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Episódio 41

Três Divãs
Três Divãs

85 plays · Jun 1, 2026

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Speaker: Três divãs, a psicanálise, o mundo e o rock'n'roll.

Speaker: Quando ouço o disco escolhido para o episódio de hoje, tenho imediatamente uma imagem mental.

Speaker: O movimento na rua dos bares, com a chegada das pessoas que gostamos de ver chegar, para continuarmos por ali fora, com elas.

Speaker: Como poderia dizer alguém em 1976, que é o ano deste disco, lá vai a camaradagem.

Speaker: Um desabafo.

Speaker: Já vamos tendo saudades do tempo que vivíamos mais a rua, não?

Speaker: E desta vez fui à etimologia.

Speaker: A palavra camaradagem deriva de camarada com o sufixo agem.

Speaker: A sua origem remonta ao latim câmara, quarto, câmara,

Speaker: evoluindo do espanhol camarada para designar no século XVI o grupo de soldados que partilhava o mesmo alojamento, destacando a confiança e o companheirismo entre quem dorme no mesmo quarto.

Speaker: Pegando nisto, eu diria, aqueles que convivem em intimidade.

Speaker: A amizade agida.

Speaker: A rua como lugar privilegiado para a camaradagem.

Speaker: A união do grupo a fortalecer a luta.

Speaker: E também como lugar para a rebeldia, como sentimos no ritmo das canções.

Speaker: E o rompimento das amarras, presentes nos riffs de guitarra ao longo de todo o álbum.

Speaker: A rua, o lugar onde se vive a comunidade, o sítio onde ela é criada, onde se luta pela conquista, onde circula o ar e se vive a liberdade.

Speaker: E o amor também, claro.

Speaker: Aqui no disco, ele espreita no espaço entre, como diz a Patrícia Câmara, com quem vou já conversar.

Speaker: Hoje temos connosco o Henrique Brandão Johnson, que trouxe com ele o Jailbreak do Stine Lizzie.

Speaker: Vamos dar-lhe as boas-vindas e o microfone.

Speaker: Boa noite, Henrique.

Speaker: Boa noite.

Speaker: Sejas bem-vindo ao Três Divãs, podes apresentar-te.

Speaker: Boa!

Speaker: Estou muito grato porque estou aqui em sua casa.

Speaker: Eu sou Henrique Brandal Johnson, sou da Suécia, mas eu moro 25 anos no Brasil.

Speaker: Estou aqui em Lisboa agora para lançar o meu livro, o último livro, Saudade, que autografia de um sentimento.

Speaker: Mas, olha, já morei aqui em Lisboa nos anos 90.

Speaker: Já foi aqui a primeira vez em 92.

Speaker: E, por acaso, vi o Guns N' Roses, Soundgarden e Faith no Mono Alvalade.

Speaker: Eu também, eu também.

Speaker: Ah, sim!

Speaker: E encontrei com a banda depois.

Speaker: Porque o meu amigo... Como é que nós nos conhecemos nessa altura?

Speaker: É!

Speaker: Porque o meu amigo é um holandês muito parecido com Duffy.

Speaker: Então, quando a gente foi para Sheraton para tentar encontrar com a banda, as guardas abriram as portas.

Speaker: Sabes que ele era membro da banda?

Speaker: E a gente foi até o bar no final.

Speaker: E a segurança dela também abriu as portas.

Speaker: Então, de repente, eu estava ao lado da Axl Rose, bebendo bebida de graça, falando com ele.

Speaker: Meu Deus, que maravilha.

Speaker: Não, foi incrível.

Speaker: Isso tinha sido o meu sonho dessa lenda.

Speaker: Isso foi em 92.

Speaker: Fiquei tão feliz assim.

Speaker: E depois eu voltei para Portugal várias vezes, mas eu trabalhei aqui em 98, no Expo 98.

Speaker: Trabalhei no pavilhão da Suécia e aprendi o português.

Speaker: Antes falava espanhol.

Speaker: E foi aqui que me interessei pelo mundo lusófono.

Speaker: Já fiz um outro livro, que se chama Viagens pelos Sete Pecados da colonização portuguesa.

Speaker: Também foi fruto dessa estadia aqui, porque saíram muitos bares, boates, clubes caverdianos, música caverdiana, angolana...

Speaker: restaurantes moçambicanos, achei muito bom, e fui para Cabo Verde.

Speaker: E de lá eu decidi, olha, vou para o Brasil, então fui para o Brasil e fiquei lá trabalhando como correspondente.

Speaker: Mas, olha, esse tempo em Lisboa foi lá que eu aprendi essa... encontrei com essa palavra saudade.

Speaker: pela primeira vez.

Speaker: E eu achei a palavra tão bonita, era da música de César e Évora, né?

Speaker: Soldado, soldado.

Speaker: E assim, eu achei lindo e também reconheci um pouco, porque eu sou da Suécia, né?

Speaker: A gente tem uma melancolia nórdica, que dá para ver nos filmes de Ingmar Bergman, né?

Speaker: Então, eu acho que por isso os suecos e os escandinavos gostam de Portugal, porque a gente tem algumas coisas em comum, né?

Speaker: Se não é tão...

Speaker: Como o espanhol latino.

Speaker: A gente tem uma outra coisa.

Speaker: Mas fiquei só curioso com essa palavra.

Speaker: Comecei a fazer uma pesquisa, mas nunca senti saudade.

Speaker: Estava escrevendo sobre uma coisa que nunca senti.

Speaker: Mas, durante a pandemia, eu estava no Brasil, estava preso, não podia ir para a Suécia, não podia matar a saudade.

Speaker: Então, pensei, olha, eu tenho saudade agora, isso que é saudade.

Speaker: Eu quero voltar para a Suécia, mas eu não posso.

Speaker: Então, eu posso imaginar a Suécia.

Speaker: Então, comecei a fazer comida sueca em casa, escutando música sueca, para matar essa saudade sem conseguir voltar.

Speaker: E essa sensação foi tão legal em mim que eu pensei, olha, eu acho que tem que escrever sobre isso.

Speaker: E depois da pandemia, foi para a Suécia, foi ótimo, estava com saudade mesmo.

Speaker: Mas depois de um mês, eu fiquei com saudade do Brasil.

Speaker: Porque Suécia é muito bom, mas o Brasil é mais engraçado.

Speaker: Então, comecei a sentir essa coisa de saudade.

Speaker: E por isso escrevei o livro e procurei

Speaker: Quem no mundo lusófono tem mais saudade?

Speaker: Pensei, quem pode ser assim?

Speaker: Então, eu sabia dessas coisas da migração.

Speaker: E sabia dessa coisa dos açorianos, que foram para a Califórnia nos anos 60.

Speaker: Eu pensei, acho que eles devem estar muito a saudar, porque eles foram para o Central Valley, Vale Central de Califórnia, que é 200 quilômetros do mar.

Speaker: Então, o açoriano, não é só que eles falam...

Speaker: A terra natal também falta das ilhas, do mar.

Speaker: Então, comecei a fazer a pesquisa, fiz a viagem para Assórios, fui para a Califórnia para encontrar com os assorianos, e depois fui para Madeira para escrever sobre essa história que também é incrível, os madeirenses que foram para Caracas, para Venezuela.

Speaker: Então, se você está em Caracas... Vocês conhecem a Venezuela?

Speaker: Nunca fui a Venezuela.

Speaker: Mas é incrível.

Speaker: Qualquer bairro tem um supermercado que o dono é português.

Speaker: E a maior parte deles é madeirenses.

Speaker: Sim, e madeirenses.

Speaker: Hoje em dia, 70% do mercado, os donos são madeirenses.

Speaker: E um dos maiores supermercados se chama Central Madeirense.

Speaker: Não tem nada a ver com Venezuela.

Speaker: E eles têm muita saudade, porque há pessoas que...

Speaker: Eles migraram para a Venezuela e a vida melhorou, porque a Venezuela era muito rica de petróleo.

Speaker: Mas, depois que aconteceu essa coisa de chavismo e maduro, eles tinham que voltar para Madeira.

Speaker: E, quando eles voltaram para Madeira, os madeirenses não estavam tratando eles muito bem, porque os madeirenses, em Caracas, esqueceram o português.

Speaker: Eles não falam mais português, falam castiliano.

Speaker: E eles têm uma saudade muito profunda, porque eles estão madeiras, são madeirenses, mas estão com saudade de Venezuela.

Speaker: E uma Venezuela que não existe mais, porque quebrou, o país não é como era.

Speaker: Então é uma saudade muito profunda.

Speaker: Então eu usei também, explorei a saudade deles.

Speaker: também para entender o meu saudade.

Speaker: E nos últimos capítulos escreveu sobre os caboverdianos, que são campeões do mundo de saudade.

Speaker: Porque as ilhas... Vocês conhecem Cabo Verde, não é?

Speaker: Sim.

Speaker: Sim, boa.

Speaker: Qual ilha você conhece?

Speaker: Não, se eu conheço Cabo Verde, não, eu nunca estive em Cabo Verde.

Speaker: Você nunca foi?

Speaker: Eu nunca estive em Cabo Verde, conheço muito bem a música cabo-verdiana, as mornas e a música cabo-verdiana que eu conheço bem.

Speaker: Eu nunca estive em Cabo Verde, apesar de constantemente, nós temos uma amiga que adora Cabo Verde e que me está constantemente a dizer, tens que vir comigo, tens que vir comigo, eu nunca fui, mas tenho que ir.

Speaker: Tem que ir, tem que ir.

Speaker: Mas a coisa engraçada é que eu entendo muito bem os açorianos, em Central Valley, em deserto, que eles faltam nas ilhas verdes, açúes, assim.

Speaker: Mas Cabo Verde?

Speaker: Só tem uma ilha que é verde, em Santo Antão.

Speaker: Só metade dessa ilha que é verde.

Speaker: O resto é um deserto.

Speaker: Mas mesmo assim, os cafeirantes têm muita saudade.

Speaker: Essa morna é uma explicação disso.

Speaker: Então, eu fui para Massachusetts, Nova Inglaterra, para entrevistar os capo-verdianos.

Speaker: E lá, encontrei pessoas com muita, muita saudade, porque muitos dos capo-verdianos não têm visto.

Speaker: Eles são, como se diz, imigrantes ilegais.

Speaker: Então, se eles voltam para a capo-verdianos, nunca mais podem entrar nos Estados Unidos.

Speaker: E encontrei um homem lá que não tinha encontrado a resposta dele por 25 anos.

Speaker: Esse homem estava com muita saudade.

Speaker: Sim, claro.

Speaker: Tanto tempo.

Speaker: E hoje, Henrique, hoje já sabes o que é saudade.

Speaker: E já sente.

Speaker: Ele teve um ataque agora na Páscoa, no Rio.

Speaker: Um ataque.

Speaker: saudade, porque eu estava vendo no Instagram toda a minha família, todos os meus amigos reunidos.

Speaker: Eu estava lá, Sosinho, Rio de Janeiro, minha filha mudou para a Suécia, eu moro na Suécia, já separei cinco anos atrás, então eu não tinha família.

Speaker: Ah, o que eu vou fazer agora?

Speaker: Abre a geladeira.

Speaker: E achei uma lata de arenque, que a gente come na Suécia.

Speaker: Então, abriu essa arenque, comecei, matando a saudade.

Speaker: Totalmente, não é?

Speaker: Matar mesmo.

Speaker: Se tu disseste uma coisa aí, que foi o Brasil é mais engraçado que a Suécia.

Speaker: Conta lá da tua experiência, não é?

Speaker: Vives há 25 anos no Brasil.

Speaker: Estavas a falar que estavas na Suécia e que estavas com saudades do Brasil e disseste porque a Suécia é boa, mas o Brasil é mais engraçado.

Speaker: O que é que tu...

Speaker: Olha, Suécia é muito bom, eu adoro Suécia, essa coisa de você poder confiar no outro, tudo funciona, ninguém vai roubar você, mas é um pouco chato.

Speaker: No Brasil, todo dia é diferente, você não sabe se vai ter eletricidade, água, ou se o bar está aberto ou fechado, é sempre uma surpresa.

Speaker: E tem problemas, a gente fala se tem que matar um leão por dia.

Speaker: Especialmente no Rio de Janeiro, porque as coisas não funcionam.

Speaker: Mas mesmo assim, funciona!

Speaker: E isso eu acho que vira mais engraçado, porque é difícil ter uma rotina chata, porque sempre alguma coisa que quebra a sua rotina.

Speaker: Eu acho que isso é bom.

Speaker: Para mim é ótimo, não cair numa rotina, fazer coisas diferentes.

Speaker: Sim, e por isso te entusiasma mais o Brasil, percebo.

Speaker: Disseste outra coisa aí que editaste os sete pecados da colonização portuguesa?

Speaker: podes desvendar porque este livro já saiu há quanto tempo saiu em 2021 tem 5 anos tem 5 anos e que pecado é que tu atribuíste a Portugal você não quer saber não eu quero mesmo saber porque eu tenho um palpite

Speaker: Inveja.

Speaker: A sério?

Speaker: Inveja.

Speaker: E diz-me, por quê?

Speaker: Primeiro tem o filósofo português, o Chil, ele escreve sobre isso, do Inveja, que é a Inveja do outro, mas a Inveja é da Espanha, que a Espanha, a ditadura acabou em 1976 e logo depois foi um país moderno, aqui demorou um pouco mais.

Speaker: em vez de Moçambique, do Brasil, desses países que são os portugueses que colonializaram, e Moçambique virou o país mais engraçado da África, o país mais gostoso, Maputo é tipo Havana, da África.

Speaker: E o Brasil é o Brasil, o Rio de Janeiro.

Speaker: E aqui em Portugal não foi a mesma coisa, então é uma em vez de diferentes coisas.

Speaker: Ok.

Speaker: E sentiste isso, não é?

Speaker: E leste sobre isso, não é?

Speaker: Sim, sim, sim.

Speaker: E também, como o Chusei Chiles fala sobre isso, né?

Speaker: Inveja do vicinho, inveja muito, sim, olhando para o outro.

Speaker: Ah!

Speaker: uma raiva e agora Lisboa quando a gente tem essas digital nomads andando com a perola pede mais uma mas o português pagando 8 euros para a perola e muita coisa sim, sim, sim olha, e a tua relação com Portugal?

Speaker: Minha relação?

Speaker: Não, minha relação com o português é muito boa.

Speaker: Porque foi dessa viagem em 1992, já trabalhei como jornalista, fui para a Sevilha para cobrir a Exposição Mundial em 1992, e por acaso foi para Lisboa, não era planejado.

Speaker: Era alguém que encontrei no hotel que falou assim...

Speaker: Ah, vai lá para Lisboa, é muito bom, muito barato.

Speaker: Eu era um jornalista pobre, então, tá bom, tá barato, então eu vou.

Speaker: E foi aqui, peguei o ônibus, autocarro, e foi para Martim Muniz, achei pensão moderna, que é na escada de saúde, subindo lá.

Speaker: Não existe mais, mas eu acho que nessa época eram 1500 escudos, que era nada para um sueco.

Speaker: Então fiquei aqui três semanas, encontrei o Barrio Alto e me apaixonei por Barrio Alto.

Speaker: Fiquei em um lugar chamado Hell's Kitchen, não sei se é a época de vocês.

Speaker: Começou no final dos 80, 91, 92.

Speaker: Era muito assim, batendo a porta, abrindo e entrando.

Speaker: Ok, muito fixe.

Speaker: E assim, então, gostei muito e voltei aqui em 96 e trabalhei aqui em 98 e fiquei... senti muito bem em Lisboa.

Speaker: Que bom.

Speaker: E agora, o teu livro está a ser bem acolhido em Lisboa?

Speaker: Muito bem.

Speaker: Estou super feliz.

Speaker: Porque pensei que o último livro, o penúltimo de Viagem dos Sete Pecados, virou uma batata quente.

Speaker: Porque no livro estou...

Speaker: Ninguém queria tocar, nem a editora.

Speaker: Tem uma editora boa, a Penguin, mas nem Penguin queria divulgar esse livro, porque estava criticando o colonialismo, o imperialismo e a escravidão.

Speaker: Mas eu sou sueco, então não tenho nada com raiva de Portugal, nada disso.

Speaker: Só estou escrevendo os fatos.

Speaker: Mas 2021 já era cedo para essa discussão.

Speaker: E agora, hoje, estou vendo que não, agora dá para discutir isso.

Speaker: Então, hoje estava no ARTP Mundo, no programa, e o radialista estava com o outro livro na mão, ele queria falar sobre esse livro.

Speaker: E o outro jornalista, o Expresso, estava me entrevistando, ele estava com o livro de saudades, mas também do viagem dos sete pecados.

Speaker: Então, significa que agora dá para falar sobre essas coisas.

Speaker: Sentes isso, não é?

Speaker: Sim Mas é muito giro A ideia, não é?

Speaker: Ao mesmo tempo é como se fosse Almofadar com a saudade para poder pensar Essas coisas todas Como se fosse preciso chegar a esse lugar para depois poder Então Às vezes é assim, tem que dar uma volta Para os outros, para ser possível de ser escutado Claro

Speaker: Muito bem.

Speaker: E, portanto, aliás, tu disseste aí a tua relação com Portugal, daquilo que eu percebo, é boa e tu gostas de estar cá, não é?

Speaker: Sim, sim, eu adoro.

Speaker: Sim, claro, eu percebi isso.

Speaker: Estou ficando no Chardim de Torel, está acordando todo dia, o sol, o céu está lindo.

Speaker: E, claro, me irrita um pouco das digital nomes, que todo mundo fala inglês, não é?

Speaker: Estou com saudades de Lisboa nos anos 90.

Speaker: Sim, sim.

Speaker: Ah, essa era Lisboa.

Speaker: Acho que temos todos um bocadinho O meu favorito no Rua do Seckler é o Bauschnob Sim, o Snob Você podia fumar lá dentro Adorei Agora já não pode Não pode fumar O restaurante existe ainda Mas é comprado por um grupo Então é limpo demais Foi muito recente Eu estava lá Sempre quando faço a escala Indo para a Suécia Sempre fico aqui alguns dias

Speaker: Eu adorei esse homem mal-rumorado que estava lá, abrindo a porta, fazendo bife.

Speaker: E a filha dele ainda mais mal-rumorada.

Speaker: Mas tinha um amor, um carinho.

Speaker: E agora são brasileiros que trabalham lá, que trabalham seis meses, depois vai outro.

Speaker: Então não dá para ter essa conexão com o lugar.

Speaker: É um bocadinho mais descaracterizado e tem algumas coisas diferentes mesmo.

Speaker: É, e fica muito bonito.

Speaker: É, está mais fancy.

Speaker: Nós

Speaker: Sim, eu também não sou muito apreciadora, mas pronto, é a transformação que estamos a ter, e não é só em Portugal, não é só em Lisboa, outros sítios já tiveram, outros estão a ter agora, eu diria infelizmente, porque acho que o que...

Speaker: O que sempre têm trazido as pessoas a Portugal é a identidade dos portugueses, não é?

Speaker: Que é o que faz, a diferença de identidades é que nos faz querer conhecer outros lugares.

Speaker: E estamos todos a ficar muito iguais, não é?

Speaker: E neste fenómeno global.

Speaker: Então, vamos ao nosso disco?

Speaker: Vamos!

Speaker: Então vá!

Speaker: Enrique!

Speaker: Ai, que eu estou a ter uma branca com o nome do disco, ajuda-me.

Speaker: Jailbreak.

Speaker: Jailbreak, obrigada.

Speaker: Jailbreak do Stine Lizzie.

Speaker: Porquê?

Speaker: Porquê que escolhiste isto?

Speaker: É um bom lápis, antes disso.

Speaker: É muito sintomático, tendo em consideração o que ela estava a dizer e o nome.

Speaker: Fuga, né?

Speaker: Jailbreak e fuga.

Speaker: A palavra fuga.

Speaker: Então, o Jailbreak do Stine Lizzie, porquê?

Speaker: Porquê que escolheste isto?

Speaker: Olha, Felice é a minha banda favorita, né?

Speaker: E esse álbum, Jailbreak, é um ano icônico dos anos 70.

Speaker: E esse mês, abril, faz 50 anos que esse álbum foi lançado.

Speaker: Olha que bom!

Speaker: É, são as chances que estão muito... Um bom timing aqui, né?

Speaker: E foi esse álbum que fez...

Speaker: Thin Liss é uma banda grande.

Speaker: Antes era uma banda irlandesa, tocando na Europa, tocando na Suécia, aqui também, mas não era uma banda grande.

Speaker: Mas com Jailbreak, eles fizeram uma coisa incrível, a recomposição em Estados Unidos.

Speaker: Então, virou uma banda grande.

Speaker: Então, esse é um disco muito importante para Thin Liss.

Speaker: E, para mim, também é bom, porque é um...

Speaker: Você tem heavy rock nesse álbum, você também tem soul, você tem essa diversidade que é o Finlice.

Speaker: Por isso eu gosto do Finlice, porque eu tinha quantos anos?

Speaker: 76, sete anos.

Speaker: Então eu não sabia nada sobre essa jailbreak.

Speaker: Depois, quando virei adolescente, comecei mais a gostar de ser Motorhead, Judas Priest, Iron Maiden.

Speaker: Então, Finlice é um pouco mais sofisticado.

Speaker: Mas com 20 anos, eu descobri, Finlice, uau, essa banda é muito boa.

Speaker: E a coisa diferente com as outras bandas é que as letras são boas.

Speaker: O Phil Leinert, o cantor, ele é um vocalista, ele é um poeta, ele tem dois livros de poesia.

Speaker: Dá para mencionar outro heavy rock que tem dois livros de poesia?

Speaker: Não!

Speaker: É ele!

Speaker: E ele também é o único negro na música de heavy rock, porque Judas Priest é muito branco.

Speaker: O público é branco, quem toca a banda são brancos.

Speaker: E ele não, ele é negro, então ele é diferente.

Speaker: Então eu gostei dessa coisa.

Speaker: E eu gosto até hoje.

Speaker: Sim, eu estava aqui a ouvir-te e sim, o disco tem muitos ritmos, tem muitos estilos musicais, mas de facto a Rolling Stone disse sempre que era um discar de rock, não é?

Speaker: Embora eu te vá confessar uma coisa, um dos tipos que eu mais gosto do rock irlandês é o Rory Gallagher.

Speaker: e nós sentimos o Rory Gallagher aqui também não é?

Speaker: incrível aliás eu acho que é por aí acho que é pelo Rory Gallagher que eu chego quer dizer, os teen liseis chegaram primeiro que o Rory Gallagher conheci o teen lisei e também era adolescente mas depois eu acho que passei a gostar mais teen lisei depois de gostar de Rory Gallagher ter conhecido o Rory Gallagher e de perceber a influência também do Rory Gallagher

Speaker: aqui nas músicas deles então é um álbum que te acompanha há muito tempo para aquilo que estás a dizer que deves ter ouvido lembras-te de ter ouvido quando eras criança

Speaker: Não, assim, a primeira vez que eu estava escutando, assim, Lissa, eu estava com talvez 14, 15 anos, não gostei muito, porque eu queria um rock mais pesado, mais... Motorhead, assim.

Speaker: Mas foi, assim, ao longo do tempo, assim, eu gostei muito do The Boys Are Back In Town, essa música maravilhosa.

Speaker: E The Black Rose, o outro álbum depois, assim.

Speaker: Então, essa...

Speaker: Foi uma coisa amadurecendo, o finalista estava amadurecendo dentro de mim.

Speaker: Sim, que bom.

Speaker: Patrícia, tu gostaste do disco?

Speaker: Gostei muito, não estava à espera que me passasse.

Speaker: Desculpa, estava aqui muito concentrada a ouvir.

Speaker: Estava aqui embalados na conversa e depois.

Speaker: Mas eu já estava a sentir a tua falta, a sentir a falta da tua voz.

Speaker: Eu estava contente de ouvir e já pensei em tantas coisas desde que começamos.

Speaker: Mas o que senti no disco é uma estrutura de narrativa.

Speaker: Há qualquer coisa que vai aparecendo, não é?

Speaker: Assim, se eu gostei muito.

Speaker: Como se houvesse uma espécie até quase de protagonistas, não é?

Speaker: Estás a ouvir e parece que aparecem protagonistas.

Speaker: Acho que isso é... Pelo menos não me costuma acontecer.

Speaker: É como se estivesse muito bem... Não sei, faz acontecer, não é?

Speaker: Faz-te acontecer o olhar como uma espécie de narrativa implícita.

Speaker: Mas com isto, com este aparecer de personagens, parece às vezes quase cinematográfico.

Speaker: É a sensação que eu tenho com o disco.

Speaker: Havia assim uns momentos...

Speaker: Não sei se você sente isto também, mas iam aparecendo coisas quase cinematográficas e muito densas.

Speaker: É um disco mesmo denso.

Speaker: Sim, sim, muito denso.

Speaker: Quando comecei a ouvir, no princípio, não percebi que era.

Speaker: A sério.

Speaker: E depois, de repente, fui me adaptando a sério.

Speaker: Fui entrando, mas achei muito denso e muito rico por essa densidade.

Speaker: Mas estava pensando na quantidade de coisas incríveis que tu já disseste, que eu já tirei aqui uma data de apontamentos e notas, mas isto é na lateral, lá na 13.

Speaker: Mas, principalmente, fiquei aqui presa nesta coisa da inveja e da saudade.

Speaker: Porque achei a ligação toda que tu fizeste incrível.

Speaker: E o olhar, chegar e perceber que aqui, talvez uma das maiores problemáticas, que não nos deixa fazer esse movimento, também me deu a branca.

Speaker: Qual movimento?

Speaker: Do jailbreak.

Speaker: Do jailbreak.

Speaker: Está difícil essa jailbreak.

Speaker: Nós estamos com dificuldades.

Speaker: Mas é esta coisa, não é?

Speaker: Realmente esta coisa que ficou dentro de nós de uma incapacidade ou de uma grande dificuldade de poder usufruir da própria liberdade.

Speaker: E que eu acho que a saudade dá acesso a esse lugar de alguma maneira, não é?

Speaker: Mas se ela não for vivida verdadeiramente, eu acho que isso é outra coisa.

Speaker: Nós falamos sobre saudade, mas a verdade é que parece que nem a podemos viver, não é?

Speaker: Pelo menos cá eu tenho esta ideia.

Speaker: Se a vivêssemos com maior tranquilidade, a inveja não seria de certeza o lugar principal.

Speaker: É como se estivéssemos condenados a uma saudade que na realidade não podemos sentir.

Speaker: Não sei se estou a conseguir.

Speaker: explicar-vos a minha ideia.

Speaker: O que eu achei incrível no disco é porque eu acho que esta condição existencial está lá.

Speaker: Neste disco.

Speaker: Esta condição da possibilidade de poderes encontrar essa liberdade com esta condição existencial sempre presente.

Speaker: Esta ideia da...

Speaker: Até a própria ideia da saudade, eu não sabia que vocês iam direcionar aqui, mas não é a própria ideia da saudade.

Speaker: Eu acho que está lá presente como base de fundo.

Speaker: E tinha outra pergunta para te fazer, só esta.

Speaker: Ah é?

Speaker: Em sueco, qual seria a coisa que mais se assemelharia?

Speaker: Do quê?

Speaker: Da palavra saudade.

Speaker: Como se pronuncia?

Speaker: Que outra palavra poderia utilizar se fosse assim?

Speaker: Eu tenho que usar duas palavras para explicar saudade para os suecos.

Speaker: Enchön soy, que significa uma tristeza prazerosa.

Speaker: Uma tristeza prazerosa.

Speaker: Sim.

Speaker: E outra palavra que eu uso no livro para traduzir, explicar o conceito de saudade é agridoce.

Speaker: Essa coisa que são dois ambíguos juntos.

Speaker: Essa coisa única com a saudade, que eu gosto com a saudade.

Speaker: E dá para traduzir para outras línguas, mas tem que usar mais palavras para explicar-o.

Speaker: Exatamente, exatamente Para transmitir essa mesma ideia E também achei incrível Outra coisa que me parece também estar no livro Que é esse sítio da terra de ninguém Porque quando nós nos começamos A movimentar para outras terras Internas e externamente Chega-se àquele lugar onde não há terra de ninguém Que é simultaneamente o sítio onde nunca mais podemos regressar Estava a pensar, há essa coisa do desejo de voltar a um sítio Que na verdade nunca mais pode ser Porque o tempo passou

Speaker: E portanto não tem como se matar, eu achei graça até a expressão, porque realmente nós usamos a expressão matar a saudade, mas a verdade é que nunca conseguimos.

Speaker: Ela é impossível de ser morta, aliás a inveja seria, acho eu, no limite, um matar a saudade concretizado.

Speaker: A impossibilidade de fazê-lo do contrário, não é?

Speaker: Sim?

Speaker: Sim, sim, sim.

Speaker: Sim, essa coisa de, por exemplo, esses madeirenses que querem voltar para a Venezuela, m as a Venezuela não está lá.

Speaker: Exatamente.

Speaker: Mas tem vários assim, porque falei com iranianos também.

Speaker: Tem um iraniano que mora em Londres, nasceu em Londres,

Speaker: E ele tem saudade de Irã, que ele nunca visitou.

Speaker: Porque ele foi criado com os pais iranianos, com família ariana, com comida persa em casa.

Speaker: E ele nunca foi para o Irã.

Speaker: Ele parece super iraniano, mas ele nunca foi lá.

Speaker: No livro, estou escrevendo que a saudade dele é quase como uma dor de fantasma.

Speaker: Um dor que não... Aonde está essa dor?

Speaker: Porque ele nunca foi.

Speaker: É uma saudade duro.

Speaker: Olha, é como nós.

Speaker: Eu, às vezes, quando estou no Alentejo, tenho saudades de Lisboa, mas é de uma Lisboa que já não existe.

Speaker: E tenho saudades.

Speaker: Às vezes estou lá e até imagino, e às vezes penso, já me apetece ir para Lisboa, mas a sensação que está cá dentro é de uma Lisboa que depois eu chego aqui e não encontro.

Speaker: Então, eu mesmo em Lisboa estou permanentemente com saudades de Lisboa, atualmente.

Speaker: É incrível.

Speaker: É isso.

Speaker: Olha, e tu escolheste o Cowboy Song, a Cowboy Song, porque é uma canção.

Speaker: Por que a Cowboy Song?

Speaker: Cowboy Song, porque adoro, porque viajo muito, vivo muito bem no Rio de Janeiro, mas o meu trabalho é correspondente.

Speaker: Então, às vezes, estou em Colômbia, Argentina, México, assim.

Speaker: E nessa música, eles falam, I am just a cowboy, lonesome on the trail.

Speaker: E às vezes, eu me sinto sozinho, porque tenho amigos em várias cidades, em México, mas mesmo assim, chegando num hotel...

Speaker: É tarde, eu e uma cama.

Speaker: Então, é Lons of the Trail.

Speaker: Então, sempre coloca essa música porque você dá um pouco de consolo.

Speaker: Você não é o único que está... Sim, sim.

Speaker: Estou fazendo companhia.

Speaker: Exato, um pouco de companhia.

Speaker: E ele canta também, Roll me over, turn me around.

Speaker: Let Me Keep Rolling Until I Hit the Ground.

Speaker: Também gosto dessa coisa de loucura, porque, enquanto viajo, vou nos bares, encontro os meus amigos e mata, talvez, uma saudade.

Speaker: Mas, no fundo, volto para o meio do quarto, sozinho, Lonesome on the Trail.

Speaker: Again.

Speaker: Então, para mim, essa música é um abraço, é uma almofada, é uma coisa... Como assim?

Speaker: Que lindo!

Speaker: Que gosto ouvir.

Speaker: E eu também, um pouco... Não é machista, mas ele fala assim... I'm thinking of a certain female.

Speaker: Que gosto, porque já vivi tantas histórias no Rio de Janeiro.

Speaker: Sempre tem uma certain female assim.

Speaker: Sim.

Speaker: E isso eu acho que é lindo, porque essa é uma saudade também, mas saudade de amor.

Speaker: Você está pensando em uma mulher, você não manda mensagem para ela.

Speaker: Talvez eu mando, mas você fica pensando.

Speaker: Ela era tão legal, por que terminamos?

Speaker: Então, o Calvo é um pouco...

Speaker: auto-reflectivo, estou refletindo na minha vida, mas também um pouco de melancólico, porque, pô, Lonesome of a Trailer, estou lá sozinho.

Speaker: Então, por isso escolhi essa música, e adoro essa música.

Speaker: E também, musicalmente,

Speaker: Essa música foi uma das músicas que inventou essa coisa de duas guitarras gêmeas, que fazem melódicos juntos, que depois Iron Maiden copiou, outras bandas copiaram, mas foi Scott Gorham e Brian Robertson que fizeram essa solo juntos.

Speaker: E em Cowboy Song, ao vivo, no álbum Live in Dangerous, é espectacular.

Speaker: Patrícia, Cowboy Song.

Speaker: Então, eu não sei se tenho alguma coisa a acrescentar, porque me identifico muito com tudo aquilo que o Henrique já disse.

Speaker: A ideia da solidão e liberdade, não é?

Speaker: Acima de tudo, não é?

Speaker: Como é que as duas coisas podem...

Speaker: Falta-me a palavra.

Speaker: Ajuda-me.

Speaker: Como é que podem estar... A solidão e a liberdade, não é?

Speaker: No fundo, as duas completamente sempre de mãos dadas.

Speaker: E ser sempre tão difícil saber onde eu queria chegar.

Speaker: Obrigada.

Speaker: Então, ser sempre tão difícil saber qual é o fio, o gume onde nós aguentamos as coisas, não é?

Speaker: Ou cair.

Speaker: Porque acho que está espetacular a ideia do rodeo que cai, não é?

Speaker: Qual é o momento a partir do qual nós corremos o risco de cair, não é?

Speaker: E o que é que está lá realmente para nos amparar.

Speaker: E a ideia que vocês estavam a falar de companhia...

Speaker: Mas o que me acontece com estas músicas é como se me viessem sempre imagens cinematográficas, eu não vou ser explicar isto, mas até me levou ao Danças com o Lobo, não sei porquê, mas há qualquer coisa do Danças com o Lobo para mim, neste tema deve ser o Coyote e a Fogueira, mas esta ideia assim da solidão, alguns na solidão, o que é que se encontra pelo caminho, quando...

Speaker: não se quer fazer a fronteira o lugar da vida não é a ausência de fronteira mas de uma capacidade de estar na relação com os outros menos identitarista mais capaz de se abnegar mas acho que tudo o que tu disseste subscrevo sim

Speaker: E tu ias falar aí qualquer coisa de um livro?

Speaker: Ia falar de um livro, mas não era a propósito desta música, era tudo o que gastou a estar.

Speaker: Era do que tínhamos estado a falar, antes posso falar, é capaz de lá e dar.

Speaker: Não, eu achei que era sobre a música, por isso é que eu te disse, não fales, não fales, porque assim vou-te dar a palavra.

Speaker: Não.

Speaker: Mas diz o que ias dizer sobre o livro.

Speaker: Não, ia dizer só do livro do Milan Kundera, mas que nós gostamos, agora queria me lembrar, eu hoje estou assim, peço-vos desculpa.

Speaker: Mas eu acho que é na ignorância, que tem também uma descrição no princípio, por causa desta ideia da terra de ninguém, não é?

Speaker: Bom, no fundo, esta música também toca nisto.

Speaker: mas também tem uma descrição fabulosa também do lugar de regresso dele depois da guerra, não é?

Speaker: E a sensação de que não era de lugar nenhum e que isso também lhe era transmitido pelos outros, estava a pensar isso.

Speaker: Também isso que dizias da Madeira, não é?

Speaker: Tanto da minha família é da Madeira e tinha uns primos que também não... que tinham estado... e que relatavam isso, não é?

Speaker: Há tantas dificuldade de encontrar outra vez, não é?

Speaker: Porque na Venezuela eram madeirenses e tinham um sotaque madeirense e, portanto, era evidente sempre esse lugar de...

Speaker: E quando chegaram ao Madeira, realmente já não tinham o sotaque madeirense como achavam que tinham.

Speaker: E, portanto, até foi o confronto com a diferença daquilo que eles próprios transportavam, não é?

Speaker: Ou seja, eles eram este lugar de fronteira, de alguma maneira.

Speaker: Que eu acho que esta música também relata bem, não é?

Speaker: Como é que se sobrevive a viver-se neste lugar de uma fronteira que não é a fronteira, não é?

Speaker: Pronto.

Speaker: Não, exatamente Não sabia, você A sua mãe ou o pai?

Speaker: O pai, da Madeira Ah, boa, do Funchal A minha avó era do Funchal e o meu avô da Camacha Ah, boa

Speaker: Mas então você visitou várias vezes?

Speaker: Vou lá toda hora.

Speaker: Tenho a minha ilha sagrada que é o Porto Santo.

Speaker: A ilha das férias que é um bocadinho parecida com, toda a gente diz que é muito parecida com algumas ilhas de Cabo Verde.

Speaker: Nunca foi nessa ilha.

Speaker: É a segunda vez essa semana que alguém fala sobre essa ilha.

Speaker: Tem que ir.

Speaker: Tem um signo para Henrique e tem que ir lá.

Speaker: Tem mesmo, o Porto Santo.

Speaker: Porque tem esse lugar, esse lugar mais do horizonte, dessa nostalgia, está mais presente no Porto Santo, ela é mais denunciada, na Madeira é egréstia.

Speaker: Sim, boa.

Speaker: No Porto Santo o tempo para Olha eu já a dizer no Porto Santo Como a Patrícia diz Eu também digo Na Ponte Sor No Porto Santo Ok Então a Patrícia A música favorita A canção favorita da Patrícia deste álbum É o Warriors Então Gostas do Warriors?

Speaker: Adoro Então

Speaker: Patrícia Câmara.

Speaker: Começo já eu?

Speaker: Clara é a tua canção favorita.

Speaker: Eu acho esta letra fabulosa, porque me parece que consegue pôr de uma maneira, não quero dizer sarcástica, que não acho que seja sequer sarcástica, porque também não é cínica, denuncia mesmo este lugar de condição existencial que eu acho que este álbum tem imenso, não é?

Speaker: Quase que brinca com ele, porque tu chamas o guerreiro, aquilo que é a condição existencial, no fundo eu trago desta mensagem e vais morrer.

Speaker: Portanto, pensa a partir desse lugar, não penses a partir do outro.

Speaker: E realmente olhar isto, olhar nos olhos, como ele diz, não é?

Speaker: E tem de pretty, não é?

Speaker: Mas é necessário.

Speaker: Achei isto fabuloso, há muito tempo que não havia alguma coisa que me fizesse sentir este reconhecimento deste lugar.

Speaker: Nós andamos todos a... É uma coisa que nós temos falado imenso, mas...

Speaker: Andamos com tanto medo de falar sobre este sítio, não é?

Speaker: E este medo de falar sobre este sítio é que me parece que nos tem levado a sítios tão letais, tão mortíferos, que aqui a maneira como aparece na música acho extraordinária.

Speaker: A voz dele, a maneira como... Pronto, a própria voz para mim é mesmo acutilante, mas ao mesmo tempo tem a tal almofada, não é?

Speaker: É acutilante, mas está sustentada, não te abandona à própria morte.

Speaker: Portanto, faz a tal companhia para suportar.

Speaker: Claro.

Speaker: Mas há muito tempo que não via, que não lia uma coisa que denunciasse tão bem este sítio.

Speaker: Tipo, olha para aqui, está aqui.

Speaker: Portanto, esta é a novidade que eu tenho para te dar.

Speaker: Aguenta-te.

Speaker: Sim, sim, sim.

Speaker: Adorei.

Speaker: Sim, é mesmo.

Speaker: Olha, é o anúncio da morte acompanhada.

Speaker: Sim, toda a letra é maravilhosa Pergunta àqueles que já passaram por lá Acho que é fabuloso Porque é pequena a letra Mas é super densa Mais uma vez, eu acho que isto tem uma densidade incrível Percebo porque é a questão da poesia Porque eu acho que esta letra é um poema Exatamente

Speaker: Também acho que há aqui uma coisa que isto pode ser, que também me parece que com este poema, para além do que tu estás a dizer, acho que há outra mensagem que passa, que é às vezes é preciso matar para continuar.

Speaker: Com esta frase, my heart is ruled by Venus, é que isto é espetacular, não é?

Speaker: Está aqui o sítio onde é possível, onde a vida continua.

Speaker: Sim.

Speaker: Henrique, gostas desta canção?

Speaker: Eu adoro esta música, mas gosto mais da música de Warriors, das guitarras.

Speaker: Nesta música, não escuto tanto as letras, porque gosto da agressividade da música.

Speaker: E a versão ao vivo é fabulosa.

Speaker: Porque acho que aqui, esta coisa das duas guitarras encontrando, é muito bom mesmo.

Speaker: Sim, que acho que é entre... Eu agora estava aqui a pensar na expressão, porque às vezes há guerreiros que vão para a conquista e há guerreiros que vão para matar mesmo, não é?

Speaker: É quase como se as duas guitarras fizessem cada uma a sua parte.

Speaker: Essa parte, não é?

Speaker: Uma guitarra estivesse a fazer... Como se a guitarra fosse uma arma, não é?

Speaker: Exatamente, o lado da conquista e o lado do matar, não é?

Speaker: Sim, mas o ritmo é muito bom, sim.

Speaker: Também perco um bocadinho aqui no ritmo desta canção.

Speaker: Eu escolhi, como tinha que ser, The Boys Are Back In Town.

Speaker: E precisamente porque deve ser que mais genuinamente me faz sentir aquilo que eu descrevi na introdução.

Speaker: Esta coisa do The Boys Are Back In Town, acho que pode ser uma coisa, acho que literalmente faz-me recordar e faz-me ter saudades um bocadinho disto, que é...

Speaker: de estar num dos meus bares favoritos de sempre à espera que cheguem as pessoas que me vão fazer companhia e que vão estar na mesma sintonia que eu e que depois vamos e depois nos vamos divertir muito e vamos conversar muito e vamos ali entrar pela noite dentro e portanto todo este movimento de encontro por identificação por amizade por confraternização por intimidade

Speaker: com amigos, em bares ou na rua mesmo mesmo na rua acho que é uma coisa que acarreta sempre uma certa musicalidade nem que seja só andar na rua acho que é uma coisa de musicalidade nisso nos nossos passeios pela rua ou qualquer intervenção que seja feita na rua

Speaker: E, portanto, foi por isso que eu escolhi, porque acho que tem mesmo esta coisa vibrante e poderosa de eles estão a chegar, que é como se tudo fosse começar outra vez, vai tudo começar, há sempre alguém a chegar, esse alguém...

Speaker: É alguém que tem uma influência boa sobre ti e que vai transformar o ambiente numa coisa nova.

Speaker: Que pode ser de esperança, também pode levar à luta, não é?

Speaker: Esta coisa do boys back in town também pode ser um gang que vai rebentar com tudo a seguir.

Speaker: Mas há uma energia de... E que esta palavra...

Speaker: antiga, que é quase fora de moda, que é camaradagem, não é?

Speaker: Camaradagem é uma palavra quase fora de moda, assim como é o bestial, também é um bocadinho fora de moda, mas é tudo dali dos 70's, não é?

Speaker: Dos 70's usava-se muito a palavra bestial e a camaradagem, mas eu acho que eu tenho saudades disto, ainda hoje sinto a tensão, nós sentimos isto de qualquer coisa boa que está a chegar, que é esta coisa do boys back in town, isto vai haver vibração, vai haver... Claro que há...

Speaker: Mas há esta coisa cinematográfica que a Patrícia estava a falar, que é exatamente a imagem mental que me fica na cabeça quando ouço este disco.

Speaker: É isto, rapaz.

Speaker: As pessoas que tu queres que cheguem vão chegar.

Speaker: E, portanto, vai haver uma correspondência entre o teu desejo e a concretização desse desejo e a energia que transporta esse desejo.

Speaker: É por isso que eu gosto desta canção.

Speaker: Foi uma muito boa explicação, porque eu adoro essa coisa, The Boys Are Back In Town.

Speaker: Quando eu escuto essa música, eu volto para Malmo, minha cidade natal, e a gente era um grupo de cinco, seis amigos.

Speaker: A gente sempre saímos juntos, fazendo besteira.

Speaker: Mas quando a gente chegou no bar, o bar sabia, agora vai ter festa, porque The Boys Are Back In Town.

Speaker: Essa é a coisa linda nessa música.

Speaker: Por isso dá para...

Speaker: Essa música funciona muito bom em bares.

Speaker: Você coloca isso... Vocês estão aqui, vou pôr essa back-end-town.

Speaker: Coloca essa música.

Speaker: Lindo.

Speaker: E o Phil Liner, ele escreveu essa música, porque ele estava morando em Londres, pobres, tentando... Já lançaram vários discos que não deu...

Speaker: Não foi um sucesso.

Speaker: Então, eles voltaram para a Irlanda, não tinham dinheiro para avião, então eles foram para Holyhead, no alto da Irlanda, pegou o ferry para Dublin.

Speaker: E lá nessa transversia de Inglaterra para a Irlanda, ele escreveu essa música, porque ele estava imaginando...

Speaker: que agora a gente vai para Dublin, agora a gente vai fazer merda, agora a gente vai tratar a gente bem, porque eles sofreram bullying em Londres, porque eram irlandeses, católicos, e ingleses não gostam disso, mas em Dublin eles eram abraçados, então é assim, finalmente a gente vai voltar, os boys are back in town.

Speaker: muito bom Patrícia?

Speaker: a Patrícia nem tem nada a acrescentar gostei tanto do que vocês disseram mas acho que é este sentido só de reencontro interno e de uma memória coletiva que parece a tal identidade do Fabra no princípio com a coisa que nos devolve e que dá a garra outra vez só isto é isto mesmo bom estamos a chegar ao fim

Speaker: Tem mais uma música lá Que é o meu novo favorito Porque troca favorito Que é o máximo favorito Mas tem uma música que se chama Running Back Que é uma música do soul Que é muito simples É sobre um amor que terminou

Speaker: E como aí tem o namoro que terminou, então escuta essa música todo dia.

Speaker: É muito bom.

Speaker: Escuta as letras, não sei se vocês vão entender assim.

Speaker: Sim, vou estar aqui.

Speaker: Muito bom.

Speaker: Running back.

Speaker: Ok.

Speaker: Henrique, gostaste de estar aqui conosco?

Speaker: muito, me sinto como em casa estamos em casa estamos literalmente em casa mas foi muito bom, muito obrigada por ter aceitado estar aqui connosco eu vou agradecer também à Patrícia Câmara à Carolina Pinchel que fez aqui o som agradecer à Climeps e Editores que nos empresta todo este material

Speaker: Agradecer como sempre aos Dirty Mac e à Yoko Ono que fazem o jingle, a música do nosso jingle e à Joana Bernardo que dá voz.

Speaker: E se não te importares, vamos terminar com uma passagem do teu livro Saudade.

Speaker: Eu vou-te pedir para seres tu a ler.

Speaker: Pode ser?

Speaker: Boa, boa.

Speaker: Então, vamos terminar com as palavras do Henrique e nós voltamos para o mês que vem.

Speaker: Até lá.

Speaker: Boa, vou começar aqui no capítulo sobre Cabo Verde.

Speaker: A gente está em Praia de São Pedro, Ilha de São Vicente.

Speaker: É assim.

Speaker: Estendo a toalha na areia e prendo os cantos com as minhas chinelas brasileiras, para que não voem enquanto nado.

Speaker: Caminho com determinação em direcção à beira-mar.

Speaker: As ondas mornas molham-me os pés.

Speaker: Sinto-me em casa.

Speaker: Devagar entro e mergulho no Atlântico como se fosse um meio líquido amniótico.

Speaker: Nado até ao fundo, com os olhos abertos e agarro numa concha branca que guardo como recordação.

Speaker: Depois, deito-me de costas e deixo o mar salgado subir e descer pelo meu corpo enquanto flutuo.

Speaker: Fecho os olhos e penso na escolha de viajar para o Brasil.

Speaker: Foi nesta praia que tomei a decisão.

Speaker: São Pedro é o origem da minha saudade.

Speaker: Devo dizer culpa?

Speaker: Não o sinto dessa forma.

Speaker: Sinto antes gratidão.

Speaker: Quando abro os olhos, percebo que as correntes me levaram para longe da praia.

Speaker: Fui atraído para o Brasil, como se fosse o meio destino.

Speaker: Não há nada do que me deve arrepender.

Speaker: Muito obrigada, Henrique.

Speaker: Muito obrigada.

Speaker: Desculpa, fiquei emocionado.

Speaker: Não, não.

Speaker: Desculpa, não.

Speaker: Não peças desculpa.

Speaker: É isso mesmo que é a saudade.

Speaker: Isso.

Speaker: Emociona.

Speaker: Até para o mês que vem.

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