Introdução e Temática do Episódio
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Speaker
Três divãs, a psicanálise, o mundo e o rock'n'roll.
Camaradagem e Música dos Anos 70
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Speaker
Quando ouço o disco escolhido para o episódio de hoje, tenho imediatamente uma imagem mental.
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Speaker
O movimento na rua dos bares, com a chegada das pessoas que gostamos de ver chegar, para continuarmos por ali fora, com elas.
00:00:40
Speaker
Como poderia dizer alguém em 1976, que é o ano deste disco, lá vai a camaradagem.
00:00:49
Speaker
Já vamos tendo saudades do tempo que vivíamos mais a rua, não?
00:00:55
Speaker
E desta vez fui à etimologia.
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Speaker
A palavra camaradagem deriva de camarada com o sufixo agem.
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Speaker
A sua origem remonta ao latim câmara, quarto, câmara,
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Speaker
evoluindo do espanhol camarada para designar no século XVI o grupo de soldados que partilhava o mesmo alojamento, destacando a confiança e o companheirismo entre quem dorme no mesmo quarto.
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Speaker
Pegando nisto, eu diria, aqueles que convivem em intimidade.
00:01:33
Speaker
A rua como lugar privilegiado para a camaradagem.
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Speaker
A união do grupo a fortalecer a luta.
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Speaker
E também como lugar para a rebeldia, como sentimos no ritmo das canções.
00:01:44
Speaker
E o rompimento das amarras, presentes nos riffs de guitarra ao longo de todo o álbum.
00:01:51
Speaker
A rua, o lugar onde se vive a comunidade, o sítio onde ela é criada, onde se luta pela conquista, onde circula o ar e se vive a liberdade.
00:02:02
Speaker
E o amor também, claro.
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Speaker
Aqui no disco, ele espreita no espaço entre, como diz a Patrícia Câmara, com quem vou já conversar.
Entrevista com Henrique Brandão Johnson
00:02:12
Speaker
Hoje temos connosco o Henrique Brandão Johnson, que trouxe com ele o Jailbreak do Stine Lizzie.
00:02:19
Speaker
Vamos dar-lhe as boas-vindas e o microfone.
00:02:23
Speaker
Boa noite, Henrique.
00:02:25
Speaker
Sejas bem-vindo ao Três Divãs, podes apresentar-te.
00:02:30
Speaker
Estou muito grato porque estou aqui em sua casa.
00:02:34
Speaker
Eu sou Henrique Brandal Johnson, sou da Suécia, mas eu moro 25 anos no Brasil.
00:02:40
Speaker
Estou aqui em Lisboa agora para lançar o meu livro, o último livro, Saudade, que autografia de um sentimento.
00:02:48
Speaker
Mas, olha, já morei aqui em Lisboa nos anos 90.
00:02:50
Speaker
Já foi aqui a primeira vez em 92.
00:02:52
Speaker
E, por acaso, vi o Guns N' Roses, Soundgarden e Faith no Mono Alvalade.
00:02:59
Speaker
Eu também, eu também.
00:03:01
Speaker
E encontrei com a banda depois.
00:03:03
Speaker
Porque o meu amigo... Como é que nós nos conhecemos nessa altura?
00:03:07
Speaker
Porque o meu amigo é um holandês muito parecido com Duffy.
00:03:11
Speaker
Então, quando a gente foi para Sheraton para tentar encontrar com a banda, as guardas abriram as portas.
00:03:16
Speaker
Sabes que ele era membro da banda?
00:03:19
Speaker
E a gente foi até o bar no final.
00:03:21
Speaker
E a segurança dela também abriu as portas.
00:03:24
Speaker
Então, de repente, eu estava ao lado da Axl Rose, bebendo bebida de graça, falando com ele.
00:03:29
Speaker
Meu Deus, que maravilha.
00:03:30
Speaker
Não, foi incrível.
00:03:31
Speaker
Isso tinha sido o meu sonho dessa lenda.
00:03:35
Speaker
Fiquei tão feliz assim.
00:03:37
Speaker
E depois eu voltei para Portugal várias vezes, mas eu trabalhei aqui em 98, no Expo 98.
00:03:46
Speaker
Trabalhei no pavilhão da Suécia e aprendi o português.
00:03:50
Speaker
Antes falava espanhol.
00:03:53
Speaker
E foi aqui que me interessei pelo mundo lusófono.
00:03:57
Speaker
Já fiz um outro livro, que se chama Viagens pelos Sete Pecados da colonização portuguesa.
00:04:02
Speaker
Também foi fruto dessa estadia aqui, porque saíram muitos bares, boates, clubes caverdianos, música caverdiana, angolana...
00:04:14
Speaker
restaurantes moçambicanos, achei muito bom, e fui para Cabo Verde.
Exploração do Tema 'Saudade'
00:04:19
Speaker
E de lá eu decidi, olha, vou para o Brasil, então fui para o Brasil e fiquei lá trabalhando como correspondente.
00:04:27
Speaker
Mas, olha, esse tempo em Lisboa foi lá que eu aprendi essa... encontrei com essa palavra saudade.
00:04:35
Speaker
pela primeira vez.
00:04:37
Speaker
E eu achei a palavra tão bonita, era da música de César e Évora, né?
00:04:45
Speaker
E assim, eu achei lindo e também reconheci um pouco, porque eu sou da Suécia, né?
00:04:50
Speaker
A gente tem uma melancolia nórdica, que dá para ver nos filmes de Ingmar Bergman, né?
00:04:56
Speaker
Então, eu acho que por isso os suecos e os escandinavos gostam de Portugal, porque a gente tem algumas coisas em comum, né?
00:05:03
Speaker
Como o espanhol latino.
00:05:05
Speaker
A gente tem uma outra coisa.
00:05:09
Speaker
Mas fiquei só curioso com essa palavra.
00:05:12
Speaker
Comecei a fazer uma pesquisa, mas nunca senti saudade.
00:05:16
Speaker
Estava escrevendo sobre uma coisa que nunca senti.
00:05:21
Speaker
Mas, durante a pandemia, eu estava no Brasil, estava preso, não podia ir para a Suécia, não podia matar a saudade.
00:05:27
Speaker
Então, pensei, olha, eu tenho saudade agora, isso que é saudade.
00:05:32
Speaker
Eu quero voltar para a Suécia, mas eu não posso.
00:05:35
Speaker
Então, eu posso imaginar a Suécia.
00:05:37
Speaker
Então, comecei a fazer comida sueca em casa, escutando música sueca, para matar essa saudade sem conseguir voltar.
00:05:49
Speaker
E essa sensação foi tão legal em mim que eu pensei, olha, eu acho que tem que escrever sobre isso.
00:05:55
Speaker
E depois da pandemia, foi para a Suécia, foi ótimo, estava com saudade mesmo.
00:06:00
Speaker
Mas depois de um mês, eu fiquei com saudade do Brasil.
00:06:05
Speaker
Porque Suécia é muito bom, mas o Brasil é mais engraçado.
00:06:08
Speaker
Então, comecei a sentir essa coisa de saudade.
00:06:12
Speaker
E por isso escrevei o livro e procurei
00:06:15
Speaker
Quem no mundo lusófono tem mais saudade?
00:06:21
Speaker
Pensei, quem pode ser assim?
00:06:23
Speaker
Então, eu sabia dessas coisas da migração.
00:06:26
Speaker
E sabia dessa coisa dos açorianos, que foram para a Califórnia nos anos 60.
00:06:32
Speaker
Eu pensei, acho que eles devem estar muito a saudar, porque eles foram para o Central Valley, Vale Central de Califórnia, que é 200 quilômetros do mar.
00:06:41
Speaker
Então, o açoriano, não é só que eles falam...
00:06:46
Speaker
A terra natal também falta das ilhas, do mar.
00:06:50
Speaker
Então, comecei a fazer a pesquisa, fiz a viagem para Assórios, fui para a Califórnia para encontrar com os assorianos, e depois fui para Madeira para escrever sobre essa história que também é incrível, os madeirenses que foram para Caracas, para Venezuela.
00:07:05
Speaker
Então, se você está em Caracas... Vocês conhecem a Venezuela?
00:07:09
Speaker
Nunca fui a Venezuela.
00:07:12
Speaker
Qualquer bairro tem um supermercado que o dono é português.
00:07:16
Speaker
E a maior parte deles é madeirenses.
00:07:18
Speaker
Sim, e madeirenses.
00:07:20
Speaker
Hoje em dia, 70% do mercado, os donos são madeirenses.
00:07:27
Speaker
E um dos maiores supermercados se chama Central Madeirense.
00:07:30
Speaker
Não tem nada a ver com Venezuela.
00:07:33
Speaker
E eles têm muita saudade, porque há pessoas que...
00:07:38
Speaker
Eles migraram para a Venezuela e a vida melhorou, porque a Venezuela era muito rica de petróleo.
00:07:44
Speaker
Mas, depois que aconteceu essa coisa de chavismo e maduro, eles tinham que voltar para Madeira.
00:07:50
Speaker
E, quando eles voltaram para Madeira, os madeirenses não estavam tratando eles muito bem, porque os madeirenses, em Caracas, esqueceram o português.
00:07:58
Speaker
Eles não falam mais português, falam castiliano.
00:08:01
Speaker
E eles têm uma saudade muito profunda, porque eles estão madeiras, são madeirenses, mas estão com saudade de Venezuela.
00:08:10
Speaker
E uma Venezuela que não existe mais, porque quebrou, o país não é como era.
00:08:14
Speaker
Então é uma saudade muito profunda.
00:08:16
Speaker
Então eu usei também, explorei a saudade deles.
00:08:21
Speaker
também para entender o meu saudade.
00:08:23
Speaker
E nos últimos capítulos escreveu sobre os caboverdianos, que são campeões do mundo de saudade.
00:08:31
Speaker
Porque as ilhas... Vocês conhecem Cabo Verde, não é?
00:08:36
Speaker
Qual ilha você conhece?
00:08:37
Speaker
Não, se eu conheço Cabo Verde, não, eu nunca estive em Cabo Verde.
00:08:41
Speaker
Eu nunca estive em Cabo Verde, conheço muito bem a música cabo-verdiana, as mornas e a música cabo-verdiana que eu conheço bem.
00:08:48
Speaker
Eu nunca estive em Cabo Verde, apesar de constantemente, nós temos uma amiga que adora Cabo Verde e que me está constantemente a dizer, tens que vir comigo, tens que vir comigo, eu nunca fui, mas tenho que ir.
00:09:00
Speaker
Tem que ir, tem que ir.
00:09:01
Speaker
Mas a coisa engraçada é que eu entendo muito bem os açorianos, em Central Valley, em deserto, que eles faltam nas ilhas verdes, açúes, assim.
00:09:13
Speaker
Só tem uma ilha que é verde, em Santo Antão.
00:09:16
Speaker
Só metade dessa ilha que é verde.
00:09:18
Speaker
O resto é um deserto.
00:09:20
Speaker
Mas mesmo assim, os cafeirantes têm muita saudade.
00:09:23
Speaker
Essa morna é uma explicação disso.
00:09:25
Speaker
Então, eu fui para Massachusetts, Nova Inglaterra, para entrevistar os capo-verdianos.
00:09:30
Speaker
E lá, encontrei pessoas com muita, muita saudade, porque muitos dos capo-verdianos não têm visto.
00:09:38
Speaker
Eles são, como se diz, imigrantes ilegais.
00:09:42
Speaker
Então, se eles voltam para a capo-verdianos, nunca mais podem entrar nos Estados Unidos.
00:09:48
Speaker
E encontrei um homem lá que não tinha encontrado a resposta dele por 25 anos.
00:09:54
Speaker
Esse homem estava com muita saudade.
00:10:02
Speaker
E hoje, Henrique, hoje já sabes o que é saudade.
00:10:08
Speaker
Ele teve um ataque agora na Páscoa, no Rio.
00:10:14
Speaker
saudade, porque eu estava vendo no Instagram toda a minha família, todos os meus amigos reunidos.
00:10:18
Speaker
Eu estava lá, Sosinho, Rio de Janeiro, minha filha mudou para a Suécia, eu moro na Suécia, já separei cinco anos atrás, então eu não tinha família.
00:10:27
Speaker
Ah, o que eu vou fazer agora?
00:10:30
Speaker
E achei uma lata de arenque, que a gente come na Suécia.
00:10:33
Speaker
Então, abriu essa arenque, comecei, matando a saudade.
00:10:37
Speaker
Totalmente, não é?
00:10:39
Speaker
Se tu disseste uma coisa aí, que foi o Brasil é mais engraçado que a Suécia.
00:10:46
Speaker
Conta lá da tua experiência,
Comparações entre Brasil e Suécia
00:10:48
Speaker
Vives há 25 anos no Brasil.
00:10:51
Speaker
Estavas a falar que estavas na Suécia e que estavas com saudades do Brasil e disseste porque a Suécia é boa, mas o Brasil é mais engraçado.
00:10:59
Speaker
Olha, Suécia é muito bom, eu adoro Suécia, essa coisa de você poder confiar no outro, tudo funciona, ninguém vai roubar você, mas é um pouco chato.
00:11:13
Speaker
No Brasil, todo dia é diferente, você não sabe se vai ter eletricidade, água, ou se o bar está aberto ou fechado, é sempre uma surpresa.
00:11:25
Speaker
E tem problemas, a gente fala se tem que matar um leão por dia.
00:11:30
Speaker
Especialmente no Rio de Janeiro, porque as coisas não funcionam.
00:11:32
Speaker
Mas mesmo assim, funciona!
00:11:34
Speaker
E isso eu acho que vira mais engraçado, porque é difícil ter uma rotina chata, porque sempre alguma coisa que quebra a sua rotina.
00:11:43
Speaker
Eu acho que isso é bom.
00:11:45
Speaker
Para mim é ótimo, não cair numa rotina, fazer coisas diferentes.
00:11:49
Speaker
Sim, e por isso te entusiasma mais o Brasil, percebo.
00:11:54
Speaker
Disseste outra coisa aí que editaste os sete pecados da colonização portuguesa?
00:12:02
Speaker
podes desvendar porque este livro já saiu há quanto tempo saiu em 2021 tem 5 anos tem 5 anos e que pecado é que tu atribuíste a Portugal você não quer saber não eu quero mesmo saber porque eu tenho um palpite
00:12:29
Speaker
E diz-me, por quê?
00:12:31
Speaker
Primeiro tem o filósofo português, o Chil, ele escreve sobre isso, do Inveja, que é a Inveja do outro, mas a Inveja é da Espanha, que a Espanha, a ditadura acabou em 1976 e logo depois foi um país moderno, aqui demorou um pouco mais.
00:12:51
Speaker
em vez de Moçambique, do Brasil, desses países que são os portugueses que colonializaram, e Moçambique virou o país mais engraçado da África, o país mais gostoso, Maputo é tipo Havana, da África.
00:13:10
Speaker
E o Brasil é o Brasil, o Rio de Janeiro.
00:13:13
Speaker
E aqui em Portugal não foi a mesma coisa, então é uma em vez de diferentes coisas.
00:13:22
Speaker
E sentiste isso, não é?
00:13:24
Speaker
E leste sobre isso, não é?
00:13:27
Speaker
E também, como o Chusei Chiles fala sobre isso, né?
00:13:31
Speaker
Inveja do vicinho, inveja muito, sim, olhando para o outro.
00:13:38
Speaker
uma raiva e agora Lisboa quando a gente tem essas digital nomads andando com a perola pede mais uma mas o português pagando 8 euros para a perola e muita coisa sim, sim, sim olha, e a tua relação com Portugal?
00:14:00
Speaker
Não, minha relação com o português é muito boa.
00:14:03
Speaker
Porque foi dessa viagem em 1992, já trabalhei como jornalista, fui para a Sevilha para cobrir a Exposição Mundial em 1992, e por acaso foi para Lisboa, não era planejado.
00:14:16
Speaker
Era alguém que encontrei no hotel que falou assim...
00:14:19
Speaker
Ah, vai lá para Lisboa, é muito bom, muito barato.
00:14:22
Speaker
Eu era um jornalista pobre, então, tá bom, tá barato, então eu vou.
00:14:28
Speaker
E foi aqui, peguei o ônibus, autocarro, e foi para Martim Muniz, achei pensão moderna, que é na escada de saúde, subindo lá.
00:14:40
Speaker
Não existe mais, mas eu acho que nessa época eram 1500 escudos, que era nada para um sueco.
00:14:47
Speaker
Então fiquei aqui três semanas, encontrei o Barrio Alto e me apaixonei por Barrio Alto.
00:14:56
Speaker
Fiquei em um lugar chamado Hell's Kitchen, não sei se é a época de vocês.
00:15:01
Speaker
Começou no final dos 80, 91, 92.
00:15:02
Speaker
Era muito assim, batendo a porta, abrindo e entrando.
00:15:16
Speaker
E assim, então, gostei muito e voltei aqui em 96 e trabalhei aqui em 98 e fiquei... senti muito bem em Lisboa.
00:15:28
Speaker
E agora, o teu livro está a ser bem acolhido em Lisboa?
00:15:33
Speaker
Estou super feliz.
00:15:34
Speaker
Porque pensei que o último livro, o penúltimo de Viagem dos Sete Pecados, virou uma batata quente.
00:15:41
Speaker
Porque no livro estou...
00:15:43
Speaker
Ninguém queria tocar, nem a editora.
00:15:46
Speaker
Tem uma editora boa, a Penguin, mas nem Penguin queria divulgar esse livro, porque estava criticando o colonialismo, o imperialismo e a escravidão.
00:15:57
Speaker
Mas eu sou sueco, então não tenho nada com raiva de Portugal, nada disso.
00:16:02
Speaker
Só estou escrevendo os fatos.
00:16:04
Speaker
Mas 2021 já era cedo para essa discussão.
00:16:08
Speaker
E agora, hoje, estou vendo que não, agora dá para discutir isso.
00:16:13
Speaker
Então, hoje estava no ARTP Mundo, no programa, e o radialista estava com o outro livro na mão, ele queria falar sobre esse livro.
00:16:22
Speaker
E o outro jornalista, o Expresso, estava me entrevistando, ele estava com o livro de saudades, mas também do viagem dos sete pecados.
00:16:29
Speaker
Então, significa que agora dá para falar sobre essas coisas.
00:16:35
Speaker
Sentes isso, não é?
00:16:36
Speaker
Sim Mas é muito giro A ideia, não é?
00:16:40
Speaker
Ao mesmo tempo é como se fosse Almofadar com a saudade para poder pensar Essas coisas todas Como se fosse preciso chegar a esse lugar para depois poder Então Às vezes é assim, tem que dar uma volta Para os outros, para ser possível de ser escutado Claro
00:16:57
Speaker
E, portanto, aliás, tu disseste aí a tua relação com Portugal, daquilo que eu percebo, é boa e tu gostas de estar cá, não é?
00:17:03
Speaker
Sim, sim, eu adoro.
00:17:05
Speaker
Sim, claro, eu percebi isso.
00:17:06
Speaker
Estou ficando no Chardim de Torel, está acordando todo dia, o sol, o céu está lindo.
00:17:12
Speaker
E, claro, me irrita um pouco das digital nomes, que todo mundo fala inglês, não é?
00:17:19
Speaker
Estou com saudades de Lisboa nos anos 90.
00:17:23
Speaker
Ah, essa era Lisboa.
00:17:24
Speaker
Acho que temos todos um bocadinho O meu favorito no Rua do Seckler é o Bauschnob Sim, o Snob Você podia fumar lá dentro Adorei Agora já não pode Não pode fumar O restaurante existe ainda Mas é comprado por um grupo Então é limpo demais Foi muito recente Eu estava lá Sempre quando faço a escala Indo para a Suécia Sempre fico aqui alguns dias
00:17:52
Speaker
Eu adorei esse homem mal-rumorado que estava lá, abrindo a porta, fazendo bife.
00:17:57
Speaker
E a filha dele ainda mais mal-rumorada.
00:18:02
Speaker
Mas tinha um amor, um carinho.
00:18:06
Speaker
E agora são brasileiros que trabalham lá, que trabalham seis meses, depois vai outro.
00:18:11
Speaker
Então não dá para ter essa conexão com o lugar.
00:18:14
Speaker
É um bocadinho mais descaracterizado e tem algumas coisas diferentes mesmo.
00:18:18
Speaker
É, e fica muito bonito.
00:18:20
Speaker
É, está mais fancy.
00:18:22
Speaker
Sim, eu também não sou muito apreciadora, mas pronto, é a transformação que estamos a ter, e não é só em Portugal, não é só em Lisboa, outros sítios já tiveram, outros estão a ter agora, eu diria infelizmente, porque acho que o que...
00:18:40
Speaker
O que sempre têm trazido as pessoas a Portugal é a identidade dos portugueses, não é?
00:18:44
Speaker
Que é o que faz, a diferença de identidades é que nos faz querer conhecer outros lugares.
00:18:50
Speaker
E estamos todos a ficar muito iguais, não é?
00:18:53
Speaker
E neste fenómeno global.
00:18:56
Speaker
Então, vamos ao nosso disco?
Análise do Álbum 'Jailbreak' do Thin Lizzy
00:19:03
Speaker
Ai, que eu estou a ter uma branca com o nome do disco, ajuda-me.
00:19:07
Speaker
Jailbreak, obrigada.
00:19:08
Speaker
Jailbreak do Stine Lizzie.
00:19:10
Speaker
Porquê que escolhiste isto?
00:19:11
Speaker
É um bom lápis, antes disso.
00:19:16
Speaker
É muito sintomático, tendo em consideração o que ela estava a dizer e o nome.
00:19:27
Speaker
Então, o Jailbreak do Stine Lizzie, porquê?
00:19:30
Speaker
Porquê que escolheste isto?
00:19:31
Speaker
Olha, Felice é a minha banda favorita, né?
00:19:34
Speaker
E esse álbum, Jailbreak, é um ano icônico dos anos 70.
00:19:40
Speaker
E esse mês, abril, faz 50 anos que esse álbum foi lançado.
00:19:46
Speaker
É, são as chances que estão muito... Um bom timing aqui, né?
00:19:51
Speaker
E foi esse álbum que fez...
00:19:53
Speaker
Thin Liss é uma banda grande.
00:19:55
Speaker
Antes era uma banda irlandesa, tocando na Europa, tocando na Suécia, aqui também, mas não era uma banda grande.
00:20:03
Speaker
Mas com Jailbreak, eles fizeram uma coisa incrível, a recomposição em Estados Unidos.
00:20:11
Speaker
Então, virou uma banda grande.
00:20:12
Speaker
Então, esse é um disco muito importante para Thin Liss.
00:20:17
Speaker
E, para mim, também é bom, porque é um...
00:20:21
Speaker
Você tem heavy rock nesse álbum, você também tem soul, você tem essa diversidade que é o Finlice.
00:20:29
Speaker
Por isso eu gosto do Finlice, porque eu tinha quantos anos?
00:20:36
Speaker
Então eu não sabia nada sobre essa jailbreak.
00:20:40
Speaker
Depois, quando virei adolescente, comecei mais a gostar de ser Motorhead, Judas Priest, Iron Maiden.
00:20:45
Speaker
Então, Finlice é um pouco mais sofisticado.
00:20:48
Speaker
Mas com 20 anos, eu descobri, Finlice, uau, essa banda é muito boa.
00:20:54
Speaker
E a coisa diferente com as outras bandas é que as letras são boas.
00:20:59
Speaker
O Phil Leinert, o cantor, ele é um vocalista, ele é um poeta, ele tem dois livros de poesia.
00:21:07
Speaker
Dá para mencionar outro heavy rock que tem dois livros de poesia?
00:21:15
Speaker
E ele também é o único negro na música de heavy rock, porque Judas Priest é muito branco.
00:21:23
Speaker
O público é branco, quem toca a banda são brancos.
00:21:26
Speaker
E ele não, ele é negro, então ele é diferente.
00:21:30
Speaker
Então eu gostei dessa coisa.
00:21:32
Speaker
E eu gosto até hoje.
00:21:34
Speaker
Sim, eu estava aqui a ouvir-te e sim, o disco tem muitos ritmos, tem muitos estilos musicais, mas de facto a Rolling Stone disse sempre que era um discar de rock, não é?
00:21:48
Speaker
Embora eu te vá confessar uma coisa, um dos tipos que eu mais gosto do rock irlandês é o Rory Gallagher.
00:21:58
Speaker
e nós sentimos o Rory Gallagher aqui também não é?
00:22:01
Speaker
incrível aliás eu acho que é por aí acho que é pelo Rory Gallagher que eu chego quer dizer, os teen liseis chegaram primeiro que o Rory Gallagher conheci o teen lisei e também era adolescente mas depois eu acho que passei a gostar mais teen lisei depois de gostar de Rory Gallagher ter conhecido o Rory Gallagher e de perceber a influência também do Rory Gallagher
00:22:26
Speaker
aqui nas músicas deles então é um álbum que te acompanha há muito tempo para aquilo que estás a dizer que deves ter ouvido lembras-te de ter ouvido quando eras criança
00:22:39
Speaker
Não, assim, a primeira vez que eu estava escutando, assim, Lissa, eu estava com talvez 14, 15 anos, não gostei muito, porque eu queria um rock mais pesado, mais... Motorhead, assim.
00:22:53
Speaker
Mas foi, assim, ao longo do tempo, assim, eu gostei muito do The Boys Are Back In Town, essa música maravilhosa.
00:23:02
Speaker
E The Black Rose, o outro álbum depois, assim.
00:23:07
Speaker
Foi uma coisa amadurecendo, o finalista estava amadurecendo dentro de mim.
00:23:13
Speaker
Patrícia, tu gostaste do disco?
00:23:17
Speaker
Gostei muito, não estava à espera que me passasse.
00:23:19
Speaker
Desculpa, estava aqui muito concentrada a ouvir.
00:23:21
Speaker
Estava aqui embalados na conversa e depois.
00:23:23
Speaker
Mas eu já estava a sentir a tua falta, a sentir a falta da tua voz.
00:23:27
Speaker
Eu estava contente de ouvir e já pensei em tantas coisas desde que começamos.
00:23:33
Speaker
Mas o que senti no disco é uma estrutura de narrativa.
00:23:36
Speaker
Há qualquer coisa que vai aparecendo, não é?
00:23:38
Speaker
Assim, se eu gostei muito.
00:23:39
Speaker
Como se houvesse uma espécie até quase de protagonistas, não é?
00:23:41
Speaker
Estás a ouvir e parece que aparecem protagonistas.
00:23:43
Speaker
Acho que isso é... Pelo menos não me costuma acontecer.
00:23:46
Speaker
É como se estivesse muito bem... Não sei, faz acontecer, não é?
00:23:50
Speaker
Faz-te acontecer o olhar como uma espécie de narrativa implícita.
00:23:54
Speaker
Mas com isto, com este aparecer de personagens, parece às vezes quase cinematográfico.
00:23:58
Speaker
É a sensação que eu tenho com o disco.
00:24:00
Speaker
Havia assim uns momentos...
00:24:02
Speaker
Não sei se você sente isto também, mas iam aparecendo coisas quase cinematográficas e muito densas.
00:24:07
Speaker
É um disco mesmo denso.
00:24:09
Speaker
Sim, sim, muito denso.
00:24:10
Speaker
Quando comecei a ouvir, no princípio, não percebi que era.
00:24:14
Speaker
E depois, de repente, fui me adaptando a sério.
00:24:17
Speaker
Fui entrando, mas achei muito denso e muito rico por essa densidade.
00:24:21
Speaker
Mas estava pensando na quantidade de coisas incríveis que tu já disseste, que eu já tirei aqui uma data de apontamentos e notas, mas isto é na lateral, lá na 13.
00:24:28
Speaker
Mas, principalmente, fiquei aqui presa nesta coisa da inveja e da saudade.
00:24:34
Speaker
Porque achei a ligação toda que tu fizeste incrível.
00:24:37
Speaker
E o olhar, chegar e perceber que aqui, talvez uma das maiores problemáticas, que não nos deixa fazer esse movimento, também me deu a branca.
00:24:49
Speaker
Está difícil essa jailbreak.
00:24:51
Speaker
Nós estamos com dificuldades.
00:24:54
Speaker
Mas é esta coisa, não é?
00:24:56
Speaker
Realmente esta coisa que ficou dentro de nós de uma incapacidade ou de uma grande dificuldade de poder usufruir da própria liberdade.
00:25:04
Speaker
E que eu acho que a saudade dá acesso a esse lugar de alguma maneira, não é?
00:25:07
Speaker
Mas se ela não for vivida verdadeiramente, eu acho que isso é outra coisa.
00:25:10
Speaker
Nós falamos sobre saudade, mas a verdade é que parece que nem a podemos viver, não é?
00:25:15
Speaker
Pelo menos cá eu tenho esta ideia.
00:25:16
Speaker
Se a vivêssemos com maior tranquilidade, a inveja não seria de certeza o lugar principal.
00:25:20
Speaker
É como se estivéssemos condenados a uma saudade que na realidade não podemos sentir.
00:25:24
Speaker
Não sei se estou a conseguir.
00:25:26
Speaker
explicar-vos a minha ideia.
00:25:27
Speaker
O que eu achei incrível no disco é porque eu acho que esta condição existencial está lá.
00:25:33
Speaker
Esta condição da possibilidade de poderes encontrar essa liberdade com esta condição existencial sempre presente.
00:25:42
Speaker
Até a própria ideia da saudade, eu não sabia que vocês iam direcionar aqui, mas não é a própria ideia da saudade.
00:25:48
Speaker
Eu acho que está lá presente como base de fundo.
00:25:52
Speaker
E tinha outra pergunta para te fazer, só esta.
00:25:56
Speaker
Em sueco, qual seria a coisa que mais se assemelharia?
00:26:00
Speaker
Da palavra saudade.
00:26:01
Speaker
Como se pronuncia?
00:26:03
Speaker
Que outra palavra poderia utilizar se fosse assim?
00:26:06
Speaker
Eu tenho que usar duas palavras para explicar saudade para os suecos.
00:26:10
Speaker
Enchön soy, que significa uma tristeza prazerosa.
00:26:18
Speaker
Uma tristeza prazerosa.
00:26:21
Speaker
E outra palavra que eu uso no livro para traduzir, explicar o conceito de saudade é agridoce.
00:26:29
Speaker
Essa coisa que são dois ambíguos juntos.
00:26:33
Speaker
Essa coisa única com a saudade, que eu gosto com a saudade.
00:26:38
Speaker
E dá para traduzir para outras línguas, mas tem que usar mais palavras para explicar-o.
00:26:43
Speaker
Exatamente, exatamente Para transmitir essa mesma ideia E também achei incrível Outra coisa que me parece também estar no livro Que é esse sítio da terra de ninguém Porque quando nós nos começamos A movimentar para outras terras Internas e externamente Chega-se àquele lugar onde não há terra de ninguém Que é simultaneamente o sítio onde nunca mais podemos regressar Estava a pensar, há essa coisa do desejo de voltar a um sítio Que na verdade nunca mais pode ser Porque o tempo passou
00:27:09
Speaker
E portanto não tem como se matar, eu achei graça até a expressão, porque realmente nós usamos a expressão matar a saudade, mas a verdade é que nunca conseguimos.
00:27:16
Speaker
Ela é impossível de ser morta, aliás a inveja seria, acho eu, no limite, um matar a saudade concretizado.
00:27:22
Speaker
A impossibilidade de fazê-lo do contrário, não é?
00:27:27
Speaker
Sim, essa coisa de, por exemplo, esses madeirenses que querem voltar para a Venezuela, mas a Venezuela não está lá.
00:27:35
Speaker
Mas tem vários assim, porque falei com iranianos também.
00:27:41
Speaker
Tem um iraniano que mora em Londres, nasceu em Londres,
00:27:45
Speaker
E ele tem saudade de Irã, que ele nunca visitou.
00:27:50
Speaker
Porque ele foi criado com os pais iranianos, com família ariana, com comida persa em casa.
00:27:57
Speaker
E ele nunca foi para o Irã.
00:27:58
Speaker
Ele parece super iraniano, mas ele nunca foi lá.
00:28:04
Speaker
No livro, estou escrevendo que a saudade dele é quase como uma dor de fantasma.
00:28:11
Speaker
Um dor que não... Aonde está essa dor?
00:28:13
Speaker
Porque ele nunca foi.
00:28:15
Speaker
É uma saudade duro.
00:28:21
Speaker
Eu, às vezes, quando estou no Alentejo, tenho saudades de Lisboa, mas é de uma Lisboa que já não existe.
00:28:27
Speaker
Às vezes estou lá e até imagino, e às vezes penso, já me apetece ir para Lisboa, mas a sensação que está cá dentro é de uma Lisboa que depois eu chego aqui e não encontro.
00:28:38
Speaker
Então, eu mesmo em Lisboa estou permanentemente com saudades de Lisboa, atualmente.
00:28:45
Speaker
Olha, e tu escolheste o Cowboy Song, a Cowboy Song, porque é uma canção.
00:29:06
Speaker
Por que a Cowboy Song?
Reflexões Pessoais e Temas Existenciais
00:29:08
Speaker
Cowboy Song, porque adoro, porque viajo muito, vivo muito bem no Rio de Janeiro, mas o meu trabalho é correspondente.
00:29:15
Speaker
Então, às vezes, estou em Colômbia, Argentina, México, assim.
00:29:19
Speaker
E nessa música, eles falam, I am just a cowboy, lonesome on the trail.
00:29:24
Speaker
E às vezes, eu me sinto sozinho, porque tenho amigos em várias cidades, em México, mas mesmo assim, chegando num hotel...
00:29:33
Speaker
É tarde, eu e uma cama.
00:29:36
Speaker
Então, é Lons of the Trail.
00:29:38
Speaker
Então, sempre coloca essa música porque você dá um pouco de consolo.
00:29:44
Speaker
Você não é o único que está... Sim, sim.
00:29:47
Speaker
Estou fazendo companhia.
00:29:48
Speaker
Exato, um pouco de companhia.
00:29:50
Speaker
E ele canta também, Roll me over, turn me around.
00:29:54
Speaker
Let Me Keep Rolling Until I Hit the Ground.
00:29:57
Speaker
Também gosto dessa coisa de loucura, porque, enquanto viajo, vou nos bares, encontro os meus amigos e mata, talvez, uma saudade.
00:30:09
Speaker
Mas, no fundo, volto para o meio do quarto, sozinho, Lonesome on the Trail.
00:30:16
Speaker
Então, para mim, essa música é um abraço, é uma almofada, é uma coisa... Como assim?
00:30:26
Speaker
E eu também, um pouco... Não é machista, mas ele fala assim... I'm thinking of a certain female.
00:30:35
Speaker
Que gosto, porque já vivi tantas histórias no Rio de Janeiro.
00:30:39
Speaker
Sempre tem uma certain female assim.
00:30:42
Speaker
E isso eu acho que é lindo, porque essa é uma saudade também, mas saudade de amor.
00:30:46
Speaker
Você está pensando em uma mulher, você não manda mensagem para ela.
00:30:51
Speaker
Talvez eu mando, mas você fica pensando.
00:30:55
Speaker
Ela era tão legal, por que terminamos?
00:30:58
Speaker
Então, o Calvo é um pouco...
00:31:01
Speaker
auto-reflectivo, estou refletindo na minha vida, mas também um pouco de melancólico, porque, pô, Lonesome of a Trailer, estou lá sozinho.
00:31:09
Speaker
Então, por isso escolhi essa música, e adoro essa música.
00:31:12
Speaker
E também, musicalmente,
00:31:15
Speaker
Essa música foi uma das músicas que inventou essa coisa de duas guitarras gêmeas, que fazem melódicos juntos, que depois Iron Maiden copiou, outras bandas copiaram, mas foi Scott Gorham e Brian Robertson que fizeram essa solo juntos.
00:31:33
Speaker
E em Cowboy Song, ao vivo, no álbum Live in Dangerous, é espectacular.
00:31:39
Speaker
Patrícia, Cowboy Song.
00:31:45
Speaker
Então, eu não sei se tenho alguma coisa a acrescentar, porque me identifico muito com tudo aquilo que o Henrique já disse.
00:31:52
Speaker
A ideia da solidão e liberdade, não é?
00:31:54
Speaker
Acima de tudo, não é?
00:31:54
Speaker
Como é que as duas coisas podem...
00:31:59
Speaker
Falta-me a palavra.
00:32:01
Speaker
Como é que podem estar... A solidão e a liberdade, não é?
00:32:04
Speaker
No fundo, as duas completamente sempre de mãos dadas.
00:32:07
Speaker
E ser sempre tão difícil saber onde eu queria chegar.
00:32:11
Speaker
Então, ser sempre tão difícil saber qual é o fio, o gume onde nós aguentamos as coisas, não é?
00:32:17
Speaker
Porque acho que está espetacular a ideia do rodeo que cai, não é?
00:32:21
Speaker
Qual é o momento a partir do qual nós corremos o risco de cair, não é?
00:32:24
Speaker
E o que é que está lá realmente para nos amparar.
00:32:26
Speaker
E a ideia que vocês estavam a falar de companhia...
00:32:29
Speaker
Mas o que me acontece com estas músicas é como se me viessem sempre imagens cinematográficas, eu não vou ser explicar isto, mas até me levou ao Danças com o Lobo, não sei porquê, mas há qualquer coisa do Danças com o Lobo para mim, neste tema deve ser o Coyote e a Fogueira, mas esta ideia assim da solidão, alguns na solidão, o que é que se encontra pelo caminho, quando...
00:32:49
Speaker
não se quer fazer a fronteira o lugar da vida não é a ausência de fronteira mas de uma capacidade de estar na relação com os outros menos identitarista mais capaz de se abnegar mas acho que tudo o que tu disseste subscrevo sim
00:33:10
Speaker
E tu ias falar aí qualquer coisa de um livro?
00:33:14
Speaker
Ia falar de um livro, mas não era a propósito desta música, era tudo o que gastou a estar.
00:33:19
Speaker
Era do que tínhamos estado a falar, antes posso falar, é capaz de lá e dar.
00:33:23
Speaker
Não, eu achei que era sobre a música, por isso é que eu te disse, não fales, não fales, porque assim vou-te dar a palavra.
00:33:30
Speaker
Mas diz o que ias dizer sobre o livro.
00:33:31
Speaker
Não, ia dizer só do livro do Milan Kundera, mas que nós gostamos, agora queria me lembrar, eu hoje estou assim, peço-vos desculpa.
00:33:37
Speaker
Mas eu acho que é na ignorância, que tem também uma descrição no princípio, por causa desta ideia da terra de ninguém, não é?
00:33:43
Speaker
Bom, no fundo, esta música também toca nisto.
00:33:45
Speaker
mas também tem uma descrição fabulosa também do lugar de regresso dele depois da guerra, não é?
00:33:50
Speaker
E a sensação de que não era de lugar nenhum e que isso também lhe era transmitido pelos outros, estava a pensar isso.
00:33:55
Speaker
Também isso que dizias da Madeira, não é?
00:33:57
Speaker
Tanto da minha família é da Madeira e tinha uns primos que também não... que tinham estado... e que relatavam isso, não é?
00:34:03
Speaker
Há tantas dificuldade de encontrar outra vez, não é?
00:34:06
Speaker
Porque na Venezuela eram madeirenses e tinham um sotaque madeirense e, portanto, era evidente sempre esse lugar de...
00:34:12
Speaker
E quando chegaram ao Madeira, realmente já não tinham o sotaque madeirense como achavam que tinham.
00:34:14
Speaker
E, portanto, até foi o confronto com a diferença daquilo que eles próprios transportavam, não é?
00:34:20
Speaker
Ou seja, eles eram este lugar de fronteira, de alguma maneira.
00:34:23
Speaker
Que eu acho que esta música também relata bem, não é?
00:34:25
Speaker
Como é que se sobrevive a viver-se neste lugar de uma fronteira que não é a fronteira, não é?
00:34:32
Speaker
Não, exatamente Não sabia, você A sua mãe ou o pai?
00:34:37
Speaker
O pai, da Madeira Ah, boa, do Funchal A minha avó era do Funchal e o meu avô da Camacha Ah, boa
00:34:46
Speaker
Mas então você visitou várias vezes?
00:34:50
Speaker
Tenho a minha ilha sagrada que é o Porto Santo.
00:34:52
Speaker
A ilha das férias que é um bocadinho parecida com, toda a gente diz que é muito parecida com algumas ilhas de Cabo Verde.
00:34:58
Speaker
Nunca foi nessa ilha.
00:35:00
Speaker
É a segunda vez essa semana que alguém fala sobre essa ilha.
00:35:05
Speaker
Tem um signo para Henrique e tem que ir lá.
00:35:07
Speaker
Tem mesmo, o Porto Santo.
00:35:10
Speaker
Porque tem esse lugar, esse lugar mais do horizonte, dessa nostalgia, está mais presente no Porto Santo, ela é mais denunciada, na Madeira é egréstia.
00:35:22
Speaker
No Porto Santo o tempo para Olha eu já a dizer no Porto Santo Como a Patrícia diz Eu também digo Na Ponte Sor No Porto Santo Ok Então a Patrícia A música favorita A canção favorita da Patrícia deste álbum É o Warriors Então Gostas do Warriors?
00:36:09
Speaker
Clara é a tua canção favorita.
00:36:14
Speaker
Eu acho esta letra fabulosa, porque me parece que consegue pôr de uma maneira, não quero dizer sarcástica, que não acho que seja sequer sarcástica, porque também não é cínica, denuncia mesmo este lugar de condição existencial que eu acho que este álbum tem imenso, não é?
00:36:27
Speaker
Quase que brinca com ele, porque tu chamas o guerreiro, aquilo que é a condição existencial, no fundo eu trago desta mensagem e vais morrer.
00:36:34
Speaker
Portanto, pensa a partir desse lugar, não penses a partir do outro.
00:36:39
Speaker
E realmente olhar isto, olhar nos olhos, como ele diz, não é?
00:36:41
Speaker
E tem de pretty, não é?
00:36:44
Speaker
Achei isto fabuloso, há muito tempo que não havia alguma coisa que me fizesse sentir este reconhecimento deste lugar.
00:36:51
Speaker
Nós andamos todos a... É uma coisa que nós temos falado imenso, mas...
00:36:54
Speaker
Andamos com tanto medo de falar sobre este sítio, não é?
00:36:57
Speaker
E este medo de falar sobre este sítio é que me parece que nos tem levado a sítios tão letais, tão mortíferos, que aqui a maneira como aparece na música acho extraordinária.
00:37:04
Speaker
A voz dele, a maneira como... Pronto, a própria voz para mim é mesmo acutilante, mas ao mesmo tempo tem a tal almofada, não é?
00:37:11
Speaker
É acutilante, mas está sustentada, não te abandona à própria morte.
00:37:15
Speaker
Portanto, faz a tal companhia para suportar.
00:37:17
Speaker
Mas há muito tempo que não via, que não lia uma coisa que denunciasse tão bem este sítio.
00:37:21
Speaker
Tipo, olha para aqui, está aqui.
00:37:21
Speaker
Portanto, esta é a novidade que eu tenho para te dar.
00:37:30
Speaker
Olha, é o anúncio da morte acompanhada.
00:37:35
Speaker
Sim, toda a letra é maravilhosa Pergunta àqueles que já passaram por lá Acho que é fabuloso Porque é pequena a letra Mas é super densa Mais uma vez, eu acho que isto tem uma densidade incrível Percebo porque é a questão da poesia Porque eu acho que esta letra é um poema Exatamente
00:37:57
Speaker
Também acho que há aqui uma coisa que isto pode ser, que também me parece que com este poema, para além do que tu estás a dizer, acho que há outra mensagem que passa, que é às vezes é preciso matar para continuar.
00:38:14
Speaker
Com esta frase, my heart is ruled by Venus, é que isto é espetacular, não é?
00:38:18
Speaker
Está aqui o sítio onde é possível, onde a vida continua.
00:38:27
Speaker
Henrique, gostas desta canção?
00:38:29
Speaker
Eu adoro esta música, mas gosto mais da música de Warriors, das guitarras.
00:38:35
Speaker
Nesta música, não escuto tanto as letras, porque gosto da agressividade da música.
00:38:42
Speaker
E a versão ao vivo é fabulosa.
00:38:47
Speaker
Porque acho que aqui, esta coisa das duas guitarras encontrando, é muito bom mesmo.
00:38:54
Speaker
Sim, que acho que é entre... Eu agora estava aqui a pensar na expressão, porque às vezes há guerreiros que vão para a conquista e há guerreiros que vão para matar mesmo, não é?
00:39:09
Speaker
É quase como se as duas guitarras fizessem cada uma a sua parte.
00:39:12
Speaker
Essa parte, não é?
00:39:13
Speaker
Uma guitarra estivesse a fazer... Como se a guitarra fosse uma arma, não é?
00:39:17
Speaker
Exatamente, o lado da conquista e o lado do matar, não é?
00:39:23
Speaker
Sim, mas o ritmo é muito bom, sim.
00:39:27
Speaker
Também perco um bocadinho aqui no ritmo desta canção.
00:39:33
Speaker
Eu escolhi, como tinha que ser, The Boys Are Back In Town.
00:39:57
Speaker
E precisamente porque deve ser que mais genuinamente me faz sentir aquilo que eu descrevi na introdução.
00:40:04
Speaker
Esta coisa do The Boys Are Back In Town, acho que pode ser uma coisa, acho que literalmente faz-me recordar e faz-me ter saudades um bocadinho disto, que é...
00:40:17
Speaker
de estar num dos meus bares favoritos de sempre à espera que cheguem as pessoas que me vão fazer companhia e que vão estar na mesma sintonia que eu e que depois vamos e depois nos vamos divertir muito e vamos conversar muito e vamos ali entrar pela noite dentro e portanto todo este movimento de encontro por identificação por amizade por confraternização por intimidade
00:40:45
Speaker
com amigos, em bares ou na rua mesmo mesmo na rua acho que é uma coisa que acarreta sempre uma certa musicalidade nem que seja só andar na rua acho que é uma coisa de musicalidade nisso nos nossos passeios pela rua ou qualquer intervenção que seja feita na rua
00:41:07
Speaker
E, portanto, foi por isso que eu escolhi, porque acho que tem mesmo esta coisa vibrante e poderosa de eles estão a chegar, que é como se tudo fosse começar outra vez, vai tudo começar, há sempre alguém a chegar, esse alguém...
00:41:23
Speaker
É alguém que tem uma influência boa sobre ti e que vai transformar o ambiente numa coisa nova.
00:41:30
Speaker
Que pode ser de esperança, também pode levar à luta, não é?
00:41:34
Speaker
Esta coisa do boys back in town também pode ser um gang que vai rebentar com tudo a seguir.
00:41:39
Speaker
Mas há uma energia de... E que esta palavra...
00:41:44
Speaker
antiga, que é quase fora de moda, que é camaradagem, não é?
00:41:47
Speaker
Camaradagem é uma palavra quase fora de moda, assim como é o bestial, também é um bocadinho fora de moda, mas é tudo dali dos 70's, não é?
00:41:54
Speaker
Dos 70's usava-se muito a palavra bestial e a camaradagem, mas eu acho que eu tenho saudades disto, ainda hoje sinto a tensão, nós sentimos isto de qualquer coisa boa que está a chegar, que é esta coisa do boys back in town, isto vai haver vibração, vai haver... Claro que há...
00:42:13
Speaker
Mas há esta coisa cinematográfica que a Patrícia estava a falar, que é exatamente a imagem mental que me fica na cabeça quando ouço este disco.
00:42:26
Speaker
As pessoas que tu queres que cheguem vão chegar.
00:42:28
Speaker
E, portanto, vai haver uma correspondência entre o teu desejo e a concretização desse desejo e a energia que transporta esse desejo.
00:42:37
Speaker
É por isso que eu gosto desta canção.
00:42:39
Speaker
Foi uma muito boa explicação, porque eu adoro essa coisa, The Boys Are Back In Town.
00:42:43
Speaker
Quando eu escuto essa música, eu volto para Malmo, minha cidade natal, e a gente era um grupo de cinco, seis amigos.
00:42:51
Speaker
A gente sempre saímos juntos, fazendo besteira.
00:42:55
Speaker
Mas quando a gente chegou no bar, o bar sabia, agora vai ter festa, porque The Boys Are Back In Town.
00:43:01
Speaker
Essa é a coisa linda nessa música.
00:43:05
Speaker
Por isso dá para...
00:43:06
Speaker
Essa música funciona muito bom em bares.
00:43:09
Speaker
Você coloca isso... Vocês estão aqui, vou pôr essa back-end-town.
00:43:15
Speaker
Coloca essa música.
00:43:17
Speaker
E o Phil Liner, ele escreveu essa música, porque ele estava morando em Londres, pobres, tentando... Já lançaram vários discos que não deu...
00:43:30
Speaker
Não foi um sucesso.
00:43:31
Speaker
Então, eles voltaram para a Irlanda, não tinham dinheiro para avião, então eles foram para Holyhead, no alto da Irlanda, pegou o ferry para Dublin.
00:43:40
Speaker
E lá nessa transversia de Inglaterra para a Irlanda, ele escreveu essa música, porque ele estava imaginando...
00:43:48
Speaker
que agora a gente vai para Dublin, agora a gente vai fazer merda, agora a gente vai tratar a gente bem, porque eles sofreram bullying em Londres, porque eram irlandeses, católicos, e ingleses não gostam disso, mas em Dublin eles eram abraçados, então é assim, finalmente a gente vai voltar, os boys are back in town.
00:44:08
Speaker
muito bom Patrícia?
00:44:10
Speaker
a Patrícia nem tem nada a acrescentar gostei tanto do que vocês disseram mas acho que é este sentido só de reencontro interno e de uma memória coletiva que parece a tal identidade do Fabra no princípio com a coisa que nos devolve e que dá a garra outra vez só isto é isto mesmo bom estamos a chegar ao fim
00:44:31
Speaker
Tem mais uma música lá Que é o meu novo favorito Porque troca favorito Que é o máximo favorito Mas tem uma música que se chama Running Back Que é uma música do soul Que é muito simples É sobre um amor que terminou
00:44:51
Speaker
E como aí tem o namoro que terminou, então escuta essa música todo dia.
00:44:58
Speaker
Escuta as letras, não sei se vocês vão entender assim.
00:45:02
Speaker
Sim, vou estar aqui.
00:45:08
Speaker
Henrique, gostaste de estar aqui conosco?
00:45:11
Speaker
muito, me sinto como em casa estamos em casa estamos literalmente em casa mas foi muito bom, muito obrigada por ter aceitado estar aqui connosco eu vou agradecer também à Patrícia Câmara à Carolina Pinchel que fez aqui o som agradecer à Climeps e Editores que nos empresta todo este material
00:45:37
Speaker
Agradecer como sempre aos Dirty Mac e à Yoko Ono que fazem o jingle, a música do nosso jingle e à Joana Bernardo que dá voz.
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Speaker
E se não te importares, vamos terminar com uma passagem do teu livro Saudade.
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Speaker
Eu vou-te pedir para seres tu a ler.
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Speaker
Então, vamos terminar com as palavras do Henrique e nós voltamos para o mês que vem.
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Speaker
Boa, vou começar aqui no capítulo sobre Cabo Verde.
00:46:06
Speaker
A gente está em Praia de São Pedro, Ilha de São Vicente.
00:46:14
Speaker
Estendo a toalha na areia e prendo os cantos com as minhas chinelas brasileiras, para que não voem enquanto nado.
00:46:23
Speaker
Caminho com determinação em direcção à beira-mar.
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Speaker
As ondas mornas molham-me os pés.
00:46:33
Speaker
Devagar entro e mergulho no Atlântico como se fosse um meio líquido amniótico.
00:46:41
Speaker
Nado até ao fundo, com os olhos abertos e agarro numa concha branca que guardo como recordação.
00:46:52
Speaker
Depois, deito-me de costas e deixo o mar salgado subir e descer pelo meu corpo enquanto flutuo.
00:47:01
Speaker
Fecho os olhos e penso na escolha de viajar para o Brasil.
00:47:06
Speaker
Foi nesta praia que tomei a decisão.
00:47:15
Speaker
São Pedro é o origem da minha saudade.
00:47:25
Speaker
Não o sinto dessa forma.
00:47:27
Speaker
Sinto antes gratidão.
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Speaker
Quando abro os olhos, percebo que as correntes me levaram para longe da praia.
00:47:36
Speaker
Fui atraído para o Brasil, como se fosse o meio destino.
00:47:42
Speaker
Não há nada do que me deve arrepender.
00:47:47
Speaker
Muito obrigada, Henrique.
00:47:51
Speaker
Desculpa, fiquei emocionado.
00:47:54
Speaker
Não peças desculpa.
00:47:55
Speaker
É isso mesmo que é a saudade.
00:47:59
Speaker
Até para o mês que vem.