Transcript
Speaker: E aí
Speaker: VIVANCHE
Speaker: A psicanálise?
Speaker: O mundo.
Speaker: E o rock and roll.
Speaker: Voltemos à Europa e à poesia.
Speaker: O convidado de hoje, Três Divãs, escolheu um disco longo com 34 poemas.
Speaker: um disco que combina com a sua longa viagem na escrita e na tradução.
Speaker: Ao ouvirmos este disco temos a sensação de promenade.
Speaker: de andarmos a pé pelas ruas de Paris. E à medida que caminhamos, sempre acompanhados pela esperança, vamos tendo encontros e desencontros.
Speaker: E a ironia, figura de estilo que se destaca ou de estilo não falássemos. E quando penso na ironia de algumas letras de Moloji Gold,
Speaker: Penso inevitavelmente na ironia de Milan Kundera e nas reflexões de Chantal acerca dos homens se terem apazinhado.
Speaker: E...
Speaker: Tragicamente, sorri.
Speaker: Sempre em dupla valência.
Speaker: O que será de nós sem eles?
Speaker: Os homens e o Kundera.
Speaker: Então lembro -me do parágrafo do Imortalidade postado pelo meu querido amigo Helder Beja. Há já algum tempo que o rio, o roxinol, os caminhos cruzando os prados desapareceram da cabeça do homem.
Speaker: Já ninguém precisa deles. Quando amanhã a natureza desaparecer do planeta, quem é que vai a perceber -se disso?
Speaker: Onde estão os sucessores de Otávio Paz e de René Carr?
Speaker: onde estão ainda os grandes poetas.
Speaker: Terão desaparecido ou a voz deles tornou -se inaudível?
Speaker: Seja como for.
Speaker: Que imensa mudança na nossa Europa.
Speaker: Outrora impensável sem poetas.
Speaker: Mas se o homem perdeu a necessidade de poesia, será que se apercebe do seu desaparecimento?
Speaker: O fim.
Speaker: Não é uma explosão apocalíptica.
Speaker: Talvez não haja nada mais tranquilo que o fim.
Speaker: E depois lembrei -me do parágrafo escolhido pelo nosso convidado de hoje.
Speaker: o tradutor desse mesmo livro.
Speaker: Caminho.
Speaker: Faixa de terra sobre a qual se anda a pé.
Speaker: A estrada distingue -se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma simples linha ligando um ponto a outro.
Speaker: A estrada não tem em si própria qualquer sentido.
Speaker: Só têm sentido os dois pontos que a liga.
Speaker: O caminho é uma homenagem ao espaço.
Speaker: Cada trecho do caminho é em si próprio dotado de um sentido e convida -nos a uma pausa.
Speaker: Entrada.
Speaker: É uma desvalorização triunfal do espaço
Speaker: que hoje não passa de um entrave aos movimentos do homem.
Speaker: de uma perda.
Speaker: tempo.
Speaker: Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana.
Speaker: O homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer.
Speaker: e também a sua vida.
Speaker: Ele já não vê como um caminho.
Speaker: mas como uma estrada.
Speaker: como uma linha.
Speaker: conduzido de uma etapa
Speaker: conduzindo de uma etapa à seguinte.
Speaker: do posto de capitão ao posto general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva.
Speaker: O tempo de viver reduziu -se a um simples obstáculo.
Speaker: com o que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente.
Speaker: Obrigado.
Speaker: E depois lembrei -me da Patrícia.
Speaker: como o eu, também se lembrou da Chantal.
Speaker: Estou a ver duas cabeças de perfil.
Speaker: iluminadas pela luz de um pequeno candeeiro de mesa de cabeceira.
Speaker: Obrigado.
Speaker: a cabeça de chantal.
Speaker: debruçada por cima dele a uns 10 cm de distância.
Speaker: Dizia ela.
Speaker: Nunca mais tirarei os olhos de ti.
Speaker: Vou olhar para ti.
Speaker: ininterruptamente.
Speaker: E...
Speaker: Depois de uma pausa,
Speaker: Tenho medo quando o meu olho pisca, medo de que, durante esse segundo em que o meu olhar se apaga, se introduza no teu lugar uma serpente, uma ratazana.
Speaker: Outro homem.
Speaker: Ele tentava erguer -se um pouco para lhe tocar com os lábios.
Speaker: Ela abanava a cabeça.
Speaker: Não.
Speaker: Só quero olhar para ti.
Speaker: E depois?
Speaker: Vou deixar o candeeiro aceso toda a noite.
Speaker: todas as noites.
Speaker: E então lembrei -me de ti.
Speaker: E novamente deles.
Speaker: Do Miguel.
Speaker: E do Condeira.
Speaker: Obrigada.
Speaker: Porque a verdadeira vida...
Speaker: Para mim é isso.
Speaker: viver nos pensamentos do outro.
Speaker: E a promenade continua aqui.
Speaker: Na Rua do Sol ao Rato, na Chasing Rabbits,
Speaker: Comigo, com a Patrícia Câmara e o Miguel Serras Pereira.
Speaker: que nos traz o melhor de Marcel André Mouloudji.
Speaker: Ou três divãs.
Speaker: along we go.
Speaker: Boa tarde. Olá, como estão? Obrigada. E o Miguel? Eu estou bem, um bocadinho perplexo porque...
Speaker: dada a vossa condição.
Speaker: de psicanalistas, isto é uma sessão com três divãs, o que é um pouco heterodoxo.
Speaker: Risos
Speaker: Não sei bem como é que vamos respeitar as regras fundamentais da associação livre e da atenção flutuante, estendo a falar uns com os outros, mas enfim, confio perfeitamente nas vossas inovações.
Speaker: Podemos sempre ver Carlos dos Costos.
Speaker: Tchau.
Speaker: Também...
Speaker: O que estava a pensar, vamos lá, a Associação Livre é que já há muitos anos...
Speaker: Não fiz podcasts que ainda não se faziam, mas fiz uns programas de rádio.
Speaker: com um colega, pelo menos aproximativamente colega vosso, que era o João Sousa Monteiro, em que então me habituava, habituei -me um pouco a por estas coisas, mas estava bastante estrenado.
Speaker: Eu não.
Speaker: em...
Speaker: E fizemos, eram coisas sobre literatura, foi sobre o Pessoa, essencialmente, porque era, já não me lembro se foi cinquentenário da morte, qualquer coisa assim, deve ser, morreu em 35, isso foi em 85.
Speaker: E aí tive também...
Speaker: tivemos os dois a ocasião de entrevistar
Speaker: alguns dos vossos colegas séniores, o João dos Santos, o Pimbra de Matos e provavelmente mais alguns que agora não...
Speaker: que agora não me recordo, mas isto...
Speaker: esta aparelhagem técnica para a gravação do podcast transmissa à memória.
Speaker: Obrigado.
Speaker: É uma das mil coisas que fez e faz, não é mesmo?
Speaker: Sim, acho que faço coisas demais, como todos nós.
Speaker: Acho que devíamos fazer um bocadinho menos.
Speaker: Acho que há coisas demais. Há uma canção de um lute que não...
Speaker: que nem sei se vem nesse disco, agora não me lembro, porque este disco é uma compilação.
Speaker: Uhum.
Speaker: porque os álbuns dele eram feitos ainda em vinil, etc. Portanto, para termos uma amostra tive que recorrer a esta compilação.
Speaker: em que é precisamente o tema é que há coisas demais e ninguém tem o suficiente. Quer dizer, estas duas coisas. Há demasiados automóveis e demasiados engarrafamentos.
Speaker: em proibir fora.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Tem demasiados géneros alimentares e produtos nos supermercados e em todo o lado as pessoas têm fome e por aí fora.
Speaker: Tchau.
Speaker: É...
Speaker: As paradoxalidades e o contradisso.
Speaker: Ou complementariedades totalitaristas.
Speaker: Era provocatório.
Speaker: Não, não estão a pensar que eu falo sozinho, já que estou...
Speaker: E aí
Speaker: Já que são três divãs, quer dizer, não há ninguém a interpelar -vos.
Speaker: Obrigada.
Speaker: Então, mas como é que...
Speaker: Apresente -se lá, Miguel. Como é que o Miguel se apresenta? Isso é muito complicado. Como vocês devem saber, de resto, por experiência profissional, ao fim de quantos anos é que vocês conseguem que eu...
Speaker: que eu analisando se apresenta a si próprio, a si próprio nos dois sentidos, perante si próprio e como reconhecimento. É mesmo tarefa interminável. É uma tarefa interminável e provavelmente a pessoa só se apresenta razoavelmente bem, suficientemente bem ou suficientemente mal, como quiserem, quando percebe que não se pode apresentar a si mesmo.
Speaker: ou só se pode apresentar bem a si mesmo apresentando -se a si outro.
Speaker: Fabuloso. É uma coisa destas. É um lugar máximo de alteridade.
Speaker: Estavam assim.
Speaker: Sim, sim.
Speaker: Tá achando?
Speaker: Tem a ver com a autoridade e com a identidade. A identidade é também o título de um dos livros do...
Speaker: do meu ano quando era. Este que falávamos aqui na introdução, não?
Speaker: Tchau, tchau.
Speaker: E...
Speaker: a identidade.
Speaker: A identidade é singular e não só singular como não é fixa.
Speaker: É...
Speaker: É não idêntico a si mesmo. Há uma não coincidência, por excesso ou por defeito, de cada um consigo próprio.
Speaker: que é a sua verdade.
Speaker: O Adorno dizia, não no contexto da psicanálise, mas no outro, mas acho que é aplicável, que a verdade era ou não idêntico.
Speaker: É o que não conhecido completamente, se o real...
Speaker: O ser, como quiserem, coincide isso completamente consigo próprio.
Speaker: O Parmenides tinha razão, estava em cima de Mado, parado, quieto, não haveria tempo.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Obrigada.
Speaker: É tudo morto, né?
Speaker: É o identitarismo, como costumou Miguel também dizer.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Amigão.
Speaker: diz, diz, diz não, não, diz
Speaker: Mas acho que tem razão. Acho que é um caminho que se faz caminhando e nós também vamos lá chegar.
Speaker: Claro que não podemos não dizer toda a sua ampla obra.
Speaker: poética, essaística.
Speaker: como tradutor.
Speaker: E também como tradutor do mundo.
Speaker: De muitos livros da psicanálise.
Speaker: Sim, também.
Speaker: Enfim, não é assim tão vasta a tradução, sim, mas isso, pronto, é tradução profissional há muitos anos.
Speaker: Portanto...
Speaker: Tentar dizer tudo um pouco.
Speaker: Procuro fazer sempre o melhor que posso, mas muitas vezes não se pensa que os livros que eu traduzi foram os livros escolhidos por mim. Isso muito raramente aconteceu.
Speaker: O que não tem mal, ou que não teria mal, se os outros livros não são escolhidos por mim.
Speaker: tivessem levado a descobrir sempre...
Speaker: qualquer coisa, ou encontrassem é que isso nem sempre é verdade, mas pronto. Quanto à outra obra, é esparça, quer dizer, eu não...
Speaker: Obrigado.
Speaker: É...
Speaker: Não, nunca cuidei muito disso, nem dos meus poemas, nem do...
Speaker: nem dos artigos que fui escrevendo aqui e ali, aos pequenos ensaios que...
Speaker: depois acabei por reunir há algum tempo.
Speaker: Eu aguento em...
Speaker: Em 2020, publiquei à tona de vazio que são...
Speaker: que é uma amostra de 50 anos da minha poesia há 20 anos, que não publicava nada.
Speaker: Né?
Speaker: nem de poesia...
Speaker: nem de prosa, quer dizer, nem de assais ou de artigos de reflexão.
Speaker: Portanto, é assim por vagas, nessa altura, que foi em 98, 97, 98, 99.
Speaker: publiquei três ou quatro coisas, um livro de poemas e recolhas de...
Speaker: ensaísticas, digamos assim, umas mais sobre literatura, outras mais sobre política.
Speaker: E sim, também psicanálise. E isso ainda foi antes, foi em 84.
Speaker: Mas nesses também há coisas psicanalíticas.
Speaker: Mas não...
Speaker: Amém.
Speaker: Enfim, já não sei o que há de ser. Eu que estava a ir buscar -lhe o pantaliste também.
Speaker: O Ponta Alís é uma referência para mim e tem outra vez a ver com o problema da identidade, com a existência.
Speaker: que ele faz a identidade não ser fixa no...
Speaker: Na insistência que faz numa coisa que não é intraduzível, pode -se explicar a diferença moi, em francês, moi, je. Nós traduzimos os dois termos por eu. Digamos que o moi será predominantemente o eu instituído, o eu criado, o eu feito.
Speaker: E o G será o eu fazendo -se.
Speaker: que nunca é de fim de nível, quer dizer, tem contornos, mas contornos que são osmóticos e...
Speaker: e fluidos.
Speaker: E...
Speaker: faz parte da paisagem, de certo modo é uma diferenciação que acontece na paisagem que ao mesmo tempo a transforma.
Speaker: Tchau.
Speaker: Isto é o que eu às vezes chamo de uma concepção paisagística do self.
Speaker: que se calhar não é muito ortodoxo também, mas enfim, também não estamos aqui para isso. Não é pensar que retira o lugar do protagonismo como centro.
Speaker: Como?
Speaker: Estou a dizer que retira o lugar do protagonismo. Isso é bom, não é? É fabuloso. Repõe o lugar de identidade. Retira -se o lugar do protagonismo para aceitar o lugar de identidade, que é esse que aceita, que a única condição comum é esse lugar paisagístico.
Speaker: A identidade agora, passando rapidamente a outra coisa, que é outra vez o homologio.
Speaker: Tem uma canção fabulosa que se chama Autorretrato, em que enumera as suas identidades várias. Com toda a complexidade de identidades. Sim, católico pela mãe, comunista pelo pai, semijudeu pelo filho, o que é genial. Quer dizer, depois por aí fora. De testado pelos cães.
Speaker: Repreendido pela Porteira.
Speaker: Com toda a complexidade identitária. Até o graças a Deus.
Speaker: Até o graças a Deus, porque é como termina. É o refrão. É o refrão, exatamente.
Speaker: Sim.
Speaker: O que é muito engraçado porque ao mesmo tempo é sarcástico, tem uma autoironia muito grande, mas ao mesmo tempo é também sério.
Speaker: Quer dizer, ele dando estes exemplos burlescos e que fazem rir, etc.
Speaker: descobre qualquer coisa, que é precisamente a impossibilidade de fixar uma identidade sem sermos muito chatos, para nós e para os outros. Usando até o seu fundo, agita o fundo. Agita o fundo. Sem turvar.
Speaker: Tchau.
Speaker: Estou gravando um ensaio, estou gravando um ensaio.
Speaker: Eu vou pegar aí uma coisa que disse a partir do moi e do je.
Speaker: Só aqui uma parte, mas que eu acho que é...
Speaker: Que é mesmo...
Speaker: Interessante. Há um filme que eu gosto muito e agora não lembro do realizador, que é o Mon Roi.
Speaker: E o Monroi começa precisamente com...
Speaker: Isto que...
Speaker: A definição da palavra joelho.
Speaker: em francês.
Speaker: e o filme é francês
Speaker: E o nome, e joelho em francês é genou.
Speaker: Obrigado.
Speaker: E é espetacular. Porque é uma afinia entre...
Speaker: Entre o eu e o nós.
Speaker: entre o eu e o eu fluido, digamos o eu que dialoga o eu que está a indigir pronto, e fez -me lembrar isto quando estava aqui aqui na nossa Associação Livre quando estava aqui a conversar a falar sobre o mais bom
Speaker: E porquê este disco?
Speaker: Este disco, como eu disse há bocado, não é um álbum original do melodia, a maior parte dele, exceto na última fase.
Speaker: E mesmo aí já eram quase sempre compilações em que ele acrescentava canções novas em 76 e daí para a frente. Ele morreu em 94, mas nos últimos anos já não gravou, ou gravou mas não chegaram a ser editados.
Speaker: que tinha tido um problema de cordas vocais. Este disco, fundamentalmente, é porque é uma amostra que vai desde as primeiras canções dos anos 40.
Speaker: É...
Speaker: É...
Speaker: até ao fim da sua carreira e que ilustra as diversas facetas dele.
Speaker: desde o...
Speaker: interpreta talvez mais.
Speaker: mais completo, já que prevér.
Speaker: Para quem o fez, ele foi morto, vai reparar.
Speaker: dezenas de canções.
Speaker: A homologia cantava canções populares do repertório tradicional francês.
Speaker: sobretudo, mas não só, canções ligadas a movimentos insurrecionais, como a Comuna, ou a canções de protesto contra a Guerra de 14, portanto, ia buscar esse repouso.
Speaker: um portório tradicional.
Speaker: E também do...
Speaker: do popular, quer dizer, da Valsemizete, da Javá, das músicas... A chanson de Rebete. Esta já sabe que me gostei muito desta.
Speaker: E isso ainda é outra faceta, são as canções francamente humorísticas.
Speaker: De...
Speaker: Mas essa não está escolhida para vir. Não, não está.
Speaker: Tchau.
Speaker: Tchau.
Speaker: Bom, enfim, quer que eu resuma a história? Queremos, claro. É muito bonita a canção, demora menos de um minuto a cantar. É de facto um sketch, é uma...
Speaker: Ele descreve um vale, uma ribeira, um rio onde está...
Speaker: onde estava uma lavadeira que às tantas está -se a lavar a si própria, está toda nua, está a tomar banho.
Speaker: pelo carreiro, passa um...
Speaker: Um soldado que acaba de vir da guerra, vinha da abissínia, de feito, etc. E ela não desejava outra coisa, ele também não, só que não se viram.
Speaker: Eu achei que estava na pergunta.
Speaker: Gostei do resumo E a canção ainda é mais sucinta Se possível É mesmo um sketch Mas ele tinha também muitas canções De tipo
Speaker: do tipo um rístico.
Speaker: nas canções e depois têm a partir.
Speaker: a partir de certa altura.
Speaker: Tenho uma...
Speaker: tem uma série de canções que ele próprio faz, ele sempre fez algumas, mas na última fase, a partir de 76 e mesmo antes, agora com as datas não vou ser muito rigoroso.
Speaker: que são extremamente originais, como Fouvide, como...
Speaker: e muitas outras.
Speaker: Obrigado.
Speaker: É...
Speaker: Depois há um cantor da Melancolia.
Speaker: Daí que tenho esse humor, porque atravessa muito e é um humor que foi à prova.
Speaker: Foi à prova da Moncler e passou. E, portanto, volta como que rejuvenescido.
Speaker: É...
Speaker: E o caráter irrisório que a melancolia descobre em todas as coisas, o vazio das coisas, no flow vivre, acaba por ser um impulso vital.
Speaker: contendo que não se lhe serve e não serve.
Speaker: Obrigado.
Speaker: mesmo em outras canções, como em Júlio de Ferrar.
Speaker: Isso é...
Speaker: A melancolia tem uma promessa.
Speaker: que parte de uma canção melancólica em que descreve uma praça, imagina -se a passear com a amada.
Speaker: ao ser amado por ruas cinzentas, com as pedras cinzentas, mas que são doces para eles.
Speaker: E o céu está cheio de bruma e melancolia, mas um dia irão por aí os dois de mão na mão. É perfeito.
Speaker: Ai meu Deus, eu vou pôr em...
Speaker: Diga. Não. Estão reiterando. Estão reiterando.
Speaker: Passar à prova da melancolia.
Speaker: É isso que disse, passará para o outro dia e a partir daí.
Speaker: Eu acho que era o outro.
Speaker: um lugar que conhece e que te passa este lugar.
Speaker: Pois, a alegria, o prazer que não tem o trapo da melancolia é bastante insípido. Muito vazio.
Speaker: É, preciso.
Speaker: E porquê há na melancolia esta esperança? É vazio porque não reconhece o vazio e a sua totalidade é abusória, a sua plenitude é abusória.
Speaker: É o que eu vejo.
Speaker: Bom, nós falámos muito da melancolia na sociedade portuguesa psicosomática, da qual estão aqui duas ilustres representantes, a presidenta também, mas eu não estou...
Speaker: e falámos disto e de facto não nos lembrámos de ouvir o Muloji mas podíamos ter ouvido também Sim
Speaker: Agora sim, Ana Teresa, desculpa. Não, não peças desculpa.
Speaker: Eu quero é que seja o Miguel a dizer o título da sua música favorita.
Speaker: A favorita é difícil, tinha que escolher uma, não é?
Speaker: E, portanto, escolhi.
Speaker: melancolicamente é certo, porque podia ter escolhido também o outro.
Speaker: Mas é uma canção da Melancolia, lindíssima, Lefeu e Morte.
Speaker: que é um poema de Prévert.
Speaker: depois foi, e com música de Cosmar, que era um húngaro, um músico húngaro, que se refugiou em França e depois durante a guerra, porque era judeu, nos Estados Unidos.
Speaker: fez música para filmes como Les Enfants du Paradis e do Carnet, que foram feitos durante a ocupação e, portanto, no genérico do filme não apareceu o nome dele, só depois que começou a aparecer.
Speaker: E há imensas versões disso, depois houve adaptações no mundo da voz, o Saxónico, o Sinatra cantava...
Speaker: o Michael Davis toca, o Chet Baker também canta, enfim, muitos outros, e em França o Yves Montand.
Speaker: a Juliette Greco e muitos que a cantavam.
Speaker: Mas a interpretação da melodia é a única versão que eu conheço e também já confirmei.
Speaker: que há fontes que dizem o mesmo, ele canta o poema todo, porque às vezes eles cantam só uma parte do poema do Brever, ou há uma parte que dizem e outra que cantam, e ele canta...
Speaker: E aí
Speaker: princípio e fim.
Speaker: E...
Speaker: E para mim é uma canção inexpedível.
Speaker: Porque esta canção tem a ver com...
Speaker: com o tal velho melancólico.
Speaker: Bom, para já é uma interpretação soberba e a voz do Melody, não sendo uma voz clássica, é uma voz que...
Speaker: restitui ou cria ou recria tonalidades de afeto absolutamente únicas. Ele aqui canta, canta muito bem, mas quase que só fala também ao mesmo tempo.
Speaker: Obrigado.
Speaker: E depois, voltando à melancolia, aqui de facto é um amor passado, em certo sentido um amor perdido, mas a canção, ele a ouviu lá sempre.
Speaker: E...
Speaker: Por mais que o mar apague os espaços dos amantes que se desunem, o resto é ambíguo. O mar apaga os espaços dos amantes desunidos.
Speaker: Pode ser que...
Speaker: A PAC é também redes união.
Speaker: e repaga também a desunião.
Speaker: Hum!
Speaker: E depois tem coisas fabulosas. Isso é o poema do Préver, mas que ele canta muito bem. Aquela coisa que ele diz duas vezes, sete in chanson, que não ressemble.
Speaker: É uma canção que se parece conosco. Conosco enquanto amamos.
Speaker: É fabuloso.
Speaker: Não.
Speaker: Há muitas outras que eu gosto muito mas...
Speaker: Mas tinha que ser, foi esta.
Speaker: Uhum.
Speaker: Estava aqui pensando, posso interromper? Eu ia dizer uma coisa na mão.
Speaker: Né?
Speaker: Eu interrompi o silêncio.
Speaker: Entrou em silêncio.
Speaker: Interrompeste o silêncio.
Speaker: entrevista com o Jacques Perreguer, em que ele dizia sobre o Mulanji, por causa da questão da voz, dizia assim, quando conheci isto, a minha letra está até assim, mas posso vender.
Speaker: Quando conheci o Mulanji, ele era uma criança, um menino.
Speaker: Ele não tinha aquilo que comumente se chama uma voz bonita, mas uma voz verdadeira, viva, perturbadora, engraçada e às vezes comovente. Era a dele.
Speaker: A voz das ruas, a voz do coração.
Speaker: Ele cresceu, mas continua a cantar da mesma maneira. E esse é o seu chave. E é isso. Ainda bem que se lembrou de trazer isso. Eu também conhecia isso. Tem qualquer coisa de infantil ou de infância. Às vezes mesmo de infantil, de carremão infantil. Outras vezes, mas há sempre.
Speaker: Há sempre qualquer coisa de infância nas canções dele.
Speaker: Está muito presente para esse sentido. Sinto -me muito cómica.
Speaker: Isso envia tempo.
Speaker: Até a música, o acompanhamento com os maios, dão esse tom quase de...
Speaker: de realejo ou de qualquer coisa assim.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Que reabita o tempo, que reabita o tempo sem se apropriar dele.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Estou pegando nessa questão da melancolia.
Speaker: que estava a falar.
Speaker: E agora da questão...
Speaker: Do infantil.
Speaker: Como é que associámos as questões infantis?
Speaker: Como?
Speaker: Como é que associa esta melancolia? Falou desta questão infantil nesta letra específica? Nesta razão, isso foi a Patrícia que falou, mas eu aceitei a interpretação.
Speaker: Então falem os dois. Quer dizer, o Bré Verde fala em geral, não especificamente essa canção do aspecto infantil da Costela, sempre infantil, que o Ludwig manteve. O Ludwig era um enfant de rue, era um miúdo da rua.
Speaker: uma família muito pobre, a mãe...
Speaker: Vinha dos meios populares franceses e era muito católica.
Speaker: E...
Speaker: e depois foi alcoólica e depressiva, etc.
Speaker: E o pai era um operário das obras, era Argelino Cabildo.
Speaker: E tinha vindo para a França e ele viveu precariamente, foi fazendo pescados.
Speaker: foi -se safado.
Speaker: E há qualquer coisa desse...
Speaker: desse miúdo que se desenrasca.
Speaker: em muitas das canções dele sobretudo quando interpreta canções
Speaker: o Deportório Popular, mas mesmo algumas.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Há um humor muito característico dele.
Speaker: Mas agora o infantil...
Speaker: O infantil está sempre presente na...
Speaker: se caderno a poesia do Prefecho também.
Speaker: que foi, além de ter sido interpretado por Molodji, foi com certeza uma fonte de inspiração para o Molodji e para as próprias canções dele.
Speaker: Não que sejam semelhantes, mas...
Speaker: Mas isso tem a ver com a infância. Eu prefiro...
Speaker: Noutros poemas isso é mais evidente que neste.
Speaker: brinca muito com as palavras, faz contrações infantis, parece que está a contar histórias infantis, às vezes terríveis, como L 'Achasse au Bonfant, por exemplo, mas tem sempre esse ar de miúdo.
Speaker: um bocado de vazio, um bocado na margem.
Speaker: que se porta mal.
Speaker: Mas que...
Speaker: mas que é alegre, que é generoso.
Speaker: Isso está muito na homologia, na vida dele, na carreira dele e no seu interesse pelas canções revolucionárias e pacifistas.
Speaker: Eu não estava enganada.
Speaker: A Patrícia interpretou
Speaker: Miguel concordou, mas o que eu estava a perguntar era assim.
Speaker: Mesmo assim...
Speaker: Miguel Serras Pereira, como é que vê o infantil na melancolia?
Speaker: Era isto mesmo que eu queria saber. Ao luto da infância, não é?
Speaker: Beleza.
Speaker: a luta infância.
Speaker: Posso pegar só nisto aqui? Porque aquela parte que disse há bocadinho, que citou, não é? Aconteça o que acontecer.
Speaker: Esta canção será o nosso ponto de encontro paisagístico.
Speaker: Sim, é isso
Speaker: Mas e da infância no sentido, pronto, da infância, como dizemos na linguagem comum, e mesmo do infânsio, da criança que ainda não fala, que está no limar a linguagem e isso.
Speaker: É a melancolia da própria linguagem que os poetas vão buscar.
Speaker: O que...
Speaker: É a passagem da representação de coisas que para nós já é impensável.
Speaker: Ela não é impensável, mas quando...
Speaker: Sei lá, eu penso que a linguagem é isto assim muito rapidamente.
Speaker: é adquirida individualmente como uma transformação do corpo a corpo com a mãe.
Speaker: Há aqui uma negociação, acedes ao código.
Speaker: aceita a palavra e é a maneira de manter o contacto com ele.
Speaker: O que era a representação de coisas antes da linguagem também nós não sabemos muito bem. Quer dizer, devia ser um fluxo de representações, investimento e efeito, sem que as coisas não tinham os contornos que calham depois da linguagem.
Speaker: E sendo extremamente intensa ou impensavelmente intensa, também se pode dizer que a linguagem, sobretudo a linguagem poética, quando a linguagem se afasta do código...
Speaker: Parou.
Speaker: repetir através da metáfora.
Speaker: a metamorfose inicial que é a metamorfose do...
Speaker: da representação de coisas...
Speaker: em representação por palavras, também intensifica as próprias coisas, que é a transformação.
Speaker: Oi.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Obrigado.
Speaker: É isso mesmo.
Speaker: Mas há esse luto.
Speaker: do anterior à lei, anterior ao édipo também, anterior a tudo isso, da omnipotência infantil, que às vezes se chama que mais que a omnipotência há o estado de omniessência. É isso mesmo. É isso mesmo. É a omniessência que é.
Speaker: que não se pode manter.
Speaker: que seria insuportável, porque ou é perfeita ou é catástrofe absoluta, é a queda infinita do Inicoto, é qualquer coisa assim.
Speaker: Mas portanto há o luto dessa...
Speaker: Obrigado.
Speaker: dessa criança Deus, que foi criador de tudo, criador do céu e da terra e da mãe e do pai, que desaparece.
Speaker: Mas há a manutenção interna do espanto com o mundo, não é?
Speaker: E aí
Speaker: Sim, e há a transformação, de facto, do mundo.
Speaker: a linguagem na literatura, no poesia e depois nas artes, que não é com palavras, mas...
Speaker: Mas as imagens da pintura e as formas da escultura são pós -linguísticas. Sem a linguagem seriam impensáveis. A música...
Speaker: A música é o enigma supremo das ciências humanas, disse Olavisto de Rousseff, de facto a música, e o Steiner pergunta...
Speaker: o que é que a música, o que é que se parecia com a música antes de haver música e diz que não era cá o canto dos passarinhos por muito bonito, que isso é depois um efeito da música, nós é que vamos lá buscar.
Speaker: Mas...
Speaker: Estou -me a perder, estou a devagar. Não, não, não. Está em associação livre. Estou em associação livre. Já vi.
Speaker: Já ouviu? Mas há essa recriação do mundo, essa recriação da paisagem. Voltamos aí à recriação da paisagem que me criou.
Speaker: Quer dizer, reconheço -me como... aí reconheço a dívida, à sociedade, à família, tudo o que for à história, ao tempo.
Speaker: Não fui eu que me criei a mim mesmo, mas eu crio aquilo que me criou, ou recrio aquilo que me criou.
Speaker: A Sofia tinha um verso muito bonito sobre a arte poética em que diz
Speaker: É incrível, né?
Speaker: à atenta invenção do que foi dado.
Speaker: Obrigado.
Speaker: E é isso.
Speaker: Agora fiquem aqui internos, não conseguimos falar.
Speaker: Não, quando você...
Speaker: Vamos passar à próxima, que é a tua.
Speaker: É melhor.
Speaker: A minha também, como sempre, foi uma tortura de escolhas. Mas eu imagino que toque nisto também.
Speaker: Se eu disser a melancolia disfarçada de esperança...
Speaker: Obrigada por assistir.
Speaker: Com muita força. Então vá, batam lá.
Speaker: Não.
Speaker: Espera, não te posso bater, é que estava a pensar, posso responder isso, mas estava só aqui a pensar numa...
Speaker: uma vez numa conversa que tive.
Speaker: com uma amiga minha que me dizia não te apetece viver dentro desta música
Speaker: E sim, claro, há qualquer coisa aqui que nos apetece viver ali dentro. E depois chegas à conclusão que tens que...
Speaker: que trazer aquilo para a vida não pode viver ali dentro.
Speaker: Ainda que este desejo de suspensão de tempo exista, eu acho que isto é comum, não é? Nós todos ouvimos esta música, eu penso que é impossível.
Speaker: Não encontrar este sítio caro dentro. O senhor vê dentro, não é? Mas quando há dentro... Sim, quando há dentro. É impossível não ouvir.
Speaker: Por isso, para te responder, a melancolia é o que nos transporta para a vida. Por isso é que eu oscilei tanto entre esta música e a última do álbum, que é o Fou Vivo.
Speaker: Eu andei entre uma e a outra.
Speaker: para ver qual é que me fazia mais sentido, mas ainda assim, eu acho que a possibilidade de nós nos encontrarmos, nem que seja nesta música, neste embalme, sintónico absoluto.
Speaker: mas que tem sempre o fim presente. Nesta música há sempre a consciência permanente de que o tempo tem um fim.
Speaker: Há realmente uma eternidade dentro de nós.
Speaker: Não posso não dizer isto, é muito rejeitivo, mas vou dizer na mesma.
Speaker: Porque...
Speaker: Acontecia -me uma coisa quando era pequena, os meus avós moravam na Madeira e eu tinha uma paixão pelos meus avós, via -os duas vezes por ano, de modo que a coisa ficava ainda mais idílica.
Speaker: E havia esta coisa, eu lembro -me de passar por isto, que era uma tristeza profunda quando eles tinham embora. E aquela sensação de que eu tinha que viver. E que depois, a seguir, encontrava o sítio onde nos arrumava cá dentro e voltava à vida.
Speaker: Eu acho que isto que esta música...
Speaker: terremoto deste sítio.
Speaker: que depois, como dizia o Miguel logo no princípio também, que te repassa para o lugar.
Speaker: para o lugar que vai a seguir, mas que não recusa.
Speaker: Há uma transformação, mas não é uma transformação com rejeição disto. Há manutenção disto ao longo da vida.
Speaker: E a possibilidade de viver isso sem patologizar esse lugar. Esse lugar é fonte de vida também.
Speaker: Querer vivê -lo por inteiro é que seria um disparate. Ah, mas ia só dizer mais isto. E havia outra coisa que me fascinava no meu avô. O meu avô era um homem que falava muito público.
Speaker: mas ele me contemplava muito.
Speaker: E de modo que eu tenho sempre esta imagem, uma certa despedida presente, porque havia sempre a altura que eles iam embora, ou que eu me vinha embora da Madeira, mas havia esta... e então na Madeira havia sempre esta... lembro -me sempre na Madeira...
Speaker: O aeroporto dá para o mar, não é como sabe, às vezes a mais. Mas havia uma varanda onde se via os aviões aterrapas, que também se via todo o horizonte. E eu tenho esta imagem de ver o meu avô lá olhar para o horizonte e fumar um cigarro.
Speaker: E eu encontro este lugar. Aquilo seria uma repetição e uma ressignificação de muitos lugares internos.
Speaker: Mas é esta a aceitação do que tu transportas para a vida.
Speaker: Sim.
Speaker: Aceitação de como catarás por inteiro, mas que ainda assim, um sonho.
Speaker: A melancolia disfarçada de esperança. Não sei se é disfarçada, eu acho que a melancolia é a esperança. Não, na música, não é? Claro, sim, sim, sim. Mas até a melodia, não?
Speaker: até este embalme lógico.
Speaker: É...
Speaker: Sim, é quando cantava em público esta canção, há gravações disso.
Speaker: É...
Speaker: Eu fazia lá, lá, lá, no fim, entoava, morridia outra vez sem palavras, porque é de facto isso.
Speaker: Uhum.
Speaker: Que era o mesmo que falávamos no Sati.
Speaker: Sim.
Speaker: Que, que, que...
Speaker: Obrigado.
Speaker: Mas há uma promessa na melancolia, de facto, uma promessa que...
Speaker: Que é maior que a vida. Que é maior que a vida. E liga -nos, outra vez, ao infantil. É a melancolia da omniessência, uma promessa indesgotável. Mas a melancolia está lá porque, de facto, é preciso destruir, digamos, a falsa esperança, os consolos ilusórios, a ilusão de imortalidade no mau sentido. Como a Patrícia diz, depois trazê -la para a vida. E a eternidade que nos é acessível é da singularidade, do que é único e irrepetível. E, nesse sentido, é eterno, porque nunca tinha sido antes.
Speaker: nem nunca será depois. É isso.
Speaker: que é aquilo que a concretude desconhece.
Speaker: Tanto que o Miguel costuma fazer sempre um elogio ao espaço entre comportamento e tal.
Speaker: Tchau.
Speaker: À sua maneira, claro, estou a pôr isto muito simplista.
Speaker: Que...
Speaker: Não, é assim o espaço entra, mas isso...
Speaker: Isso vem muito do bem pensado, vem muito do Inicote e vem de um filósofo francês.
Speaker: Aqui o Pantualiza lamenta que não se tenha encontrado com o Inicot, que era o Merleau -Ponty, que é precisamente o pensador do espaço entre, do que não é objetivo nem subjetivo, mas o tecido conjuntivo das duas coisas e por aí fora.
Speaker: Obrigado.
Speaker: E o que será do mundo sem isso?
Speaker: Será coisa em si mesma, normalmente é guerra. E é a objetivação, neste mau sentido do mundo, do que não é eu ou do que não é nós, a humanidade, reduz o objeto, o instrumento, a matéria -prima.
Speaker: He he.
Speaker: E reduz -nos a nós também a muito pouca coisa, porque ensinamos -nos e...
Speaker: Tchau.
Speaker: Plange.
Speaker: É assim.
Speaker: Planos convencidos de interioridade.
Speaker: Isso é interlocução.
Speaker: Que...
Speaker: É decorizador.
Speaker: O horizonte e o horizonte.
Speaker: Acho que pode ser de duas maneiras. Pode ser as duas. Pode ser as duas.
Speaker: Mas é mais corrente aterrorizador.
Speaker: Mas é porque eu fiz aqui que ele só quer dizer mais isso.
Speaker: que nesta música eu sinto sempre. Ao mesmo tempo, há qualquer coisa que vai ascendendo ao longo da música. Ou seja, há sempre um sítio que te vai introduzindo esta hipótese de ascender para um outro lugar.
Speaker: As duas coisas estão presentes no momento.
Speaker: Amém.
Speaker: É verdade, mas no dia a mim evoca -me sonho.
Speaker: Agora estamos no campo da projeção, não é? Sim, mas entra. Falaram que o espaço entra, mas aqui entra -se. Não entra para dentro de mim, não entra para dentro dele, mas os dois entram em qualquer coisa que não é puramente objetivo, quer dizer, que não é exterior.
Speaker: Exatamente.
Speaker: que é tão real que era isto que estavas a dizer o crescendo do sonho mas sempre com o fim no horizonte
Speaker: Que é a realidade da vida. Que é a realidade da vida, exatamente. É isto, a realidade da vida, não é? A capacidade de sonhar dentro do finito.
Speaker: É isso.
Speaker: Haja capacidade de sonhar.
Speaker: Não é?
Speaker: Se houver espaço, eu entro.
Speaker: Sim.
Speaker: Há duas novas notas.
Speaker: Queremos já passar à minha. A minha é muito simples.
Speaker: Em mim é muito simples.
Speaker: Obrigada.
Speaker: Ajuda -me lá aqui com... Ah, deixa -me só dizer mais uma coisa desta música. Diz, diz, diz. É uma curiosidade, o Miguel deve saber de certeza.
Speaker: Mas achei engraçado. Esta música foi escrita para o filme que se chama Segredos da Alcova.
Speaker: Eu sabia, mas nunca havia sido um fracasso.
Speaker: Mas é Segredos da Alcova. Exatamente. 1954. E é um espanto, porque é uma história. É uma história de quatro passageiros que vão...
Speaker: que vão num carro que fica a teu lado.
Speaker: E então ficam os quatro a contar histórias uns aos outros, histórias naquele momento de suspensão ali na espera, o que têm como e a cama.
Speaker: Mas é um espaço de intimidade. É uma coisa fabulosa.
Speaker: Como é que é este sítio? Uma dispensão de paragem do tempo?
Speaker: Uhum.
Speaker: Mas os bons encontros sintónicos têm estes momentos sempre presentes.
Speaker: Tchau.
Speaker: Ajuda -te aos maus.
Speaker: Já tenho mais medo de dizer. Mas é verdade. Porque os bons encontros são de verdadeiro encontro e para o tempo.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Os maus. Sim, mas às vezes naquela questão de...
Speaker: Quando nos podemos...
Speaker: Se for um encontro com um espelho vazio, tu consegues isto, através de um mecanismo projetivo.
Speaker: Agora, é falso.
Speaker: A seguir cai outra vez o pano e cai a vida outra vez e tu percebes que não há espaço entre e que aquilo na realidade pode ser só um sonho infantil.
Speaker: E nada mais do que isso.
Speaker: Mas está lá o espaço entre e depois há a criação de um novo espaço entre, quer dizer, no caso de ressaltar, digamos, quando o encontro acontece, cria um espaço entre único também.
Speaker: dentro do espaço entre, mais envolvente. Exatamente.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Que nunca se encerram.
Speaker: Sei que é espetacular. Isso devia ser a função da psicanálise, todos os sítios de linearidade, dar -se uma berlindada para cá.
Speaker: Sim, sim.
Speaker: É...
Speaker: O que você acha?
Speaker: Hã?
Speaker: Também é uma das canções dos primeiros tempos, da primeira fase, mas é belíssima. Eu também pensei nessa. Ai, gosto tanto. Também é maravilhoso.
Speaker: É magnífico, é uma canção muito freudiana, diria eu, se vocês me ouvirem.
Speaker: Isso vai ser...
Speaker: me autorizam a entrar nos vossos terrenos.
Speaker: porque é a destruição das ilusões.
Speaker: É a distração dos ídolos.
Speaker: que se bate, não sabe bem porquê, quer ganhar -me dinheiro e depois acabou -se.
Speaker: De facto, tem que se atravessar a melancolia que fica disto, porque não há ídolos, não há deles, não há coisa. Há vida e tem que ser inventada.
Speaker: Mesmo...
Speaker: O Freire diz muitas vezes, quando o acusavam, que aliás escreve o Avenir de Niadizion, isto não era em francês, em alemão não sei dizer, o futuro de uma ilusão.
Speaker: que causam de impiedade e não sei o quê, ele diz não, que está só a abrir os olhos, a destruir as ilusões.
Speaker: O oposto daquilo que a Patrícia estava...
Speaker: De uma coisa infinita, não é? Eu escolhi esta música...
Speaker: Obrigado.
Speaker: precisamente para nesta...
Speaker: Porque é ruminação.
Speaker: Não.
Speaker: E são os mecanismos de substituição do infantil, no bom sentido. É a ruminação, é o oposto do pensamento. Transformou a fazenda, ela enganava -me de dinheiro, transformou não sei o quê, transformou aquilo, mas não adiantou grande coisa. Não adiantou grande coisa.
Speaker: Tchau.
Speaker: Sim, e foi um bocadinho por causa que, aliás, depois a própria melodia, a própria cadência, o próprio ritmo, é uma coisa irónica, sem ser ironia.
Speaker: nisto que eu acho que é uma ruminação de um ciclo fechado, de fim e tudo.
Speaker: que não deixa sair daqui. Agora, há uma coisa que eu gosto muito aqui que...
Speaker: que é a questão que ele faz de perguntar.
Speaker: Ovelha.
Speaker: da experiência, o que é que tu achas disto que é isto também eu acho que o mundo
Speaker: um bocadinho esquecido
Speaker: É, não é.
Speaker: O velho é o amigo, isso em francês é amigo, o mau que é, pode ser, mas é, eu estou a falar, o que é que tu achas disso? Mas é, nesta questão da experiência e da sabedoria que não só...
Speaker: A sabedoria adquirida pela experiência e não pela informação, não é?
Speaker: Agora já não se perguntar.
Speaker: para a pessoa cuidar.
Speaker: Não.
Speaker: E é isto que eu acho que é importante, mas diga -me. Não, é isso, é isso.
Speaker: Também...
Speaker: A destruição da fé, da fé da crença, da fé no mau sentido. O que é que tu julgas isto? Tu acreditas que o dinheiro, tu acreditas que o combate...
Speaker: E depois deixar tudo em aberto ao mesmo tempo, porque nós é que teremos que inventar. A canção também não dá solução. Somos um momento de vida, um momento de alegria, um momento de miséria e depois acaba -se tudo.
Speaker: Portanto, se não nos pomos a pau, se pode ser assim, mas vem do tom da canção, não fizemos nada por isso a pena.
Speaker: E há muitas canções neste álbum que tocam isto.
Speaker: Eu tenho fórmula para mostrar.
Speaker: Tive um amigo que já morreu, era mais velho que ele, era o Carlos Veiga Pereira, foi um jornalista distinto, português, e esse conduzia as pessoas muito.
Speaker: muito carentes nisto ou naquilo, muito entusiasmadas e um bocado com aquele jeito que apareceu no Facebook quando morreu, quando era, toda a gente a atacar. Sim, toda a gente a atacar. Não sabia porquê, nem ali, nem lá, eu não sei, mas quando via as pessoas assim, tinha, sabe?
Speaker: Eu tenho muita pena deles porque eles não sabem que vão morrer.
Speaker: Exatamente. Exatamente.
Speaker: Julgo que não a volta à morte.
Speaker: Eu sei abortar em vivo.
Speaker: Exatamente.
Speaker: Por isso é que ele foi vivo. Vocês não puseram... Estou brincando.
Speaker: Mas sim, é verdade.
Speaker: E aí
Speaker: Ok.
Speaker: Então...
Speaker: Querem dizer mais alguma coisa?
Speaker: Nunca diríamos tudo.
Speaker: Obrigada.
Speaker: Não sei.
Speaker: Antes de encerrarmos.
Speaker: Há uma coisa que se pode dizer apesar de tudo, é como na análise, não é? A análise acaba.
Speaker: Não acaba, mas põe -se fim ou interrompe -se quando se percebe que é interminável. Ou pelo menos isso seria um dos critérios para acabar.
Speaker: Não quero radicalizar isso. E nós aqui percebemos que esta conversa era interminável.
Speaker: Com certeza.
Speaker: E fica, não é? Compromete -se.
Speaker: Sim.
Speaker: Patrícia
Speaker: Comigão, nós temos aqui...
Speaker: Lido.
Speaker: do seu livro A Tora do Vazio, que falou logo no princípio.
Speaker: um poema, mas agora há bocado antes disto.
Speaker: Antes de começarmos a gravar o podcast, o Miguel falava na hipótese de lermos o poema a três vozes. Quer ler a três vozes ou a voz inteira? Leio eu, leio o Miguel. Não, não dá a três vozes, acho que não. Quer ler o Miguel?
Speaker: Não, não, ela é a Patrícia. Ela é a grande responsabilidade.
Speaker: Obrigada.
Speaker: Estou com todo o perdão pelas fábricas.
Speaker: A voz do caçador. Deixe -me só dizer uma coisa.
Speaker: Portanto, este poema é uma versão
Speaker: Não é bem uma tradução fiel, embora bastante próxima, mas é uma versão de uma canção de homologia, precisamente, que se chama Le Chasseur Francais.
Speaker: e o caçador francês. Le Chasse a Refoncer era o título de uma revista de pesca e caça, mas que boa parte do seu interesse para os leitores e leitoras...
Speaker: Era o correio amoroso, o correio sentimental, era um sítio de contactos, ainda não havia o Tinder e essas coisas assim. E, portanto, eram as correspondências amorosas e o correio sentimental.
Speaker: Em português, o caçador francês, ninguém percebia o que era, eu inventei um título de jornal.
Speaker: que equivalente seria à voz do caçador, pronto para...
Speaker: para poder fazer o poema. Tentei fazê -lo de maneira, depois a Ana Teresa me disse, isto se consegue cantar em português com a música que lá está, será que eu ouvi? Porque acho que era um êxito. Quer dizer, acho que era um êxito.
Speaker: Mas pronto, não ouvimos a canção, aliás de facto não é recolhida no golo, suponho eu.
Speaker: Pois não. Mas pronto, é muito fácil de encontrar no YouTube, no Spotify, o de César Fonseca, o de Mulo G e a música de Jean Moisy.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Força, Patrícia.
Speaker: A voz do caçador.
Speaker: Às vezes lembro -me ainda do tempo em que te amavam.
Speaker: O caçador não sabe em que bosque está só.
Speaker: Nem eu se erguia em febre ou esperava as tuas cartas.
Speaker: E a voz desconhecida que pus na tua voz.
Speaker: O meu nome de guerra foi lobo à tua espera.
Speaker: O teu rola que assombra o bosque com o seu choro.
Speaker: Era ingênuo, era estúpido como foi conhecermos -nos pelas páginas de anúncios da voz do caçador.
Speaker: A tua letra enorme ressomava loucura.
Speaker: com vírgulas e pontos tão sem eira nem beira.
Speaker: que, para te responder, eu plagiava a literatura.
Speaker: que se escreve a vermelho e dispensa o tinteiro.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Inventei o teu corpo, o teu rosto, o teu riso.
Speaker: E a vida verdadeira ao longe onde moravas.
Speaker: do outro lado dos riscos e das trocas de sílabas ou da fúria à deriva com que dizias amar -me.
Speaker: mas que vieste tu em mim que só fui afinal.
Speaker: Um poeta de domingo, sem ousar à aventura de não contar o tempo ou de voar mais alto, fugindo às armadilhas que os dias nos urdem.
Speaker: Até amanhã.
Speaker: acordava e olhava para a porta.
Speaker: à procura no chão da bomba dos teus beijos.
Speaker: Quando eu não tinha posto, suicidava -me à hora.
Speaker: ou passava o dia todo a namorar o carteiro.
Speaker: Mas as paixões contidas são dédalos errantes.
Speaker: e Romeu e Julieta.
Speaker: por uma vez razoáveis.
Speaker: Morrem.
Speaker: aluno brando.
Speaker: nessas postas restantes.
Speaker: onde as cartas de amor
Speaker: Já não salvam, nem matam.
Speaker: muitas vezes, contudo, ao acaso de um livro.
Speaker: Uma súbita frase devolve a meio da página.
Speaker: Ao fim da minha vida, todo o tempo perdido.
Speaker: da tua luz de outrora.
Speaker: na luz da paisagem.
Speaker: Obrigado.
Speaker: Procurei que tivesse remunerado todos.
Speaker: Fica tudo, Miguel.
Speaker: muito obrigada Miguel eu é que agradeço foi um gosto
Speaker: Muito obrigado.
Speaker: Divãs.
Speaker: A psicanálise.
Speaker: O mundo.
Speaker: O rock 'n 'roll.