Transcript
Speaker: Três divãs, a psicanálise, o mundo e o rock'n'roll.
Speaker: Quando ouço o disco escolhido para o episódio de hoje, tenho imediatamente uma imagem mental.
Speaker: O movimento na rua dos bares, com a chegada das pessoas que gostamos de ver chegar, para continuarmos por ali fora, com elas.
Speaker: Como poderia dizer alguém em 1976, que é o ano deste disco, lá vai a camaradagem.
Speaker: Um desabafo.
Speaker: Já vamos tendo saudades do tempo que vivíamos mais a rua, não?
Speaker: E desta vez fui à etimologia.
Speaker: A palavra camaradagem deriva de camarada com o sufixo agem.
Speaker: A sua origem remonta ao latim câmara, quarto, câmara,
Speaker: evoluindo do espanhol camarada para designar no século XVI o grupo de soldados que partilhava o mesmo alojamento, destacando a confiança e o companheirismo entre quem dorme no mesmo quarto.
Speaker: Pegando nisto, eu diria, aqueles que convivem em intimidade.
Speaker: A amizade agida.
Speaker: A rua como lugar privilegiado para a camaradagem.
Speaker: A união do grupo a fortalecer a luta.
Speaker: E também como lugar para a rebeldia, como sentimos no ritmo das canções.
Speaker: E o rompimento das amarras, presentes nos riffs de guitarra ao longo de todo o álbum.
Speaker: A rua, o lugar onde se vive a comunidade, o sítio onde ela é criada, onde se luta pela conquista, onde circula o ar e se vive a liberdade.
Speaker: E o amor também, claro.
Speaker: Aqui no disco, ele espreita no espaço entre, como diz a Patrícia Câmara, com quem vou já conversar.
Speaker: Hoje temos connosco o Henrique Brandão Johnson, que trouxe com ele o Jailbreak do Stine Lizzie.
Speaker: Vamos dar-lhe as boas-vindas e o microfone.
Speaker: Boa noite, Henrique.
Speaker: Boa noite.
Speaker: Sejas bem-vindo ao Três Divãs, podes apresentar-te.
Speaker: Boa!
Speaker: Estou muito grato porque estou aqui em sua casa.
Speaker: Eu sou Henrique Brandal Johnson, sou da Suécia, mas eu moro 25 anos no Brasil.
Speaker: Estou aqui em Lisboa agora para lançar o meu livro, o último livro, Saudade, que autografia de um sentimento.
Speaker: Mas, olha, já morei aqui em Lisboa nos anos 90.
Speaker: Já foi aqui a primeira vez em 92.
Speaker: E, por acaso, vi o Guns N' Roses, Soundgarden e Faith no Mono Alvalade.
Speaker: Eu também, eu também.
Speaker: Ah, sim!
Speaker: E encontrei com a banda depois.
Speaker: Porque o meu amigo... Como é que nós nos conhecemos nessa altura?
Speaker: É!
Speaker: Porque o meu amigo é um holandês muito parecido com Duffy.
Speaker: Então, quando a gente foi para Sheraton para tentar encontrar com a banda, as guardas abriram as portas.
Speaker: Sabes que ele era membro da banda?
Speaker: E a gente foi até o bar no final.
Speaker: E a segurança dela também abriu as portas.
Speaker: Então, de repente, eu estava ao lado da Axl Rose, bebendo bebida de graça, falando com ele.
Speaker: Meu Deus, que maravilha.
Speaker: Não, foi incrível.
Speaker: Isso tinha sido o meu sonho dessa lenda.
Speaker: Isso foi em 92.
Speaker: Fiquei tão feliz assim.
Speaker: E depois eu voltei para Portugal várias vezes, mas eu trabalhei aqui em 98, no Expo 98.
Speaker: Trabalhei no pavilhão da Suécia e aprendi o português.
Speaker: Antes falava espanhol.
Speaker: E foi aqui que me interessei pelo mundo lusófono.
Speaker: Já fiz um outro livro, que se chama Viagens pelos Sete Pecados da colonização portuguesa.
Speaker: Também foi fruto dessa estadia aqui, porque saíram muitos bares, boates, clubes caverdianos, música caverdiana, angolana...
Speaker: restaurantes moçambicanos, achei muito bom, e fui para Cabo Verde.
Speaker: E de lá eu decidi, olha, vou para o Brasil, então fui para o Brasil e fiquei lá trabalhando como correspondente.
Speaker: Mas, olha, esse tempo em Lisboa foi lá que eu aprendi essa... encontrei com essa palavra saudade.
Speaker: pela primeira vez.
Speaker: E eu achei a palavra tão bonita, era da música de César e Évora, né?
Speaker: Soldado, soldado.
Speaker: E assim, eu achei lindo e também reconheci um pouco, porque eu sou da Suécia, né?
Speaker: A gente tem uma melancolia nórdica, que dá para ver nos filmes de Ingmar Bergman, né?
Speaker: Então, eu acho que por isso os suecos e os escandinavos gostam de Portugal, porque a gente tem algumas coisas em comum, né?
Speaker: Se não é tão...
Speaker: Como o espanhol latino.
Speaker: A gente tem uma outra coisa.
Speaker: Mas fiquei só curioso com essa palavra.
Speaker: Comecei a fazer uma pesquisa, mas nunca senti saudade.
Speaker: Estava escrevendo sobre uma coisa que nunca senti.
Speaker: Mas, durante a pandemia, eu estava no Brasil, estava preso, não podia ir para a Suécia, não podia matar a saudade.
Speaker: Então, pensei, olha, eu tenho saudade agora, isso que é saudade.
Speaker: Eu quero voltar para a Suécia, mas eu não posso.
Speaker: Então, eu posso imaginar a Suécia.
Speaker: Então, comecei a fazer comida sueca em casa, escutando música sueca, para matar essa saudade sem conseguir voltar.
Speaker: E essa sensação foi tão legal em mim que eu pensei, olha, eu acho que tem que escrever sobre isso.
Speaker: E depois da pandemia, foi para a Suécia, foi ótimo, estava com saudade mesmo.
Speaker: Mas depois de um mês, eu fiquei com saudade do Brasil.
Speaker: Porque Suécia é muito bom, mas o Brasil é mais engraçado.
Speaker: Então, comecei a sentir essa coisa de saudade.
Speaker: E por isso escrevei o livro e procurei
Speaker: Quem no mundo lusófono tem mais saudade?
Speaker: Pensei, quem pode ser assim?
Speaker: Então, eu sabia dessas coisas da migração.
Speaker: E sabia dessa coisa dos açorianos, que foram para a Califórnia nos anos 60.
Speaker: Eu pensei, acho que eles devem estar muito a saudar, porque eles foram para o Central Valley, Vale Central de Califórnia, que é 200 quilômetros do mar.
Speaker: Então, o açoriano, não é só que eles falam...
Speaker: A terra natal também falta das ilhas, do mar.
Speaker: Então, comecei a fazer a pesquisa, fiz a viagem para Assórios, fui para a Califórnia para encontrar com os assorianos, e depois fui para Madeira para escrever sobre essa história que também é incrível, os madeirenses que foram para Caracas, para Venezuela.
Speaker: Então, se você está em Caracas... Vocês conhecem a Venezuela?
Speaker: Nunca fui a Venezuela.
Speaker: Mas é incrível.
Speaker: Qualquer bairro tem um supermercado que o dono é português.
Speaker: E a maior parte deles é madeirenses.
Speaker: Sim, e madeirenses.
Speaker: Hoje em dia, 70% do mercado, os donos são madeirenses.
Speaker: E um dos maiores supermercados se chama Central Madeirense.
Speaker: Não tem nada a ver com Venezuela.
Speaker: E eles têm muita saudade, porque há pessoas que...
Speaker: Eles migraram para a Venezuela e a vida melhorou, porque a Venezuela era muito rica de petróleo.
Speaker: Mas, depois que aconteceu essa coisa de chavismo e maduro, eles tinham que voltar para Madeira.
Speaker: E, quando eles voltaram para Madeira, os madeirenses não estavam tratando eles muito bem, porque os madeirenses, em Caracas, esqueceram o português.
Speaker: Eles não falam mais português, falam castiliano.
Speaker: E eles têm uma saudade muito profunda, porque eles estão madeiras, são madeirenses, mas estão com saudade de Venezuela.
Speaker: E uma Venezuela que não existe mais, porque quebrou, o país não é como era.
Speaker: Então é uma saudade muito profunda.
Speaker: Então eu usei também, explorei a saudade deles.
Speaker: também para entender o meu saudade.
Speaker: E nos últimos capítulos escreveu sobre os caboverdianos, que são campeões do mundo de saudade.
Speaker: Porque as ilhas... Vocês conhecem Cabo Verde, não é?
Speaker: Sim.
Speaker: Sim, boa.
Speaker: Qual ilha você conhece?
Speaker: Não, se eu conheço Cabo Verde, não, eu nunca estive em Cabo Verde.
Speaker: Você nunca foi?
Speaker: Eu nunca estive em Cabo Verde, conheço muito bem a música cabo-verdiana, as mornas e a música cabo-verdiana que eu conheço bem.
Speaker: Eu nunca estive em Cabo Verde, apesar de constantemente, nós temos uma amiga que adora Cabo Verde e que me está constantemente a dizer, tens que vir comigo, tens que vir comigo, eu nunca fui, mas tenho que ir.
Speaker: Tem que ir, tem que ir.
Speaker: Mas a coisa engraçada é que eu entendo muito bem os açorianos, em Central Valley, em deserto, que eles faltam nas ilhas verdes, açúes, assim.
Speaker: Mas Cabo Verde?
Speaker: Só tem uma ilha que é verde, em Santo Antão.
Speaker: Só metade dessa ilha que é verde.
Speaker: O resto é um deserto.
Speaker: Mas mesmo assim, os cafeirantes têm muita saudade.
Speaker: Essa morna é uma explicação disso.
Speaker: Então, eu fui para Massachusetts, Nova Inglaterra, para entrevistar os capo-verdianos.
Speaker: E lá, encontrei pessoas com muita, muita saudade, porque muitos dos capo-verdianos não têm visto.
Speaker: Eles são, como se diz, imigrantes ilegais.
Speaker: Então, se eles voltam para a capo-verdianos, nunca mais podem entrar nos Estados Unidos.
Speaker: E encontrei um homem lá que não tinha encontrado a resposta dele por 25 anos.
Speaker: Esse homem estava com muita saudade.
Speaker: Sim, claro.
Speaker: Tanto tempo.
Speaker: E hoje, Henrique, hoje já sabes o que é saudade.
Speaker: E já sente.
Speaker: Ele teve um ataque agora na Páscoa, no Rio.
Speaker: Um ataque.
Speaker: saudade, porque eu estava vendo no Instagram toda a minha família, todos os meus amigos reunidos.
Speaker: Eu estava lá, Sosinho, Rio de Janeiro, minha filha mudou para a Suécia, eu moro na Suécia, já separei cinco anos atrás, então eu não tinha família.
Speaker: Ah, o que eu vou fazer agora?
Speaker: Abre a geladeira.
Speaker: E achei uma lata de arenque, que a gente come na Suécia.
Speaker: Então, abriu essa arenque, comecei, matando a saudade.
Speaker: Totalmente, não é?
Speaker: Matar mesmo.
Speaker: Se tu disseste uma coisa aí, que foi o Brasil é mais engraçado que a Suécia.
Speaker: Conta lá da tua experiência, não é?
Speaker: Vives há 25 anos no Brasil.
Speaker: Estavas a falar que estavas na Suécia e que estavas com saudades do Brasil e disseste porque a Suécia é boa, mas o Brasil é mais engraçado.
Speaker: O que é que tu...
Speaker: Olha, Suécia é muito bom, eu adoro Suécia, essa coisa de você poder confiar no outro, tudo funciona, ninguém vai roubar você, mas é um pouco chato.
Speaker: No Brasil, todo dia é diferente, você não sabe se vai ter eletricidade, água, ou se o bar está aberto ou fechado, é sempre uma surpresa.
Speaker: E tem problemas, a gente fala se tem que matar um leão por dia.
Speaker: Especialmente no Rio de Janeiro, porque as coisas não funcionam.
Speaker: Mas mesmo assim, funciona!
Speaker: E isso eu acho que vira mais engraçado, porque é difícil ter uma rotina chata, porque sempre alguma coisa que quebra a sua rotina.
Speaker: Eu acho que isso é bom.
Speaker: Para mim é ótimo, não cair numa rotina, fazer coisas diferentes.
Speaker: Sim, e por isso te entusiasma mais o Brasil, percebo.
Speaker: Disseste outra coisa aí que editaste os sete pecados da colonização portuguesa?
Speaker: podes desvendar porque este livro já saiu há quanto tempo saiu em 2021 tem 5 anos tem 5 anos e que pecado é que tu atribuíste a Portugal você não quer saber não eu quero mesmo saber porque eu tenho um palpite
Speaker: Inveja.
Speaker: A sério?
Speaker: Inveja.
Speaker: E diz-me, por quê?
Speaker: Primeiro tem o filósofo português, o Chil, ele escreve sobre isso, do Inveja, que é a Inveja do outro, mas a Inveja é da Espanha, que a Espanha, a ditadura acabou em 1976 e logo depois foi um país moderno, aqui demorou um pouco mais.
Speaker: em vez de Moçambique, do Brasil, desses países que são os portugueses que colonializaram, e Moçambique virou o país mais engraçado da África, o país mais gostoso, Maputo é tipo Havana, da África.
Speaker: E o Brasil é o Brasil, o Rio de Janeiro.
Speaker: E aqui em Portugal não foi a mesma coisa, então é uma em vez de diferentes coisas.
Speaker: Ok.
Speaker: E sentiste isso, não é?
Speaker: E leste sobre isso, não é?
Speaker: Sim, sim, sim.
Speaker: E também, como o Chusei Chiles fala sobre isso, né?
Speaker: Inveja do vicinho, inveja muito, sim, olhando para o outro.
Speaker: Ah!
Speaker: uma raiva e agora Lisboa quando a gente tem essas digital nomads andando com a perola pede mais uma mas o português pagando 8 euros para a perola e muita coisa sim, sim, sim olha, e a tua relação com Portugal?
Speaker: Minha relação?
Speaker: Não, minha relação com o português é muito boa.
Speaker: Porque foi dessa viagem em 1992, já trabalhei como jornalista, fui para a Sevilha para cobrir a Exposição Mundial em 1992, e por acaso foi para Lisboa, não era planejado.
Speaker: Era alguém que encontrei no hotel que falou assim...
Speaker: Ah, vai lá para Lisboa, é muito bom, muito barato.
Speaker: Eu era um jornalista pobre, então, tá bom, tá barato, então eu vou.
Speaker: E foi aqui, peguei o ônibus, autocarro, e foi para Martim Muniz, achei pensão moderna, que é na escada de saúde, subindo lá.
Speaker: Não existe mais, mas eu acho que nessa época eram 1500 escudos, que era nada para um sueco.
Speaker: Então fiquei aqui três semanas, encontrei o Barrio Alto e me apaixonei por Barrio Alto.
Speaker: Fiquei em um lugar chamado Hell's Kitchen, não sei se é a época de vocês.
Speaker: Começou no final dos 80, 91, 92.
Speaker: Era muito assim, batendo a porta, abrindo e entrando.
Speaker: Ok, muito fixe.
Speaker: E assim, então, gostei muito e voltei aqui em 96 e trabalhei aqui em 98 e fiquei... senti muito bem em Lisboa.
Speaker: Que bom.
Speaker: E agora, o teu livro está a ser bem acolhido em Lisboa?
Speaker: Muito bem.
Speaker: Estou super feliz.
Speaker: Porque pensei que o último livro, o penúltimo de Viagem dos Sete Pecados, virou uma batata quente.
Speaker: Porque no livro estou...
Speaker: Ninguém queria tocar, nem a editora.
Speaker: Tem uma editora boa, a Penguin, mas nem Penguin queria divulgar esse livro, porque estava criticando o colonialismo, o imperialismo e a escravidão.
Speaker: Mas eu sou sueco, então não tenho nada com raiva de Portugal, nada disso.
Speaker: Só estou escrevendo os fatos.
Speaker: Mas 2021 já era cedo para essa discussão.
Speaker: E agora, hoje, estou vendo que não, agora dá para discutir isso.
Speaker: Então, hoje estava no ARTP Mundo, no programa, e o radialista estava com o outro livro na mão, ele queria falar sobre esse livro.
Speaker: E o outro jornalista, o Expresso, estava me entrevistando, ele estava com o livro de saudades, mas também do viagem dos sete pecados.
Speaker: Então, significa que agora dá para falar sobre essas coisas.
Speaker: Sentes isso, não é?
Speaker: Sim Mas é muito giro A ideia, não é?
Speaker: Ao mesmo tempo é como se fosse Almofadar com a saudade para poder pensar Essas coisas todas Como se fosse preciso chegar a esse lugar para depois poder Então Às vezes é assim, tem que dar uma volta Para os outros, para ser possível de ser escutado Claro
Speaker: Muito bem.
Speaker: E, portanto, aliás, tu disseste aí a tua relação com Portugal, daquilo que eu percebo, é boa e tu gostas de estar cá, não é?
Speaker: Sim, sim, eu adoro.
Speaker: Sim, claro, eu percebi isso.
Speaker: Estou ficando no Chardim de Torel, está acordando todo dia, o sol, o céu está lindo.
Speaker: E, claro, me irrita um pouco das digital nomes, que todo mundo fala inglês, não é?
Speaker: Estou com saudades de Lisboa nos anos 90.
Speaker: Sim, sim.
Speaker: Ah, essa era Lisboa.
Speaker: Acho que temos todos um bocadinho O meu favorito no Rua do Seckler é o Bauschnob Sim, o Snob Você podia fumar lá dentro Adorei Agora já não pode Não pode fumar O restaurante existe ainda Mas é comprado por um grupo Então é limpo demais Foi muito recente Eu estava lá Sempre quando faço a escala Indo para a Suécia Sempre fico aqui alguns dias
Speaker: Eu adorei esse homem mal-rumorado que estava lá, abrindo a porta, fazendo bife.
Speaker: E a filha dele ainda mais mal-rumorada.
Speaker: Mas tinha um amor, um carinho.
Speaker: E agora são brasileiros que trabalham lá, que trabalham seis meses, depois vai outro.
Speaker: Então não dá para ter essa conexão com o lugar.
Speaker: É um bocadinho mais descaracterizado e tem algumas coisas diferentes mesmo.
Speaker: É, e fica muito bonito.
Speaker: É, está mais fancy.
Speaker: Nós
Speaker: Sim, eu também não sou muito apreciadora, mas pronto, é a transformação que estamos a ter, e não é só em Portugal, não é só em Lisboa, outros sítios já tiveram, outros estão a ter agora, eu diria infelizmente, porque acho que o que...
Speaker: O que sempre têm trazido as pessoas a Portugal é a identidade dos portugueses, não é?
Speaker: Que é o que faz, a diferença de identidades é que nos faz querer conhecer outros lugares.
Speaker: E estamos todos a ficar muito iguais, não é?
Speaker: E neste fenómeno global.
Speaker: Então, vamos ao nosso disco?
Speaker: Vamos!
Speaker: Então vá!
Speaker: Enrique!
Speaker: Ai, que eu estou a ter uma branca com o nome do disco, ajuda-me.
Speaker: Jailbreak.
Speaker: Jailbreak, obrigada.
Speaker: Jailbreak do Stine Lizzie.
Speaker: Porquê?
Speaker: Porquê que escolhiste isto?
Speaker: É um bom lápis, antes disso.
Speaker: É muito sintomático, tendo em consideração o que ela estava a dizer e o nome.
Speaker: Fuga, né?
Speaker: Jailbreak e fuga.
Speaker: A palavra fuga.
Speaker: Então, o Jailbreak do Stine Lizzie, porquê?
Speaker: Porquê que escolheste isto?
Speaker: Olha, Felice é a minha banda favorita, né?
Speaker: E esse álbum, Jailbreak, é um ano icônico dos anos 70.
Speaker: E esse mês, abril, faz 50 anos que esse álbum foi lançado.
Speaker: Olha que bom!
Speaker: É, são as chances que estão muito... Um bom timing aqui, né?
Speaker: E foi esse álbum que fez...
Speaker: Thin Liss é uma banda grande.
Speaker: Antes era uma banda irlandesa, tocando na Europa, tocando na Suécia, aqui também, mas não era uma banda grande.
Speaker: Mas com Jailbreak, eles fizeram uma coisa incrível, a recomposição em Estados Unidos.
Speaker: Então, virou uma banda grande.
Speaker: Então, esse é um disco muito importante para Thin Liss.
Speaker: E, para mim, também é bom, porque é um...
Speaker: Você tem heavy rock nesse álbum, você também tem soul, você tem essa diversidade que é o Finlice.
Speaker: Por isso eu gosto do Finlice, porque eu tinha quantos anos?
Speaker: 76, sete anos.
Speaker: Então eu não sabia nada sobre essa jailbreak.
Speaker: Depois, quando virei adolescente, comecei mais a gostar de ser Motorhead, Judas Priest, Iron Maiden.
Speaker: Então, Finlice é um pouco mais sofisticado.
Speaker: Mas com 20 anos, eu descobri, Finlice, uau, essa banda é muito boa.
Speaker: E a coisa diferente com as outras bandas é que as letras são boas.
Speaker: O Phil Leinert, o cantor, ele é um vocalista, ele é um poeta, ele tem dois livros de poesia.
Speaker: Dá para mencionar outro heavy rock que tem dois livros de poesia?
Speaker: Não!
Speaker: É ele!
Speaker: E ele também é o único negro na música de heavy rock, porque Judas Priest é muito branco.
Speaker: O público é branco, quem toca a banda são brancos.
Speaker: E ele não, ele é negro, então ele é diferente.
Speaker: Então eu gostei dessa coisa.
Speaker: E eu gosto até hoje.
Speaker: Sim, eu estava aqui a ouvir-te e sim, o disco tem muitos ritmos, tem muitos estilos musicais, mas de facto a Rolling Stone disse sempre que era um discar de rock, não é?
Speaker: Embora eu te vá confessar uma coisa, um dos tipos que eu mais gosto do rock irlandês é o Rory Gallagher.
Speaker: e nós sentimos o Rory Gallagher aqui também não é?
Speaker: incrível aliás eu acho que é por aí acho que é pelo Rory Gallagher que eu chego quer dizer, os teen liseis chegaram primeiro que o Rory Gallagher conheci o teen lisei e também era adolescente mas depois eu acho que passei a gostar mais teen lisei depois de gostar de Rory Gallagher ter conhecido o Rory Gallagher e de perceber a influência também do Rory Gallagher
Speaker: aqui nas músicas deles então é um álbum que te acompanha há muito tempo para aquilo que estás a dizer que deves ter ouvido lembras-te de ter ouvido quando eras criança
Speaker: Não, assim, a primeira vez que eu estava escutando, assim, Lissa, eu estava com talvez 14, 15 anos, não gostei muito, porque eu queria um rock mais pesado, mais... Motorhead, assim.
Speaker: Mas foi, assim, ao longo do tempo, assim, eu gostei muito do The Boys Are Back In Town, essa música maravilhosa.
Speaker: E The Black Rose, o outro álbum depois, assim.
Speaker: Então, essa...
Speaker: Foi uma coisa amadurecendo, o finalista estava amadurecendo dentro de mim.
Speaker: Sim, que bom.
Speaker: Patrícia, tu gostaste do disco?
Speaker: Gostei muito, não estava à espera que me passasse.
Speaker: Desculpa, estava aqui muito concentrada a ouvir.
Speaker: Estava aqui embalados na conversa e depois.
Speaker: Mas eu já estava a sentir a tua falta, a sentir a falta da tua voz.
Speaker: Eu estava contente de ouvir e já pensei em tantas coisas desde que começamos.
Speaker: Mas o que senti no disco é uma estrutura de narrativa.
Speaker: Há qualquer coisa que vai aparecendo, não é?
Speaker: Assim, se eu gostei muito.
Speaker: Como se houvesse uma espécie até quase de protagonistas, não é?
Speaker: Estás a ouvir e parece que aparecem protagonistas.
Speaker: Acho que isso é... Pelo menos não me costuma acontecer.
Speaker: É como se estivesse muito bem... Não sei, faz acontecer, não é?
Speaker: Faz-te acontecer o olhar como uma espécie de narrativa implícita.
Speaker: Mas com isto, com este aparecer de personagens, parece às vezes quase cinematográfico.
Speaker: É a sensação que eu tenho com o disco.
Speaker: Havia assim uns momentos...
Speaker: Não sei se você sente isto também, mas iam aparecendo coisas quase cinematográficas e muito densas.
Speaker: É um disco mesmo denso.
Speaker: Sim, sim, muito denso.
Speaker: Quando comecei a ouvir, no princípio, não percebi que era.
Speaker: A sério.
Speaker: E depois, de repente, fui me adaptando a sério.
Speaker: Fui entrando, mas achei muito denso e muito rico por essa densidade.
Speaker: Mas estava pensando na quantidade de coisas incríveis que tu já disseste, que eu já tirei aqui uma data de apontamentos e notas, mas isto é na lateral, lá na 13.
Speaker: Mas, principalmente, fiquei aqui presa nesta coisa da inveja e da saudade.
Speaker: Porque achei a ligação toda que tu fizeste incrível.
Speaker: E o olhar, chegar e perceber que aqui, talvez uma das maiores problemáticas, que não nos deixa fazer esse movimento, também me deu a branca.
Speaker: Qual movimento?
Speaker: Do jailbreak.
Speaker: Do jailbreak.
Speaker: Está difícil essa jailbreak.
Speaker: Nós estamos com dificuldades.
Speaker: Mas é esta coisa, não é?
Speaker: Realmente esta coisa que ficou dentro de nós de uma incapacidade ou de uma grande dificuldade de poder usufruir da própria liberdade.
Speaker: E que eu acho que a saudade dá acesso a esse lugar de alguma maneira, não é?
Speaker: Mas se ela não for vivida verdadeiramente, eu acho que isso é outra coisa.
Speaker: Nós falamos sobre saudade, mas a verdade é que parece que nem a podemos viver, não é?
Speaker: Pelo menos cá eu tenho esta ideia.
Speaker: Se a vivêssemos com maior tranquilidade, a inveja não seria de certeza o lugar principal.
Speaker: É como se estivéssemos condenados a uma saudade que na realidade não podemos sentir.
Speaker: Não sei se estou a conseguir.
Speaker: explicar-vos a minha ideia.
Speaker: O que eu achei incrível no disco é porque eu acho que esta condição existencial está lá.
Speaker: Neste disco.
Speaker: Esta condição da possibilidade de poderes encontrar essa liberdade com esta condição existencial sempre presente.
Speaker: Esta ideia da...
Speaker: Até a própria ideia da saudade, eu não sabia que vocês iam direcionar aqui, mas não é a própria ideia da saudade.
Speaker: Eu acho que está lá presente como base de fundo.
Speaker: E tinha outra pergunta para te fazer, só esta.
Speaker: Ah é?
Speaker: Em sueco, qual seria a coisa que mais se assemelharia?
Speaker: Do quê?
Speaker: Da palavra saudade.
Speaker: Como se pronuncia?
Speaker: Que outra palavra poderia utilizar se fosse assim?
Speaker: Eu tenho que usar duas palavras para explicar saudade para os suecos.
Speaker: Enchön soy, que significa uma tristeza prazerosa.
Speaker: Uma tristeza prazerosa.
Speaker: Sim.
Speaker: E outra palavra que eu uso no livro para traduzir, explicar o conceito de saudade é agridoce.
Speaker: Essa coisa que são dois ambíguos juntos.
Speaker: Essa coisa única com a saudade, que eu gosto com a saudade.
Speaker: E dá para traduzir para outras línguas, mas tem que usar mais palavras para explicar-o.
Speaker: Exatamente, exatamente Para transmitir essa mesma ideia E também achei incrível Outra coisa que me parece também estar no livro Que é esse sítio da terra de ninguém Porque quando nós nos começamos A movimentar para outras terras Internas e externamente Chega-se àquele lugar onde não há terra de ninguém Que é simultaneamente o sítio onde nunca mais podemos regressar Estava a pensar, há essa coisa do desejo de voltar a um sítio Que na verdade nunca mais pode ser Porque o tempo passou
Speaker: E portanto não tem como se matar, eu achei graça até a expressão, porque realmente nós usamos a expressão matar a saudade, mas a verdade é que nunca conseguimos.
Speaker: Ela é impossível de ser morta, aliás a inveja seria, acho eu, no limite, um matar a saudade concretizado.
Speaker: A impossibilidade de fazê-lo do contrário, não é?
Speaker: Sim?
Speaker: Sim, sim, sim.
Speaker: Sim, essa coisa de, por exemplo, esses madeirenses que querem voltar para a Venezuela, m as a Venezuela não está lá.
Speaker: Exatamente.
Speaker: Mas tem vários assim, porque falei com iranianos também.
Speaker: Tem um iraniano que mora em Londres, nasceu em Londres,
Speaker: E ele tem saudade de Irã, que ele nunca visitou.
Speaker: Porque ele foi criado com os pais iranianos, com família ariana, com comida persa em casa.
Speaker: E ele nunca foi para o Irã.
Speaker: Ele parece super iraniano, mas ele nunca foi lá.
Speaker: No livro, estou escrevendo que a saudade dele é quase como uma dor de fantasma.
Speaker: Um dor que não... Aonde está essa dor?
Speaker: Porque ele nunca foi.
Speaker: É uma saudade duro.
Speaker: Olha, é como nós.
Speaker: Eu, às vezes, quando estou no Alentejo, tenho saudades de Lisboa, mas é de uma Lisboa que já não existe.
Speaker: E tenho saudades.
Speaker: Às vezes estou lá e até imagino, e às vezes penso, já me apetece ir para Lisboa, mas a sensação que está cá dentro é de uma Lisboa que depois eu chego aqui e não encontro.
Speaker: Então, eu mesmo em Lisboa estou permanentemente com saudades de Lisboa, atualmente.
Speaker: É incrível.
Speaker: É isso.
Speaker: Olha, e tu escolheste o Cowboy Song, a Cowboy Song, porque é uma canção.
Speaker: Por que a Cowboy Song?
Speaker: Cowboy Song, porque adoro, porque viajo muito, vivo muito bem no Rio de Janeiro, mas o meu trabalho é correspondente.
Speaker: Então, às vezes, estou em Colômbia, Argentina, México, assim.
Speaker: E nessa música, eles falam, I am just a cowboy, lonesome on the trail.
Speaker: E às vezes, eu me sinto sozinho, porque tenho amigos em várias cidades, em México, mas mesmo assim, chegando num hotel...
Speaker: É tarde, eu e uma cama.
Speaker: Então, é Lons of the Trail.
Speaker: Então, sempre coloca essa música porque você dá um pouco de consolo.
Speaker: Você não é o único que está... Sim, sim.
Speaker: Estou fazendo companhia.
Speaker: Exato, um pouco de companhia.
Speaker: E ele canta também, Roll me over, turn me around.
Speaker: Let Me Keep Rolling Until I Hit the Ground.
Speaker: Também gosto dessa coisa de loucura, porque, enquanto viajo, vou nos bares, encontro os meus amigos e mata, talvez, uma saudade.
Speaker: Mas, no fundo, volto para o meio do quarto, sozinho, Lonesome on the Trail.
Speaker: Again.
Speaker: Então, para mim, essa música é um abraço, é uma almofada, é uma coisa... Como assim?
Speaker: Que lindo!
Speaker: Que gosto ouvir.
Speaker: E eu também, um pouco... Não é machista, mas ele fala assim... I'm thinking of a certain female.
Speaker: Que gosto, porque já vivi tantas histórias no Rio de Janeiro.
Speaker: Sempre tem uma certain female assim.
Speaker: Sim.
Speaker: E isso eu acho que é lindo, porque essa é uma saudade também, mas saudade de amor.
Speaker: Você está pensando em uma mulher, você não manda mensagem para ela.
Speaker: Talvez eu mando, mas você fica pensando.
Speaker: Ela era tão legal, por que terminamos?
Speaker: Então, o Calvo é um pouco...
Speaker: auto-reflectivo, estou refletindo na minha vida, mas também um pouco de melancólico, porque, pô, Lonesome of a Trailer, estou lá sozinho.
Speaker: Então, por isso escolhi essa música, e adoro essa música.
Speaker: E também, musicalmente,
Speaker: Essa música foi uma das músicas que inventou essa coisa de duas guitarras gêmeas, que fazem melódicos juntos, que depois Iron Maiden copiou, outras bandas copiaram, mas foi Scott Gorham e Brian Robertson que fizeram essa solo juntos.
Speaker: E em Cowboy Song, ao vivo, no álbum Live in Dangerous, é espectacular.
Speaker: Patrícia, Cowboy Song.
Speaker: Então, eu não sei se tenho alguma coisa a acrescentar, porque me identifico muito com tudo aquilo que o Henrique já disse.
Speaker: A ideia da solidão e liberdade, não é?
Speaker: Acima de tudo, não é?
Speaker: Como é que as duas coisas podem...
Speaker: Falta-me a palavra.
Speaker: Ajuda-me.
Speaker: Como é que podem estar... A solidão e a liberdade, não é?
Speaker: No fundo, as duas completamente sempre de mãos dadas.
Speaker: E ser sempre tão difícil saber onde eu queria chegar.
Speaker: Obrigada.
Speaker: Então, ser sempre tão difícil saber qual é o fio, o gume onde nós aguentamos as coisas, não é?
Speaker: Ou cair.
Speaker: Porque acho que está espetacular a ideia do rodeo que cai, não é?
Speaker: Qual é o momento a partir do qual nós corremos o risco de cair, não é?
Speaker: E o que é que está lá realmente para nos amparar.
Speaker: E a ideia que vocês estavam a falar de companhia...
Speaker: Mas o que me acontece com estas músicas é como se me viessem sempre imagens cinematográficas, eu não vou ser explicar isto, mas até me levou ao Danças com o Lobo, não sei porquê, mas há qualquer coisa do Danças com o Lobo para mim, neste tema deve ser o Coyote e a Fogueira, mas esta ideia assim da solidão, alguns na solidão, o que é que se encontra pelo caminho, quando...
Speaker: não se quer fazer a fronteira o lugar da vida não é a ausência de fronteira mas de uma capacidade de estar na relação com os outros menos identitarista mais capaz de se abnegar mas acho que tudo o que tu disseste subscrevo sim
Speaker: E tu ias falar aí qualquer coisa de um livro?
Speaker: Ia falar de um livro, mas não era a propósito desta música, era tudo o que gastou a estar.
Speaker: Era do que tínhamos estado a falar, antes posso falar, é capaz de lá e dar.
Speaker: Não, eu achei que era sobre a música, por isso é que eu te disse, não fales, não fales, porque assim vou-te dar a palavra.
Speaker: Não.
Speaker: Mas diz o que ias dizer sobre o livro.
Speaker: Não, ia dizer só do livro do Milan Kundera, mas que nós gostamos, agora queria me lembrar, eu hoje estou assim, peço-vos desculpa.
Speaker: Mas eu acho que é na ignorância, que tem também uma descrição no princípio, por causa desta ideia da terra de ninguém, não é?
Speaker: Bom, no fundo, esta música também toca nisto.
Speaker: mas também tem uma descrição fabulosa também do lugar de regresso dele depois da guerra, não é?
Speaker: E a sensação de que não era de lugar nenhum e que isso também lhe era transmitido pelos outros, estava a pensar isso.
Speaker: Também isso que dizias da Madeira, não é?
Speaker: Tanto da minha família é da Madeira e tinha uns primos que também não... que tinham estado... e que relatavam isso, não é?
Speaker: Há tantas dificuldade de encontrar outra vez, não é?
Speaker: Porque na Venezuela eram madeirenses e tinham um sotaque madeirense e, portanto, era evidente sempre esse lugar de...
Speaker: E quando chegaram ao Madeira, realmente já não tinham o sotaque madeirense como achavam que tinham.
Speaker: E, portanto, até foi o confronto com a diferença daquilo que eles próprios transportavam, não é?
Speaker: Ou seja, eles eram este lugar de fronteira, de alguma maneira.
Speaker: Que eu acho que esta música também relata bem, não é?
Speaker: Como é que se sobrevive a viver-se neste lugar de uma fronteira que não é a fronteira, não é?
Speaker: Pronto.
Speaker: Não, exatamente Não sabia, você A sua mãe ou o pai?
Speaker: O pai, da Madeira Ah, boa, do Funchal A minha avó era do Funchal e o meu avô da Camacha Ah, boa
Speaker: Mas então você visitou várias vezes?
Speaker: Vou lá toda hora.
Speaker: Tenho a minha ilha sagrada que é o Porto Santo.
Speaker: A ilha das férias que é um bocadinho parecida com, toda a gente diz que é muito parecida com algumas ilhas de Cabo Verde.
Speaker: Nunca foi nessa ilha.
Speaker: É a segunda vez essa semana que alguém fala sobre essa ilha.
Speaker: Tem que ir.
Speaker: Tem um signo para Henrique e tem que ir lá.
Speaker: Tem mesmo, o Porto Santo.
Speaker: Porque tem esse lugar, esse lugar mais do horizonte, dessa nostalgia, está mais presente no Porto Santo, ela é mais denunciada, na Madeira é egréstia.
Speaker: Sim, boa.
Speaker: No Porto Santo o tempo para Olha eu já a dizer no Porto Santo Como a Patrícia diz Eu também digo Na Ponte Sor No Porto Santo Ok Então a Patrícia A música favorita A canção favorita da Patrícia deste álbum É o Warriors Então Gostas do Warriors?
Speaker: Adoro Então
Speaker: Patrícia Câmara.
Speaker: Começo já eu?
Speaker: Clara é a tua canção favorita.
Speaker: Eu acho esta letra fabulosa, porque me parece que consegue pôr de uma maneira, não quero dizer sarcástica, que não acho que seja sequer sarcástica, porque também não é cínica, denuncia mesmo este lugar de condição existencial que eu acho que este álbum tem imenso, não é?
Speaker: Quase que brinca com ele, porque tu chamas o guerreiro, aquilo que é a condição existencial, no fundo eu trago desta mensagem e vais morrer.
Speaker: Portanto, pensa a partir desse lugar, não penses a partir do outro.
Speaker: E realmente olhar isto, olhar nos olhos, como ele diz, não é?
Speaker: E tem de pretty, não é?
Speaker: Mas é necessário.
Speaker: Achei isto fabuloso, há muito tempo que não havia alguma coisa que me fizesse sentir este reconhecimento deste lugar.
Speaker: Nós andamos todos a... É uma coisa que nós temos falado imenso, mas...
Speaker: Andamos com tanto medo de falar sobre este sítio, não é?
Speaker: E este medo de falar sobre este sítio é que me parece que nos tem levado a sítios tão letais, tão mortíferos, que aqui a maneira como aparece na música acho extraordinária.
Speaker: A voz dele, a maneira como... Pronto, a própria voz para mim é mesmo acutilante, mas ao mesmo tempo tem a tal almofada, não é?
Speaker: É acutilante, mas está sustentada, não te abandona à própria morte.
Speaker: Portanto, faz a tal companhia para suportar.
Speaker: Claro.
Speaker: Mas há muito tempo que não via, que não lia uma coisa que denunciasse tão bem este sítio.
Speaker: Tipo, olha para aqui, está aqui.
Speaker: Portanto, esta é a novidade que eu tenho para te dar.
Speaker: Aguenta-te.
Speaker: Sim, sim, sim.
Speaker: Adorei.
Speaker: Sim, é mesmo.
Speaker: Olha, é o anúncio da morte acompanhada.
Speaker: Sim, toda a letra é maravilhosa Pergunta àqueles que já passaram por lá Acho que é fabuloso Porque é pequena a letra Mas é super densa Mais uma vez, eu acho que isto tem uma densidade incrível Percebo porque é a questão da poesia Porque eu acho que esta letra é um poema Exatamente
Speaker: Também acho que há aqui uma coisa que isto pode ser, que também me parece que com este poema, para além do que tu estás a dizer, acho que há outra mensagem que passa, que é às vezes é preciso matar para continuar.
Speaker: Com esta frase, my heart is ruled by Venus, é que isto é espetacular, não é?
Speaker: Está aqui o sítio onde é possível, onde a vida continua.
Speaker: Sim.
Speaker: Henrique, gostas desta canção?
Speaker: Eu adoro esta música, mas gosto mais da música de Warriors, das guitarras.
Speaker: Nesta música, não escuto tanto as letras, porque gosto da agressividade da música.
Speaker: E a versão ao vivo é fabulosa.
Speaker: Porque acho que aqui, esta coisa das duas guitarras encontrando, é muito bom mesmo.
Speaker: Sim, que acho que é entre... Eu agora estava aqui a pensar na expressão, porque às vezes há guerreiros que vão para a conquista e há guerreiros que vão para matar mesmo, não é?
Speaker: É quase como se as duas guitarras fizessem cada uma a sua parte.
Speaker: Essa parte, não é?
Speaker: Uma guitarra estivesse a fazer... Como se a guitarra fosse uma arma, não é?
Speaker: Exatamente, o lado da conquista e o lado do matar, não é?
Speaker: Sim, mas o ritmo é muito bom, sim.
Speaker: Também perco um bocadinho aqui no ritmo desta canção.
Speaker: Eu escolhi, como tinha que ser, The Boys Are Back In Town.
Speaker: E precisamente porque deve ser que mais genuinamente me faz sentir aquilo que eu descrevi na introdução.
Speaker: Esta coisa do The Boys Are Back In Town, acho que pode ser uma coisa, acho que literalmente faz-me recordar e faz-me ter saudades um bocadinho disto, que é...
Speaker: de estar num dos meus bares favoritos de sempre à espera que cheguem as pessoas que me vão fazer companhia e que vão estar na mesma sintonia que eu e que depois vamos e depois nos vamos divertir muito e vamos conversar muito e vamos ali entrar pela noite dentro e portanto todo este movimento de encontro por identificação por amizade por confraternização por intimidade
Speaker: com amigos, em bares ou na rua mesmo mesmo na rua acho que é uma coisa que acarreta sempre uma certa musicalidade nem que seja só andar na rua acho que é uma coisa de musicalidade nisso nos nossos passeios pela rua ou qualquer intervenção que seja feita na rua
Speaker: E, portanto, foi por isso que eu escolhi, porque acho que tem mesmo esta coisa vibrante e poderosa de eles estão a chegar, que é como se tudo fosse começar outra vez, vai tudo começar, há sempre alguém a chegar, esse alguém...
Speaker: É alguém que tem uma influência boa sobre ti e que vai transformar o ambiente numa coisa nova.
Speaker: Que pode ser de esperança, também pode levar à luta, não é?
Speaker: Esta coisa do boys back in town também pode ser um gang que vai rebentar com tudo a seguir.
Speaker: Mas há uma energia de... E que esta palavra...
Speaker: antiga, que é quase fora de moda, que é camaradagem, não é?
Speaker: Camaradagem é uma palavra quase fora de moda, assim como é o bestial, também é um bocadinho fora de moda, mas é tudo dali dos 70's, não é?
Speaker: Dos 70's usava-se muito a palavra bestial e a camaradagem, mas eu acho que eu tenho saudades disto, ainda hoje sinto a tensão, nós sentimos isto de qualquer coisa boa que está a chegar, que é esta coisa do boys back in town, isto vai haver vibração, vai haver... Claro que há...
Speaker: Mas há esta coisa cinematográfica que a Patrícia estava a falar, que é exatamente a imagem mental que me fica na cabeça quando ouço este disco.
Speaker: É isto, rapaz.
Speaker: As pessoas que tu queres que cheguem vão chegar.
Speaker: E, portanto, vai haver uma correspondência entre o teu desejo e a concretização desse desejo e a energia que transporta esse desejo.
Speaker: É por isso que eu gosto desta canção.
Speaker: Foi uma muito boa explicação, porque eu adoro essa coisa, The Boys Are Back In Town.
Speaker: Quando eu escuto essa música, eu volto para Malmo, minha cidade natal, e a gente era um grupo de cinco, seis amigos.
Speaker: A gente sempre saímos juntos, fazendo besteira.
Speaker: Mas quando a gente chegou no bar, o bar sabia, agora vai ter festa, porque The Boys Are Back In Town.
Speaker: Essa é a coisa linda nessa música.
Speaker: Por isso dá para...
Speaker: Essa música funciona muito bom em bares.
Speaker: Você coloca isso... Vocês estão aqui, vou pôr essa back-end-town.
Speaker: Coloca essa música.
Speaker: Lindo.
Speaker: E o Phil Liner, ele escreveu essa música, porque ele estava morando em Londres, pobres, tentando... Já lançaram vários discos que não deu...
Speaker: Não foi um sucesso.
Speaker: Então, eles voltaram para a Irlanda, não tinham dinheiro para avião, então eles foram para Holyhead, no alto da Irlanda, pegou o ferry para Dublin.
Speaker: E lá nessa transversia de Inglaterra para a Irlanda, ele escreveu essa música, porque ele estava imaginando...
Speaker: que agora a gente vai para Dublin, agora a gente vai fazer merda, agora a gente vai tratar a gente bem, porque eles sofreram bullying em Londres, porque eram irlandeses, católicos, e ingleses não gostam disso, mas em Dublin eles eram abraçados, então é assim, finalmente a gente vai voltar, os boys are back in town.
Speaker: muito bom Patrícia?
Speaker: a Patrícia nem tem nada a acrescentar gostei tanto do que vocês disseram mas acho que é este sentido só de reencontro interno e de uma memória coletiva que parece a tal identidade do Fabra no princípio com a coisa que nos devolve e que dá a garra outra vez só isto é isto mesmo bom estamos a chegar ao fim
Speaker: Tem mais uma música lá Que é o meu novo favorito Porque troca favorito Que é o máximo favorito Mas tem uma música que se chama Running Back Que é uma música do soul Que é muito simples É sobre um amor que terminou
Speaker: E como aí tem o namoro que terminou, então escuta essa música todo dia.
Speaker: É muito bom.
Speaker: Escuta as letras, não sei se vocês vão entender assim.
Speaker: Sim, vou estar aqui.
Speaker: Muito bom.
Speaker: Running back.
Speaker: Ok.
Speaker: Henrique, gostaste de estar aqui conosco?
Speaker: muito, me sinto como em casa estamos em casa estamos literalmente em casa mas foi muito bom, muito obrigada por ter aceitado estar aqui connosco eu vou agradecer também à Patrícia Câmara à Carolina Pinchel que fez aqui o som agradecer à Climeps e Editores que nos empresta todo este material
Speaker: Agradecer como sempre aos Dirty Mac e à Yoko Ono que fazem o jingle, a música do nosso jingle e à Joana Bernardo que dá voz.
Speaker: E se não te importares, vamos terminar com uma passagem do teu livro Saudade.
Speaker: Eu vou-te pedir para seres tu a ler.
Speaker: Pode ser?
Speaker: Boa, boa.
Speaker: Então, vamos terminar com as palavras do Henrique e nós voltamos para o mês que vem.
Speaker: Até lá.
Speaker: Boa, vou começar aqui no capítulo sobre Cabo Verde.
Speaker: A gente está em Praia de São Pedro, Ilha de São Vicente.
Speaker: É assim.
Speaker: Estendo a toalha na areia e prendo os cantos com as minhas chinelas brasileiras, para que não voem enquanto nado.
Speaker: Caminho com determinação em direcção à beira-mar.
Speaker: As ondas mornas molham-me os pés.
Speaker: Sinto-me em casa.
Speaker: Devagar entro e mergulho no Atlântico como se fosse um meio líquido amniótico.
Speaker: Nado até ao fundo, com os olhos abertos e agarro numa concha branca que guardo como recordação.
Speaker: Depois, deito-me de costas e deixo o mar salgado subir e descer pelo meu corpo enquanto flutuo.
Speaker: Fecho os olhos e penso na escolha de viajar para o Brasil.
Speaker: Foi nesta praia que tomei a decisão.
Speaker: São Pedro é o origem da minha saudade.
Speaker: Devo dizer culpa?
Speaker: Não o sinto dessa forma.
Speaker: Sinto antes gratidão.
Speaker: Quando abro os olhos, percebo que as correntes me levaram para longe da praia.
Speaker: Fui atraído para o Brasil, como se fosse o meio destino.
Speaker: Não há nada do que me deve arrepender.
Speaker: Muito obrigada, Henrique.
Speaker: Muito obrigada.
Speaker: Desculpa, fiquei emocionado.
Speaker: Não, não.
Speaker: Desculpa, não.
Speaker: Não peças desculpa.
Speaker: É isso mesmo que é a saudade.
Speaker: Isso.
Speaker: Emociona.
Speaker: Até para o mês que vem.