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Episódio 15

Três Divãs
Três Divãs

25 plays · Aug 15, 2026

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Speaker: E aí

Speaker: E aí

Speaker: VIVANCHE

Speaker: A psicanálise?

Speaker: O mundo.

Speaker: E o rock and roll.

Speaker: Tu és inocente quando sonhas

Speaker: Ou será que o sonho só acontece quando sabes exatamente o teu tamanho?

Speaker: Mesmo que com defeito.

Speaker: Obrigada.

Speaker: O disco de hoje é a personificação de um objeto.

Speaker: Tchau.

Speaker: Cai aqui que nem ginges.

Speaker: começa no princípio

Speaker: Acabem o fim.

Speaker: O vice -versa.

Speaker: E todas as faixas conversam no espaço intersticial.

Speaker: Tchau.

Speaker: Quem o escolheu, Jacá andava há praticamente dois anos quando ele saiu.

Speaker: O tempo fundamental para a possibilidade de vir a gostar dele.

Speaker: E do disco.

Speaker: Os primeiros dois anos de vida são tão importantes como todos os outros, mas são primordiais.

Speaker: são a retina do âmago.

Speaker: o sítio onde se forma aquilo que se vê.

Speaker: Tchau.

Speaker: Tanto o convidado Três Divãs como o disco de hoje nasceram na década de 70.

Speaker: Eu também.

Speaker: Já a Patrícia, bom, a Patrícia já pode ir ao podcast do Francisco.

Speaker: O seu intérprete nasceu na década em que o Hopper pintou o quadro que foi a inspiração para a capa do disco.

Speaker: Tchau.

Speaker: O que mais gosto no Hopper é a forma como ele consegue desenhar a solidão.

Speaker: Com o horizonte.

Speaker: Há cerca de um ano falava precisamente sobre isto na homenagem aos nossos queridos Coimbra de Matos e Amaral Dias. A possibilidade de perder interlocutores sem perder a esperança.

Speaker: O lugar.

Speaker: em que já não temos interlocutor.

Speaker: Obrigado.

Speaker: mas nos temos a nós mesmos como resultado também de muitas interlocuções.

Speaker: Obrigada.

Speaker: O lugar.

Speaker: onde desejamos ter esse interlocutor.

Speaker: Mas, de facto...

Speaker: Não podemos chamar por ele porque ele não vem.

Speaker: Mas ainda existe a possibilidade à frente de o encontrar.

Speaker: Obrigada.

Speaker: Eu diria...

Speaker: que é o que se consegue neste disco.

Speaker: e em tudo o que ele toca.

Speaker: Ontem, ao telefone, a Patrícia dizia -me que este disco era eu.

Speaker: Porque a Patrícia sabe que é a esperança que me faz continuar a ir a um bar e ficar ao balcão até ele fechar no mesmo balcão.

Speaker: Ao lado do desespero, também se pode sentar a esperança, acompanhados pelos mesmos interlocutores.

Speaker: A música, o álcool ou o sangue e a sensação de que a noite é maior que o mundo e ali encontramos o lugar onde nos abandonamos ou nos entregamos à vida.

Speaker: É por isso que gosto tanto do defeito e da imperfeição.

Speaker: Em tudo.

Speaker: E da Patrícia Clark.

Speaker: Obrigado.

Speaker: Uma vez alguém chamou a atenção.

Speaker: O que é perfeito labora em estado de repouso.

Speaker: O Senhor que diz...

Speaker: You're innocent when you dream. É o mesmo senhor que canta Night Walks at the Dinner.

Speaker: O disco.

Speaker: que vai hoje a nós viver.

Speaker: Chama -se Tom Waits e poder ouvi -lo é uma de todas as coisas maravilhosas.

Speaker: Hum.

Speaker: Quem o escolheu esteve.

Speaker: pelo menos durante quatro anos, a prestar serviço público.

Speaker: Como exclamou a Amora Joana quando me chamou para o irmos ver.

Speaker: Ela pela segunda vez. Chama -se Ivo Canelas e arriscar -me -ia a dizer que não sabe o que é a vida sem o sonho.

Speaker: Ou até poderá saber.

Speaker: Sabendo também.

Speaker: Porém...

Speaker: que de vida não falamos, falamos da ausência dela.

Speaker: E ficam elas hoje aqui na Chasing Rabbits a deixar -nos também aceder um bocadinho ao seu divã.

Speaker: Olá, Ivo. Olá, que lindo isso. Muito bonito o que tu disseste. Obrigada. E obrigada por estares aqui. Obrigado a vocês pelo convite.

Speaker: Muito obrigada.

Speaker: Muito obrigado. Olha, muito lindo. Estava aqui a tentar lembrar -me quando é que descobri o Tom Waits.

Speaker: Eu não me consigo lembrar. Acho que...

Speaker: Por causa...

Speaker: Desconfio que tenha sido com outro álbum dele.

Speaker: O One from the Heart. Do filme do...

Speaker: Olá.

Speaker: Aquele musical incrível.

Speaker: Agora fizeram uma reedição do filme. É um filme que faz parte daquela secção de filmes que levou...

Speaker: o Copaola à Falência, que é um filme hiperromântico de um casal...

Speaker: que se separa numa noite e é tudo com músicas do Tom Waits e da Crystal Gale se não estou a pronunciar bem o nome dela

Speaker: E Dom Moedas é um cantor que me acompanha há muitos anos.

Speaker: E eu não fazia ideia que este álbum, o Nighthawks at the Diner, é de 75. É de 75. É piada, a piada é eu. Sim, é de 73. Não fazia ideia que fosse tão... Continua a parecer -me um álbum incrivelmente fresco. E faz parte das minhas fantasias de música e de...

Speaker: Esta coisa que ele tem, que parece que está só a falar e a tocar mais ou menos e faz aquilo tudo parecer on the spot, improvisado. São letras altamente complexas, mesmo as partes de spoken word cheias de humor são super complexas e estão em algumas das minhas músicas favoritas.

Speaker: Da vida. Tem essa o Phantom 319, que é uma história que a primeira vez que eu vi, eu gosto muito de temas longos.

Speaker: É como os poemas, eu gosto também deles longos, que é para dar -me tempo para entrar no universo, quando as músicas são muito curtas, ou quando os textos são muito curtos.

Speaker: Não tenho tempo para desligar e voltar a entrar. E esse tema tem para aí seis minutos. Exatamente. E é uma história longa sobre um...

Speaker: Um gajo bumming around.

Speaker: pela América e que decide voltar para casa, seja lá onde isso for, e acaba por apanhar a boleia de um camionista.

Speaker: Ahm...

Speaker: e fazem uma viagem incrível com o caminista, contarem histórias, até que o caminista chega a um sítio em que diz que a partir daqui já não vou poder ir, e vai ter que ir sozinho, e manda -lhe um...

Speaker: um dólar ou um níquel para a mão e diz vai ali àquele diner e bebe um café e diz que kids on me. Fico toda arrepiada. Mas é mesmo, que emociona. É super incrível. E eu que não sou nada...

Speaker: Eu não tenho propriamente nenhuma relação mística com as coisas que cá não estão, com espíritos e fantasmas. Não deixo de ficar profundamente comovido com aquela ideia de, de repente, ambas as coisas se cruzarem. É como estes últimos textos do Nick Cave, que diz que...

Speaker: não sendo um homem religioso.

Speaker: não exclui que possa haver qualquer coisa e que se calhar o verdadeiro ato de religião é essa não exclusão. E eu lembro ao ouvir a história e ir seguindo a história, eu sou muito das letras das músicas, gosto muito de...

Speaker: Há algo de lírica.

Speaker: de ficar maluco quando ele chega ao balcão e pede o café e diz onde é que a moeda veio e aquele bar para. E todos sabem onde é que aquele...

Speaker: Moedas, vai.

Speaker: Um...

Speaker: É um tema particularmente extraordinário, mas depois também tem outro que eu adoro. Tem duas intros, uma que é o Better Off Without a Wife, um hino ao eterno solteiro.

Speaker: Com uma letra absolutamente maravilhosa.

Speaker: que tem uma coisa e que tem...

Speaker: E o conceito...

Speaker: contar -te uma história que é a história de como é fantástico

Speaker: saíres contigo próprio e que tu estás sempre disponível e que pegas em ti próprio e vais a um bar e provoques o teu balcão e levas -te para casa e a entrada em The Porch é uma conversa erótica e depois convidas -me para entrar. E a conversa é absolutamente extraordinária. É extraordinária com o sentido do humor. Eu não sabia que... Eu julgava que era um concerto ao vivo, real, mas não é.

Speaker: aquilo é gravar em estúdio

Speaker: em três, quatro sessões.

Speaker: E a razão por estar lá as pessoas, eu pensei que fosse um concerto, mas é exatamente para recriar essa ideia de levar...

Speaker: que a mim, só descobri isso hoje porque vim cá e fui fazer um Google a ver o que é que aquilo era exatamente e nem sabia que a capa do disco era do Nighthawk do Hopper.

Speaker: Incrível.

Speaker: Obrigado.

Speaker: Incrível mesmo.

Speaker: Tom Woods faz parte da...

Speaker: de quem eu gostaria muito de ver um concerto.

Speaker: Ao vivo.

Speaker: Acho que é...

Speaker: Tem realmente uma...

Speaker: qualquer coisa nele que é absolutamente...

Speaker: e extraordinário da viagem que ele fez. Ele é um excêntrico. Há uma entrevista muito gira do Mick Jagger.

Speaker: a falar que teve com o Tom Waits uma vez em casa dele e que ele tinha uma sala só com pianos.

Speaker: todos programados para sons de diversos tipos de horários de comboios.

Speaker: Obrigado.

Speaker: E depois também que contém ao mesmo tempo uma modernidade muito grande. Começou nos últimos anos a trabalhar com o filho e tem álbuns, quer dizer, com muita gente de 20 anos.

Speaker: não terá nunca a loucura que ele tem, porque ele tem a fábrica na mão, quer dizer, ele tem, não só musicalmente, é um excelente músico, como consegue...

Speaker: Canta de uma forma única e escreve.

Speaker: Descreve, isso é a Santíssima Trindade, portanto, é incrível. Eu até arriscaria a dizer, porque tu falaste aí no Nick Cave, eu arriscaria a dizer que os melhores músicos são os melhores escritores. Sim, para quem gosta realmente, para quem gosta do storytelling.

Speaker: mas é engraçado, só para vos dizer uma curiosidade porque vinha para aqui uma amiga ligou -me e eu não decorei o nome não decorei o nome da artista não, da amiga, da artista é que hoje

Speaker: É miúda.

Speaker: Que.

Speaker: foi babysitter dos filhos do Tom Waits toca no Luisa Toddy em Setúbal a miúda que foi a miúda que foi babysitter dos filhos do Tom Waits toca no Luisa Toddy em Setúbal a miúda que foi babysitter dos filhos do Tom Waits

Speaker: que cantava para eles e o Tomoides ficava encantado com a voz dela.

Speaker: e que desatou a fazer

Speaker: a divulgá -la a toda a gente. Tanto que ela foi ser babysitter de mais miúdos. Mas quem é que a chamou para cantar? Eu fui ver isto aqui no caminho, vinha para aqui. Quem é que foi? O Peter Gabriel chamou -a.

Speaker: E houve mais um que agora não decorei, que a chamaram para fazer back vocals. E essa miúda vai dar -nos um concerto a solo na Luisa Toddy em Setúbal. Disse -me uma amiga que sabia que vínhamos. Jessica Hoop. É isso mesmo. Como é que a chama? Jessica Hoop. Foi a babysitter dos filhos do Tom Waits e o Tom Waits é que a lançou.

Speaker: pelos vistos foi dizer bem dela aos amigos diz, diz, diz não é porque eu achei fabulosa que esta ideia do comboio de teres os órgãos todos afinados para vários tipos de comboios porque eu senti ao longo do disco todo essa sensação de que havia uma viagem permanente há uma viagem permanente ao longo há uma narrativa no disco

Speaker: Te faz fazer uma viagem. E esta sensação aparece de muitas maneiras, mas acaba nessa música. Está sempre ligada a esta mitologia de um país grande.

Speaker: país grande onde tu andas à boleia, andas de comboio todos os personagens do Tom Waits são os vagabundos, são as prostitutas são os travestis, é sempre a noite e aquilo que era associado evoluiu, mudou, obviamente mas há uma mitologia dos aspas -aspas perdidos fora dos fringes da sociedade e não no mainstream e ele consegue

Speaker: homenageá -los constantemente, como sendo eles aqueles que contêm verdadeiramente a liberdade.

Speaker: mais mainstream as tais aves da noite sim, as verdadeiras aves da noite e ele tendo sido isso também conseguiu contar essas histórias

Speaker: Dou uma...

Speaker: e de uma inteligência nas letras.

Speaker: Para mim é raro.

Speaker: Sim.

Speaker: Sem dúvida.

Speaker: Sim, sem dúvida nenhuma.

Speaker: Então...

Speaker: Tu já deste aí, adoro esta palavra, um lamire, daquilo que é, porque é que escolheste esta música, mas a tua canção favorita, Big Joe and the Phantom 309.

Speaker: Então...

Speaker: conta -nos mais, porque é que gostas tanto desta música? é essa história, é essa relação com algo que é

Speaker: Eu falo que...

Speaker: que é improvável, esse não creio em bruxas, para a classe AI, esse lado de repente estamos todos unidos a qualquer coisa que não está cá e que às vezes...

Speaker: num ângulo certo, com a lua certa, a hora certa.

Speaker: Todos nós nos cruzamos no mesmo sítio e sabemos do que é que estamos a falar e partilhamos a mesma experiência.

Speaker: Né?

Speaker: momentaneamente por uns...

Speaker: Por uns segundos. E se tanto, tu disseste, aquele bar para. Sim, porque toda a gente ali sabe do que é que se trata. E ao mesmo tempo, ali também, eu acho que há qualquer coisa de...

Speaker: Obrigado.

Speaker: Hum...

Speaker: Ali qualquer coisa que se calhar faz parte um bocadinho...

Speaker: também dessa mitologia, mas aquele sacrifício daquele...

Speaker: Daquele condutor.

Speaker: há qualquer coisa naquele condutor que nós não sabemos bem quem é o Big Joe

Speaker: que sacrifica -se para evitar o acidente com o autocarro da escola das crianças. E essa história é contada de tal forma que até hoje não cansa de me surpreender. E é uma música à qual eu volto muitas vezes e que faz parte, sem dúvidas, das minhas crying songs. Vou lá sempre parar.

Speaker: Porque aquilo é aquela coisa que às vezes vemos os filmes várias vezes e sabemos sempre que o filme vai acabar sempre da mesma maneira, mas nós como estamos sempre diferentes em relação àquilo que estamos.

Speaker: Nosso ponto de observação é diferente.

Speaker: E eu até hoje não me canso de me surpreender com a...

Speaker: com o impacto dessa música e com aquele bar.

Speaker: É para...

Speaker: E tem esta coisa que tu estava a dizer há bocado, não é?

Speaker: Vai -se entrando, não é? Eu e o outro estávamos a ler a letra em conjunto, e à medida que íamos lendo, a intensidade, aquilo emocionou -me mesmo, o final, a verdade, como é dado o final. Não, é verdade, porque a Patrícia, nós estávamos ao telefone, eu já estava cheia de sonho, e ela dizia, espera aí, mas isto está -me a emocionar, ela estava do outro lado. Porque é verdade, porque esta entrega, de repente, é uma entrega generosa. E ele é reggae, aquela relação, é um piano, não é uma bateria, ou seja, o tempo é melódico, e ele arrasta -o e prende -o com a sua história.

Speaker: eu tenho muita inveja dessa relação dessa relação de teres o instrumento, inveja sim de teres um instrumento e de tudo controlar, esta é a Grace a Grace é uma cabela linda, preta e branca e esta relação de teres um instrumento e

Speaker: Não estás dependente de ninguém para o tocar e ser tu que o tocas enquanto...

Speaker: canta as contas, porque ele canta e conta a história, a voz dele tem essa particularidade, que é um sítio que eu acho muito interessante do ponto de vista da performance, que é...

Speaker: o sítio onde tu passas do contar ao cantar e do cantar voltas ao contar e tu nunca percebes bem e ele é mestre a fazer isso tu nunca percebes se ele vai dizer agora desculpa eu vou interromper e começa a cantar

Speaker: É isso aí, é isso aí.

Speaker: Obrigada.

Speaker: Ele está fora do tempo, não é? O tempo é o dele. Eu vou ter que fazer aqui já uma...

Speaker: Obrigada.

Speaker: Uma errada em direto. Fizemos uma errada no último, fizemos uma errada quase em direto.

Speaker: É porque tu disseste eu tenho inveja e depois...

Speaker: Travaste -te um bocadinho, pensaste e disseste, não, é inveja. E eu pensei, não, não é nada inveja. Porque se eu tivesse inveja, tu tinhas vontade de destruir essa coisa. Portanto, tu tens é uma coisa, qualquer coisa como admiras, gostavas de ter, gostavas de conseguir fazer. Não é qualquer coisa assim. É só porque...

Speaker: Eu acho que isto é uma daquelas coisas que nós estamos sempre a falar nos consultórios em todo lado, que é...

Speaker: Tudo bem?

Speaker: Se dissermos qualquer coisa, inveja da boa, não é? Ah, sim. Eu acho particularmente interessante esta expressão, mas estou contigo. Não, mas temos que arranjar uma forma de dizer. Porque a inveja é mesmo uma coisa maligna e destrutiva. Sim, sim, de todo. E não há nada em mim, não sofro de todo. Antes, pelo contrário. Eu estava a ouvir e estava a lidar com isto. Não pode, isto não é inveja. Comprei um saxofone e tento tocá -lo. Só que a relação de... Eu gosto muito também de instrumentos de sopro. Só que os instrumentos de sopro servem para...

Speaker: outra coisa ao contrário, que é para estar calado. É para não utilizar as palavras no seu sentido literal e intelectual e para haver uma espécie de tradutor de...

Speaker: E em vez de estar a dizer isto e aquilo e aquilo outro, sai por som. Portanto, é um objetivo diferente. Enquanto que o piano...

Speaker: Ele me faz ter uma cama incrível, eu faço palavras.

Speaker: Eu agora tenho um projeto muito lindo com o João Vasco, que é um pianista incrível, e aquilo aproxima -se mais do concerto do que do... É poesia, mas tentamos que se aproxime mais do concerto do que da poesia.

Speaker: E para mim é fascinante, nunca tinha estado tão perto de alguém a tocar piano.

Speaker: E a cada espetáculo, aproximo -me mais dele, do piano, porque acho aquilo, a vibração que aquele instrumento e eu...

Speaker: produz, fascina -me. E pronto, num bom espetáculo encontramos ali essa ele faz aquilo que eu não sei fazer e tentamos encontrar ali uma cama que sirva os dois e que sirva o espetáculo. Mas é um instrumento fascinante.

Speaker: Hum, hum.

Speaker: Pronto.

Speaker: no dia do fundo. E é o encontro dos dois, não é? Ele faz o que eu não sei fazer.

Speaker: É muito bom porque fazem os dois qualquer coisa. Sim, claro.

Speaker: Permite uma construção.

Speaker: Eu nem me lembrava que a guitarra estava lá.

Speaker: Vila Aguita.

Speaker: Patrícia Câmara. Então, fala lá.

Speaker: O que é que tens vontade de dizer sobre esta música?

Speaker: Muita coisa.

Speaker: Muita coisa e quase nada.

Speaker: Acima de tudo, primeiro queria agradecer, porque efetivamente me tocou muito, e me tocou muito por este sítio que nós, canal na Psicanálise, até podemos chamar.

Speaker: De uma maneira, não quero reduzir isto, mas uma espécie de companhia interna daquilo que permanece em nós, mesmo na ausência física.

Speaker: Se calhar esta comunhão que tu falavas...

Speaker: que a mim me faz sentir...

Speaker: Na companhia da ausência das pessoas significativas da vida, de alguma forma.

Speaker: te trazem qualquer coisa, que na relação com os outros acorda, não é? Quando ele chega e diz, no fundo, o que lhe diz o empregado de Barça, não é? Diz -lhe quase coisa como...

Speaker: um reconhecimento daquilo que foi recebido e, portanto, uma certa gratidão implícita. E nessa medida também te queria agradecer porque eu até tinha de estar na Teresa. Eu acho que foi de uma imensa generosidade, tu nem sabias que nós éramos. E, portanto, aceitares vir aqui um bocadinho na mesma linha. Acho que é uma generosidade incrível e é a mesma generosidade que eu sinto nesta música.

Speaker: Há qualquer coisa aqui sobre a generosidade que é este sítio.

Speaker: que eu acho que nós temos que resgatar.

Speaker: do ponto de vista da humanidade e da relação uns com os outros.

Speaker: E que nós, na psicanálise, no nosso olhar sobre a psicanálise, priorizamos.

Speaker: Eu acho que falta este lado da humanidade. Eu senti este lado da humanidade ao longo de toda a música. E realmente a parte em que há a escolha do Joe, em que nós sentimos o Joe, abdica da sua própria existência para salvar a própria criança, pondo isto também mais psicanaliticamente, é quase como se fosse a possibilidade desta criança voltar a existir. Eu dou -te o espaço para que tu existas, não é? Abdico desta comunhão com o mundo que parece iluminado, mas muitas vezes é muito escuro.

Speaker: e deixe -te existir. Portanto, para mim, olha, toco -me profundamente nesta, não só na generosidade, como na possibilidade de voltar.

Speaker: Sim. E na viagem, só mais isto. A ideia da viagem, acho fabulosa, mas mais uma vez digo, acho que está presente ao longo do disco todo.

Speaker: Faz comigo esta viagem? Como é que eu faço esta viagem sozinha? Que companhias?

Speaker: Que companhias na solidão encontro? Eu gosto do que eu gosto muito.

Speaker: E eu que às vezes posso ter algumas tendências moralistas, ou de achar que é assim, não é acessado. Eu também. Pronto, sim, querido. E que tento controlar isso em mim. E acho que os anos têm tido maior sucesso do que nos vem tudo. O que me interessa muito neste álbum também é a confluência de várias coisas e muitas delas paradoxais. Ou aparentemente paradoxais. Ou aparentemente, exatamente.

Speaker: Eu gosto muito desta maravilhosa missórdia de teres ao mesmo tempo...

Speaker: o tal intro, o tema Better Rough Without a Wife, The Good Thing About Dating Yourself Is That Yourself Is All You Were Always Around. Conseguias misturar a ironia...

Speaker: da solidão e rires -te dela ao mesmo tempo trazeres uma ideia de sexiness

Speaker: para quando ele diz sim, estás sozinho em casa e estás fazendo uma cena com um jornal e não estás quente sobre isso eu não me aqueço primeiro toda esta ideia e ao mesmo tempo depois um tema como o Phantom 309 onde tens uma profundidade e uma humanidade extraordinária e estas coisas todas estarem juntas no mesmo objeto em vez de

Speaker: estarem, por exemplo, em dois objetos.

Speaker: temáticas sérias e profundas e de Phantom 309 e outra de maluquices e coisas sexy e sensuais. É como a primeira da atmosfera. Sim, emotional weather report. E pronto, e frases como She got married so many times that she has rice marks on her face. Para mim, já desenlegando o céu. Porque tem muita graça. E para mim, neste contraste.

Speaker: Entre...

Speaker: Quem fala muito nisso é a escritora do...

Speaker: Tchau.

Speaker: do Fleabag, que é a escritora do Fleabag que diz, relaxa -os com o humor e depois quando eles estiverem relaxados, espeta -lhes com o drama e manda -os todos ao tapete. E acho que a música está, se não estou a errar, está na reta final do álbum, Ash Defending 309, e já tens muitas histórias divertidas pelo caminho, e eu só imagino que é contrastido ouvires aquilo pela primeira vez ao vivo.

Speaker: naquele sítio, naquele lugar e uma vez mais o tempo da música.

Speaker: permite -nos

Speaker: entrar.

Speaker: Ou seja, ou pelo menos não é sequer não entrar, sair. É sequer sair de nós e ir entrando naquela história e naquela viagem. Isso é muito interessante o que tu disseste.

Speaker: da ausência daqueles que já cá não estão, se calhar isso é realmente o cerne daquilo que eles têm e eu não estava a chegar a esse centro. Mas realmente esta...

Speaker: O Chico Buarque diz uma frase muito linda que é...

Speaker: não no sentido físico, mas no sentido...

Speaker: Os mortos da minha felicidade. E aí, para a felicidade ali, uma felicidade, uma morte literal para uma felicidade daquelas crianças poderem continuar a...

Speaker: Acho que é alemão.

Speaker: uma ideia muito profunda.

Speaker: E depois os álbuns todos dele, quer dizer, fogo.

Speaker: São umas atrás das outras, atrás das outras...

Speaker: Fazer essa viagem, deve ter uns 20 álbuns, mas sentar -se e começar de um lado, numa ponte, e acabar no hotel, ler aquelas letras todas, fogo. Mas essa coisa do humor que tu dizes também é fantástica, porque nessa da life, a própria música acaba com a marcha no oficial. Quando eu vi, nem queria acreditar. Ele nem entrou, pergunta logo. Mas isso é uma coisa brilhante. Mas isto que vocês estavam a dizer, foi o que me chamou a atenção mesmo, a atenção mesmo na música, e por isso até...

Speaker: é que eu vim aqui buscar isto até para a introdução que é mesmo quando tu estás no maior desespero tu podes procurar internamente aquilo que te aquece

Speaker: se tu tiveres isso, tu podes...

Speaker: procurar isso e isso salva -te às vezes pode salvar, às vezes pode não salvar uma coisa é certa, é se tu tiveres se tu tiveres a capacidade, ou seja eu lembro sempre dos meus pais dizerem aprendam instrumento, aquelas coisas que quando somos em miúdos os nossos pais dizem muito, aprendam instrumento e estão, não quero, não quero aprender eu acho que há uma sabedoria maior nessa ideia que é

Speaker: Eu não tenho a certeza se essa salvação está sempre assim à disposição, mas sei que quando tocas um instrumento...

Speaker: Ou quando cantas, ou quando desenhas, ou quando pintas. Mas o instrumento tem uma crítica especial, porque é mais semelhante à dança. Há uma vibração qualquer que não sei se produzes quando escreves, não sei se produzes quando pintas.

Speaker: Porque quando fazes música há uma vibração. E tocar o instrumento...

Speaker: em retrospectiva, acho que seria isso talvez que os nossos pais nos quisessem dizer acho que se calhar não sabiam isso claramente mas acho que isso permite, porque tu com o instrumento tu sais da tua cabeça é o tal filtro, dizes o que sentes mas traduzes para outra coisa qualquer e produzes qualquer coisa

Speaker: sem ter que passar pela linguagem, e esse desespero, seja o que for, é transformado em qualquer coisa, qualquer coisa que é de fácil acesso para quem está à volta.

Speaker: E provoca transformação em todos.

Speaker: Isto pode ser agora completamente em associação livre, mas naquela música...

Speaker: É a terceira.

Speaker: Acordo, Patrícia.

Speaker: Mas eu vou conseguir, espera lá, dá -me aqui um segundo. Um segundinho, um segundinho. Eu quero pegar nisto que o livro está a dizer. Não consigo lembrar -me agora o nome da música. Ah, é do Sausages. Ah, é do Sausages. É meio daquela confusão toda, não é? De repente o sítio onde eu fiz uma espécie de ancoragem foi o sítio onde ele diz...

Speaker: qualquer coisa como eu agora toco.

Speaker: Mas no fundo há qualquer coisa disto, não é? Eu agora toco -te. E é um sítio que é anterior a tudo aquilo que foi.

Speaker: E temos aqui o literal e o metafórico, não é? Só no que o Ivo dizia, no que tu disseste ao Ivo. Mas, ainda assim, voltando...

Speaker: O que o Ivo estava a dizer antes disso é que...

Speaker: É...

Speaker: Às vezes, tu, de facto, podes estar com medo de desespero e, de facto, podes não ter dentro de ti.

Speaker: a capacidade de te resgatar desse desespero e normalmente recais no pânico.

Speaker: Mas, às vezes é possível resgatares -te.

Speaker: A ti próprio.

Speaker: com aquilo que tens dentro de ti.

Speaker: E...

Speaker: E...

Speaker: Eu acho que o que me tocou nessa música foi isso, que é...

Speaker: mesmo no maior desespero.

Speaker: Tchau.

Speaker: Tu podes, eventualmente nem sempre, mas podes te resgatar com esta esperança de que há uma companhia interna que te pode...

Speaker: Tchau.

Speaker: Pode...

Speaker: Fazer isto mesmo, ter esperança de que a seguir pode ser melhor.

Speaker: ou a seguir, ou tu vais sair disto, não é? Como o fantasma que passa e te diz que isso é possível.

Speaker: E foi por isto que eu... Só se diz como te proporciona, porque ele é que dá o pé. Claro, ele é que dá e leva -te a passear e conta -te as histórias dele.

Speaker: Agora.

Speaker: Um bocadinho mais à superfície e não tanto aqui na profundidade.

Speaker: E pá.

Speaker: Eu adoro isto porque só me lembro do River de Bruce Springsteen, não é?

Speaker: Quando o Bruce começa.

Speaker: Quando comecei a ouvir isto, o Bruce começa a cantar aquela...

Speaker: a contar aquela história, aquela história, aquela história, depois arranca com a harmónica e é, pronto, é exatamente a mesma sensação. Agora, o que é mais incrível é que eu só muitos anos depois é que percebi que a Mary... Não, não é dimensão, isso sei lá, parece que está sempre dentro de nós, eu comecei a ouvir o River, não sei com que idade, e eu lembro -me que andava, que fazia trailers nos escuteiros e o meu chefe de escuteiros chateava -se comigo, mas tu não vais para aqui ouvir a natureza? E eu dizia, não, eu estou a ouvir o Bruce Springsteen. A natureza!

Speaker: Eu ouvi o Bruce Springsteen. Mas tem a ver com isto. E depois mais tarde percebi que a Mary do Bruce Springsteen era a cunhada.

Speaker: Não, desculpa, era a irmã. Era a história da irmã.

Speaker: Com o cunhado do Bruce Springsteen, que ainda é mais incrível, isto tocando na generosidade. Porque o Bruce toca aquilo como se fosse uma história dele. Ele conheceu a Mary, depois a Mary e não sei o quê. Aquilo é a história da irmã dele e a música foi feita para ele. Eu já fiz o último álbum dele, ao vivo, na Broadway. Que é absolutamente incrível. E ele faz muito essa desconstrução dos temas todos que fez. E faz uma desconstrução super interessante de dizer o quão bom era e quão bom foi a construir um imaginário que muitas vezes nem tinha sequer experiência.

Speaker: Era coisas que ele ia recolhendo e fazia aquilo desaparecer muito dele e acima de tudo às vezes muito contrário à sua própria experiência, o que é muito interessante.

Speaker: O tempo do The River é absolutamente maravilhoso e é uma história que...

Speaker: que tu encontras em qualquer país com uma certa relação com o interior e com uma certa fora da grande capital, onde as coisas são o que são e não podem ser muita coisa e tem que ser, e há ainda uma grande dose de conservadorismo e o que é preciso, está a grávida a casa, a casa vai trabalhar e esse sítio é de uma, pronto, é um sítio muito humano das sociedades contemporâneas.

Speaker: E aí

Speaker: Sem dúvida.

Speaker: E portanto foi isto.

Speaker: Pronto, e a partir disto descobri que ele tinha a mesma idade, que eu não sabia.

Speaker: Não sabia, o Bruce Springsteen faz em sextembro.

Speaker: E o Tom Leite se faz em dezembro.

Speaker: Contou.

Speaker: Exatamente. Acho que eu estou há muitos anos em dizer tudo. É engraçado. Exatamente. Então, descobri isto tudo.

Speaker: Patrícia Câmara, sua questão favorita.

Speaker: Já dijeste ali qual é a tua canção favorita. Mas é que o problema é se quer é melhor seres tu, não?

Speaker: Não, não, não. É que eu estou entalada. Então são as duas. Podemos ir para o foco. Agora apanhaste -me de surpresa.

Speaker: Que as eu folguei?

Speaker: Sim.

Speaker: Queres ouvi -la? Pode ser. Mas diz lá, tens a certeza que é a folha? Não tenho a certeza, mas esta pelo menos faz.

Speaker: Um espaço entre qualquer.

Speaker: Pois, estava aqui a pensar que...

Speaker: É muito difícil escolher, não é?

Speaker: Há qualquer coisa aqui doente, certo? Inebriado com a consciência que me sabe bem.

Speaker: Toda esta música tem este sítio.

Speaker: que ele introduz com a voz, com a narrativa na própria introdução à música.

Speaker: se vai entrando num certo lugar de alguma...

Speaker: Está com uma empregueza embargada.

Speaker: E esta tónica de um caminho que tu és convidada a fazer, mas que na realidade é um caminho enganado. Não há qualquer coisa de engano.

Speaker: Nesta busca, provavelmente, do tal sítio que tu dizias há bocadinho, não é? De um certo sítio de companhia mais verdadeira. Mas eu tive muita dificuldade. Estava entalada entre a música a seguir, que é o...

Speaker: E eu acho que tem a ver com vir agora de Nova Iorque, estava a dizer, isto é para o Ivo, antes de nós.

Speaker: Porque vim de lá pensar simultaneamente como...

Speaker: Não sei porque, há mesmo alguma coisa de fascínio naquela cidade, aquela luz.

Speaker: Mas aconteceu -me várias vezes.

Speaker: Portanto, esse ano é um bom ano mesmo.

Speaker: e estar a pensar em duas coisas, não só escritórios vazios.

Speaker: vazio, cheio de luz.

Speaker: e, simultaneamente, os sem abrigo.

Speaker: E uma contemplação e, ao mesmo tempo, uma coisa qualquer que me levava a estar num sítio permanente, num tal sítio de espaço parado que tu dizias, e isso tocou -me muito, e eu acho que está muito, no próprio Albão, acho que esse lugar está sempre a introduzir.

Speaker: E qual é o recanto interno ou externo? Onde é que nós vamos, de repente, a um sítio qualquer? E aquela entrada, por exemplo, esta entrada que eu fiz no tal Terra Blues...

Speaker: De repente esse tal sítio de resgate que está contemplado na outra música. Ele fala mesmo, ele diz este sítio, este refúgio onde eu me encontro.

Speaker: ou qualquer coisa assim.

Speaker: Portanto, estava a entalar entre os dois lugares, mas eu acho que estes dois lugares se interceptam.

Speaker: este nevoeiro que não te permite nunca.

Speaker: pôr as coisas como coisa em si mesmo, é que nós na psicanálise gostamos tanto. Este espaço que faz uma espécie de espaço intermediário entre a realidade concreta e o tal sonho.

Speaker: E, simultaneamente, uma realidade que te entra o olhos adentro e que te obriga a ir à procura de um bar, de um sítio qualquer, de um aconchego, nem que seja, como ele diz, num rendez -vous.

Speaker: de estrangeiros, de estranhos.

Speaker: Obrigado.

Speaker: que também apela a este lugar de desconhecido que a mim me fascina muito.

Speaker: Obrigado.

Speaker: Posso dizer mais 40 coisas?

Speaker: Eu acho que tinha como...

Speaker: Novo Iorque, de vez em quando, eu passeio no centro de Novo Iorque.

Speaker: Fui pro ar.

Speaker: Graças a Deus.

Speaker: da Gulbenkian e fui para lá em 2001, cheguei lá dois meses antes do 11 de setembro para estudar no Strasbourg e lá fiquei on e off.

Speaker: É...

Speaker: três ou quatro anos.

Speaker: E...

Speaker: E hoje sonhei, de vez em quando sonho. Depois, desde a pandemia, que não voltei lá. Estou acostumado a ir lá há dois ou três anos.

Speaker: Desde a pandemia que não volta, então de vez em quando, recorrentemente, sonho com Nova Iorque.

Speaker: E sempre que sonho, não penso muito em Nova Iorque, ou seja...

Speaker: Consciente. Consciente, não penso nela. Pensei durante muito tempo, até ali...

Speaker: É...

Speaker: Eu estive lá de 2001 a 2005, 6 mais ou menos, e depois regressei em 2013, andei vários 13, 14, depois fiz LA, e sempre muito presente e quando cá estava, eu gosto de guiar e andar aí nas ruas e sempre a lembrar -me de Nova Iorque na sua fisicalidade. E da diferença que há.

Speaker: aqui e lá. Eu gosto muito deste aqui, deste Lisboa.

Speaker: hum...

Speaker: Tem coisas que não tem.

Speaker: Mas sempre que sonho em Nova Iorque, acordo sempre com...

Speaker: com um...

Speaker: A informação das saudades que tenho.

Speaker: Eu só me lembro quantas saudades tenho quando acordo, porque os meus sonhos são sempre sintomáticos de...

Speaker: É...

Speaker: daquilo, de qualquer coisa que aquilo tem que é muito especial e que é inventado e que não existe e que é uma patina e que se calhar nunca existiu. Se calhar foi só uma combinação de pessoas em dado momento e que depois a cultura recriou e recriou até ao infinito e hoje é só uma imitação de qualquer coisa que já não existe. Não sei se é verdade.

Speaker: Mas não é mesmo que transporta para esse lugar? Mas transporta -me sempre para o lugar.

Speaker: Há um amigo meu que já viveu lá e que agora está...

Speaker: Nota lá.

Speaker: Não sei onde é que ele está, acho que está em Los Angeles.

Speaker: Mas ele dizia -me isto sempre à noite.

Speaker: Nova Iorque é o sítio onde toda a gente chega.

Speaker: Uhum.

Speaker: Eu acho que é isso também.

Speaker: É...

Speaker: Prometo, não sei se cumpre.

Speaker: Nem sempre cumprirá, outras vezes cumprirá, mas eu acho que esta é a sensação de que, de facto...

Speaker: Há uma companhia. Há qualquer coisa que tenha a ver com o poder de abandonar. Não sei explicar isto de outra maneira, mas há qualquer coisa de uma espécie de abandono às tantas.

Speaker: abandonas e te reencontras assim.

Speaker: num recanto qualquer, onde não estavas às pernas.

Speaker: Sim, sim. Deve tocar a cada um da sua forma.

Speaker: Mas o que é que não tocou muito?

Speaker: Título do álbum, não é? Esta ideia deste Falcão da Noite, não é?

Speaker: este encontro que tu fazes, até como metáfora, não é? Há um diner em Nova Iorque, na 5ª Avenida, que é dos últimos, que na altura não sei se ainda sequer existe. Já devia ter sabido isso antes. Que é tal e qual, que é esta coisa, que ainda por cima já está, acho que não sei se é na 5ª, estou a mentir, vai para a 3ª, 3ª Downtown, provavelmente, e é um diner.

Speaker: Esse todo de alumínio de fora, com as janelas gigantes, já nem bate certo com o que está à volta, porque à volta já são prédios demasiado altos para aquilo dar, mas aquilo ainda se aguenta ali. E é realmente uma mitologia, é o americano dos anos 50.

Speaker: Fabuloso.

Speaker: Muito.

Speaker: Então...

Speaker: Vamos à minha canção favorita, que não é... Espera, deixa -me só dizer mais isto. Ah, diz, diz. O que é que eu gosto também imenso desta ideia do fogo, do nevoeiro?

Speaker: Eu sinto isto, que há uma tendência para apagar o nevoeiro, do ponto de vista literal e metafórico. O que tu queres é apagar os nevoeiros, é que as coisas fiquem todas muito clarificadas.

Speaker: E ali, nestas músicas, há sempre esta autorização para este sítio onde as coisas não têm que estar fechadas.

Speaker: A gente dá espaço.

Speaker: O espaço abre -se no próprio noveiro, no próprio fumo, na outra música há essa ideia de que estamos aqui todos e a nicotina pode circular. Sim, sim, sim.

Speaker: Eu sei porque este momento tenho pena de ter deixado de fumar. Exato. Foi o que me aconteceu ontem.

Speaker: Mas acho que ele já não fuma. Espero que ele não acredite que ele ainda fuma. Não acredito, não poderia.

Speaker: o que eu digo, ainda bem que tem companhia interna suficiente para não fumar

Speaker: É muito difícil ouvir aquilo. Ufa! Isso não existe. Existe, existe.

Speaker: Eu lembro de ver o concerto do...

Speaker: Tricky, Coliseu, as coisas que eu não vejo que elas cavam aí.

Speaker: Estava nas primeiras filas, lá muito à frente, fogo!

Speaker: e o gajo passou o concerto inteiro de cigarro na mão ia mexer o pescoço mas como é que este gajo aguenta não aguenta ali aguentava morrem todos da mesma maneira e a noite esta coisa maravilhosa agora é um desvio em relação aos cigarros

Speaker: que à noite não tem história, à noite não ensina nada, porque uma pessoa, estes personagens andam por ali pela noite a fumar e num dia desaparecem.

Speaker: Não estou lá mais. Ninguém sabe, depois me borreram, claro. É o som da noite. Nunca há aquela coisa, aquilo lá aconteceria isto. Não, não acontece. Estouram, cá é embalado.

Speaker: Muito bem.

Speaker: Qual é a tua música favorita? Não é a minha canção favorita, mas foi a que me apeteceu falar. Porque é o Nobody.

Speaker: E então, porque é que... Não, eu já vou dizer porque é que me apeteceu... Não, não, eu vou dizer já.

Speaker: então, porque é que em primeiro lugar

Speaker: pela questão de começar com o piano e estar ali a navegar um bocadinho no piano que promete um certo deleite e foi por isso que

Speaker: Tchau.

Speaker: Foge um bocadinho ao resto do disco. Esta introdução com o piano e ficar ali...

Speaker: Quase como o palma fica na estrela do mar.

Speaker: E a apetição de falar sobre... foi -me apelativo.

Speaker: Mas por isto, porquê?

Speaker: Se eu olhar com olhos de ver, acho que a música é antes de... Acho que é mesmo uma coisa de uma omnipotência brutal. Quando tu dizes que ninguém te vai amar como eu te consigo amar ou como eu te poderia amar. Eu espero que ninguém te ama assim. O quê? O quê? É mais, eu espero que ninguém... Claro, ou já o Freud dizia sempre ao contrário.

Speaker: Tchau.

Speaker: Mas...

Speaker: E, portanto...

Speaker: Um bocadinho só para irmos com os pés à terra. Toda a gente pode amar toda a gente de uma maneira maravilhosa e as coisas não se fazem sozinhas, portanto...

Speaker: É...

Speaker: o amor encontra lugar encontra o amor no outro e não há nada a fazer sobre isto agora

Speaker: Há um sítio que eu

Speaker: que...

Speaker: Pronto, então agora podemos tirar os pés da terra e ir a um sítio, se calhar, omnipotente, mas que me parece que existe nesta canção, que tem a ver com isto, que tem a ver com isto tudo, que é tudo o que é este álbum.

Speaker: toda esta questão da vigília da noite, de tu poderes, de não...

Speaker: de poderes ter tanto o desespero como a esperança no mesmo balcão e os teus interlocutores serem os mesmos e estás a viver coisas tão diferentes

Speaker: Eu também acho que às vezes...

Speaker: Quem viaja por muitos lugares.

Speaker: Ao contrário daquilo que me parece que está a acontecer no mundo, que os lugares estão a reduzir.

Speaker: Os lugares internos estão cada vez mais reduzidos e redutores.

Speaker: Quem viaja por muitos lugares pode aceder um bocadinho a esta omnipotência de que...

Speaker: Eu, se calhar, posso ter mais melhor que os outros.

Speaker: Neste sentido.

Speaker: E fui a pensar neste sentido, porque fui buscar a voz dele, que para mim não é perfeita e é tão espetacular, que é...

Speaker: Quando tu amas alguém na imperfeição e que à vista daquilo que é o mundo hoje, seria impossível amares aquilo.

Speaker: Né?

Speaker: Um beijo.

Speaker: precisamente por teres visitado lugares que já não existem.

Speaker: tu podes -te quase dar ao luxo de dizer não, não.

Speaker: Mas eu sei qual é aquele lugar.

Speaker: E...

Speaker: ninguém sabe, mas eu sei e eu vou ter a força suficiente para te amar nesse lugar onde todos os outros te julgam

Speaker: pronto, eu acho isto assim um bocadinho bonito e é então esta ideia final que tu deixaste cair é fabulosa pronto e então pensei

Speaker: Pá, e as outras letras, há aqui coisas extraordinárias, sempre assim.

Speaker: Vamos lá aqui falar porque...

Speaker: Ou seja, é a imperfeição do amor.

Speaker: E esta é onde eu acho que a omnipotência...

Speaker: Pode ser generosa. É o sítio onde a omnipotência pode ser generosa. Agora quero ver isso tudo para sempre.

Speaker: Vamos lá.

Speaker: Então...

Speaker: É, incrível.

Speaker: Boa.

Speaker: Então, Ivo, o que é que tu gostaste nesta canção? Ah, eu gosto de tudo, sou suspeito.

Speaker: Não, não, não, não, não.

Speaker: Não há nada que eu não goste de nenhuma canção dele. Há um álbum em que ele nem é de um gajo. Estamos por isso no início do lado daquele concerto que eu estava a falar com o João Vasco. Um álbum chamado Jesus Blood, Never Failed Me Yet. De um alemão chamado...

Speaker: Gary, algo assim

Speaker: Gavin Briers. Então basicamente é uma coisa que é um loop que eles gravaram numa noite qualquer de um bum...

Speaker: Um vagabundo em que o Lupe é só o vagabundo cantar Jesus Blood, never failed me yet. Jesus Blood, never failed me yet. Jesus Blood.

Speaker: Então é um álbum. Que tem por aí uma hora e quinze minutos. São seis temas.

Speaker: Só.

Speaker: com isto.

Speaker: em que basicamente tens isto só com música, isto só sem música, isto só com Tom Waits, isto só sem Tom Waits.

Speaker: E tens uma que é com tudo junto.

Speaker: E cada tema deve ter para aí 12 minutos. Para mim, achei extraordinário. E é só este loop.

Speaker: Cada vez mais preciso menos do sentido das coisas e é só o que as coisas me fazem sentir e o resto é mato.

Speaker: Tendo cada vez mais percebê -las menos, a preocupar menos com percebê -las.

Speaker: Um...

Speaker: encontrar um sentido qualquer que...

Speaker: que se desmonta depois com os anos e que para mim é cada vez menos necessário.

Speaker: Sim, sim, é difícil repetir essa frase. Como é que é que às vezes procuro menos? Às vezes procuro menos, no seu sentido. Para poder sentir à vontade. Sim, sim.

Speaker: Sim, mas é mesmo assim. O sentido interno não é do mesmo sentido.

Speaker: São construções que vão destruir.

Speaker: Obrigada.

Speaker: Não, ele...

Speaker: construções que vão destruindo e felizmente nós próprios vamos destruindo as nossas construções quando corre bem quando podemos ir mas eu acho que a riqueza é esta a riqueza é isso ainda há bocado o Ivo estava a dizer que adorava as letras

Speaker: para ainda no outro dia.

Speaker: Enquanto estivemos aqui, Inês Menezes...

Speaker: dizíamos o quão incrível ela é lermos uma letra hoje e daqui a 10 anos vamos ver a mesma letra e estamos a ressignificá -la e de repente há uma riqueza e estamos sempre nisto e isto é maravilhoso é a mesma riqueza da vida

Speaker: E tu, Patrícia, esta canção?

Speaker: Eita!

Speaker: E se eu não pudesse responder com aquela... Não é aquela que é o Romeiro, que és tu, não sou ninguém. Porque há aqui um nobody.

Speaker: Cheio, né?

Speaker: Esta ideia do Nau Pávio me fascina.

Speaker: independentemente do resto do que disseste aqui.

Speaker: subscreve

Speaker: Mas acho que há esta ideia do poder sem ninguém.

Speaker: Também está lá.

Speaker: Obrigado.

Speaker: Pelo menos eu sinto a emoção.

Speaker: Gosto muito desta...

Speaker: desta ideia de brincar com a solidão desta forma.

Speaker: Porque...

Speaker: É isso que ele está a fazer. Ele está a encontrar um ângulo stand -up, stand -up comedy, do que é a solidão.

Speaker: E o Bruce Springsteen faz muito isso também, os grandes artistas normalmente fazem isso, quer dizer, conseguem -te...

Speaker: tocar nos temas mais profundos, sem serem literais.

Speaker: sobre o tema portanto tu estás a pensar sobre o que é solidão sobre o que é não teres ninguém com quem sair sobre o que é só teres a ti próprio e obrigares -te a sair de casa e beber um copo sozinho e à noite não encontraste ninguém voltas para casa sozinho e às duas da manhã estás a abusar de ti próprio e transformar isso numa ideia de comunhão com toda a gente toda essa noite

Speaker: todos nós que estivemos nessas noites e conhecemos essas noites. E depois...

Speaker: dar a volta final que eu acho que é extraordinário porque...

Speaker: transforma essa música

Speaker: Aquilo que poderia ser um caminho fácil de de repente seguir para uma conclusão onde...

Speaker: o drama poder se instalar no tema seguinte, ele faz um enaltecimento, ele transforma essa ideia de solidão numa, como sendo dos poucos, que ainda é livre. Isso é extraordinário. E não tens que poder achar a ninguém, não tens que explicar a ninguém que horas é que chegas a casa, se chegas a casa ou se não chegas a casa. Se vais inteirar os pecados. Se vais inteirar os pecados, ninguém tem nada a ver com isso, e vais para casa, dão -me, ficas até às 500 a uivar à lua, vais buscar quando quiseres, comes se quiseres.

Speaker: e essa ideia de liberdade e é muito giro, essa volta para mim sempre me surpreendeu porque sempre achei que era mais fácil

Speaker: Do ponto de vista narrativo e até de compreensão, tu dizes, pô, realmente, que chatice, nunca vais ser e estar sozinho. E de repente, espera lá, espera lá, que engraçado. Porque há também uma mitologia associada ao não estar sozinho, ou seja, a que só estás bem se estiveres acompanhado. E de repente, e aí naqueles paradoxos clássicos, que tu só percebes o quão fixe era quando estavas sozinho.

Speaker: de repente estás acompanhando -se opa e agora como é que eu como é que é e pronto, obviamente que uma coisa não escolhia a outra

Speaker: E nada de...

Speaker: Nada é para sempre, nem eu sozinho, nem eu acompanhado. E todas as coisas são provavelmente fases com tamanhos diferentes.

Speaker: e todas elas interrompidas sempre pela morte no final e acabou -se, pronto. Mas acho incrível essa volta.

Speaker: essa glorificação

Speaker: Tchau.

Speaker: que aparece até no gozo da marcha no oficial eu acho mesmo fabuloso de repente quando ouvi aqui e depois a glorificação da solidão e a glorificação do estar sozinho e do saber estar sozinho e ser feliz estar sozinho é muito raro ouvires

Speaker: Obviamente não conheço muito essa glorificação. E acho isso maravilhoso. Acho maravilhoso.

Speaker: É o que me interessa particularmente nestes dois temas seguidos.

Speaker: Amém.

Speaker: Eu acho que esse é o lugar.

Speaker: O que é que estás a chamar de liberdade? Acho que é o lugar mais livre.

Speaker: que é aquele em que tu chegas a...

Speaker: É essa solidão, que é uma solidão acompanhada.

Speaker: Porque não é uma solidão de precipício, é uma solidão acompanhada.

Speaker: É do Joe, da companhia do Joe. Sim, é um sujeito interno.

Speaker: Que é a solidão acompanhada em que tudo...

Speaker: e que te traz essa felicidade quando tu respiras.

Speaker: Delivio.

Speaker: Quando pensas, eu sou o único responsável por tudo o que me aconteceu na minha vida.

Speaker: E...

Speaker: É espetacular.

Speaker: Claro, sim, sim, sim

Speaker: É o sítio da liberdade e é o sítio onde se pode começar a amar.

Speaker: a meu ver.

Speaker: Eu acho que sim. Sim, sim, sim.

Speaker: É...

Speaker: Estamos. Muito bem, estamos. Então...

Speaker: É isso aí.

Speaker: Vamos acabar isto.

Speaker: Ivo, muito obrigada por teres estado aqui

Speaker: por estares aqui connosco e por teres aceitado o nosso convite.

Speaker: Eu estou mesmo muito contente de ter conhecido, muito conhecida.

Speaker: E, Patrícia, muito obrigada. Queres dizer alguma coisa?

Speaker: Só retrar o agradecimento. Eu agradeço.

Speaker: Vamos lá.

Speaker: Então podemos pôr mais uma para acabar ou não? Podemos pôr mais uma para acabar. Deixa -me só agradecer à Carolina que está a fazer o som. Obrigado, Carolina.

Speaker: deixa -me agradecer à Joana Bernardo que fez a voz do jingle e deixa -me agradecer à Yoko Ono e aos Dirty Mac com a música da nossa introdução eu sou a Ana Tereza e o Ivo quer pôr mais uma canção até para o mês que vem então sabes o que mais? temptation temptation que é espetacular é mesmo uma das minhas favoritas

Speaker: É mesmo, e tu sabes uma coisa, temptation. Temptation.

Speaker: Eu acho que a única coisa que eu não consigo resistir é a tentação.

Speaker: Queijo preto é o melhor.

Speaker: E vence.

Speaker: A psicanálise?

Speaker: O mundo.

Speaker: E o rock and roll.

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