereci um baixo E esse eu estou...
00:13:10
Speaker
E assim foi.
00:13:12
Speaker
Então, ela tinha razão.
00:13:14
Speaker
Ela tinha razão.
00:13:15
Speaker
O que ela não sabe é que tu irias acabar o curso mais depressa com o baixo, que os Rádio Macau absorveram-te completamente.
00:13:24
Speaker
Foi uma altura, pronto, e eu nunca, ainda hoje me custa um bocado quando perguntam qual é a tua profissão, eu tenho sempre algumas supersticências em dizer que sou músico.
00:13:40
Speaker
Sempre achei que eu era mais do que músico, ou seja, não é mais no sentido de ser mais importante, quando mais...
00:13:46
Speaker
aquilo que eu fazia era para além da música era mais a criação, a produção a parte de organizar coisas e fazer Tu gostas muito Sim, que eu gosto muito e que hoje continuo a fazer e continuo a tocar mas pronto sempre achei que a música para mim era mais uma ferramenta do que propriamente um fim de vida, um objetivo
00:14:16
Speaker
depois eu pensei assim, eu digo que sou músico, quando tens que preencher a profissão, músico.
00:14:21
Speaker
E eu mesmo, quando era músico, na luta da cidade de Macau, conheci-se sempre, eu lembro que cada vez que tinha que escrever profissão, pensava assim, está bem, pronto, não deu.
00:14:33
Speaker
Depois pensava assim, a música é o Mário Luizinha, não sei.
00:14:36
Speaker
Percebo?
00:14:38
Speaker
Mas... Olha, e até por falar nisso, tu classificas a Rádio Macau como quê?
00:14:44
Speaker
Pop-rock, cop-rock?
00:14:46
Speaker
Não é que seja muito importante, confesso.
00:14:51
Speaker
Mas aqui se fazia a minha curiosidade.
00:14:54
Speaker
Acho que é uma venda de rock com um bocadinho de pop.
00:15:00
Speaker
E agora, por acaso, estava a pensar no...
00:15:05
Speaker
Os Velvet Underground, de certa forma, ajudaram-nos a catalogar muitos.
00:15:12
Speaker
Ou seja, os Velvet Underground são considerados um precursor do art rock.
00:15:22
Speaker
Eu se calhar penso que talvez seja uma boa classificação para Vali e Macau.
00:15:27
Speaker
Em certas fases éramos em grupo, num lado arty, era um bocado isso que nos definia.
00:15:35
Speaker
Sim.
00:15:37
Speaker
Olha, e neste momento, quantos projetos é que tu tens ativos?
00:15:42
Speaker
Um é musicais, tenho dois projetos, tenho a Gerada Bacau e a Lisbon Poetry.
00:15:51
Speaker
Depois tenho a associação A Palavra, que faz o MAP Festival, que é um festival anual, com o Devano Torto.
00:16:03
Speaker
e tenho agora também faço a programação do Centro Cultural de Barca Arena que abriu agora ao pouco tempo eu tenho um problema
00:16:16
Speaker
Porque vocês, pessoal da Psicanálise, espero que não me dissequem.
00:16:24
Speaker
Mas eu tenho um grande problema de... Não consigo não fazer nada.
00:16:29
Speaker
Eu estou de férias.
00:16:33
Speaker
e baixar tem mesmo que tinha muito não fazer nada e mesmo foi logo de repente pronto eu acho que a ver tudo surge uma ideia e começa outra vez mas às vezes é um exagero que eu agora por exemplo sinto que estou a fazer coisas a nós e o que é que isso quer dizer e agora os rádio macau
00:16:54
Speaker
Exatamente.
00:16:55
Speaker
Deixa-me contar que, por coincidência ou não, não sei, nós estamos hoje a gravar.
00:17:02
Speaker
Tu estás a ter um dia em cheio.
00:17:04
Speaker
Nós estamos a gravar no dia em que o Voltar está a anunciar que o Escado e o Macau vão ter dois concertos no Coliseu.
00:17:11
Speaker
Portanto, o Alex esteve aqui um dia super preenchido.
00:17:14
Speaker
Esteve numa produção fotográfica.
00:17:16
Speaker
Esteve na rádio.
00:17:17
Speaker
Esteve, sei lá, em todo o lado.
00:17:19
Speaker
E agora está aqui connosco para beber um copo de vinho e descontrair.
00:17:23
Speaker
Mas é uma boa notícia, não é?
00:17:24
Speaker
É uma coisa boa porque, do que me tenha percebido, vos pediam isto há muito tempo, não é?
00:17:30
Speaker
Já, pá.
00:17:30
Speaker
E nós também... Caso uma coisa muito engraçada que aconteceu, porque a Xana fez 60 anos, o ano passado.
00:17:37
Speaker
Pois, eu estou, meu filhoso amigo, é o aniversário da Xana e vives tocar.

A Inesperada Ascensão de Rádio Macau

00:17:42
Speaker
Pois, e nós resolvemos fazer um concerto e tocámos 12 músicas.
00:17:48
Speaker
Mas o mais engraçado foi que fizemos três anseios, que veio em três.
00:17:55
Speaker
E havia muitos dias, por mais não tocávamos à coliseira.
00:17:58
Speaker
E de repente, naquela eu estava preocupadíssimo.
00:18:04
Speaker
vamos fazer três agenciais, vai ser mais certinho.
00:18:07
Speaker
Pode, completamente insecuros.
00:18:10
Speaker
Mas não deu e vá.
00:18:12
Speaker
Aquilo, eu estou convencido que se nós não tivéssemos aceitado, tinha sido exatamente como saiu.
00:18:19
Speaker
É um bocado como andar de bicicleta.
00:18:22
Speaker
A nossa memória é uma coisa incrível.
00:18:25
Speaker
Eu não sabia, literalmente, eu não sei de cara isso em outro, não sei de cara, não é. E o quarto dia, aí começa com um no olho, vai para onde você ia.
00:18:37
Speaker
De repente, começava a tocar com ele, e com a Xana, é todo bruto.
00:18:42
Speaker
E de repente a música aparecia-me, ou seja, aquilo de repente... Houve músicas que conseguimos tocar pela primeira vez, à primeira, sem qualquer falho.
00:18:53
Speaker
O que significa que a memória é mesmo uma coisa incrível.
00:18:57
Speaker
Sabes que nós também temos uma coisa que eu acho que não é fácil de explicar, que é uma cumplicidade que depois...
00:19:09
Speaker
no ponto de vista musical eu por exemplo às vezes olho e sei o que é que ele vai fazer sequer mesmo quando estamos a improvisar porque se foram tantos anos a ficar juntos Estorme intuitivo
00:19:20
Speaker
Depois de repente músicas que também se nós não nos lembrássemos logo, tipo o Anzol, tocámos mais de mil vezes, portanto é estranho, eu pedi-me ter essa, também não era presidência muito, porque essa música é muito fácil.
00:19:35
Speaker
Mas acontece que é engraçado esse lado, essa complicidade, e nós tivemos uma coisa...
00:19:44
Speaker
que foi muito importante enquanto grupo, que foi nós no princípio, no princípio do grupo, quando nós começámos a ter o primeiro sucesso, nós vivíamos durante dois anos e tal, vivemos juntos na mesma casa, onde tínhamos o estúdio.
00:20:01
Speaker
Portanto, criou ali laços quase familiares entre nós.
00:20:04
Speaker
Claro.
00:20:05
Speaker
E isso foi na altura, e foi uma das grandes forças que fizeram com que nós conseguíssemos chegar a um descanto.
00:20:17
Speaker
Aquilo era uma irmandade.
00:20:20
Speaker
Era família, não é?
00:20:21
Speaker
Era família.
00:20:25
Speaker
E depois houve alturas que vivíamos juntos e não tínhamos um total.
00:20:30
Speaker
E então, quando gravámos a primeira maquete...
00:20:36
Speaker
Foi, surgiu a oportunidade de gravarmos no estúdio do Street Kids, que era um grupo dos anos 80.
00:20:43
Speaker
Não durou muito tempo, mas era um grupo muito engraçado.
00:20:47
Speaker
E um rebelo.
00:20:52
Speaker
E esse estúdio, para nós gravarmos uma maquete, esse estúdio era em Birra.
00:21:00
Speaker
Ótimo.
00:21:04
Speaker
Então nós acordávamos tipo às 7 da manhã, carravamos nos instrumentos, íamos à boleia, como não tínhamos um distal, íamos à boleia, logo era até Sintra, depois de Sintra em direção a Cascais, que ficávamos no cruzamento, bebidos, e tínhamos que ir a para aí um quilómetro ou assim.
00:21:23
Speaker
Recordas esse tempo como muito bom e com carinho, não é?
00:21:26
Speaker
Sim.
00:21:27
Speaker
Claro, mas isso também criou ali um... se inventou essa amizade e criou ali uma forma de... nós resolvimos os nossos problemas todos sem grandes dramas.
00:21:41
Speaker
Sim.
00:21:42
Speaker
E tinham-se uns aos outros também.
00:21:44
Speaker
Mas tinham-se uns aos outros, não é?
00:21:46
Speaker
Vocês perceavam isso e tinham-se uns aos outros.
00:21:48
Speaker
Sim, sim.
00:21:50
Speaker
Ias dizer, nós gravávamos... Não, quando gravámos o primeiro disco...
00:21:55
Speaker
Foi de repente... Por foi engraçado, porque é uma história que contámos muitas vezes, mas foi... Nós gravámos essa maquete no estúdio de Estílio de Kids e depois fomos à lista de Cifónica, mesmo, ver qual era a editora mais próxima da Estação do Recio.
00:22:21
Speaker
Porque...
00:22:23
Speaker
para não comprar gastar dinheiro entre os bósteres parece um bocado ridículo mas é verdade e depois nós chegámos eu fico a china levávamos uma cassete de sempre a criança vocês ouvissem esta cassete
00:22:41
Speaker
Chegámos à porta, tivemos uma grande sorte, chegámos à porta, estava o administrador, que era pouco mais velho que nós, que era o Ficisco Asconcelos, à porta e achou muito graças.
00:22:52
Speaker
O que é que era?
00:22:52
Speaker
Estavam vindo aqui?
00:22:53
Speaker
Ah, nós vinhamos aqui entregar uma maquete, mas... Ah, e telefonaram, combinaram alguma coisa.
00:22:59
Speaker
Não, não, não, nós temos aqui a maquete.
00:23:01
Speaker
E ele disse, então deixem a maquete...
00:23:04
Speaker
E eu disse, não, olha, não podemos deixar a maquete porque temos esta.
00:23:11
Speaker
Portanto, ou houve agora ou então nós vamos para a Poligrama.
00:23:15
Speaker
Tomou muito, não, pô.
00:23:18
Speaker
E ele olhou assim, então vá, fazer uma coisa.
00:23:21
Speaker
Vocês vão dar uma volta, venham daqui a meia hora.
00:23:26
Speaker
E nós fomos para a Ginginha, porque a Valentino Carvalho na altura era na Rua Nova do Alhada.
00:23:32
Speaker
Sim, é?
00:23:34
Speaker
ou fomos para a gingime, gastámos o dinheiro que tínhamos na gingime, vou bem dizer, e quando voltámos, chegámos uns todos, era a equipa toda para nos sobreseguir, era ele mais o Aeros, mais o Aeros,
00:23:52
Speaker
E levaram-nos para uma sala com o que é que querem beber logo.
00:23:57
Speaker
Um esquisinho já.
00:23:59
Speaker
Coisas de uma altura que hoje em dia não aconteceria seguramente.
00:24:05
Speaker
E assim foi.
00:24:06
Speaker
De repente eles disseram queremos assinar um contrato convosco.
00:24:10
Speaker
E pronto, e assinámos um contrato de alfórdia neste dia.
00:24:14
Speaker
Ficámos todos contentes, foi uma cena.
00:24:19
Speaker
Tivemos Covid com baixo ambiente, sem o capo penduro, voltar a casa.
00:24:24
Speaker
Mas pronto, foi uma situação enorme, como devem calcular.
00:24:28
Speaker
Imagino.
00:24:30
Speaker
Mas foi e acabou por ser.
00:24:31
Speaker
Depois um... um pormenor engraçado também.
00:24:37
Speaker
Aquilo... Vocês têm uma ideia de como eram os anos 80.
00:24:41
Speaker
Eles quando nos deram o contrato e nós assiná-los, era um contrato por 5 anos, 3 discos, válido para Portugal, para o resto do mundo e para todo o universo.
00:24:53
Speaker
Dizia lá.
00:24:54
Speaker
Dizia para todo o universo.
00:24:57
Speaker
Ou seja, podia ir para a Lua com os Beatles e com os Pink Floyd.
00:25:00
Speaker
Não, se houvesse de repente, se descobrissem um planeta novo, habitado por humanos, ou possíveis humanos, ou humanoides, estava a salvo a gordura disso, que eles não pediam para editar.
00:25:18
Speaker
Mas pronto, isto também é um retrato um bocado do que eram os anos 80.
00:25:23
Speaker
Mas eles adoraram e foram impecáveis.
00:25:24
Speaker
E nós fomos para o estúdio gravar o disco e não tínhamos um testão, literalmente.
00:25:29
Speaker
Então, quando chegava a hora do almoço, os técnicos iam almoçar e diziam, então vocês não querem almoçar?
00:25:35
Speaker
Não vão almoçar?
00:25:36
Speaker
E nós, ah, não estamos com fome.
00:25:39
Speaker
Ficávamos lá à espera um bocado, alovávamos qualquer coisa de casa, mas também não abundava a comida em casa.
00:25:46
Speaker
E um dia a sena virou-se para o administrador e disse lá, disse assim, ele está tudo a correr bem, ele apareceu lá, nós não comemos três dias, mas está tudo a correr bem.
00:26:00
Speaker
Um bocado exagerado.
00:26:02
Speaker
E então eles... Falou assim, Carvalho, demos um cheque a cada um.
00:26:06
Speaker
Assim, um género que eu nunca tinha visto, tanto dinheiro na minha vida.
00:26:10
Speaker
Fomos logo comprar amplificadores novos.
00:26:14
Speaker
Mas foi, pronto, são aquelas coisas que realmente...
00:26:18
Speaker
Pô, isso é congente, pá.
00:26:20
Speaker
É congente, é. Para mim é que me ouve o nosso coração.
00:26:22
Speaker
Não é, claro.
00:26:24
Speaker
Era mesmo amor àquilo que se estava a fazer?
00:26:26
Speaker
Era, e nós éramos muito amigos uns dos outros.
00:26:31
Speaker
Ou seja, éramos ali um... Éramos muito fechados em nós próprios e muito amigos.
00:26:37
Speaker
E não é... Sei lá, por exemplo, almoçar.
00:26:43
Speaker
Iamos almoçar toda a casa da minha mãe.
00:26:48
Speaker
Eu estou aqui a contar pormenores da vida privada, mas eu tenho fiada, porque era assim que nós conseguíamos funcionar.
00:26:59
Speaker
E hoje, vocês aturam-se bem uns aos outros, com os seus tantos anos?
00:27:03
Speaker
Sim, aturamos-nos bem mesmo.
00:27:07
Speaker
Que bom, que bom.
00:27:10
Speaker
Vou lá-vos-me aturar já, mas é o seu feito.
00:27:11
Speaker
Como conheces os defeitos, ou seja, nós já conhecemos muito bem os defeitos uns aos outros, portanto, não uma surpresa negativa, porque...
00:27:25
Speaker
Porque no fundo nós sabemos o que é que pode vir dali, não é?
00:27:31
Speaker
E a amizade perdura, não é?
00:27:33
Speaker
Sim, claro.
00:27:34
Speaker
De hoje estávamos a falar nem sobre isso.
00:27:36
Speaker
Nós conseguimos, ao fim de 40 anos... Não, pá, a Xana fez 60.
00:27:45
Speaker
E nós, quando a Xana começou a cantar connosco, ela tinha 13 anos.
00:27:50
Speaker
13, não é?
00:27:53
Speaker
E nós 18, 19, portanto, estás a ver, isto foi 47 anos.
00:28:03
Speaker
Temos que dizer uma vida.
00:28:04
Speaker
Sim, uma vida.
00:28:07
Speaker
Muito bem.

O Impacto Duradouro de Velvet Underground na Música

00:28:08
Speaker
Alex, vamos aqui ao nosso disco, que a Patrícia está cheia de vontade de conversar contigo.
00:28:16
Speaker
Então, tu escolheste Velvet Underground & Nico.
00:28:20
Speaker
Sim.
00:28:21
Speaker
Um disco de 1967.
00:28:23
Speaker
Conta-nos lá.
00:28:23
Speaker
Sabes que eu estou muito contente por ter escolhido este disco.
00:28:27
Speaker
Eu pensava, mas quando é que alguém escolhe os Velvet, foste tu.
00:28:31
Speaker
Então, conta lá.
00:28:33
Speaker
Porquê este disco?
00:28:35
Speaker
Olha, em primeiro lugar, eu ouvi o disco muito depois de ele ter saído.
00:28:43
Speaker
Apesar de... Eu tenho aqui uma memória de um tio meu, por causa do...
00:28:53
Speaker
da banana, do peeling, de qualquer coisa de tirada, que eu tenho assim uma memória, mas de qualquer maneira, nunca nessa altura eu devia ter talvez 10 anos ou 12, dessa memória do meu tio que eu via a live-drapping, eu via assim coisas que depois, quando era muito meia-dia lá, tentava perceber o que é que ele estava a ouvir, o Pink Floyd, e outras coisas,
00:29:19
Speaker
mas na realidade eu ouvi este disco talvez com 18, 19 anos por mas eu escolhi o disco porque acho que é um disco que é seminal no sentido daquilo que é hoje o Vocal alternativo ou seja, sem este disco muito
00:29:44
Speaker
Ou seja, esse disco também não quer exagerar.
00:29:46
Speaker
Esse disco é talvez a maior influência da maior parte das bandas de um determinado género.
00:29:53
Speaker
O showgaze, olha, art rock, como estamos a falar, o próprio punk e o indie rock.
00:30:01
Speaker
Tu hoje podes pedir ou calhas uma banda de indie rock e está lá um bocadinho de Velvet Sers.
00:30:10
Speaker
Aliás, uma coisa engraçada que o Brian Nino diz que este disco para ele vendeu 30 mil cópias, a primeira edição.
00:30:21
Speaker
É incrível, não é incrível.
00:30:24
Speaker
E ele dizia que destas 30 mil pessoas fizeram todas elas uma banda.
00:30:30
Speaker
E, portanto, foi o disco mais importante da história do rock mais individual.
00:30:38
Speaker
Sim.
00:30:39
Speaker
Depois eu também escolhi, porque tem um lado que eu acho que eu adoro o Lowryd enquanto poeta.
00:30:49
Speaker
Acho mesmo muito.
00:30:51
Speaker
E acho que esta junção...
00:30:56
Speaker
daquele género musical, daquele protopunk meio... ainda por acaso, hoje malhante, a última faixa do disco, que é o El Pienseille, é o contraste em absoluto com a primeira faixa, o Sunday Morning.
00:31:14
Speaker
E estive a pensar, aquilo é uma espécie de catal...
00:31:18
Speaker
de como fazer uma música.
00:31:20
Speaker
Cada tema é um género ou um exemplo de um tipo de canção.
00:31:26
Speaker
Portanto, aquilo é um manual ótimo para quem quer começar a compor.
00:31:31
Speaker
É um manual para... ajuda, de certa forma, a criar ou dar forma àquilo que nós queremos fazer.
00:31:41
Speaker
Mas o...
00:31:44
Speaker
O disco em si é um disco que depois tem outra coisa, é um disco que é ex-its, é hits, não uma faixa ali que não tenha uma identidade muito forte, não há ali nada que seja supérfluo.
00:32:03
Speaker
E depois, também escolhi o disco por outra razão.
00:32:07
Speaker
Também não sabes, mas eu adoro desenhar e faço muitos desenhos e pinto também, mas de uma forma absolutamente amadora, sem grandes objetivos.
00:32:22
Speaker
Mas por outro lado, sempre foi um personagem que eu admirei, foi o Andy Warhol.
00:32:28
Speaker
Portanto, este disco junta, não porque havia... O disco foi composto numa turnê de um projeto, Explosion Plastic, não sei o que, Inévitável.
00:32:44
Speaker
que era um espetáculo e performance do Andy Warhol, onde participavam os Velvet Underground, dentre outros, e esse álbum foi composto durante essa turnê, e depois em 67 foi gravado, essa turnê foi em 66.
00:33:01
Speaker
e até parte com o disco para gravar em 2016.
00:33:03
Speaker
Mas isto para dizer que quando os Velvet Underground se formam é um bocado por influência do Andy Warhol.
00:33:15
Speaker
Sim.
00:33:15
Speaker
E o Andy Warhol é que controlou um bocadinho a linha estética daquilo.
00:33:20
Speaker
Ele não era um produtor musical e, portanto, o mais que ele fez, quem foi o produtor foi o Tom Wilson.
00:33:25
Speaker
Sim.
00:33:26
Speaker
E o que ele fez foi, no fundo, pôr ali o seu lado esteta e da parte do... Tivemos uma certa vontade que aquilo fosse um statement dele, sabe-lhe?
00:33:42
Speaker
E na cena nova-iorquina dizia-se é a banda do Andy.
00:33:46
Speaker
Muito genial.
00:33:47
Speaker
É a banda do Andy.
00:33:48
Speaker
Como se o Andy fosse o dono deles.
00:33:52
Speaker
Olha, tu escolheste o Sunday Morning como a tua atenção para hoje desse disco.
00:33:58
Speaker
O que é?
00:34:00
Speaker
Eu adoro a música, tem aquele lado, tem... E eu penso que é o John Cale que toca a Celeste, que é aquele som que parecem sininhos.
00:34:14
Speaker
E essa música sempre ficou na cabeça por causa disso, por causa disso farro.
00:34:20
Speaker
E acho que, por outro lado, é talvez, de todos os temas desse disco, é talvez aquele que compre para mais uma linguagem, ou que serve, ou que talvez seja um ponto de partida para aquela lomboagem pop,
00:34:40
Speaker
que hoje ouvimos porque é a luz de temporal mas a música também em temporal se nunca tivesse ouvido antes que estivesse gravado à semana passada com uma banda irlandesa por exemplo tu acreditavas perfeitamente ele é justamente
00:34:58
Speaker
Olha, nós vamos ouvi-la, mas antes de ouvirmos, e depois eu vou passar a palavra à Patrícia também, eu queria perguntar-te uma coisa.
00:35:06
Speaker
Diz se tu te lembras.
00:35:08
Speaker
Qual foi a tua sensação quando ouviste de facto os Velvete pela primeira vez?
00:35:15
Speaker
Eu gostei muito.
00:35:17
Speaker
Adorei.
00:35:20
Speaker
Adorei mesmo.
00:35:22
Speaker
E aliás, eu penso que o Iud... Agora não sei dizer qual foi o tema.
00:35:28
Speaker
Eu não sei se foi o I'm Waiting for Me, penso que foi essa música, que nós começámos a ouvir, de repente começámos a tirar essa música.
00:35:46
Speaker
Sempre adorámos o Raul Nakal, fala agora.
00:35:49
Speaker
Houve uma altura que tocávamos o Perfect Day nos Concebos, o Take a Walking Outside por causa do Low Reader, agora foi ano.
00:35:58
Speaker
Tocámos e gravámos com o Palma Gilhante, com o Jorge Palma, portanto sempre houve ali uma proximidade afetiva muito grande com o Aldo Vitte e eu continuava.
00:36:11
Speaker
E eu ainda por cima tive uma coisa que eu fiz a produção.
00:36:16
Speaker
de um concerto do Low Grid em Coimbra, no Jairinho da Sereia.
00:36:21
Speaker
E eu não sei porque sintetizou comigo.
00:36:25
Speaker
Então tomámos um pequeno almoço no hotel e depois ele pediu-me para eu ajudar a levar as coisas para o carro.
00:36:34
Speaker
e depois almoçámos também eu ao lado dele e o manager, o road manager, eu fiquei muito satiado porque ele mandou o road manager e pediu um porco.
00:36:43
Speaker
Para tudo sentar, boa.
00:36:44
Speaker
Para tudo sentar, boa.
00:36:44
Speaker
Para tudo sentar, boa.
00:36:45
Speaker
Para tudo sentar, boa.
00:36:46
Speaker
Eu lhes falasse sempre, porque não me abraçou da universidade, queria saber quando.
00:36:50
Speaker
Portanto, foi ali, e depois no final ofereceu-me, no fim deste encontro, o fim de conceito, ofereceu-me uma caixa de palhetes, mas agora vou contar uma história muito engraçada, porque
00:37:01
Speaker
Estava o Lourido a tocar E foi um conselho maravilhoso Que eu entro a mim Lembro-me Aqueles jardins super bonitos De repente começou No meio de passeio Foi um artifício No rio E os barcos Uma barilheira E o manager dele O manager dele veio ter comigo
00:37:30
Speaker
E eles assim, ai, vou bem me matar, o que é que vocês estão a fazer?
00:37:34
Speaker
Mande-me parar os foguetes, mande-me parar os uísse.
00:37:37
Speaker
Mas como posso mandar para os foguetes que estão nos barcos, no Rio?
00:37:42
Speaker
E eu, mas ninguém me avisou, ninguém me avisou bem.
00:37:44
Speaker
Ele estava cheio de medo, e tipo atrás de mim, e o Louvrito sai do palco e vira-se para mim e diz assim, eu estava na Bexessos.
00:37:53
Speaker
Ai Alex.
00:37:54
Speaker
É incrível.
00:37:55
Speaker
Você sabia que são as ferramentas durante o meu concerto?
00:37:59
Speaker
Ah, está bom.
00:38:00
Speaker
Estim, máquina.
00:38:03
Speaker
Foi incrível.
00:38:04
Speaker
Então deixa-me dizer também, eu não conheci o Lou Reed pessoalmente, nada que se pareça, mas quem viu isso na televisão deve ter esta memória.
00:38:12
Speaker
Tu lembras-te no dia que o Coen foi tocar a Portugal ao passeio marítimo de Algés, o Lou Reed tocava no mesmo dia na Praça de Torres do Campo Campo.
00:38:23
Speaker
E ele está a dar uma entrevista para o canal, uma coisa assim, e alguém lhe diz, como é que é tocar no dia do Leonard Cohen?
00:38:32
Speaker
E ele para e diz, o quê?
00:38:35
Speaker
Eu vou tocar no dia do Cohen.
00:38:38
Speaker
Mas como é que é possível?
00:38:39
Speaker
Mas quem é que se lembrou de ver?
00:38:41
Speaker
Eu quero ir ver o Coen, diz ele.
00:38:42
Speaker
Eu quero ir ver o Coen.
00:38:43
Speaker
Como é que vocês me põem?
00:38:45
Speaker
Qualquer coisa deste género.
00:38:46
Speaker
Foi espetacular porque a espontaneidade dele... Eu vou tocar no mesmo dia do Coen.
00:38:51
Speaker
E eu nesse dia escolhi ver o Coen.
00:38:52
Speaker
Não vi o lorinho, mas o tinha visto e depois voltei a vê-lo.
00:38:56
Speaker
Vamos ouvir então a tua canção escolhida para hoje.
00:39:01
Speaker
O Sunday Morning dos Velvet Underground e Nick Cohn.
00:39:25
Speaker
Patrícia
00:39:27
Speaker
Sunday Morning dos Velvet Underground da Nico.
00:39:30
Speaker
Para já, tu gostas do disco?
00:39:31
Speaker
Muitíssimo.
00:39:32
Speaker
Boa.
00:39:33
Speaker
E queria dizer uma coisa para a irmã.
00:39:34
Speaker
Caralho, fotografia.
00:39:35
Speaker
Tudo aquilo que vocês estavam a falar e toda esta apresentação porque eu hoje de manhã acordei a pensar nisso e vinha com os meus filhos no carro e pela primeira vez senti.
00:39:45
Speaker
Eu nasci mesmo em 1980.
00:39:46
Speaker
No ano de 80.
00:39:47
Speaker
No ano de 80.
00:39:50
Speaker
E foi a primeira vez internamente que senti isto.
00:39:53
Speaker
Toda a expressão do que isto quer dizer, não é?
00:39:55
Speaker
Até agora era uma coisa quase como se não fosse.
00:39:58
Speaker
Mas agora com aquilo que estamos a viver passa a ser um lugar mesmo importante, não é?
00:40:01
Speaker
E ouvir tudo aquilo que tu disseste aqui e agora ainda me deu mais...
00:40:05
Speaker
reencontro interno com esse lugar que para mim era implícito, nós vivíamos isto implicitamente, nós não tivemos que fazer nada naquele ano e portanto aquilo estava tudo já aberto por vós e isto para nós e portanto queria-te agradecer imenso esta introdução que nos retoma este lugar onde se pode fazer qualquer coisa em conjunto que é maior do que nós
00:40:23
Speaker
Que é isto que nós temos tentado também fazer, trazer um bocadinho com este podcast esta ideia, não é?
00:40:29
Speaker
De alguma maneira nós temos que revitalizar como fizeram que é maior do que nós.
00:40:35
Speaker
Este disco, eu gostei muito, que eu gosto de ele.
00:40:38
Speaker
Porque eu acho que também traz este outro lugar que também me parece que atualmente está difícil de ser vivido, pelo menos que é esta experiência de vertigem, mas com um conhecimento sobre essa vertigem.
00:40:48
Speaker
Agora eu acho que muitas vezes as pessoas estão no abismo e não sabem, ou pelo menos esta sensação que dá, temos todos num espaço cru, muito abismal, mas sem a vertigem consciente, não é?
00:40:56
Speaker
Este disco leva-te à vertigem, em todas as letras, todas as músicas, vão a vertigens de maneiras muito diferentes, não é?
00:41:01
Speaker
Por exemplo, no Sunday Morning, a sensação que é quase como se houvesse um embalo muito naivo, mas depois depende de aquilo, não é?
00:41:06
Speaker
Não está, é uma queda livre, não é?
00:41:08
Speaker
E a letra é tudo menos Sunday Morning.
00:41:11
Speaker
É uma paranoia do povo estupro.
00:41:14
Speaker
É muito engraçado este suspeito.
00:41:18
Speaker
Parece que vai oferecer um lugar cândido e naivo e de repente convoca-te o abismo de uma maneira intempestiva, não é?
00:41:24
Speaker
Mas interpela-me, não é?
00:41:26
Speaker
Este disco da Manchester Fornell é um catálogo de cada letra que trata...
00:41:35
Speaker
algo que é absolutamente contrário, cultura americana, contra o Americano, El Velaça, Sheffert, St.
00:41:42
Speaker
Helo.
00:41:43
Speaker
E o Lovide era muito bom nessa matéria, porque ele realmente escreveu e deixou-nos uma obra onde todas estas questões permentes e pulsantes da sociedade
00:42:00
Speaker
acabaram por ter esta roupa de canções que depois se transformaram, aligeraram uma coisa que era absolutamente pesadona.
00:42:11
Speaker
Os bilas, a droga, sei qual é o...
00:42:16
Speaker
É o Vénus in First, que é inspirado no Mazoc, nos livros do Mazoc, ele no fundo, isso era também um retrato pessoal dele, porque ele era ele próprio mesmo, do ponto de vista da sua sexualidade, era uma pessoa que não se percebia, não se definia bem, portanto aquilo era um... andava ali um bocado à procura do sítio dele.
00:42:38
Speaker
E este disco tem esse lado que eu considero maravilhoso, que é o lado de falar de coisas...
00:42:47
Speaker
complexas e complicadas, com uma roupa musical absolutamente sedutora.
00:42:53
Speaker
Portanto, as pessoas ficam a achar que se calhar aquilo que ele fala não é assim tão mal como se diz fora.
00:43:02
Speaker
Quer dizer, é um retrato da sociedade muito, muito... Muito fiel, não é?
00:43:08
Speaker
É. Acho que...
00:43:09
Speaker
Não permite que não se olhe para este lugar, não é mais cru, mais carrado, não é?
00:43:13
Speaker
E pronto, isso fascina-me.
00:43:14
Speaker
E se depois combinarmos isso com o lado orçamento experimental da música, eles trouxeram para o rock coisas que não eram normais, desde tipos de afinações, uma afinação que o Abedin inventou, que se chama ostrich.
00:43:33
Speaker
e que são as cordas todas afinadas pelo mesmo tom.
00:43:37
Speaker
Depois outra coisa que eu li na biografia do Lou Reed que eles, no princípio, quando iam tocar, punham os amplificadores todos, todos no máximo, a fazer a maior destruição possível e as pessoas fugiam.
00:43:56
Speaker
Aquilo era de tal forma desagradável que as pessoas fugiam.
00:43:59
Speaker
Até que de repente
00:44:02
Speaker
de repente aquilo que começou a tornar-se uma espécie de moda, então ia toda a gente ver os concertos por serem muito evidentes.
00:44:09
Speaker
Aquela desconstrução.
00:44:10
Speaker
Exato.
00:44:10
Speaker
Por causa da desconstrução, então as pessoas adoravam e iam ver por causa disso.
00:44:15
Speaker
E depois eles sonhou o trabalho de moda e que é fabuloso, as concessões são muito boas, muito bem construídas, ou seja...
00:44:24
Speaker
Sem grande esforço.
00:44:25
Speaker
Tu vês que aquilo é uma linguagem que eles desenvolveram e criaram, muito espontânea.
00:44:31
Speaker
Portanto, é uma coisa que sai, que saia de algo.
00:44:36
Speaker
Não faziam grande esforço, nem estavam... Não vamos fazer isto assim, não.
00:44:40
Speaker
Aquilo saía.
00:44:41
Speaker
Apesar do Sunday Morning ser quase antítese daquilo que é o ritmo da música... Mas é ressarro também.
00:44:53
Speaker
qualquer coisa de esperança na música que é espetacular, porque da mesma forma, porque tu podes olhar para esta dada altura, quando eles dizem, sempre alguém que vai telefonar e o mundo não para.
00:45:06
Speaker
Portanto, tu também podes apanhar esse comboio como uma esperança e não como uma derrota de relax.
00:45:11
Speaker
A Patrícia nasceu em 80, eu nasci em 79.
00:45:15
Speaker
E isto pegando, estava muita coisa feita e o caminho estava aberto.
00:45:19
Speaker
E também potência, estava todo em... Sim, mas agora vou pegar naquilo que é o meu contacto com a música, a dada altura, tu depois, incelidamente, teres nascido mais tarde ou não, tu tens o teu contacto com as coisas quando tens que viver, não é?
00:45:33
Speaker
Quando te encontras com elas.
00:45:35
Speaker
E eu lembro-me, a primeira vez que ouvi Velvet Underground, e eu consumia muito rock, porque consumia uma série de coisas, mas não tinha chegado aos Velvet, e um dia que chega aos Velvet.
00:45:48
Speaker
E foi uma coisa... Eu lembro-me de pensar, o que é isto?
00:45:56
Speaker
Porque era um rock diferente, era um rock muito diferente, e nós hoje percebemos, e depois...
00:46:03
Speaker
Era um grupo que vivia muita genialidade do governo E sentias mesmo a coisa avant-garde É que só o facto, imagina, existia, não é?
00:46:11
Speaker
Imagina, eu com, sei lá, 14 anos Eu devo ter ouvido de Alba 13, 14 existia Mas era avant-garde à mesma, não é?
00:46:19
Speaker
Sim, sim E de repente, uau, isto é muito avant-garde, o que é isto?
00:46:23
Speaker
É espetacular
00:46:24
Speaker
Eu senti, obviamente, ainda hoje, que canções que o tempo não modifica.
00:46:35
Speaker
Ou seja, tudo hoje em dia, aquilo que ali está, isso é perfeitamente contemporâneo.
00:46:43
Speaker
Tinha sido gravado ano passado quase tudo.
00:46:47
Speaker
E eles realmente tinham esse lado de... essa força criativa.
00:46:54
Speaker
Eles depois tinham muitas questões dentro do grupo.
00:46:59
Speaker
Porque não temer Manico, depois o Andy Warhol pegava umas partidas e dizia agora... Não, quem vai cantar é... Ah, eu sei que, por exemplo, quando eu... A meio do processo da gravação,
00:47:16
Speaker
Entra o Tom Wilson, que é o tal produtome, e o Andy, até gravar outras coisas, mas não podes mexer no que já está.
00:47:28
Speaker
Ou seja, tudo o que fizeres aqui é por acrescento.
00:47:32
Speaker
E isso é o que eu penso que marca mesmo a característica daquela aula.
00:47:37
Speaker
Por exemplo, o Sunday Morning, quando eles metem a celeste e metem aquele som de topos bonito,
00:47:45
Speaker
e umas guitarras limpinhas, melodiosas, é com este Tom Wilson, que era um grande produtor, que foi o primeiro a trabalhar com o Franco Sapa e com outros músicos assim, que este no Valdílion também.
00:47:58
Speaker
E então ele percebeu aquilo que era também a força do Andy Wallace.
00:48:06
Speaker
Percebeu, este tipo sabe o que quer e portanto se ele não está a proibir de mexer no que está, ele podia fazer o que quisesse.
00:48:14
Speaker
Tinha era de deixar o que estava.
00:48:16
Speaker
Ponto, eu tinha que pôr por cima.
00:48:18
Speaker
E isso depois uma característica ao disco...
00:48:23
Speaker
que no fundo acaba por ser essa masterpiece que toda a gente diz, não é?
00:48:28
Speaker
É uma obra de arte, não dúvida não há.
00:48:30
Speaker
Sim, sim.
00:48:31
Speaker
Olha, eu escolhi o Heroin como a minha canção favorita, mas estive muito, muito indecisa.
00:48:36
Speaker
Não, nem é indecisa.
00:48:38
Speaker
Eu escolhi o Heroin porque acho que... Espanha toda cruz.
00:48:42
Speaker
Não é por isso, é porque eu gosto muito do Venues in Fierce.
00:48:46
Speaker
É mesmo a minha cena.
00:48:48
Speaker
O Venues in Fierce é a minha cena.
00:48:50
Speaker
que eu acho que o Heroin é tão bem feita, tão bem feita, tão bem feita, que também é a minha cena.
00:48:57
Speaker
Pronto.
00:48:57
Speaker
Pronto.
00:48:58
Speaker
E portanto, não conseguimos escolher uma das duas Mas, querendo passar aqui um bocadinho do Erowin Vamos ouvi-la e conversamos
00:49:31
Speaker
Então Alex, a Heroin, diz-me lá.
00:49:37
Speaker
É uma das músicas mais fortes do disco, é um facto.
00:49:44
Speaker
Tanto do ponto de vista musical, ele traz logo uma nota de dissonância, de guitarras afinadas e coisas um bocado fora do registro.
00:49:59
Speaker
Mas acima de tudo tem a ver com aquilo que penso eu.
00:50:04
Speaker
Nova York era na altura.
00:50:06
Speaker
Nós estamos a falar de uma época em que a heroína...
00:50:12
Speaker
ainda não era aquilo que é hoje, ou seja, a heroína era uma droga aceitável, como fazia parte do percurso de um junkie, não é?
00:50:23
Speaker
Passar por diversos tipos de drogas, afetaminas, muitas, e a heroína era uma espécie de contrapeso a ingressar, para que nós pensarmos, por exemplo, um dos grandes influenciadores, vai lá,
00:50:42
Speaker
Influencers do Lobbyde foi o William Bobbs.
00:50:48
Speaker
O autor era o Raymond Chandler, mas o William Bobbs esteve viciado em heroína 23 anos.
00:50:58
Speaker
Ao mesmo tempo era uma droga que na altura provavelmente tinha um grau de fereza diferente do que é hoje.
00:51:05
Speaker
E talvez fosse mais pacífico viver com essa droga.
00:51:10
Speaker
Mas de qualquer maneira é um retrato.
00:51:12
Speaker
Ele tem duas músicas que falam sobre heroína neste disco, que é o I'm Waiting For The Man e o Heroine.
00:51:21
Speaker
Sendo que eu acho que era principalmente porque dentro daquela comunidade com quem ele se dava já, era um dos problemas, era a heroína.
00:51:31
Speaker
Havia muita gente que se viciava em heroína, depois nem todos conseguiam ultrapassar o seu.
00:51:37
Speaker
A heroína muda de facto a morfologia cerebral, ou seja, a potência daquilo.
00:51:43
Speaker
Agora, eu tenho amigos... Eu passei muito... Nunca tive viciado em heroína, mas passei essa fase... Aliás, falei nisso um bocadinho, mas... e Macau salvaram-se dias muito, voltando ao assunto, por estarmos tão obcecados com a música.
00:52:05
Speaker
Com a música.
00:52:07
Speaker
E acabávamos para não ter tempo para... Sim.
00:52:10
Speaker
Agora, porquê que eu gosto desta canção?
00:52:13
Speaker
Para além de ser extraordinariamente bem a letra, desde a letra à composição de tudo, não é?
00:52:19
Speaker
Esta oscilação que nos mostra perfeitamente aquilo que pode ser uma tripe da heroína, não é?
00:52:25
Speaker
É ele não fazer qualquer julgamento, nem ele fazer qualquer enaltação da coisa.
00:52:31
Speaker
Ah, sim.
00:52:32
Speaker
Não é?
00:52:33
Speaker
Ou seja, o que é espetacular é Ao mesmo tempo que a música é super intensa uma neutralidade na forma como ele apõe Que ele nem faz julgamentos à heroína Nem faz enaltações Nem a coloca no pedestal Nem a coloca no charco Isto é espetacular É mesmo espetacular E não falei da Venus in Fierce Que é a mesma que eu gosto mais Mas eu escolhi esta Porque acho que tínhamos que falar desta
00:53:01
Speaker
Patrícia, queres dizer alguma coisa sobre o heroína ou vamos ouvir a tua favorita?
00:53:06
Speaker
Era muito idêntica para tratar e falar exatamente, mas eu acho que o disco tem que o álbum e até tu diz, não é?
00:53:11
Speaker
uma... Não queria dizer denúncia, por nem sequer chegar a essa denúncia, não é?
00:53:16
Speaker
Há uma exposição de um Estado
00:53:18
Speaker
que não é moralizado, que aparece como postatação desse lugar e a maneira como está feito, extraordinário vem mesmo um pulmo, vem a este sítio e fatua para ser olhado, para ser pensado mas é forma pura, eu acho que é extraordinário isso não ia dizer o caminho na cena do que estavas a dizer, mas da heroína que aparece muito como uma espécie de companhia, uma falsa companhia que também está presente ao longo do álbum estes sítios de engodo, aparecem com marido de idas e a minha música favorita para ti, porque
00:53:47
Speaker
Mas espera, antes tu is a sua música favorita, porque eu acho que precisamos de falar disto só um bocadinho.
00:53:51
Speaker
Diz, diz.
00:53:51
Speaker
Diz, diz.
00:53:52
Speaker
Que essa falta-se acompanhia, que vamos ver, no caso dos Velvet Underground, e deste disco é uma obra de arte que nos faz muito que acompanhe, não é?
00:54:01
Speaker
Mas põe a estes lugares, não é?
00:54:04
Speaker
Exatamente, e eu queria ir aí, Patrícia.
00:54:06
Speaker
Eu queria ir a esse sítio.
00:54:07
Speaker
Nós estamos a precisar de ir a esse sítio, porque a puta é...
00:54:10
Speaker
Desculpa, diz.
00:54:11
Speaker
Não, é dizer o silenciamento destes lugares de rasgão interno, onde é preciso olhar para a dor crua, não é?
00:54:18
Speaker
E para a brutalidade da existência, e para a vertigem, e para este tópico.
00:54:21
Speaker
Se nós não olharmos para eles, eles tomam conta de nós de outras maneiras, não é?
00:54:24
Speaker
Pequeno aquilo que estavas a dizer, se estes lugares não forem vividos...
00:54:28
Speaker
Vão ser substituídos por lugares muito mais... Porque estes lugares são de uma ordem profunda.
00:54:33
Speaker
Atenção, não é?
00:54:34
Speaker
Ou seja, eles podem não ter muita densidade, mas eles tocam-nos num sítio visceral.
00:54:40
Speaker
Eu acho que há este ponto importantíssimo ao longo do álbum, que é a consciência do lugar.
00:54:44
Speaker
Tu podes não saber o que fazer com ele, mas uma vertigem.
00:54:46
Speaker
E isto é onde é vertigem?
00:54:48
Speaker
Não há um aplanamento deste sítio.
00:54:51
Speaker
E há nenhum abafamento.
00:54:52
Speaker
A purificação disto, na hora que tem ainda a acontecer, faz com que possas ter consciência da vertigem, que é mais perigoso.
00:54:58
Speaker
A heroína aparece sobre uma forma muito mágica.
00:55:01
Speaker
explicativa, possível, mas muito mais vazia do que sentida, do que vivida.
00:55:07
Speaker
A ausência de companhia interna torna-se um lugar mais apesicopatado.
00:55:11
Speaker
Isto não é uma religião europeia, não me paro nem a paginar.
00:55:14
Speaker
Mas é a nossa dificuldade de poder olhar para estes sítios, com a sua amoralidade toda, para os transformar.
00:55:22
Speaker
Mas eu acho extraordinário, repetiste, acho que estou só três vezes.
00:55:25
Speaker
Aqui é os rádio Macau salvar.
00:55:27
Speaker
É porque é isso, um lugar.
00:55:29
Speaker
O que é que salva verdadeiramente?
00:55:30
Speaker
O que é realmente da heroína propriamente dita é esta capacidade de estarem com os... Estar uns com os outros e de terem esta coisa de família, não é?
00:55:39
Speaker
Portanto, perceberam que podem contar.
00:55:41
Speaker
E a coragem de fazer esta travesia deste comboio, não é?
00:55:44
Speaker
Entrar dentro do comboio, o que é que se tem?
00:55:47
Speaker
E acreditar que vais-te conseguir fazer qualquer coisa porque o conjunto é maior do que a unidade, não é?
00:55:52
Speaker
O que é que devia ser óbvio, mas não está assim.
00:55:54
Speaker
Xará.
00:55:55
Speaker
Então, agora te posso deixar ir ao...
00:55:58
Speaker
ir ao I'll Be Your Mirror que é a tua música favorita do álbum eu não vou dizer que é a minha música favorita mas é aquela que a mim me salva dentro do próprio álbum que é a Ana Esco eu acho que essa música é dedicada a Nicole é cantada por ela e ela é que canta pois
00:56:17
Speaker
Para mim salvou-me um bocadinho isto, como se me tivesse dado, ainda que eu acho que a voz dela tem qualquer coisa de estranho e de secudo ao mesmo tempo.
00:56:27
Speaker
Portanto, dá e não dá.
00:56:29
Speaker
Mas em todo caso, esta promessa deste lugar onde há um olhar que te reconhece, que te faz a tal companhia que sustenta todo o resto.
00:56:35
Speaker
Portanto, a minha era que o se disse assim, a base permite suputar todo o abismo que é oferecido a partir dali.
00:56:41
Speaker
Mas sou eu, não é?
00:56:42
Speaker
Não me levem a mal, mas eu vejo-a como a maior vampira de todas, por isso é que tu sei.
00:56:48
Speaker
Eu vou-te só dizer, não, é verdade.
00:56:49
Speaker
E mesmo a voz dela, a voz dela apela a exular.
00:56:52
Speaker
Eu acho que aquela segura da voz que promete este olhar, que pode ver espolhar, simultaneamente é uma queda no vazio.
00:56:56
Speaker
Eu também acho que ela... Sim, sim.
00:56:58
Speaker
Quem acha?
00:56:59
Speaker
Até sente um certo sarcasmo, na maneira como ela diria.
00:57:01
Speaker
Claro.
00:57:03
Speaker
Há um certo sarcasmo, não é?
00:57:04
Speaker
Não sei.
00:57:06
Speaker
É mesmo.
00:57:07
Speaker
E eu acho também que este disco tem outra coisa que está nas entrelinhas, que é o facto de a tensão amorosa, sexual, entre o Lowry, o Andy Warhol, a ciumeira toda ali à volta, ali uma segunda leitura que nós não sabemos bem.
00:57:30
Speaker
E a Nicole também, no meio deste triângulo,
00:57:37
Speaker
acaba por também dar ali uma outra força à Keydys.
00:57:41
Speaker
É uma coisa que eu achei piada.
00:57:44
Speaker
Eu, por acaso, não teve nada a ver porque eu li a biografia de Loury para seis meses.
00:57:55
Speaker
E é muito engraçado porque jogou-me imenso a ponto de teres folizado este disco e tudo aquilo que ele conta na... Não é ele que escreve, não é?
00:58:05
Speaker
Na autobiografia, não sei.
00:58:08
Speaker
E todos os outros projetos.
00:58:09
Speaker
E depois as relações amorosas.
00:58:11
Speaker
Eu sinceramente não sabia que este lado sexual entre as...
00:58:22
Speaker
entre o Lowryd e o Andy Warhol e outros que não fazia ideia de que ele tinha sido admitido essas relações tão atribuadas e depois de repente tinha uma fase em que arranjavam uma namorada e ia para a casa dos pais e ficavam um criudo a ser o mais normal possível de acordo com os seus padrões mas é muito giro, é muito engraçado ver o
00:58:52
Speaker
como é que aqui uma mistura de diferentes ingredientes para resultar neste algo de orçamento fantástico.
00:59:03
Speaker
uma coisa que eu acho que caracteriza muito este disco, que é o facto de ser a junção perfeita, é como se costuma dizer as pessoas certas no momento certo.
00:59:19
Speaker
Quando se junta à poesia do Lou Reed, com toda a inovação musical trazida também pelo John Cale,
00:59:29
Speaker
E temos que pensar também que o John Cale traz para este disco coisas inesperadas que têm muito a ver com o facto daquilo que ele trouxe do fluxo em movimento artístico pirá.
00:59:49
Speaker
Aquela década, 60, 70,
00:59:52
Speaker
e a ideia das guitarras desafinadas, das guitarras sobrepostas, dos feedbacks, etc.
01:00:02
Speaker
deram também uma certa cor a este disco e se juntarmos a isso também a força do Andy Warhol e a capacidade que ele tinha de intervir, não intervir neste disco, fizeram
01:00:19
Speaker
criaram o objeto certo num momento certo, ou seja, dentro do contexto que se vivia na altura em Nova Iorque e nesta época, final dos anos 60.
01:00:29
Speaker
Se pensaram-se também ao mesmo tempo no Mai 68, no Flower Power, etc.
01:00:35
Speaker
Isto aparece aqui
01:00:37
Speaker
como de certa forma também uma certa pedrada nos charcas, diz que acaba por ter uma importância, ou vir a ganhar uma importância que nunca lhe foi atribuída quando saiu.
01:01:17
Speaker
Alex, gostaste de estar aqui?
01:01:20
Speaker
Gostei muito, adorei.
01:01:24
Speaker
Muito barulho, Alex.
01:01:25
Speaker
Isto dispersou-nos um bocadinho.
01:01:28
Speaker
Desculpa?
01:01:28
Speaker
Muito barulho, Alex.
01:01:29
Speaker
Isto dispersou-te um bocadinho.
01:01:31
Speaker
Sim, mas estou aqui dentro da minha concha com os headphones...
01:01:35
Speaker
Aguento perfeitamente, não problema nenhum.
01:01:38
Speaker
Então, nós vamos terminar.
01:01:41
Speaker
Muito obrigada por teres vindo.
01:01:42
Speaker
Quero desde agradecer ao João e ao Fred e aqui à janela da Ataleia por nos ter recebido hoje com imensa gente a esta hora.
01:01:52
Speaker
Agradecer à Patrícia Câmara, agradecer à Carolina Pinchel que esteve a fazer o som arduamente.
01:01:58
Speaker
Agradecer aos Dirty Mac que fazem o jingle.
01:02:01
Speaker
Os Dirty Mac dão a música ao nosso single e a voz da Joana Bernardo.
01:02:05
Speaker
Obrigada à Climepsi por todo este material.
01:02:08
Speaker
Nós estamos de volta para o próximo mês.