Transcript
Speaker: 3 Divãs, a psicanálise, o mundo e o rock'n'roll.
Speaker: A palavra, unidade linguística que junta sons ou letras que formam sentido.
Speaker: E no disco, ele já canta.
Speaker: Cada direção tem um sentido e, mesmo sem sentido, obriga a andar.
Speaker: A força da palavra é o peso do significado que ela carrega, o meu e o teu.
Speaker: E, no livro, Sandor Marais escreve São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completa à realidade das suas vidas.
Speaker: A psicanálise chama-lhe false self.
Speaker: O disco lhe chama-lhe fachada.
Speaker: E a letra B vai-nos mostrando que há sempre mais do que uma.
Speaker: A de hoje é de 2011 e há um mergulho na estrutura simbólica onde a palavra nos permite aceder à expansão exponencial do significado.
Speaker: Esse lugar onde o pensamento e o sentimento cabem, num só tempo, em símbolos, aparentemente diminutos, mas verdadeiramente colossais.
Speaker: Ele chama-se B-Fachada e obriga-nos a cada faixa a olhar a fachada B, como sugeriu a Patrícia Câmara.
Speaker: E ao longo do disco percebemos-lhe a ironia entre medos, o de nunca a encontrar e o de não a conseguir encarar.
Speaker: Refirmo à verdade, à nossa.
Speaker: Deve ser a este lugar que chamamos angústia.
Speaker: Quando nada parece o que é, ou tudo parece o que não é, é para aqui que o B-Fachada nos obriga a olhar e ainda nos diz, se não é nada contigo, no refrão é que vais ver.
Speaker: Mesmo que fujamos, ela bate-nos à porta e torna-se mais leve a cada palavra que tentamos encontrar dentro de nós para a receber.
Speaker: Hoje, aqui em casa, temos o Hélder Beja, que nos trouxe o B-Fachada de 2011, do B-Fachada.
Speaker: Vou já passar a palavra ao Hélder, para que nos possa começar a contar como é a dele.
Speaker: Boa tarde, Hélder.
Speaker: Sejas bem-vindo ao Três Divãs.
Speaker: Apresenta-te, já sabes.
Speaker: Boa tarde, obrigado pelo convite, é bom estar aqui convosco.
Speaker: Eu é que me apresento, não é?
Speaker: É. Então, sou o Hélder Beja, sou o filho da Florina e do Fernando, sou o irmão da Daniela, sou o sobrinho, o sobrinho nã o, o tio da minha sobrinha Viana, mais recentemente também sou o pai da Mia e o marido da Song.
Speaker: E acima de tudo isso é o que eu sou porque são essas as relações e depois as relações com todos os meus amigos que eu quero cuidar e desejo cuidar e que devia pôr sempre em primeiro lugar e nem sempre acontece.
Speaker: Depois há o que eu faço, que também obviamente incorpora o que eu sou.
Speaker: E o que eu faço hoje é dirigir um festival de cinema, o DOC Lisboa, e escrever para cinema argumentismo, portanto com o Ivo Ferreira, que é o meu companheiro, ele realizador, eu co-argumentista.
Speaker: E depois escrevo para outras publicações, faço mais coisas, fui jornalista há muitos anos, mas interessa-me mais este lugar de afeto e de relação com as pessoas, com a família, com os amigos e gostava que isso me definisse mais do que aquilo que eu faço enquanto profissional.
Speaker: Muito bem, Helder.
Speaker: Olha que bom, que bonito o que tu acabaste de dizer.
Speaker: Com o vencedor de Deus.
Speaker: Sim, sim, sim.
Speaker: Embora, como é óbvio, tudo isso que tu vives com tanto prazer naquilo que é a relação com os outros, tu transportas para os argumentos, não é?
Speaker: Uma coisa não se separa da outra, não achas?
Speaker: Sim, fez-me logo pensar que também, não disse, mas também sou ribatejano.
Speaker: Porque de facto foi muito divertido nas primeiras incursões pelo guionismo perceber que de facto havia muitas histórias desse universo que podiam ser transportadas para outros universos que eram os dos filmes que estávamos a escrever ou das séries e por isso sim, ou seja, todas essas relações que fui criando com aquele lugar e com muitos amigos de infância que ainda hoje permanecem, outros já não
Speaker: foram muito importantes depois para entrar na escrita para cinema, que é uma coisa que faço há relativamente pouco tempo, mas que me tem dado muito prazer.
Speaker: E claro, eu levo tudo isso para esse trabalho e também tento levar para os outros, mesmo agora na direcção do festival e no pensamento sobre uma programação de cinema, que é uma coisa bastante mais complexa.
Speaker: Tento também que esse lugar do afeto e do desejo, que para mim é uma palavra muito importante também, esteja sempre presente.
Speaker: Sim, claro.
Speaker: O que é que é para ti o desejo, Hélder?
Speaker: Olha lá, tem que ser circulado a palavra.
Speaker: É que ele falou nele, agora temos que apertar aqui um bocadinho com ele.
Speaker: Sim, o desejo, no modo como acabei de me referir a ele, tem muito que ver com uma espécie de mote para fazer as coisas.
Speaker: O porquê de eu continuar esta estrada.
Speaker: E nesse sentido, aliás o ano passado foi a primeira vez que escrevi o texto da direcção do DOC Lisboa para a edição de 2025 e falo precisamente do desejo, porque isto por exemplo na gestão de equipas e enfim de pessoas, digamos assim,
Speaker: muitas vezes as pessoas estão muito comprometidas, trabalham muitas horas, dão muito de si, mas tudo isto é importante, mas sem desejos para mim não vale.
Speaker: E o desejo é essa vontade de futuro, essa vontade de participar de uma construção sem ser apenas por decreto, ou seja, sem ser aquela coisa.
Speaker: Eu estou muito pouco interessado na lógica das 9 às 5 ou das 10 às 7, que é o nosso caso,
Speaker: se eu não sentir que as pessoas estão ali de corpo mesmo, inteiro, e que desejam, não que isso lá está, que substitua as suas vidas privadas, que o trabalho, porque é um trabalho, ocupe um lugar desmesurado no seu dia-a-dia, não é isso, pelo contrário, gostava até que ocupasse menos, não só no meu como no das pessoas que me rodeiam,
Speaker: menos tempo, digo eu, mas que ocupa um lugar central, esse trabalho enquanto um projeto que tem de ser um pouco mais do que isso e por isso é que também cada vez sinto mais que, por exemplo, falando deste universo de um festival de cinema, não é essencial, mas é muito importante a relação com o cinema, porque se tiveres uma relação com o cinema,
Speaker: estás mais próximo ou próxima de sentir realizado ou realizada no festival e de ficar mais tempo de permanecer e de sentir esse desejo por cada nova edição, por cada nova descoberta, ainda que o teu trabalho seja produção, gestão de convidados, etc.
Speaker: É possível sentir esse lugar de pertença e era nesse sentido que me referia a desejos, claro que o desejo depois é muitas outras coisas também.
Speaker: Claro, mas eu, Helga, é precisamente por causa do... Eu acho que é exatamente esse o lugar.
Speaker: O lugar onde há desejo é que nos permite estar nos vários sítios ao mesmo tempo.
Speaker: Estarmos a fazer o que... Estarmos no trabalho, naquilo que tu chamaste de trabalho, que é um trabalho, e estarmos ao mesmo tempo com os nossos, seja a família, os amigos, o que quer que seja para além disso que é o trabalho.
Speaker: Acho que só mesmo o desejo é que possibilita esse lugar vivido em pleno, sem que se clivem as partes.
Speaker: Oh, Hélder, eu queria que tu falasses um bocadinho, não tenho uma pergunta específica, porque acho que vais falar sobre aquilo que te tocar mais, mas daquilo que eu observo ao longo dos anos e daquilo que também observo em ti...
Speaker: Como é que é isto de ser diretor de um festival de cinema como o DOC Lisboa?
Speaker: Agora percebi-me que comecei por falar da família e depois estive só a falar do trabalho a seguir.
Speaker: E agora vou dar-te a volta, agora vou falar não do trabalho, mas sobre ser diretor do DOC Lisboa.
Speaker: Eu estava a pensar, essa lógica de estar em todas as frentes, essa não possível ubiquidade, acho que está muito ligada também, no meu caso, a uma grande voracidade, ou seja, tenho uma grande sede de vida, às vezes, uma palavra muito rio adescena, sou um bocado garganeiro, quero tudo ao mesmo tempo.
Speaker: E isso tem prós e tem contras, claro.
Speaker: Já bati algumas vezes de frente por causa disso.
Speaker: Não me alejei muito, felizmente.
Speaker: Mas não querendo falar tanto dos contras agora, mais dos prós, também tem sido isso que me permite fazer tantas coisas.
Speaker: E lá está.
Speaker: Estar em tantos sítios ao mesmo tempo.
Speaker: E estar neste sítio em particular, na direcção do DOC Lisboa,
Speaker: que é um lugar que eu ainda vou conhecendo cada vez melhor porque na verdade comecei há pouco mais de um ano.
Speaker: Mas eu já tinha feito um trabalho bastante semelhante em Macau, ou seja, tinha dirigido um festival igualmente grande, mais jovem, eu fiz esse festival que eu co-fundei com um companheiro, o Ricardo Pinto, e tinha dirigido esse festival com o Ricardo durante sete anos.
Speaker: E portanto eu sabia o que me esperava, claro que com nuances, com diferenças, é um festival de cinema, este festival em Macau era um festival de literatura,
Speaker: mas eu sabia o bicho que tinha de agarrar.
Speaker: Não vou dizer que não tive surpresas, tive.
Speaker: É complexo, é grande, é especial, como são sempre estes projetos que eu compreendo que possam às vezes parecer todos muito iguais, mas a verdade é que não são.
Speaker: Uns são mais iguais do que outros, além de já escrever isto.
Speaker: E também sou um crítico
Speaker: verdadeiramente da identificação da cidade, da sociedade, e esta cidade está muito identificada.
Speaker: Não sou responsável pelo nascimento do DOC Lisboa, nem pela sua bela história, farei parte e já faço dela agora, mas de facto, puxando a brasa ao meu festival, é um festival diferente dos outros, é um festival que cumpre, eu acredito, um lugar
Speaker: de posicionamento artístico e político que é ainda mais importante hoje do que quando eu cheguei a Portugal em 2000 e... ou voltei a Portugal, não é?
Speaker: Em 2020, 19-20, do qual não abdicamos e que até fortalecemos, eu acredito, desde o ano passado.
Speaker: Isto para dizer que dirigir o festival da forma como eu concebo esta direção, que é uma direção multicéfala, ou seja, eu sou o diretor-geral do festival e participo de todos os processos, de todos os departamentos.
Speaker: Espero eu, e acredito que sim, que as pessoas de quem estou rodeado e de quem me fui rodeando,
Speaker: sejam todas melhores do que eu naquilo que fazem, portanto as pessoas que programam o festival com a minha participação sejam melhores do que eu a programar, as pessoas que produzem o festival com a minha participação sejam melhores do que eu a produzir e as pessoas que tratam de toda a parte de parcerias, da parte de para-profissionais do Nebula, da indústria, também sejam melhores do que eu.
Speaker: e que eu possa trazer coisas a esses processos com elas que as ajudem e que torne o festival melhor.
Speaker: E isso é o que eu acho que sei mesmo fazer, é conseguir retirar o melhor das pessoas.
Speaker: Parece quase um discurso motivacional agora, mas não é. Mas dá-me muito prazer fazer isso, muito prazer.
Speaker: Adoro trabalhar em equipa, adoro aprender.
Speaker: mesmo, e aprendo muito todos os dias com estas pessoas e também partilhar aquilo que fui aprendendo e acumulando ao longo dos anos.
Speaker: Acho que é preciso, falando mais um pouco só para fechar do que é e como é dirigir um festival,
Speaker: é preciso ainda fazer um caminho de estabilizar e estruturar melhor a vida que levamos ali no Festival, no DOC Lisboa, melhorar em todos os aspectos as condições das pessoas que ali fazem o seu trabalho diário e que têm um grande amor pelo Festival, só que já ninguém come com amor à camisola.
Speaker: E portanto é preciso tratar melhor disso, temos feito esse caminho nos últimos anos, estou muito satisfeito com essa parte, há enormes desafios pela frente ainda,
Speaker: Mas acho que a ambição artística do DOC Lisboa e aquilo que são os conseguimentos anuais da sua entrega, digamos assim, à cidade, naqueles 11 dias já me preenchem bastante.
Speaker: Não é suficiente porque para mim, o mais importante para mim neste momento é mesmo sentir que existe um impacto daquilo que eu faço.
Speaker: não agora do festival, mas de mim, daquilo que eu faço nas pessoas que me rodeiam e na comunidade na qual estou inserido.
Speaker: E se não for através de um festival, ou do cinema, ou da literatura, que seja através de outro caminho qualquer.
Speaker: Mas não estou disponível para participar dessa feira de eventos em que a cada ano aparecemos durante 11 dias, olá, somos tão bons, adeus, até para o ano.
Speaker: Não participarei disso porque sei que me ia frustrar
Speaker: E estamos a fazer esse caminho, ter um contínuo ao longo do ano.
Speaker: O festival já teve fase em que isso acontecia, depois deixou de ter, agora está um pouco a voltar.
Speaker: E a ideia é que a AJA já lá está.
Speaker: É um critério de regularidade naquilo que vamos fazendo, na relação com as pessoas, porque na verdade estamos a concorrer, é uma palavra triste neste contexto, mas a concorrer com milhares de coisas que acontecem a toda hora.
Speaker: e como essa corrida também me interessa pouco, eu quero realmente construir qualquer coisa que seja parte de um todo, uma comunidade e por exemplo, imagina, ter um cinema de bairro seria uma coisa que eu adoraria, ando com esta ideia na cabeça, ajudar a criar mais uma sala de cinema, aliás, Lisboa bem precisa, sabemos, não é?
Speaker: É uma tristeza absoluta, somos de longe a capital europeia, digamos, da Europa mais progressista, com menos ecrãs.
Speaker: Mas quer dizer, em Madrid andas 10 minutos, 15 minutos a pé, vês mais salas de cinema do que em toda Lisboa.
Speaker: Falo de salas de cinema com porta de rua, não estou a falar dos shoppings, enfim.
Speaker: E os cinemas que estão a fechar, curiosamente, são nos shoppings, não os com porta de rua.
Speaker: Todos os cinemas com porta de rua vimos-los desaparecer.
Speaker: Hoje restam dois, porque o Cinema City Alvalade é outra coisa, já faz parte de uma rede, mas restam o Nimas e o Ideal.
Speaker: Isto é incrível, não é?
Speaker: E portanto, um teatro em cada bairro, porque não um cinema em cada bairro?
Speaker: E eu adoraria, por exemplo, que os festivais que se têm interessado mais em fazer outras coisas, como por exemplo,
Speaker: a distribuir cinema, e há festivais que o fazem, o Curtas Falo, o Indy Falo, ou seja, ajuda a distribuir o cinema português e com muito mérito.
Speaker: Eu gostava que o DOC Lisboa pudesse ter um papel na exibição do cinema, a exibir o cinema ao longo do ano.
Speaker: Vamos ver se alguém se chega à frente, um desafio à Juntas de Freguesia desta capital, a ver se alguém tem um espaço queira transformar no cinema de bairro.
Speaker: Fartei-me falar.
Speaker: esta tua ideia no fundo é de irrigar ir irrigando as artérias ao longo do tempo mantê-las vivas acho que é absolutamente fundamental e é mesmo infelizmente quase contracorrente o que é bizarro mas é uma realidade
Speaker: e de sentido de comunidade que é mesmo aquela coisa de para a cultura não há lucro não pode haver lucro na cultura pode e tu saberás melhor do que nós falar sobre isso o que é que pode ser o lucro na cultura mas quer dizer, não pode não podem fechar salas de cinema como nós que já vimos fechar sim, nem tudo pode ser monetizado e a luta será sempre essa mais e chegar mais a todos
Speaker: vamos passar para o nosso disco Helder, então B Fachada 2011 diz-nos lá porque é que escolheste este disco eu podia ter trazido uma série de coisas mas também vocês já fizeram tantos episódios do podcast já tiveram tantos alguns bons muitos deles, alguns que eu poderia ter trazido aqui e quando vocês me desafiaram para vir aqui ao vosso divã
Speaker: Fos-me a pensar o que é que podia ser e de facto os álbuns também acabam, como os livros, enfim, como as nossas experiências, mas acho que a música é uma experiência muito particular, acabam de estar muito ligados a fases da nossa vida, não é?
Speaker: E também tendem a ficar mais presentes quando essas fases são intensas pelo bem ou pelo mal, não é?
Speaker: por experiências maravilhosas ou outras menos boas.
Speaker: E este álbum e o outro álbum homónimo, o de 2009, porque na verdade para mim são quase dois espelhos, este é mais melancólico e por isso trouxe este e também porque tem a canção, para mim é uma das grandes canções da música portuguesa, o Roupa de Estrada.
Speaker: não é a única, há muitas do B Fachada que eu acho que são das melhores dos últimos anos, mas esta em particular toca-me muito.
Speaker: E pronto, foi também porque tem essa canção.
Speaker: Mas este álbum e o outro, como eu dizia, enfim, ficaram muito ligados a uma fase, estou a rir, mas não tem graça.
Speaker: Uma fase bem negra da minha vida, em que eu estava, enfim, num luto de um relacionamento,
Speaker: a viver em Macau e ouvi estes álbuns e algumas das canções não bem os álbuns, eram algumas canções que eu ouvia com uma fixação quase doentia sem parar e cheio de culpa e de vergonha e de raiva de mim próprio foi uma fase mesmo dura da vida mas que passou e aprendeu-se e curiosamente depois nunca ficou como uma coisa traumatizante ou seja, estas canções não me afastei delas
Speaker: nem do B fachada, pelo contrário, sempre fizeram parte da minha vida, ele continua a fazer música e música muito maravilhosa, ainda gosto de muitas das coisas que ele vai atirando cá para fora e portanto sim, essa foi a principal razão, trazer alguma coisa que tivesse muito pegada a mim próprio, à minha pele.
Speaker: Em relação à roupa de estrada, à canção, pá, esta canção, acho que alguém que escreve e canta quem me deu as mentiras para ser eu, vou tentando ser diferente, um fachada bem, decente, um fachada bem diferente do meu, já valia a pena o B Fachada ter nascido só para escrever e cantar isto.
Speaker: E de facto, voltando ao começo da conversa, o que eu sinto é que eu sou esse rapaz do Ribatejo, filho do Florinda e da Fernanda.
Speaker: E do Fernando?
Speaker: Acabei de dizer o Florinda e a Fernanda.
Speaker: Da Florinda e do Fernando.
Speaker: Exato.
Speaker: E sou esse rapaz e que, de uma forma que eu acho que entendem o que eu vou dizer agora,
Speaker: Fui, como vamos todos, nesta vida sacana, encontrando as mentiras para ser eu.
Speaker: Que eu acho que é uma definição brilhante da nossa posição enquanto atores sociais.
Speaker: Quando ele diz, quando se veste para cantar, enfiado num lugar longe do teu, etc.
Speaker: Acho que é uma canção absolutamente genial, genial.
Speaker: Patrícia e tu eu eu ia dizer primeiro que este disco me obrigou agora acho que percebi melhor a parar de repente e a minha primeira reação foi assim um bocado quase como como acontece às vezes é horrível os meus filhos vão ouvir isto uma vez mas eu vou dizer na mesma acho que se compreende
Speaker: mas sabes quando vais no carro e estás num dia daqueles intensíssimos e pensar em 40 coisas e eles querem falar e de repente há aquela culpabilidade do que tem que estar a ouvir e queria estar mais disponível estou tão intoxicada que não consigo e depois há um momento que há qualquer coisa que se liberta desistes e és capaz de estar com eles e é engraçado como este disco me aconteceu isto de repente houve qualquer coisa do movimento que mudou e que obriga mesmo a um contacto com uma zona mais dura interna mais deprimida mesmo acho que tu disseste isso há bocadinho e acho que é mesmo verdade
Speaker: O som, o embalo de fundo é duro, obriga-te mesmo a um lugar.
Speaker: E aqui, creio que nesta música obriga mesmo, e portanto, mesmo esta brincadeira, estou a chamar brincadeira, com esta ideia do parar na estrada, acho que transmite isto, estas paragens que tens mesmo que fazer na estrada.
Speaker: mas creio que é para viver com alguma liberdade as várias ficções que nós precisamos de ter para poder existir.
Speaker: Estava-me a lembrar o Amaral Dias dizia isto, se calhar tu lembras-te de como é que ele colocava isto, eu acho que era de uma maneira muito inteligente, estava a tentar reconstruir internamente, mas como não consigo, vou dizer desta maneira, mas era a ideia de dar-me o teu mito, em que eu devolvo-te a tua... como é que ele dizia...
Speaker: a tua história, no fundo era isto, dá-me o teu mito e eu devolvo-te a tua história tirando aqui a parte mais omnipotente da França a ideia é um bocadinho esta, não é?
Speaker: Quais são os mitos que de alguma maneira nós precisamos de ir encontrando para suportar determinados momentos da realidade e de que forma também às vezes temos que nos libertar deles para poder regressar a nós eu penso que isto está tudo nesta música nesta letra e na maneira como nos convoca a obrigar a estar
Speaker: De repente tens que estar no momento, não é?
Speaker: E é tão... Eu que penso que até vou falando imenso sobre isso.
Speaker: Dei-me conta que a dificuldade que também é para mim, contactar com as partes mais cruas, internas, não é?
Speaker: Mais sem ninguém.
Speaker: Não é?
Speaker: Sim, eu acho que é um disco atravessado por uma grande solidão, não é?
Speaker: Nós andamos aqui todos sozinhos no rock, como ele também canta, não é?
Speaker: E acho que o disco tem muito isso, e acima de tudo o B Fachada faz uma coisa que eu acho muito bonita, que é...
Speaker: expõe as suas fragilidades e as fragilidades masculinas, não é?
Speaker: Isso é muito interessante para mim porque andamos todos aqui armados ao forte, ao fortalhaço, mas na verdade, quer dizer, somos todos frágeis, não é?
Speaker: E eu identifico-me muito com isso e de facto é como se este disco fosse uma espécie de retirador de capas, não é?
Speaker: Retirando as capas e retirando as capas e retirando as capas, não é?
Speaker: E essa imagem poderosíssima da estrada, de um enorme abandono, a imagem dele lá está a vestir-se todas as noites, transvestir-se todas as noites para ser alguém que ele na verdade é ou não é. Depois quando ele diz que não pratica habilidades, noutra das canções.
Speaker: Acho que há coisas maravilhosas neste disco.
Speaker: que é um disco também profundamente triste de alguma maneira mas acho que também com esperança e eu há bocado dizia aqui que sou um pessimista que se recusa a ser infeliz um pessimista feliz porque de facto se temos de andar aqui não vamos andar aqui chateados com a vida todo o tempo e de facto é um bocado assim que eu tento encarar o meu cotidiano, o meu dia a dia
Speaker: nem sempre é possível, mas acho que é um bom mantra de vida e pelo menos é aquilo que eu encontrei para conseguir continuar.
Speaker: E a companhia, não é?
Speaker: Porque no fundo é sobre isso, não é?
Speaker: Exatamente, e partindo desse lugar de profunda solidão, tudo aquilo que temos estado aqui a dizer, aquilo em que nos vamos metendo, os podcasts que vamos criando com as amigas, as associações...
Speaker: Tudo isso, quer dizer, é para, de alguma forma, cuidar dessa solidão que a gente acaba por sentir.
Speaker: Sem dúvida é que tem mesmo um cunho existencial.
Speaker: Tem mesmo.
Speaker: Eu penso que...
Speaker: Para já quero dizer uma coisa assim, muito à superfície, só porque eu adoro o B. Fachada como triste.
Speaker: Eu há muitos anos estava no Alentejo, em... como é que aquilo se chama?
Speaker: Em Barrancos.
Speaker: Estava perto do Castelo de Nodar.
Speaker: E eu não me lembro há quantos anos foi, foi há muito tempo.
Speaker: E a dada altura eu disse que só havia dois letristas, mesmo espetaculares em Portugal, que era o Sérgio Dinho e o B. Fachado.
Speaker: E as pessoas ficaram muito ofendidas de eu ter dito a segunda metade.
Speaker: Estou a comparar o B Fachada com o Sérgio Godinho e acho mesmo que são os dois do mesmo nível, com linguagens diferentes, o que também é espetacular porque só nos traz diversidade.
Speaker: Eu já por acaso já disse ao José Anjos que, oh Zé, uma conversa entre o Sérgio Godinho e o B Fachada moderada por mim era tudo o que eu queria.
Speaker: Por isso Zé fica ao recado.
Speaker: Fica ao recado, eu podia fazê-la, mas quem melhor do que tu para fazeres isto?
Speaker: Eu e Patrícia ficámos muito mais motivados nesta conversa agora, por saber que essa era a conversa que tu querias.
Speaker: Eu tinha que dizer aquilo que... Eu tinha que dizer o entusiasmo, isto faz parte do meu entusiasmo inicial, quando o Helder disse que queria trazer este disco.
Speaker: Sobre a tristeza e a felicidade, Hélder, e pegando em tudo o que vocês estiveram a dizer, não é possível ser feliz sem ser triste.
Speaker: Portanto, de facto, há duas coisas, e este diz que ajuda a isso, que é, há um sítio onde estamos acompanhados,
Speaker: e que vamos para a rua com os amigos que é extraordinariamente bom, rico e de companhia e de propensão para a mudança e há um sítio que é o sítio onde nos recolhemos na nossa tristeza que também é uma companhia espetacular e também de propensão para a mudança
Speaker: esses sítios em mim vivem assim ao mesmo tempo portanto eu às vezes e agora ressalvo, não é masoquismo é não é?
Speaker: mas é verdade, não é Patrícia não é masoquismo, mas a possibilidade de entristecer e sentir a dor no sítio dela é das coisas mais ricas que a humanidade tem e portanto a tua frase otimista, desculpa sou um pessimista que quero ser feliz é isto, Helder, a meu ver
Speaker: E que esta música
Speaker: tão bem o descreve e que nos deixa esta última frase que é nasce um disco amor para ouvir no teu inverno tá é isto pronto a tem dito aqui com as palavras do b fachada a patrícia câmera a tua canção favorita é eu não sei se é minha canção favorita é que tu escolheste a barriga pelo amigo
Speaker: Porquê?
Speaker: É a tua próxima pergunta, deixa-me pensar Porque é exatamente o de Zumbiga que esta música tem E acho que é por isso que eu Primeiro porque efetivamente é como se fosse cantada a partir de dentro Como se tivesse qualquer coisa que te remete exatamente para o eco interno Daquilo que eu imagino ser Essa comunhão de sentir dentro da barriga
Speaker: Depois estava a pensar naquilo que o Elden disse há bocadinho da vulnerabilidade, não é?
Speaker: E da maneira como ele se vulnerabiliza a isto, a ponto de poder pôr até numa espécie de desejo de gravidez, daquilo que seria uma comunhão fértil, relacional.
Speaker: Remete também para este sítio do desejo que tu também falavas, não é?
Speaker: Qualquer coisa aqui, uma profundidade de desejo daquilo que é a comunhão, da possibilidade de criar em conjunto.
Speaker: E daí está verdadeiramente lado a lado e fazer a tal companhia que nos permite suportar a solidão.
Speaker: Talvez seja aí a tal questão até do...
Speaker: da possibilidade da veracidade dentro daquilo que é a condenação existencial, vá, sem querer, sempre pessimista, mas existencialista.
Speaker: O que é o meu verso favorito, o meu verso, sei que se pode dizer assim, mas porquê que é?
Speaker: Por isso, não é?
Speaker: Porque realmente há a possibilidade de uma vulnerabilização que não cai no risível, não é?
Speaker: Ele suporta o sítio onde era tão fácil cair numa coisa mais risível, quase...
Speaker: e aguenta-se ali, e eu acho que isso é extraordinário e raro que é quando eu faço uma canção o bebê fica mais querido isto é extraordinário, isto é psicanálise não sendo é mas acho que é extraordinário como é que se consegue ir com a voz, vais indo até aquele lugar e de repente é-te dito isto pensando naquilo que tu dizias há bocadinho a ler
Speaker: facilmente era posta em causa, não é?
Speaker: Por uma visão mais... misós, não queria chamar assim, mas mais... Nem é misós, não.
Speaker: Agora, no sentido, talvez seja também, mas no sentido de pensar a força da maneira exatamente oposta, não é?
Speaker: Quando a força está neste lugar, como é que tu consegues ir até este sítio, onde consegues conceber desamparado e suportar esse lugar?
Speaker: Só mesmo em outro, e no outro interno.
Speaker: Com cordão umbilical, Patrícia Não, não, mas cá fora Sim, claro, com metáfora Com metáfora, porque se for como coisa em si mesmo É como metáfora Mas, repara Estava aqui a pensar naquilo que tu acabaste de dizer Que o Hélder disse ainda há bocado A questão das várias... Ah, pronto
Speaker: Não é isso, é porque consegue ir, só mais isto, é que consegue ir a vários... Não te rias.
Speaker: Consegue ir, pôr isto nas várias camadas, não é?
Speaker: E consegue também ir à parte... Oh Patrícia, eu só me posso rir porque me desconcertaste agora com isso.
Speaker: Mas não é. Consegue ir a este lugar, vai buscar o lugar do desejo também, erótico.
Speaker: consegue ir aos sítios todos ao mesmo tempo, não é?
Speaker: E simultaneamente diferenciá-los.
Speaker: Eu acho que isto é brilhante, esta letra aí, esta maneira.
Speaker: Pronto.
Speaker: Mas... Agora, eu desconcertaste-me mesmo com essa... Com o sensual.
Speaker: Não, sim.
Speaker: Porque é, mas não foi só por isso.
Speaker: É porque...
Speaker: Porque eu estava prestes para começar a falar de false sales.
Speaker: E tu falaste-me de sensualidade.
Speaker: E eu estava prestes a ir pegar.
Speaker: Eu estava a pensar assim, vou pegar nisto porque o Hélder falou na questão desta coisa da fragilidade masculina e que para mim é super sensual.
Speaker: Não é?
Speaker: Portanto...
Speaker: E tu desconcertaste-me, porque eu estava a pensar, vou pegar na fragilidade masculina para falar também de false self, e tu disseste isso e foi giro, pronto, foi giro o encontro de coisas.
Speaker: Mas fico um bocado desconcertada porque eu não estava à espera, sim, não estava à espera de nos despirmos assim, olha assim, tão depressa.
Speaker: Desculpa, para a próxima vez que te faço mais.
Speaker: Mas de facto, porque ia pegar nas questões de false self?
Speaker: ia pegar nas questões de falso self que o Helder tocou ainda há bocado para eu nunca usei a expressão falso self fomos nós é a malta da psicanálise é a primeira vez que ouvi na minha vida falso self foi hoje mas estou a adorar porque vamos falar de falso self
Speaker: Eu percebo o que significa.
Speaker: Seria a fachada sem B. A fachada sem B, sim.
Speaker: Mas, Helder, porque estamos a atravessar ao longo de toda a humanidade, não é só agora.
Speaker: É uma coisa que é o falso self, que é uma coisa que é terrível.
Speaker: Porque às vezes é confundido com uma coisa que é protetora e não é.
Speaker: O falso self é uma coisa, as camadas com que nos vamos protegendo ao longo da vida e que depois tu tão bem disseste que podíamos dissecar aqui nestas letras todas, são outra coisa.
Speaker: Ou seja, o falso self é uma coisa que é diferente dos mecanismos de defesa ou dos cobertores.
Speaker: Pondo na palavra os cobertorzinhos que vamos arranjando Innecessários Innecessários Para conseguirmos sobreviver E viver E o false self é outra coisa E eu queria só pegar nisso Porque Porque a Patrícia tocou aqui Nesta questão Que eu levei para a palavra umbilical Que é um sítio de facto de muita verdade E que só é possível vivê-lo cá fora Se esta continuidade umbilical Continua cá dentro
Speaker: E não como fusão, com a distinção, com a alteridade, mas ligado a este lugar onde é o princípio de tudo, onde conseguimos sentir-nos.
Speaker: na nossa verdadeira identidade, não é?
Speaker: Que o falso self nos retira desse lugar, não é?
Speaker: O falso self tira-nos para um sítio onde nós não conseguimos sentir, não conseguimos viver, não conseguimos ser genuinos, não é?
Speaker: E o B-Fachada, só o nome, não é?
Speaker: Não é o nome do álbum, não estou a falar do B fachada que isso é outra coisa, mas o nome do álbum, ser B fachada, eu acho que diz muito sobre o B fachada, como é que ele se chama?
Speaker: Bernardo... Bernardo qualquer coisa fachada, não é?
Speaker: Bernardo Cruz, Bernardo Cruz, que ele tem um...
Speaker: É Bernardo Cruz Fachada.
Speaker: Portanto, não só o nome do B. Fachada, como eu acho que o B. Fachada nos põe aqui a vida dele nestas canções, mas que a ironia que ele transporta nas letras, através da melodia também, nos põe a ver estes lugares de falso self que ele nos obriga a olhar para eles e perceber e a descodificá-los.
Speaker: e pronto, era isto que eu queria dizer porque entretanto já me perdi não, não, isto é uma coisa de livre livre, diz lá de associação livre não, não, perdeste também é preciso perder para te encontrar isto não é delas
Speaker: Mas tu ias completar qualquer coisa, tu ias dizer qualquer coisa.
Speaker: Não, eu ia só dizer que estava-te a seguir, mas estava a pensar que acho que atualmente nem é de fusão que se trata, não é?
Speaker: Porque a fusão ainda seria uma espécie de comunhão de duas coisas que se diluem.
Speaker: Acho que atualmente o que estamos a viver tanto e tantas vezes é a concretude, não sequer a fusão, não é?
Speaker: Estou a pensar.
Speaker: Patrícia, mas é a concretude precisamente porque só se consegue viver a fusão.
Speaker: Eu acho que não, pá.
Speaker: Eu acho que nem sequer há fusão, a sério.
Speaker: Porque na fusão tem que haver, apesar de não haver nenhum eu construído com alteridade, há qualquer coisa da substância de dois.
Speaker: Aqui não há sequer isso.
Speaker: Como no Dragon Ball.
Speaker: Sim.
Speaker: A minha referência de fusão.
Speaker: Sim, boa, boa.
Speaker: Não, não, mas espera lá.
Speaker: Foi excelente.
Speaker: Estou a tentar participar o melhor que posso.
Speaker: Foi excelente.
Speaker: Sim.
Speaker: Patrícia, mas é que... Então... Eu percebo o que estás a dizer.
Speaker: E faz-me sentido.
Speaker: Então, mas o quê?
Speaker: Agora temos que fazer aqui uma coisa mesmo muito psicanalítica.
Speaker: Então, à estrutura perversa estás mesmo a retirar a capacidade de fusão?
Speaker: Estou.
Speaker: Ou seja, achas que a perversão ainda é mais pobre do que a psicose?
Speaker: É a apropriação.
Speaker: A apropriação não é fusão.
Speaker: Porque na fusão há duas... Pode haver dois que querem ser um...
Speaker: A apropriação é um que quer ser o outro.
Speaker: E aí é mesmo o cordão umbilical concreto.
Speaker: Pronto, então, mas espera.
Speaker: Tudo bem, mas eu não sei se a fusão é tão bonita como tu estás a descrever.
Speaker: Mas não acho que isto seja bonito, porque no limite é a morte, não é?
Speaker: Não, mas a fusão, quando tu dizes assim, no limite ao dois quererem ser um, e isso quase... O que é que tu queres ir para dentro da barriga?
Speaker: Outra coisa é que queres ser a barriga.
Speaker: Pronto, assim está melhor.
Speaker: Pronto, é a distinção entre a psicose e a malda.
Speaker: Eu tinha saído, mas já voltei.
Speaker: Desculpa.
Speaker: Tivemos aqui um interlúdio e, como se costuma dizer na minha terra, eu não tenho estudos para isto.
Speaker: E, portanto, saio da perversão e da fusão de volta ao... Estou a brincar, claro.
Speaker: Mas volto ao B-Fachada porque gostava de comentar aqui algumas das coisas que vocês foram dizendo.
Speaker: Bem, eu acho que o B-Fachada...
Speaker: de um talento quase atroz, de ser proibido ser tão talentoso porque não é só... é acima de tudo a palavra, é um maravilhoso poeta mesmo mas também é um grande músico, também canta
Speaker: E eu conheci o Be Fachada há muitos anos, era eu jornalista e fazia também algumas peças de música e uma vez fui à Igreja Batista de Benfica onde se encontrava o Tiago Guilulo, o Manuel Fúria, o João Coração e o Be Fachada.
Speaker: Isto já foi há muitos anos e era engraçado estar a falar disto.
Speaker: mas o B Fachada era, usando mais uma expressão da minha terra, o mais maniento de todos.
Speaker: Era mesmo um grande maniento.
Speaker: E, portanto, havia ali gente, digamos, mais humilde, mas a humildade também não é em si uma qualidade, que sozinha valha por grande coisa, e eu também até concedo que possas ser um bocadinho arrogante se tiveres talento.
Speaker: A questão é que eu ainda não conhecia o B Fachada, hoje já percebo.
Speaker: de onde é que aquilo vinha.
Speaker: E claro, não conheço o B-Fachada pessoalmente.
Speaker: Depois houve uma vez que estive numa fila no Beleza para um concerto e eu odeio esperar.
Speaker: A paciência para coisas como ver concertos ou almoçar e jantar não é uma das minhas qualidades.
Speaker: Para outras coisas tenho paciência, para essas não.
Speaker: Então fui-me embora e fui jantar.
Speaker: E não vi o B-Fachada, portanto eu creio nunca ter visto o B-Fachada ao vivo.
Speaker: E depois tive muitos anos sem sequer ter uma referência visual do B Fachada, porque ele desapareceu da esfera pública, por assim dizer.
Speaker: Continua a trabalhar e a fazer coisas, com alguns entregues.
Speaker: E quando ele reaparece, ele canta muito sobre a careca, sobre isto, sobre aquilo, lá está todas essas fragilidades, sejam elas internas ou externas, com que nos vamos deparando.
Speaker: E...
Speaker: Mas ele era um gajo giro quando era jovem, assim, magrinho, porreiro, com estilo.
Speaker: E quando o gajo aparece outra vez com um novo disco, lembro-me perfeitamente porque estas fotos circulam na internet e eu nunca pensei em dizer esta frase, muito menos num podcast, mas vou dizer.
Speaker: O gajo aparece com um quispe amarelo e ele parecia um motorista da Carris.
Speaker: E foi aí que eu disse, ok, és talentoso, mas não envelheças bem.
Speaker: Foi a minha pequena vingança, reconheço aqui o talento desmesurado do B Fachada em comparação com o meu pequeno talento, mas ao menos eu acho que estou a envelhecer melhor.
Speaker: Não é que eu queria chegar.
Speaker: Ele deve ver em competição com o B. Farsada.
Speaker: Sempre.
Speaker: Ok.
Speaker: Olha.
Speaker: Não sei como é que isto aqui foi parar-me.
Speaker: Muito bom.
Speaker: Está giro.
Speaker: Não, não está.
Speaker: Foi um Dragon Ball.
Speaker: Agora.
Speaker: Foi um Dragon Ball.
Speaker: Agora eu tenho que vos dizer que a minha canção favorita é... E precisamente por causa disto estás... Vai ao encontro disto que tu estás a dizer.
Speaker: Que é o Manemão.
Speaker: E porquê que eu escolhi a Mané Mané?
Speaker: Por uma coisa só.
Speaker: Porque ao longo do álbum tu percebes... Não, primeiro eu escolhi por causa do ritmo.
Speaker: Vai buscar uma batida muito simples e muito fixe e depois a dada altura a música está quase a terminar.
Speaker: Não, depois a dada altura a música termina, há um silêncio brutal, há uma branca brutal durante não sei quanto tempo e depois ele retoma no outro ritmo e com outra conversa, que é muito fixe.
Speaker: Mas o Mané Mané...
Speaker: Mané Pacheco é norte-alentiana como eu.
Speaker: É artista plástica e é a esposa do B. Fachada.
Speaker: E o B. Fachada faz-lhe esta música e como esta canção, como na realidade se denota ao longo do disco todo que muitas vezes ele está a cantar para ela e está a escrever para ela.
Speaker: Isso é muito fixe.
Speaker: Foi só por isso que eu escolhi.
Speaker: Porque inclusivamente
Speaker: A mané mané faz qualquer coisa ao B fachada, que faz com que o B fachada se esforce para subir para cima do banquinho.
Speaker: Ele diz sempre qualquer coisa deste género, que é... Faço qualquer coisa e não vou descansar enquanto não chegar ao calcanhar.
Speaker: E eu gosto disso.
Speaker: Gosto disso.
Speaker: Podia ser a mané-mané para o B-fachada ou a B-fachada para a mané-mané, mas que eles percebam isso um do outro.
Speaker: Que é preciso às vezes subir para um banquinho e ir à luta para chegar ao outro.
Speaker: E eu acho que isto é...
Speaker: É quase comovente, não é?
Speaker: Porque a partir de um sentido simples de paridade, a coisa não pode ser linear.
Speaker: Porque nós somos todos diferentes.
Speaker: E em momentos diferentes temos que ir buscar um banquinho para chegar ao outro.
Speaker: E o fixe é quando chegamos.
Speaker: E é aí que se faz a construção da relação.
Speaker: E é por isso que eu escolhi...
Speaker: a Mané Mané pronto e com isto me calo Patrícia Câmara, Helder Beja Helder Mané é toda tua achei muito bonito o que acabaste de dizer porque de facto se sente muito isso e muitas canções do B Fachada se sente que ele também está a escrever para eu não sabia ou seja, nunca fui nunca fui à procura de saber ou seja, não sabia que é melhor dele
Speaker: em Mané mas essa outra canção para a qual tu remeteste agora com o que disseste é o Não Praticabilidades que é maravilhosa e ele diz exatamente coisas como tira barba para te animar canto a minha piruzada para te chegar ao calcanhar enfim eu acho que eu não consigo quando falo do Bebê Fachada ficar-me por este álbum porque de facto há tantas canções de álbuns anteriores e posteriores que
Speaker: que são notáveis.
Speaker: Eu consigo entregar aqui uma lista de 15 canções, sem exagero, que são todas incríveis e que vão perdurar durante décadas.
Speaker: E desafio esse exercício com qualquer outro nome da música portuguesa que tenha aparecido nos últimos 20 anos.
Speaker: É quase impossível, se não for mesmo impossível.
Speaker: Portanto, eu espero que o B Fachada, quando nos ouvir, me perdoe o que eu disse há pouco, porque eu sou mesmo um grande admirador.
Speaker: Pronto.
Speaker: Então, querem dizer mais alguma coisa?
Speaker: Porque nós estamos mesmo a terminar.
Speaker: E já estamos sem luz.
Speaker: Vocês não conseguem ver, porque este podcast continua a querer imitar a rádio.
Speaker: E... Querem dizer mais alguma coisa?
Speaker: Quero dizer que acho que o próprio título do álbum estava a passar agora.
Speaker: Estava aqui a ver esta parte da letra.
Speaker: Para você que quer fachada, não é?
Speaker: Também aqui, de alguma maneira, uma... Talvez eu queira lá encontrar isto, mas a mim está bem a saber encontrar isto.
Speaker: Que é uma recusa a...
Speaker: ao tal aplanamento identitário que falávamos acho que há mesmo um hino a isto ao longo do álbum e que nesta música também está mesmo presente este lugar de gratidão que tu falas também vem desta constatação, não é?
Speaker: eu não te permito seres eu isso, porque é uma ironia que ela torna a coisa mais rica metáfora e ironia olha, eu queria falar só de uma coisa aqui que me espantei esta semana ainda?
Speaker: quero, quero
Speaker: E principalmente pela comunhão entre estas duas frases.
Speaker: Porque eu ainda há bocado disse isto.
Speaker: Nasce um disco amor para ouvires no teu inverno.
Speaker: Há uma canção portuguesa que diz qualquer coisa como Mas não ficará só a sensação de cor Nem sei o que o coração irá dizer de cor Se o inverno for depois duro demais Sou o Estrovante com um caso mais E a voz do Luís Represas a cantar
Speaker: Então, eu fiquei mesmo muito, muito triste no dia... Este podcast está a ser gravado dia 24 de julho e vai para o ar dia 1 de agosto.
Speaker: E no dia que foi anteontem que o Luís Represas morreu, eu fiquei de facto muito triste e foi uma coisa que me...
Speaker: que me atravessou mesmo e eu fiquei a pensar mas que disparate porque inclusivamente eu nunca fui grande fã de Luís Represas nem de Trovante os Trovante acompanharam-nos uma vida toda a todos nós que estamos aqui sentados nesta mesa pela idade que temos
Speaker: Os Truventi acompanharam-nos a vida toda, mas eu não sou especialmente fã.
Speaker: Mas, de facto, há que reconhecer que anteontem se perdeu uma coisa mesmo boa em Portugal, que era a voz do Luís Represas e as letras do Luís Represas.
Speaker: E por isso, aqui o Befachada, com esta frase, fez-me ir buscar um caso mais, que é a minha música favorita do Luís Represas, com a qual o Sr. Befachada nos vai perdoar.
Speaker: Hoje vamos terminar os três divãs.
Speaker: Aqui eu quero desde já agradecer ao Helder Beja por ter aceitado o nosso convite, à Patrícia Câmara e à Carolina por estarem aqui comigo, à Clima Epsi que nos empresta este material, à voz da Joana Bernardo que dá a voz ao jingle.
Speaker: E aos Dirty Mac, com aquela canção muito rock and roll que dá a música ao nosso single.
Speaker: Vamos ficar com o Extrovento e até daqui a um mês.
Speaker: Enquanto for só a tornura de verão eu vou Enquanto a chitação der para um carinho eu vou
Speaker: 3 Divãs, a psicanálise, o mundo e o rock'n'roll.