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Episódio 42

Três Divãs
Três Divãs

115 plays · Jun 30, 2026

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Speaker: Três divãs, a psicanálise, o mundo e o rock'n'roll.

Speaker: Só se perde o que se tem.

Speaker: Sempre me disse a Paula Trigo da Rosa.

Speaker: Deixa ir, valoriza-te, mereces mais, diz o senso comum.

Speaker: E se eu souber o que sou, não precisar ou sequer querer ter e só gostar de gostar?

Speaker: Mas também há a narrativa que não se consegue escrever, a promessa que nunca se cumpre, esse não lugar que queremos e precisávamos tanto saber onde é. Pergunta ao vento que passa e o vento nada me diz, já cantava o Adriano.

Speaker: O disco escolhido pela convidada de hoje Três Divãs é uma imersão na dor da perda do amor.

Speaker: Ou será na dor da dependência daquilo que nunca se teve.

Speaker: E o que não se teve é um lugar?

Speaker: Pode ser chamado de amor?

Speaker: E como é que se gosta do que não se gosta?

Speaker: Há quem diga que é impossível.

Speaker: Este disco é de 1994, recebeu os maiores elogios.

Speaker: A crítica ainda lhe chama brilhante e ficou imortalizado pela tragédia.

Speaker: Da minha parte, sei do que gosto nele e do que não gosto.

Speaker: Quando me perguntam, respondo que não gosto.

Speaker: Mas, na verdade, gosto.

Speaker: Precisamente por não gostar.

Speaker: E por saber que existe.

Speaker: Será que é este o lugar?

Speaker: Não gostamos da dor, mas gostamos de a ter, não é?

Speaker: E não é de masoquismo que se trata.

Speaker: É da ordem, da amplitude do sentir.

Speaker: Hoje, para conversar comigo e com a Patrícia Câmara, tenho aqui em casa a Cláudia R. Sampaio, que trouxe consigo o Grace do Jeff Buckley.

Speaker: Sejas bem-vinda ao Três de Ivãs, Cláudia.

Speaker: Podes apresentar-te.

Speaker: No percurso entre a casa e o supermercado há a possibilidade de viver três vidas.

Speaker: Sou uma poeta perfeitamente normal, penso eu tentando enganar o cérebro num luxuoso exercício para chegar ao destino, tentando fintar a ansiedade de ser.

Speaker: Olha a beleza, Cláudia, as flores, a calma idílica de um nirvana.

Speaker: Não vês que a poesia é em ti?

Speaker: Até porque não escolhi ser nada, aconteceu-me, enquanto num ápice o meu corpo entra em espiral.

Speaker: Mas que tontura é esta?

Speaker: Um ruído entre bipolaridade e inferno.

Speaker: O meu foco diário vai transitando entre endireitar muito as costas e chegar a casa antes de desmaiar na rua com os dois saquinhos de supermercado nas mãos, que são o equilíbrio perfeito entre o horror e a minha sanidade.

Speaker: Mas ir ao supermercado era sobretudo comprar imagens, nesta travessia entre o pânico e o deslumbramento.

Speaker: Que as minhas horas estivessem à ordem daqueles corredores e a solução rápida de uma barrinha de cereais.

Speaker: Quantas vezes limpei as lágrimas no corredor número 7, pedindo aos deuses dos enlatados uns breves momentos de normalidade.

Speaker: Subo a Moraes Soares, levada pelo crepúsculo.

Speaker: Ainda agora na TV, um míssil numa escola, a morte ao redor de crianças, enquanto eu, rodeada de pombos e neones, mal consigo respirar.

Speaker: Entro na loja do indiano como último reduto.

Speaker: Nesta luta entre mim e a ansiedade ganho o cheiro de armazém e o foco num leque fúsia.

Speaker: Interessante como um ataque de pânico nos transforma à metafísica.

Speaker: Encontro a amiga tropical que me entrega de novo a um brilho mágico.

Speaker: Tentarei ser normal na paiva coceiro.

Speaker: Há nesta praça a fúria para transmutar bombas.

Speaker: Digo-lhe, o mundo é um erro de cálculo, mas a nossa amizade é acerto.

Speaker: E juntas poderíamos ser a salvação de tudo.

Speaker: Ou não fossem as mulheres o caminho florido.

Speaker: Até à ideia principal, o perfeito surto.

Speaker: A incrível pupila dilacerada de Deus.

Speaker: Então, boa noite.

Speaker: Boa noite, Sláudia.

Speaker: E agora vais ter que falar.

Speaker: Agora vais ter que falar, pois ouvi dizer que sim.

Speaker: Só que eu estou com dor de burro.

Speaker: E a culpa é minha.

Speaker: Suzi quatro andares por ter claustrofobia daquele elevador.

Speaker: E então estou aqui a... Não sei o que é que eu vou dizer depois disto.

Speaker: Bom, acabei de ler um poema inédito, já agora, que fala sobre...

Speaker: Um dia em específico em que tive um ataque de pânico.

Speaker: Um dos.

Speaker: Mas na Moraes Soares.

Speaker: Nem sempre tive ataques de pânico.

Speaker: Já fui uma pessoa aparentemente normal.

Speaker: E acho que é suposto apresentar-me, não é?

Speaker: O que é que eu posso dizer sobre mim?

Speaker: Sou uma pessoa...

Speaker: Sou uma pessoa que tenta, tem tentado encontrar um lugar onde possa ser.

Speaker: Onde possa procurar mais a beleza no mundo nesta luta.

Speaker: de encontrar pequenas salvações diárias e muito disso veio então através da poesia que nem sempre, aliás que me acompanha desde sempre, outras coisas não me acompanham desde sempre, tive um percurso muito atribulado, sem saber bem onde ir parar.

Speaker: Cresci numa casa quase sem livros, com dois avós analfabetos, uma mãe que trabalhava muito e descobri prazer na Biblioteca dos Olivais.

Speaker: Sempre um pouco perdida escrevendo sozinha no quarto.

Speaker: Acabei por ir estudar cinema porque me pareceu engraçado.

Speaker: Entrei no Conservatório de Cinema...

Speaker: Depois deixei de achar tão engraçado porque descobri que sou uma pessoa que gosta tanto do mistério das coisas que quando as estuda perde um pouco o interesse.

Speaker: E nem sempre soube que eu era isso, que isso me acontecia.

Speaker: Talvez por isso, felizmente, agradeço nunca ter estudado literatura.

Speaker: Acho que se calhar não teria sido poeta se tivesse estudado literatura...

Speaker: e por isso como estudei cinema não faço cinema desculpem dansei balé 10 anos deixei de também ser bailarina sou bailarina em sonhos continuo a sonhar com o Lago dos Cisnes tenho um fascínio imenso pelo Lago dos Cisnes diria que todos os meus melhores sonhos são com a música do Lago dos Cisnes e com Tchaikovsky depois acabei por trabalhar em televisão detestei

Speaker: Não podia ser eu.

Speaker: E escrevia livros de poesia nas costas da televisão.

Speaker: Da profissão da televisão.

Speaker: Até que, nesse meu percurso atribulado de infelicidade de não encontrar um sítio onde me aparecesse um vislumbre de contentamento e felicidade no que fazia de vida, eu...

Speaker: Foi através de uma espécie de colapso existencial que redescobri o prazer da pintura.

Speaker: E em que decidi que, para ser infeliz, preferia ser infeliz tentando encontrar esse sítio onde eu pudesse descobrir...

Speaker: onde eu pudesse ser mais eu.

Speaker: E a partir daí, um pouco perdida ainda e com medo, comecei a pintar todos os dias, sem profissão, sem nada.

Speaker: Nesse percurso, acabei por descobrir uma pessoa que mudou um pouco a minha vida, que foi o Sandro Rezende, fundador do Manicómio, o coletivo artístico do qual faço parte desde quando? 2019.

Speaker: Tenho orgulho em dizer que fui uma das também fundadoras, entre aspas, não fundadora, que foi o Sandro, mas que ajudei o manicómio a começar a existir, com muito orgulho.

Speaker: Para quem não conhece, um coletivo artístico, artistas que experienciam a vida de ter uma doença mental.

Speaker: E...

Speaker: Entretanto, passei também a trabalhar na parte técnica da equipa do manicómio, além de ser artista lá, porque temos muitos projetos.

Speaker: E desde então tem sido essa a minha vida, tentar escrever, tentar pintar, passando pelas esculturas, como por exemplo, hoje passei o dia no Museu Bordal Pinheiro a fazer a montagem da exposição que inauguro amanhã.

Speaker: E basicamente os meus dias são nunca saber bem o que será esse dia, quer a nível profissional, artístico e da vida no geral.

Speaker: E acho que é um pouco como se... a minha vida imita um pouco o poema, não é?

Speaker: Que é nunca saber... nunca sei o que vai ser o poema.

Speaker: Nunca sei o que vai ser o meu dia, nunca sei o que vai ser a minha vida.

Speaker: E há um pouco de tragédia nisso e há um pouco de felicidade ao mesmo tempo nesse mistério de ter de ir descobrindo e sobreviver a essa dúvida.

Speaker: E estou aqui a divulgar e, portanto, é isso.

Speaker: Não sei bem o que sou eu.

Speaker: Todos os dias tentando saber, mas tenho feito esse exercício e eu confesso que tivesse dois minutos de conversa com a Patrícia sobre isso.

Speaker: talvez a minha missão hoje em dia missão no sentido de quando acordo o que é que eu vou fazer?

Speaker: vou tentar descobrir um pouco mais do que é ser eu no mundo todos os dias e tentar ser melhor que ontem e que amanhã seja melhor que hoje e sempre as tragédias de vida ensinaram-me a focar-me muito quer na morte no sentido de não me esquecer que vou morrer

Speaker: quer na procura diária da beleza porque percebi e talvez a poesia me tenha ajudado nisso que para combater essas pequenas tragédias ou grandes tragédias depende do dia a dia é tentar contrariar procurando beleza em alguma coisa sim

Speaker: Tu agora falaste na escrita porque tu disseste que a pintura foi mais recente, não é?

Speaker: E quando é que tu começaste a escrever?

Speaker: Aos 5 anos.

Speaker: Quer dizer, bom, depende do que escrever é esse, não é?

Speaker: Ou seja, eu aprendi a escrever com 5 anos e entrei para a escola com 5 anos.

Speaker: Era, segundo a minha mãe, eu lembro-me sim, era muito fã da Rua César, ou seja, sabia as letras.

Speaker: Sim.

Speaker: Não, mas havia... Eu acho que...

Speaker: Não sei, hoje em dia, só mais tarde é que eu comecei a ver as coisas assim, acho que... O avião.

Speaker: O meu lado espiritual manifestou-se desde sempre através da escrita, talvez.

Speaker: Ou seja, porque é uma coisa inexplicável.

Speaker: Então eu chamo desse lado mais espiritual, hoje em dia.

Speaker: Acho que o meu lado espiritual é o poema, não é?

Speaker: É a poesia.

Speaker: E é isso ter-me acontecido tão cedo, tão...

Speaker: E eu perceber isso um dia, mais velha, que engraçado, sempre foi assim.

Speaker: A pintura, eu também gostava, mas nunca a levei a sério.

Speaker: Essa era a diferença.

Speaker: Quer dizer, aos 50 também não levava a escrita a sério.

Speaker: Mas é uma relação diferente.

Speaker: É como se a escrita fosse uma coisa tão sagrada, tão transcendente para mim.

Speaker: E se calhar mais fundamental para ti do que a pintura.

Speaker: A pintura complementa, se calhar é mais por aí.

Speaker: A escultura, a pintura, essas outras coisas que eu faço, as invenções, eu costumo dizer que eu não... Por exemplo, eu não sou escultora, eu sou inventora.

Speaker: É o que eu costumo dizer, não sou pintora, sou inventora.

Speaker: E dizer que sou poeta também é uma coisa que às vezes até me faz uma certa confusão.

Speaker: É isso Acho que não me explica bem nesta parte Mas depois podemos voltar a este E escritora?

Speaker: Poeta Já agora Acho que poeta é diferente Eu já tentei escrever Eu tinha uma ideia para um romance E o que é que aconteceu com esse romance?

Speaker: Transformei num livro de poesia É só para ver Não dá É mais forte que eu Não vale a pena

Speaker: adorava conseguir escrever um romance um dia mas estou meio desistente neste momento Cláudia, tu neste poema que é inédito e que sairá um dia não é?

Speaker: Teremos todos acesso deles Esperemos que em breve Aliás, agora vou pegar no que tu disseste Só para situar as coisas Nós estamos a gravar dia 29 de junho À noite A exposição da Cláudia vai inaugurar amanhã No Museu Bordal Pinheiro A exposição

Speaker: às seis, às 18h30 e fica até setembro e fica até setembro este podcast vai sair dia 1 de julho portanto ou seja, para quem não foi dia 30 a inauguração pode ir até setembro sim, há ainda muito tempo para ver mas tu disseste neste teu poema inédito uma coisa o mundo é um erro de cálculo e a amizade é um acerto foi mais ou menos isto, não foi?

Speaker: foi, acho que sim

Speaker: E claramente falar sobre isto Até porque tem tudo bem um bocadinho No seguimento da nossa introdução E depois já vamos ao disco Mas Então Cláudia Qual é o erro de cálculo aqui?

Speaker: Quais são os erros que tu andas a ver?

Speaker: Tudo Tantos erros Não, porque lá está Porque esse poema tem esse contexto muito específico De que de facto eu tive um ataque de pânico Na Moraes Soares De facto isso é verídico

Speaker: Mas isso foi no ano passado e foi um ano em que praticamente eu passei o ano inteiro a ter ataques de pânico diários.

Speaker: Não sei se vale agora muito a pena falar sobre o porquê, mas o que interessa é que isso aconteceu.

Speaker: E eu tinha uma extrema dificuldade se querem sair de casa, fazer tarefas básicas, tomar banho.

Speaker: E passei um ano inteiro assim, passou de um ano até.

Speaker: descer a três andares e voltar a subir, chegava a ficar duas horas à porta do prédio porque não conseguia voltar a subir porque achava que ia morrer, porque o coração batia, tinha 140 de ritmo cardíaco diariamente, até parada.

Speaker: Bom, mas posso já dizer que depois descobri que era um efeito secundário de um medicamento que eu não devia tomar.

Speaker: Pronto, e agora está tudo bem, infelizmente.

Speaker: Melhorei.

Speaker: E isso passou.

Speaker: Mas foi um ano muito complicado da minha vida.

Speaker: E, nesse dia, eu quis ir ter com uma amiga minha, a querida Duda.

Speaker: A minha amiga tropical, como eu chamo.

Speaker: Está em São Paulo agora, não é?

Speaker: Eu não digo isso no poema, amiga tropical.

Speaker: Digo, acho.

Speaker: Digo, exatamente.

Speaker: É como eu lhe chamo.

Speaker: E ela estaria à minha espera então na Paiva Coceira, onde eu digo que vou tentar ser normal.

Speaker: E de facto isto aconteceu, eu entrei mesmo no Indiano, a meio da Moraes Soares, para comprar um leque para me abanar.

Speaker: E para me distrair.

Speaker: Aquela exercício eu senti que ia começar a ter o ataque de pânico e começo a olhar para coisas dentro da loja, a tentar focar noutra coisa.

Speaker: E estava a ser bastante complicado e cheguei perto dela e lembro-me

Speaker: E daí ter transformado num poema da sensação de bem-estar, de olhar para ela e de pensar, eu há pouco achei que ia morrer, mas agora estou tão feliz de olhar para esta pessoa.

Speaker: E depois esse momento entre nós foi super divertido.

Speaker: Acho que depois, entretanto, até chegou outra amiga e às tantas eu estava a rir e lá está, e pensei na diferença...

Speaker: quase entre a morte e a vida o espaço entre o meio da Moraes Soares e a Paiva Coceira eu renasci com aquele pedaço de amizade e conversa e quando tu passas um ano a achar que todos os dias que vais morrer físico, questão física nem era depressão eu estava mesmo mal o meu corpo estava a colapsar por causa dos químicos

Speaker: a importância, tal como no início desta conversa, não é?

Speaker: E nesse dia, aquele momento trouxe-me à superfície de...

Speaker: Essas pequenas alegrias, quando a tua vida passa a ser tão... Todos os dias são tão trágicos ao ponto de vou desmaiar, vou morrer.

Speaker: As pequenas coisas são tão impactantes.

Speaker: Não é se eu vou de férias para o Havaí, entendes?

Speaker: Sim.

Speaker: Só o pormenor daquilo me ter acalmado era...

Speaker: Oxigênio.

Speaker: Uau, foi assim uma coisa muito impactante nesse dia.

Speaker: Mas isso é ter uma consciência lúcida, absoluta, daquilo que realmente nos resgata, não é?

Speaker: Porque se tu pensares, eu acho que aquilo que nos resgata todos os dias é esse lugar.

Speaker: Mas de repente há qualquer coisa que é quase uma condição existencial, que fica ali epidérmica, e nos faz, e nos torna impossível não ver, não é?

Speaker: Não ver que esses lugares, que depois tu dizes maravilhosamente, não é?

Speaker: Essa beleza estética do encontro que...

Speaker: que traz tudo outra vez do impacto estético que nos devolve de tal maneira mas ao mesmo tempo é como se estivesse numa zona de uma consciência absolutamente lucida só essa ideia do amanhã eu pus amanhã na Pai Vá Com o Semana se calhar não é amanhã mas é a ideia do futuro se calhar ali depois na outra rua já é possível ser acho que isso é uma coisa fabulosa vou tentar ser normal na Pai Vá Com o Semana ali num outro lugar

Speaker: Assim parecia todo um percurso.

Speaker: Quase, se calhar, como se fosse seis horas, mas foram minutos.

Speaker: Como se fosse uma transição.

Speaker: Também muito espiritual, não é?

Speaker: De repente houve ali uma ascensão.

Speaker: E depois também porque essa minha amiga tem um sorriso muito solar.

Speaker: Ela é muito solar, não é?

Speaker: E foi outra coisa que eu comecei nos últimos anos...

Speaker: Isto são mesmo coisas da idade, não é?

Speaker: Talvez, não sei.

Speaker: É como se eu sentisse que eu estive tão ocupada, ou perdi tanto tempo da minha vida em... Não quer parecer trágico.

Speaker: Eu prometi que não ia ser deprimento hoje, então não quer parecer trágico.

Speaker: Como é que eu ia dizer isto?

Speaker: Eu perdi tantos anos da minha vida numa luta, vamos chamar-lhe assim de forma mais rápida, numa luta...

Speaker: que agora que me sinto melhor é como se eu estivesse finalmente a gozar desses pequenos prazeres até das pessoas.

Speaker: E depois também sinto que andei muitos anos desencontrada

Speaker: de pessoas com quem eu me identificasse mais.

Speaker: Olha que até são conversas que eu tenho muito na terapia.

Speaker: É apropriado dizer aqui neste podcast, acho.

Speaker: Sempre.

Speaker: E tive a sorte de há pouco tempo conhecer a Duda, uma dessas pessoas que é muito solar.

Speaker: E ela, claro, é brasileira, não é?

Speaker: E, pá, eles têm... Não sei, há ali uma coisa incrível.

Speaker: Incrível.

Speaker: Mas ela é muito solar e traz-me... Ela transporta-me, tem esse efeito em mim energético de me transportar para um lugar de leveza.

Speaker: E de... Ok, ainda há pouco estava a morrer e agora...

Speaker: Estou aqui com a minha amiga solar, tropical, e tudo é mais leve e estou a ouvir outra vez os pássaros e a reparar nas árvores da praça Paiva Coceiro.

Speaker: E não morri.

Speaker: E estou feliz agora, neste momento.

Speaker: Depois vai voltar a ser difícil subir os três andares e vou voltar a ficar com ansiedade.

Speaker: Nessa altura era assim que eu ficava.

Speaker: Sim.

Speaker: Mas é isso, e lá está.

Speaker: Isto é material poético, como é óbvio, não é?

Speaker: Porque... E como eu digo muitas vezes, o trabalho do poeta é esse, é de...

Speaker: como se fosses um detetive da beleza, de onde é que vais buscar o material para o poema.

Speaker: Tens que ir buscar de algum lado.

Speaker: E é isso que eu acho que és bem sucedida e tens um poema.

Speaker: Talvez quando o teu olhar se fixa ou a tua cabeça, um pensamento em algo que tu consegues estancar numa memória, numa sensação, num sentimento que vale a pena transcreveres para o papel...

Speaker: E é isso, eu tenho essa luta na minha poesia de fugir um pouco do sofrimento ou da tristeza e contrariando, acho que há isso na minha poesia, de contrariar um lado até irónico às vezes com o próprio sofrimento, de estar ali na luta, não me vais ganhar.

Speaker: Só que eu acho que o que tenho feito é como se fosse, ok, em vez de escrever só o poema, isso eu começasse a viver mais como um poema.

Speaker: Enquanto estou viva.

Speaker: Não é?

Speaker: Falta muito isso.

Speaker: As pessoas viverem mais... E tem que pensar muito nisto das pessoas que têm vergonha.

Speaker: Por exemplo, se eu vir alguém a dançar na rua, sozinha,

Speaker: Eu vou apaixonar-me por essa pessoa.

Speaker: Eu vou ficar fascinada por alguém que não tem medo de estar a dançar sozinha na rua, porque lhe apetece.

Speaker: Quem só dá um exemplo pode ser outra coisa.

Speaker: Alguém que quer andar todo pintado vermelho no meio da rua.

Speaker: Alguém que... Entendem?

Speaker: Admiro cada vez mais quem tem a coragem de ser aquilo que lhe apetece, desde que não faça mal a ninguém, desde que não... Dentro do limite do outro...

Speaker: O ser, o ser, é isso, porque é uma questão que eu descobri que me atormenta desde sempre.

Speaker: Eu quero ser, eu quero ser o mais possível e quero que os outros sejam o mais possível também e gostar deles assim.

Speaker: E isso apaixona-me hoje em dia nas pessoas.

Speaker: E pronto, isto tudo é isso, é tentar viver mais, em vez de escrever só poesia, o que é tentar...

Speaker: É isso, viver mais assim também.

Speaker: Queres tentar fazer também, coincidir aquilo que tu sentes com aquilo que tu fazes.

Speaker: Exato, não é?

Speaker: Oh, Patrícia, a Cláudia disse aqui uma coisa.

Speaker: Agora vou virar só aqui um bocadinho à Patrícia, já volto a ti.

Speaker: Não, porque acho que era importante só falarmos disto aqui, porque a Cláudia, dada altura, diz o mundo é um erro de cálculo e a amizade é um acerto.

Speaker: Mas depois...

Speaker: A Cláudia falou ali no excesso de medicação.

Speaker: E de repente, eu até tirei aqui a nota, como um efeito secundário do erro de cálculo.

Speaker: Não é?

Speaker: Se calhar podemos falar só um bocadinho sobre isto, não?

Speaker: Guia-me mais O excesso de medicação como erro de cálculo Neste caso, o erro de cálculo, só para te corrigir, nem foi excesso Foi um medicamento errado Sim, sim, sim Que me provocou efeito secundário Sim, sim, não, mas eu pensei nisto Porque tu dizes a dada altura, o mundo é um erro de cálculo E depois eu perguntei-te em tudo, não é?

Speaker: E eu percebo esta tua metáfora O mundo é um erro de cálculo Acho que

Speaker: Não temos falado noutra coisa aqui, não, nesse erro de cálculo.

Speaker: E também falamos em toda a poesia que circunda esse erro de cálculo.

Speaker: Mas, a dada altura, tu disseste isso do medicamento, mas depois tu disseste que estavas a ter ataques de pânico todos os dias e que sentias o teu corpo a colapsar por causa dos efeitos químicos, não é?

Speaker: Sim.

Speaker: E eu pensei nisto, que eu falo muitas vezes isto com a Patrícia também,

Speaker: E pensei nisto, do que é que são os efeitos, de que a medicação acaba por ser um efeito secundário de um erro de cálculo.

Speaker: Ou seja, nós precisamos de medicação.

Speaker: Isso é inevitável e podemos precisar dela.

Speaker: Pior é quando há os erros de cálculo na forma como... E eu digo isto do ponto de vista literal e metafórico.

Speaker: E acho que muitas vezes, quando há estes erros de cálculo, tanto na medicação como naquilo que são as nossas vivências diárias, a partir dos mapas que o mundo nos coloca e nos impõe, de facto, pode haver um desfazamento entre isto, entre aquilo que eu sou e aquilo que eu consigo ser.

Speaker: Aquilo que eu consigo ser.

Speaker: Não, e só reiterar isto que a Cláudia disse, que tu também estás a dizer, que no fundo, de alguma maneira, aquilo que resgata sempre, independentemente da dimensão do R de cálculo ou a sobreposição de R de cálculo, os uns em cima dos outros, é este lugar de encontro, não é?

Speaker: Que no fundo estás a dizer, a espontaneidade do gesto, esse sítio que vem ser mais nada, a não ser essa possibilidade de estar ali entregue, não é?

Speaker: e que é o que nós sabemos que é no fundo aquilo que acaba com o pânico, não é?

Speaker: o que acaba com a ausência de companhia interna é a companhia é essa companhia que nos faz imaginar que é possível de uma outra maneira, não é?

Speaker: que de repente te munda, não é?

Speaker: que de repente te recoloca precisava pensar até de um ponto de vista mais abrangente não é mais abrangente, é fazer um bocadinho só de José a dimensão eu fiquei apaixonada com o poema, não é?

Speaker: eu já o lia 30 vezes

Speaker: a sério mesmo é uma maravilha e pões o lugar da morte de que maneira é que a morte crua que nós também estamos falando aqui que é a morte do sítio sem ninguém como é que a morte do sítio sem ninguém se transforma num outro sítio e torna a morte possível e a partir daí que podes não perder a morte vista porque a partir daí ela passa a ser realmente a morte e não é a existência total do outro e essa maneira como jogas com isso num poema mais fabuloso tinha que dizer isto

Speaker: Não há dúvida, a decepção é permanente.

Speaker: A decepção com a vida, com as coisas da vida, ela é permanente.

Speaker: Ela realmente só se torna suportável com os pequenos momentos.

Speaker: Por isso é que me parece que há uma consciência tão lúcia nisto, que até é quase bizarro dizer que vem da ausência dela, porque ela vem de um excesso de consciência.

Speaker: Porque eu estava pensando, como é que ela faz ter este excesso de consciência e suportar?

Speaker: É um bocado mais isto, não é?

Speaker: Como resistir ao excesso de consciência...

Speaker: E suportá-lo ao mesmo tempo, não é?

Speaker: E acho que aí é que há afinação máxima.

Speaker: Mas acho que se todos estivéssemos mais perto desse lugar, isto era mais suportável.

Speaker: Sim, sim, sim.

Speaker: A palavra espontaneidade ficou-me na cabeça quando falaste, porque...

Speaker: Mas tem a ver com aquilo que eu estava a dizer de ouvir uma pessoa dançar na rua.

Speaker: É isso que eu acho que falta muito nos dias de hoje.

Speaker: As pessoas... Não sei, posso estar errada.

Speaker: Sem ser performativo, desculpa interromper.

Speaker: Exatamente.

Speaker: Porque agora até às vezes tem um caráter performativo e já não vem daqui.

Speaker: Exatamente, por isso é que a espontaneidade para mim é o natural.

Speaker: E eu acho que é como se eu sentisse... E quanto mais velha, mais sinto que...

Speaker: Parece que não existem quase pessoas espontâneas, está toda a gente numa performance.

Speaker: Agora tem que me sentar direito, tem que parecer normal, tem que... E será que estão a reparar que eu... Há sempre uma preocupação com o que é que o outro está a pensar.

Speaker: Tem a mesma falar sobre poesia, não é?

Speaker: Em tudo, hoje em dia, tudo.

Speaker: Em todas as coisas há uma preocupação constante com o outro.

Speaker: E isso também tem a ver talvez com o meu diagnóstico e com os meus sete anos de terapia.

Speaker: Então e eu?

Speaker: Então e eu, é isso mesmo.

Speaker: Eu importo.

Speaker: Porquê que eu não me preocupo mais com o que eu penso?

Speaker: Para variar.

Speaker: Em vez de estar sempre... O que é que o outro pensa?

Speaker: O que é que eu penso?

Speaker: E eu estou a tentar trocar...

Speaker: Desculpa interromper-te, não é?

Speaker: Eu só dizer porque... Até mesmo que esse momento em que é esse outro, esse outro, para esse olhar desse outro, se vier dessa maneira, é porque não é outro.

Speaker: É porque nem se constitui como um outro, não é?

Speaker: Está ali completamente.

Speaker: Sim.

Speaker: mas tenho tentado aprender a fazer esse trabalho de colocar, fazer outras questões colocar as coisas de outra forma que era uma coisa que eu era preto ou branco não tinha cinzento e tem sido uma maratona aprender a mudar a minha cabeça não é mudar a minha cabeça, não deixei de ser quem eu sou

Speaker: Eu estou a aprender a lidar com quem eu sou porque era como se quem eu era antes não sabia lidar com quem eu era.

Speaker: Então era como se eu fosse um ser todo torto.

Speaker: Porque eu estava a tentar... Era como se eu quisesse sair de uma casca e eu não sabia agarrar isso.

Speaker: Não tinha meios de agarrar quem eu era.

Speaker: E aquilo saía tudo atrapalhado.

Speaker: E foi na terapia que aprendi.

Speaker: Então, ir aceitando esse eu que estava a tentar sair para o mundo.

Speaker: Não ter vergonha disso, por exemplo.

Speaker: A questão da vergonha também.

Speaker: É como se tudo o que eu fosse fosse errado.

Speaker: Tive muito tempo a achar que as coisas... Que quem eu era, o que eu fazia, o que eu gostava, como eu agia.

Speaker: Que tudo em mim era uma coisa muito desengonçada.

Speaker: Muito...

Speaker: não sei explicar, falta-me a palavra agora eu sofri bullying também, o que não ajudou cresci muito com essa ideia de que tudo o que eu faço é errado tudo o que eu fazia estava mal feito até o facto de ser boa aluna era questão de bullying ou seja, se eu fazia bem era bullying se eu fazia errado era bullying então transformo-me num adulto que tem medo de fazer bem porque quando eu fazia bem eu sofria de bullying

Speaker: Mas também tenho medo de fazer errado, então depois não faço nada.

Speaker: E é isso, tenho tido essa luta só de aceitar, aceitar, deixar então sair.

Speaker: Eu imagino quase como se fosse um fantasma, uma espécie de um plasma a sair de uma casca e eu a tentar agarrar isso e bora lá então ver o que é que é isso que está aí, que é a Cláudia, acho que eu.

Speaker: E acho que estou muito melhor nesse sentido E agora estou É isso Transformar mais Tentar transformar mais a vida Num poema Quem me ouve parece que eu andei a flutuar Pela rua vestida de cor de rosa Que não é nada disso, até estou de preto Queres-te viver mais Queres-te viver mais Olha, essa é outra Porque eu

Speaker: E isto é uma coisa que eu acho horrível Por exemplo, quando tu te deparas com o pensamento De que eu tenho mais existido do que vivido É trágico Não, eu quero viver, eu não quero só existir Eu quero começar a viver E como é que é isso?

Speaker: Isto é muito complexo Como é que se começa a viver?

Speaker: O que é isso de começar a viver?

Speaker: Como é que isso se faz?

Speaker: A partir de quando é que se começou a viver?

Speaker: Ou o que é que é isso?

Speaker: Pronto

Speaker: Só podíamos ouvir Jeff Buckley hoje, não?

Speaker: Claro, olha, estás na mus porque eu estava a pensar que temos que passar para o disco e vamos voltar aí, com certeza a tudo o que tivemos a conversar até agora mas vamos ao nosso disco, que também fala tanto sobre isto que tu escolheste, tu escolheste o Grace do Jeff Buckley Porquê, Cláudia?

Speaker: Nada mais, nada menos Porque é dos melhores álbuns do século XX e arredores todos os outros talvez também

Speaker: Nada exagerado, esta mulher, não sou nada exagerada Porque é a melhor voz que alguma vez existiu Para continuar nos exageros Porque é dos melhores compositores, artistas, músicos que alguma vez existiu Isto tudo do meu ponto de vista como é É para explicar já tudo

Speaker: Diz o que tu quiseres sobre o álbum.

Speaker: Bom, é dos álbuns da minha vida.

Speaker: Porquê que é?

Speaker: Não sei, ainda bem.

Speaker: Sei que foi um álbum que me acompanhou muito nos tempos da faculdade, lá está do Belo do Conservatório de Cinema.

Speaker: E que foi o único...

Speaker: Ia dizer o único homem também, talvez.

Speaker: Eu disse que foi o único homem que eu adormecia a ouvir em fones.

Speaker: Na cama.

Speaker: Enfim.

Speaker: Não, foi o... Foi o único músico que eu adormecia a ouvir Jeff Buckley com fones.

Speaker: Com fones.

Speaker: E adormecia.

Speaker: E para mim isso é uma coisa que só me aconteceu com o meu querido Jeff.

Speaker: O Jeff, para mim, eu chamo-lhe um ser transcendente, um pouco alien.

Speaker: Eu sempre vi o Jeff Buckley como uma espécie de alien, para já pela voz, porque eu acho que ele tem uma voz alienígena.

Speaker: Uma voz entre um gemido, um choro...

Speaker: É que ele não canta, ele é um gemido, mas em poético também, um belo gemido, um gemido do horror, é um gemido do belo, que vai num sítio, não sei, aquilo é transcendente, eu acho o homem... Ele era transcendente ainda.

Speaker: Hoje rouba a linha à Patrícia, digo, melancólico.

Speaker: Melancólico também, mas...

Speaker: Mas vem de um sítio de mancolia, parece.

Speaker: Sim.

Speaker: Não sei, eu acho que era um ser único que, infelizmente, como todos os seres... Todos não, não era isto que eu queria dizer.

Speaker: Como muitos dos seres únicos que existiram nas artes, nos deixou muito novo.

Speaker: Infelizmente...

Speaker: O álbum, depois de todos os temas do álbum, que vai, olha lá está, desde a espiritualidade, as tragédias dos amores desencontrados, o amor imaginado, o amor perdido, o amor que nunca se teve, o amor que já se teve e agora não se tem mais, as memórias de perda de pai, sei lá, é tudo tão poético, tão intenso, nessa álbum tão...

Speaker: Sofrido e ao mesmo tempo... E ao mesmo tempo um renascimento.

Speaker: E acho que esse álbum é morte e renascimento.

Speaker: É como se fizesse um... Cíclico.

Speaker: Cíclico, não é?

Speaker: Faz assim um ciclo.

Speaker: Acabas e recomeças.

Speaker: E é o único álbum, ou a única voz, que eu ouço.

Speaker: Há muito tempo, porque eu estou velhinha.

Speaker: E...

Speaker: E continuam a arrepiar-me.

Speaker: E eu acho isto... Como assim?

Speaker: Eu estava a ouvi-lo agora, voltei a ouvir outra vez, até porque vinha aqui falar sobre ele.

Speaker: E eu estava... Eu olhei para o meu braço e continuo arrepiada.

Speaker: Anos, anos e anos depois de ouvir este álbum, vezes e vezes sem conta, a mesma voz, eu continuo arrepiando.

Speaker: E isto só pode ser especial.

Speaker: Só agora uma curiosidade.

Speaker: Eu estava indecisa se trazia Jeff Buckley ou David Bowie, porque são os meus deuses.

Speaker: E eu disse à Ana Teresa e à Ana Teresa assim, bom, pensa e depois diz-me, estou muito bem em casa.

Speaker: Eu não vou dizer onde vivo, mas vamos dizer que num edifício do lado, eu com a janela fechada, começo a ouvir-se Jeff Buckley.

Speaker: Qual é que era a música?

Speaker: Por acaso não era do Grace.

Speaker: Pela rua inteira, porque eu vivo num sítio onde fazem uns eventos e estavam a testar o som.

Speaker: E testaram o som com Jeff Buckley.

Speaker: Quando a Ana Teresa tinha acabado de me convidar, eu tinha dito, sou aqui indecisa.

Speaker: E mando uma mensagem à Ana Teresa a dizer Olha, aconteceu isto, está escolhido Mas eu ia acabar por escolhê-lo, que eu sei Apesar de hoje estar com uma t-shirt do Bali Mas ia sempre parar o Jeff Buckley Porque é isso, porque é essa transcendência que eu sinto Inexplicável A Patrícia também gosta muito Ai que bom É mais ou menos como tu E vocês lembram-se assim a primeira vez As duas, cada uma conta a sua Que a primeira vez que ouviram

Speaker: Tu primeiro Não, não, não, não,

Speaker: Estou a ouvir a primeira vez com esta conversa E fiquei fascinada Para a atmosfera que ele queria Para a atmosfera É o que tu disseste gemido, não foi?

Speaker: É valente, porque é mesmo isso É um gemido de uma densidade incrível Que leva aos lugares todos Há uma parte do Aleluia E só com a voz, nem precisava de música Há uma parte qualquer em que ele faz só um abrir seco

Speaker: Pronto, que te dá uma aleluia.

Speaker: Exatamente.

Speaker: Não, mas é pela atmosfera, já não querido aleluia, já sei, já estás olhando para mim e já estás a passar para a outra parte.

Speaker: Mas pela atmosfera, é só dizer toda coisa, tu disseste adormecer a ouvi-lo, não é?

Speaker: Vem lá, a palavra que eu tinha escrito, para não me esquecer de dizer, é embalo.

Speaker: Há qualquer coisa desta ordem permanente para as pessoas que tenhas dito melancólico.

Speaker: Porque há aqui qualquer coisa que fica... Eu não consigo adormecer com qualquer voz.

Speaker: E depois a partir do outro fui a ouvir os outros todos, sendo que o Grace, o álbum é mesmo para mim, acompanhou-me e acompanha o que tu dizes.

Speaker: Acompanha.

Speaker: Eu de repente vou lá outra vez e vou lá outra vez.

Speaker: É para sempre.

Speaker: Porque é isso que nunca encerra.

Speaker: Não consigo ouvir sempre Há momentos não dá para ouvir Eu já disse que não, por exemplo Alguém quer pôr Jeff Buckley ou começa a ouvir e aí não Ou para o Spotify que está ali no Shuffle e aí não, hoje não Porque é preciso Uma certa disposição Sim, sim

Speaker: para ouvir esse gemido fantástico mas às vezes nos momentos internos em que o gemido surge aquilo faz uma certa companhia estou a pensar que há uns que não se aguenta mas há outros que se aguenta melhor porque podes lá ir com companhia sim sim

Speaker: E do Grace, tu escolheste Dream Brother Porquê?

Speaker: Porquê que eu escolhi essa música?

Speaker: Pelas semelhanças da história do Jeff Buckley com a minha Desculpa, o café Pelas semelhanças da história do Jeff Buckley com a minha Resumindo, a letra dessa música é sobre um amigo do Jeff Buckley que se preparava para abandonar a mulher grávida

Speaker: E foi o que o pai do Jeff Buckley fez.

Speaker: Deixou a mãe dele quando ela estava grávida.

Speaker: E quem conhece o Jeff Buckley sabe que era um assunto delicado para ele.

Speaker: Desculpem.

Speaker: E a minha história de vida é mais ou menos assim também.

Speaker: Cresci sem pai.

Speaker: E, portanto, aquele referão da música, das coisas...

Speaker: Eu estava a mostrar à Patrícia que os meus pelos estavam... Eriçados.

Speaker: Eriçados.

Speaker: Eu ouvi a música já milhões de vezes.

Speaker: E é impressionante.

Speaker: Mas escolhi mesmo pela semelhança da minha vida com a do Jeff Buckley.

Speaker: E porque a música é incrível, de facto, toda ela.

Speaker: E a maneira como ele canta e o tal gemido na voz que eu estava a falar, parece um choro dele para o amigo, não é?

Speaker: Não faças isso.

Speaker: Como aquele que deixou para trás o nome dele.

Speaker: Eu gosto bastante do pai do Jeff Buckley como artista também, apesar de eu achar que o filho é mais genial.

Speaker: Mas o Tim Buckley também é incrível, temos que dizer que aquilo é de família.

Speaker: E também tem uma voz incrível e músicas incríveis.

Speaker: Mas simplesmente é isso que eu tenho para dizer É mesmo pela semelhança Obviamente que aquela música me toca de uma maneira ainda mais especial Apesar de que podia ter escolhido a Mojopin Que fala de amor obsessivo Que compara quase... Mojopin que remete quase a um shot de heroína Para conseguir esquecer um amor idílico Imaginado, idealizado

Speaker: Podia escolher a So Real Que foi desde sempre das minhas músicas preferidas Do Jeff Buckley Fantasmagórica até é a palavra que eu tenho Para essa música, podia ter escolhido Lover and I'll Death Come Over Que é das músicas de amor mais bonitas de sempre É como eu te disse Escolher teria sido difícil Estou só a dizer algumas das que eu pensei ter escolhido E escolheste o Dream Brother A Grace, por exemplo, também É incrível

Speaker: Escolheste o Dream Brother e, ó Patrícia, ouviste o que a Cláudia disse e o Dream Brother para ti.

Speaker: A Patrícia ficou aqui um bocado a ouvir o que a Cláudia disse e a embalar-se nisso.

Speaker: Não, não, não, era só... Não, mas a ideia do Dream Brother, não é?

Speaker: Eu acho que tem sempre um cunho anírico, não é?

Speaker: Acho que está sempre esta atmosfera anírica em que te permites percorrer os lugares todos sem ter que ficar só presa num, não é?

Speaker: Aquilo faz-te ir e faz-te voltar, como a Cláudia dizia há bocado, não é?

Speaker: Portanto, o Dream Brother, para mim, também tinha este lugar, que eu acho que também é o que tu estávamos a dizer um bocadinho, outra vez desta certa companhia, não é?

Speaker: Alguém que sonha contigo neste... Não sei, para mim aquela ideia do... Ele usa às vezes o old, não é?

Speaker: Não sejas como alguém que me fez ser velho, não é?

Speaker: Que me fez ser este velho.

Speaker: Talvez isso também me tocasse a mim.

Speaker: E agora que tu disseste isso, do que tocava a ti, tu eu pensava.

Speaker: E que deixou o nome para trás.

Speaker: E que deixou o nome para trás, exatamente.

Speaker: Uma frase impactante.

Speaker: Toda a música é impactante.

Speaker: E os próprios movimentos que ele faz, desculpa-me, os próprios movimentos até focais, como tu dizias há bocadinho, não é?

Speaker: Que te arrastam até um lugar, depois te voltam a trazer para trás, depois te fazem ir para outro sítio que não estavas à espera de encontrar, mas onde te reconheces também.

Speaker: Imagina este impacto de tu estás a falar para um amigo que está prestes a fazer algo que é um trauma teu.

Speaker: eu ia pegar nisso porque eu ia dizer isso eu ia dizer que há qualquer coisa boa que o Jeff Buckley teve para interromper o ciclo de trauma e ter essa capacidade de reconhecer o trauma e de falar sobre a repetição porque ele na música mesmo fala um bocado sobre isso da repetição pode ser até do ponto de vista inconsciente tu estares a repetir o sítio onde traumatizaste

Speaker: e estás sempre a retraumatizar-te se continuares a repetir o ciclo e que não deixa de ser engraçado sem graça sem grace também podemos incluir na lista é na lista mas...

Speaker: não é, tu estás-te sempre a retraumatizar pela repetição do trauma do qual tu não tens consciência e o Jeff Buckley algum trabalho pôde-se fazer internamente para chegar a este lugar onde de facto para com isto e sabe analisar isto isto é a última música não é?

Speaker: a última é o Grace o Grace é o Grace

Speaker: Não, a última não é a Grace.

Speaker: Não, nós temos a versão de 1994 que não tem o... O Forget Her.

Speaker: O Forget Her entra na edição de 2004.

Speaker: Na edição de 1994, ou seja, o álbum original, a última é o Dream Brother.

Speaker: Porque o Forgetter, o Jeff Buckley não deixou colocar, porque achava que se expunha demasiado.

Speaker: Não era expor-se, era a vulnerabilidade dele.

Speaker: Ficava ali todo e ele não deixou.

Speaker: Claro, ele nunca era vulnerável, só nessa, não é?

Speaker: Só nessa.

Speaker: Só nessa E ele não quis Mas depois em 2004 Numa reedição entrou E entrou bem porque é uma canção Do Caraças, o Forget Her Que não é É a minha favorita sem ser Porque eu não tenho bem canções favoritas De Jeff Buckley Mas é isso Diz Não sei se a Cláudia conhece A poesia do Miguel Serras Pereira, conheces?

Speaker: Não Porque estava a pensar nisto que tu estás a dizer O Miguel põe isso maravilhosamente também Esse sítio que Nunca tende sido tido Ou vivido, nunca mais podes deixar de viver E eu acho que muitas vezes Não é nisto que ele Estava a pensar, agora não sei porque ia viajar para o leste de goodbye Desculpa, não sei porque é que fiz isto Mas vem-me à cabeça Sim, sim, sim Para mim ficávamos só de mãos dadas a ouvir o mal-vão todo Exato

Speaker: É isso.

Speaker: Vocês juramos juntas e somos felizes.

Speaker: Mas podem dar as mãos porque a canção favorita da Patrícia é o Aleluia.

Speaker: Peraí, peraí, peraí.

Speaker: Deixa-me só fazer aqui um parênteses.

Speaker: Foi só porque o Aleluia tinha este lugar inaugural.

Speaker: Em todos os sentidos de Algarve.

Speaker: Agora diz-me lá tu.

Speaker: Alguma outra música cantada desta maneira transmite esta ideia da perda implícita de nos sabermos sempre do ex.

Speaker: Não me convenço de novo.

Speaker: Exemplo.

Speaker: Olha, vamos à Nina Simone Por exemplo A Nina tem coisas bestas Mas ela não faz isto Ela não chega lá, aguenta o lugar E diz, afinal somos só Está bem, mas Do impacto Ele sabe Ele sabe Ele sabe

Speaker: Ele tem aquela consciência lúcida.

Speaker: Ele sabe, mas tu tens músicas e harmonias que te dão isto que... Atenção, eu acho o Jeff Buckley extraordinário.

Speaker: Só não morro de amores como vocês.

Speaker: Acho mal, mas... Porque eu gosto do Jeff Buckley, não gostando.

Speaker: Não gostando, mas gosto.

Speaker: Aliás, até estava a ouvir ainda há bocado aqui o Dream Brother e o que eu gosto aqui no Dream Brother e é incrível.

Speaker: Depois leva-me logo para Radiohead e para Massive Tech.

Speaker: Logo ali a introdução é espetacular.

Speaker: Toda a gente se inspirou no Jeff Buckley.

Speaker: Pronto.

Speaker: E portanto é...

Speaker: Pronto, é isto, não tenho muito a dizer sobre isto.

Speaker: Patrícia, o aleluia, tu disseste muito bem e é verdade.

Speaker: E é aquilo que também é o que eu sinto nesta canção.

Speaker: E não sinto só com o Jeff Buckley, sinto também com o Cohen.

Speaker: Isso que tu disseste, não é só com o Buckley.

Speaker: Também sinto que é o cão Porque eu acho que é o sítio Porque é uma coisa tão Que enche tanto Que nos mostra mesmo a complexidade da humanidade Através do sentir Acho que sim Mas para mim o Jeff Buckley vai mesmo lá até ao sítio limite Pois

Speaker: O Linoa Esco não chega lá, mas é uns passos atrás.

Speaker: Este vai lá e rasga mesmo até ao sítio.

Speaker: Podia ter sido ali.

Speaker: E ele aguenta aquele lugar.

Speaker: Na interpretação, não é?

Speaker: Na voz.

Speaker: Sim, sim.

Speaker: Tínhamos que fazer um podcast sobre isso.

Speaker: Cláudia Anui.

Speaker: A Cláudia.

Speaker: Sim.

Speaker: A Cláudia.

Speaker: E tu também gostas muito do Aleluia.

Speaker: Eu gosto de tudo.

Speaker: Pois, voltas a dizer o mesmo.

Speaker: Eu tenho muito... O problema de falar do Jeff Bantos chega um ponto em que a pessoa não tem muito mais a dizer.

Speaker: É só gosto, eu gosto tanto, eu gosto tanto.

Speaker: É tudo isso, sim.

Speaker: Então, e o Aleluia?

Speaker: O que é que te traz?

Speaker: O que é que te traz?

Speaker: A Patrícia explicou muito melhor do que eu sei.

Speaker: Eu vou confessar que é uma música que eu...

Speaker: Como dizer isto sem parecer que estou a falar mal de... Pronto, porque a música de facto não é do Jeff Buckley.

Speaker: Mas não é das músicas que eu mais ouvi dele.

Speaker: Eu passo à frente.

Speaker: Lamento, Patrícia.

Speaker: Só prefiro outras.

Speaker: Não é que não seja linda, genial, maravilhosa, como ela disse.

Speaker: Mas não é a que mais me toca.

Speaker: E à bocada ela queria que eu dissesse Eu acho que comecei a ouvir de Jeff Buckley Porque alguém me mostrou no conservatório de cinema Um colega de cinema E eu fiquei viciada Tipo, droga Não conseguia parar de... Sabes, parecia que tinha levado com uma martelada na cabeça Uma cena fulminante Tipo... Em repeat, sempre Tipo assim, paixão avassaladora

Speaker: Sim, pronto, isso também me aconteceu com o Roland S. Howard, que tocava com o Nick Cave, depois quando eu descobri que ele tinha álbuns a solo e fiquei também em loop, eu digo sempre que matei o homem, porque quando eu descobri o álbum dele a solo ele morreu.

Speaker: Eu não parava de ouvir E olho um dia para as notícias E ele morreu Eu matei-o Eu matei-o Eu não acredito nisto Até eu descubro o homem e ele morre Descubro o homem é como quem diz Descubro o homem é só Na época já o conhecia E...

Speaker: Enfim Tudo para dizer o quê?

Speaker: Esqueci-me do que eu ia dizer Para dizer Porque foste buscar, não tinhas dito ainda É isso, foi num conservatório Foi tão simples quanto isso e fiquei viciada Queria só dizer uma coisa que eu estava a dizer aqui em OF Acho que é a Patrícia

Speaker: que o Jeff Buckley é tão genial que ele consegue cantar ópera, não é?

Speaker: Ou seja, lá está, a voz dele é uma coisa tão maleável e há um concerto dele que eu acho que é em Paris e há uma gravação assim muito mal amanhada mas que eu mando-vos, acho que está no YouTube

Speaker: que ele canta, portanto, uma música do Purcell, que é do Dido e Aneias, que é a paixão trágica da Aneida do Virgílio, um herói de Troia que se apaixona pela rainha Dido.

Speaker: E é assim uma história trágica, que é daquelas que eu gosto, que eu sou trágica, sou romântica, sou tudo e do que há de pior neste mundo.

Speaker: e adoro e já adorava esta versão original pela senhora cujo nome agora não me consigo lembrar mas a versão do Jeff Buckley é os cabelos ficam em pé e ele está a cantar isto no meio do concerto começa a cantar isto como se nada fosse como se nada fosse saca ali de uma ópera e pronto

Speaker: agora está feito ele é transcendente, é um Ellen eu sei que há mais pessoas que cantam álcool no mundo mas não sei tanto o Ovos a cantar lá está Dream Brother como de repente Dido e Aneias como não sei é um camaleão tu já conheciste o Jeff Buckley depois dele morrer

Speaker: Sim, sim, sim.

Speaker: Passou dos anos 80 e ele morreu em 97.

Speaker: Sim, sim, sim.

Speaker: Era muito nova ainda para saborear.

Speaker: Este gênio.

Speaker: Se calhar ainda ouviu onda de choque, não estou a brincar.

Speaker: Também não.

Speaker: Guns N' Roses, talvez.

Speaker: Exato, olha, é como eu.

Speaker: Acho que eram os Guns N' Roses.

Speaker: Estou a ver que tivemos a mesma evolução musical.

Speaker: Depois passei a ser gótica, quase, mas enfim.

Speaker: Mas tu também só descobriste depois de ela morrer.

Speaker: Não sei se foi depois de ela morrer, mas deve ter sido res.

Speaker: Eu também acho que foi.

Speaker: Eu acho que foi.

Speaker: No meu caso, eu acho que foi.

Speaker: Também não consigo lembrar, mas acho que sim.

Speaker: Não, foi porque eu só fui para o conservatório em 2000.

Speaker: Foi Resves, como ela diz Eu pensei foi, não, foi na tua idade Eu pensei foi, como tu só o conheceste na faculdade Foi Resves, ele tinha Eu, por exemplo, entrei para a faculdade em 97 Foi quando ele morreu Aliás, ele morreu antes de eu entrar na faculdade Quando eu entrei na faculdade e conheci duas ou três pessoas Que estavam a sofrer horrores por causa da morte do Jeff Buckley Que ele tinha morrido há relativamente pouco tempo Poxa, como eu conheci um fanático de Jeff Buckley Felizmente, ainda bem

Speaker: E eu não era fã, já o conhecia, conhecia quando ele saiu, mas não sofri como essas pessoas, mas uma delas até é muito minha amiga.

Speaker: Olhem, eu escolhi o Layla Kwanho.

Speaker: Porque não é tudo chef buckler Estou brincando Não é porque acho que a interpretação dele é magistral e eu gosto muito Ah, d aí a ligação à Nina Simone E que a Nina Simone também canta muito A Nina Simone canta lá lá lá

Speaker: Eu escrevi Quem me dera Eu escrevi Não, eu não escrevi isto, quem me dera Não, mas sublinhei aqui Porque o Lay Like Wine Eu gosto deste sítio Que também está no álbum todo E é se calhar por isso que eu não gosto Do Jeff Buckley

Speaker: Há um sítio de desespero na voz dele.

Speaker: E que ele não tem medo nenhum de cantar.

Speaker: Esse sítio de desespero.

Speaker: E esse sítio de desespero, eu gosto que ele possa ser vivido.

Speaker: Mas não é um sítio fixe.

Speaker: Mas gosto que ele possa ser vivido.

Speaker: O Layla Aquain é isso.

Speaker: E ela canta isso muito bem.

Speaker: E não é só?

Speaker: Sim, também.

Speaker: Que é este sítio onde eu bebo muito mais do que deveria porque isso me traz de volta.

Speaker: Isso me traz.

Speaker: Te me traz de volta.

Speaker: Que é o sítio onde não se teve

Speaker: o que se deveria ter tido, ou que se gostava de ter tido.

Speaker: E que a psicanálise faz tão bem, que é encontrar esse sítio dentro de nós.

Speaker: A terapia ajuda-nos a encontrar os sítios não vividos dentro de nós.

Speaker: E por isso é que eu também chamei esses sítios de amor.

Speaker: Agora...

Speaker: Quem não encontra esses sítios dentro de si próprio está numa eterna repetição e aí eu acho que não é amor, é trauma.

Speaker: É outra coisa.

Speaker: E o Jeff Buckley é muito fixe porque fala das duas coisas e nas letras consegue dar as duas versões.

Speaker: Consegue-te dar aquilo que é a repetição do trauma até ao infinito na busca deste sítio e onde há também a possibilidade de tu viveres contigo próprio este sítio.

Speaker: E acho que aqui a Nina Simone também o faz bem nesta canção.

Speaker: Foi por isso que eu escolhi o Lay Like Wine.

Speaker: Patrícia?

Speaker: Se bem esta dizer tão bem, não é?

Speaker: É como se tivesse a paradoxalidade toda aqui inscrita e até embrulhada na própria... No próprio copo de vinho, não é?

Speaker: Sim, sim.

Speaker: Um bocadinho do embargamento...

Speaker: Embragamento, ajuda-me lá Embragamento Mas o embargamento é muito bom Foi um grande lápis Foi um lápis muito bom Mas não interpretes Não, eu não vou interpretar Embragamento do embargamento Não, o certo embragamento É isso que dizias, não é?

Speaker: Que traz de volta qualquer coisa que tu sabes que era que tu dizia há bocadinho, não é?

Speaker: Qualquer coisa que na verdade nunca pode ser agarrada por inteiro.

Speaker: Sim, sim, sim, exatamente.

Speaker: A promessa do sítio que nunca pode ser.

Speaker: Sim, sim, sim.

Speaker: O Jeff Buckley é muito bom nisso.

Speaker: Nessas letras, nesses amores idealizados.

Speaker: E na forma como os canta vai a esse lugar.

Speaker: Porque era esta... Eu estou sempre a sentir angústia permanente na voz dele.

Speaker: O Jeff Buckley faz aquela coisa que, por exemplo, eu acho fundamental na poesia.

Speaker: Que é o estar sempre à beira de um precipício.

Speaker: Daí esse lugar do desespero que estavas a dizer há pouco.

Speaker: Parece que estás sempre a ver o Jeff Buckley já pendurado, só com o dedinho.

Speaker: Está lá com o dedinho, ainda não caiu, mas está mesmo a abenar com o vento.

Speaker: Sim, sim, sim.

Speaker: Mas isto

Speaker: É, essa imagem que eu tenho... Ele faz isso, é um poeta também, um poeta da música, da voz, um poeta da voz.

Speaker: Da interpretação musical, dos mais belos intérpretes para mim, que alguma vez vieram a este mundo.

Speaker: Não sei.

Speaker: Por exemplo, custa-me muito ouvir... Não é custom a palavra, mas ouvir músicas de amor do Jeff Buckley.

Speaker: Temos que ir ali pescar a faca.

Speaker: É tão bom e tão mau ao mesmo tempo.

Speaker: É um sofrimento e é um prazer.

Speaker: Sofre, chora, rio, celebra a ouvir as músicas de amor dele.

Speaker: É...

Speaker: Essa do mojo pino é um soco no estômago.

Speaker: E te vês me lembrar, e ligando, e viste que comecei com um poema, porque eu também andei a escrever sobre isso, do amor idealizado, neste livro que eu ainda estou a escrever, que também é uma coisa... Eu vou ser sempre uma eterna romântica, não é?

Speaker: E lá está.

Speaker: E a poesia, no fundo, se espremeres muito bem, é amor, sempre.

Speaker: Nós somos isso É o que nos distingue E como está difícil encontrar um amor Dô para mim a escrever sobre Amores idealizados Amores imaginados É um lugar do sonho Da não desistência Quase desistência

Speaker: Estou a explicar muito mal porque é uma coisa que se calhar eu só sei escrever, não sei falar.

Speaker: É a olhar das tais coisas.

Speaker: E se calhar eu lia isso porque também devemos estar quase a acabar.

Speaker: Não é muito grande.

Speaker: É só porque eu acho que combina mesmo.

Speaker: E acabamos com isso, Cláudia.

Speaker: Mas dás-me só um bocadinho porque acabamos com a tua leitura.

Speaker: Eu vou só perguntar à Patrícia se não tem vontade de dizer alguma coisa.

Speaker: Eu não ia só dizer que ia só era o encontro do que a Cláudia estava a dizer e que tu também disseste, não é?

Speaker: Esta ideia do abismo me pareceu extraordinário, é que é isso mesmo.

Speaker: Mas o que há de extraordinário também é ele não nos trair.

Speaker: Ele não te deixa sozinha no abismo.

Speaker: Ele não te leva até lá e a seguir faz uma volta qualquer em que tu ficas entregue àquele lugar.

Speaker: E isso é de uma mestria absoluta para mim.

Speaker: Nunca te deixa sozinha.

Speaker: Que bonito isso.

Speaker: Um belo pensamento.

Speaker: Na edição de 2004, ele deixa... Não, não é?

Speaker: Então, lá colocam o Forgetter, que é a última canção da edição de 2004.

Speaker: Que é um sítio também espetacular, porque é o sítio onde ele... Essa música é linda.

Speaker: Sim, que é o sítio onde ele reconhece o lugar.

Speaker: onde os outros não têm a capacidade de amar.

Speaker: Porque tu estavas a dizer, está difícil encontrar o amor, e eu ia-te perguntar assim, não está mais difícil onde tu poderes colocar o teu amor

Speaker: Está difícil encontrar Sítios onde tu possas De facto Colocar o teu amor Para poderes receber-lo Da mesma forma Não está difícil colocares amor No geral

Speaker: Por isso é que, explicando melhor, eu estava a referir-me ao amor romântico.

Speaker: É o que eu estava a dizer, que está complicado.

Speaker: Claro que há muitas formas de amor.

Speaker: E começámos até a falar do amor da amizade, não é?

Speaker: Sim, até porque neste Forgetter ele está a sofrer muito, muito, muito, porque percebeu que esta pessoa não tinha capacidade.

Speaker: para receber o amor dele e não tem capacidade quem nunca ele não pode ficar ali pronto, ele não pode ficar ali muito bem muito Cláudia obrigada por ter estado connosco obrigada Patrícia Câmara obrigada Carolina obrigada a Climepsi pelo material a

Speaker: Vamos ficar com a voz da Cláudia, com o poema da Cláudia.

Speaker: E encontramos-nos daqui a um mês.

Speaker: Sonhei que o amor era a pandemia do mundo, que nos abraçávamos em fila com voz de Gal Costa.

Speaker: E voávamos azuis em considerações astrais, clamando alto.

Speaker: Aqui estamos, os nus de pássaros nas artérias.

Speaker: Aqui estamos, os órfãos da modernidade, com abas melancólicas no pensamento, os que condecoramos o pus das cartas de amor e rimos alto do avesso de tragédia.

Speaker: Sonhei com o sol pintado na testa da humanidade, uma sonda espacial no peito dos abandonados, com grandes vivas às solteiras que cospem firme e que dançam desavergonhadas com seios frontais e aos que vivem sombrios encostados ao abismo.

Speaker: Caras errantes latejavam em capas de revista, as noites sacrificavam-se por um caminho de antúrios e depois uma festa de havaianas onde todos chorávamos e ríamos vaziados numa tragédia ancestral.

Speaker: Eu entrava descarada num certo brilho de imortalidade, talvez pela minha tática em não dar saudade a ninguém, por passar mãos nos cabelos e trazer de volta um cansaço.

Speaker: Meu amor, e dançávamos juntos no topo das montanhas e comprávamos uma casinha como início de mundo, porque ainda ontem estávamos presos na luz de uma perigosa palavra do amanhecer.

Speaker: Imagina tu e eu combinados na atmosfera de uma vida azul, agarrados ao sopro do que entraria alma abaixo.

Speaker: Não é por acaso que escrevo para o meu amor imaginado, que lhe dedico o meu tratar das sombras, dos ombros desalinhados, dos desencontros fixos,

Speaker: Sonhar que existe-se ajuda-me a passar os dias, a ignorar os tropeços nos imprecis, o ladrar das doenças.

Speaker: Ajuda-me a ser bonita e com plumões musicais.

Speaker: Porque és um rapaz deitado no meu pensamento, com silêncio a cantar na brisa, uma luz vaga navegando nos oceanos, um farol na minha cabeça como naufrágio, um risco que bate no peito da fantasia, uma alucinação.

Speaker: 3 Divãs, a psicanálise, o mundo e o rock'n'roll.

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